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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Filmes - José e Pilar

Título: José e Pilar
Realizador: Miguel Gonçalves Mendes

Sinopse: A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Rio.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado doutra maneira".

Opinião: Vi este filme há uns dias, e tenho andado a matutar sobre o que escrever aqui no blog, sobre ele. Para começar, não se insere naquela categoria de filmes adaptados de livros, mas não estou preocupado com isso, está relacionado com livros, já que é um pequeno pseudo-documentário sobre o maior nome da escrita nacional: José Saramago, o nosso primeiro (e até agora único) prémio Nobel da Literatura.

Adorei. Tenho tanta coisa para dizer que nem sei como a dizer. No entanto, acho que podia resumir tudo nesta frase de Manuel Halpern (retirada daqui):

"Miguel Gonçalves Mendes mostra o José que havia em Saramago."

É que foi exactamente esta a sensação que eu tive ao sair do filme. O filme fez-me ficar a saber que o José Saramago existia, era uma pessoa a sério, que não era apenas Saramago, o autor polémico, genial, com uma escrita pouco ortodoxa, que foi para Espanha por não poder aturar quem por cá governava, e que quase que passava mais tempo a "protestar" contra a Igreja e contra as religiões em geral do que a escrever livros.

Fiquei a conhecer José Saramago, a pessoa. José Saramago, o homem ligeiramente arrogante, com um raciocínio aos 80 e tal anos de fazer inveja a muita gente com menos de 30, que amava a sua mulher, que tinha sentido de humor, que escrevia duas páginas por dia, e muito mais!

Eu que já gostava de Saramago, fiquei absolutamente fascinando. A minha vontade é a de comprar tudo o que encontrar dele para ler de rajada.

Mas nem só de Saramago se faz "José e Pilar". Não me posso esquecer de falar da mulher dele, Pilar del Rio, uma mulher extraordinária, autêntica assistente pessoal/chefe do escritor, que esteve ao lado dele enquanto ele escrevia os seus livros, enquanto esteve internado no hospital e sempre. Uma mulher de ferro, com uma determinação fora-de-série (ainda que demasiado feminista para o meu gosto), que o guiava, o ajudava e o amava.

Um filme espectacular, que dá vontade de rever. Gostem ou não gostem do homem, vão ver e depois falamos. Até lá:

"O caos é uma ordem por decifrar."
José Saramago

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Memorial do Convento


Título: Memorial do Convento
Autor: José Saramago


Sinopse: Era uma vez um rei que fez a promessa de levantar um Convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse Convento. Era uma vez um Soldado Maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.


Opinião: O início da minha leitura de uma das grandes obras portuguesas e de leitura obrigatória no 12º ano, deixou-me um pouco receosa de uma leitura maçuda perante aquele livro denso.

Tanto que as primeiras páginas deram-me mesmo algum sono, mas já Pessoa dizia que "primeiro estranha-se, depois entranha-se", frase bem aplicada ao meu caso e confesso que foi tal e qual o que me aconteceu. À medida que fui passando as páginas deste livro, a história conquistou-me e as personagens renderam-me aos seus encantos.

A história passa-se no séc. XVIII, estávamos perante um país ainda pouco desenvolvido, alimentado de superstições e da fé cristã, no tempo em que quem fosse estranho aos olhos dos "ditos normais" acabava no calor da fogueira.

Reinava D. João V, jovem rei, casado com a rainha D. Maria Ana Josefa de Áustria, e o desejo de ter um filho era alimentado pelo desgosto de não o conseguirem conceber.

Mas "a fé move montanhas" e é pela imensa vontade de dar um herdeiro ao país que D. João V promete que se se realizasse tão intrínseco desejo, faria levantar um grandioso convento em Mafra.

O desenrolar do romance é protagonizado por duas personagens, absolutamente fabulosas, ele um soldado, que perdeu a mão esquerda na guerra, ela uma jovem mulher, com o poder de ver o que não era visível.

O nome dele é Baltazar Mateus, apelidado de Sete Sóis, ela chama-se Blimunda, apelidada posteriormente de Sete-Luas. O amor que os une, prevalece em toda a obra, e a este casal inseparável junta-se um padre, cujo sonho, era voar.

Estas três personagens envolvem-se na construção de uma máquina que lhes permitisse subir aos céus, cujas peripécias de que são alvo e a construção do projecto, dão um toque caricato a toda a obra.

Anos passam, e a construção do convento é acompanhada pelo envelhecer dos protagonistas. A um dado momento do livro, Saramago, apresenta-nos um rol de personagens que trabalham na construção do convento, cada uma com a sua história breve, que se apresenta ao leitor como se de um diálogo se tratasse.

O romance termina com um fim subjectivo em relação ao casal protagonista, livre das interpretações que cada um faz.

Este foi o primeiro livro que li de José Saramago, e devo dizer que gostei muito. Saramago tem uma escrita que à primeira vista pode ser complexa, mas que não me assombrou por aí além. Uma escrita diferente da que estou acostumada, com falta de pontuação, ou uma pontuação diferente do habitual, mas nada que com alguma atenção à leitura não se resolva.


Numa linguagem irónica, crítica e frontal, o autor deixa-se de rodeios para descrever aquilo que normalmente com muitas palavras se escreve, ou se fala. A esta capacidade, junta-se uma outra, a de criar personagens fabulosas, místicas do real e do imaginário, que me deliciaram por completo...

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Título: O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Autor: José Saramago

Sinopse: "«É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Opinião: A minha curiosidade quanto aos livros do nosso único Nobel da Literatura já vem de há muito tempo. Primeiro, por ser polémico, tanto a nível de temáticas como de escrita. Depois, por ter alguns livros listados como ficção científica e alguns com premissas absolutamente bizarras, tal como eu gosto. Ainda mais, por ser português e ter um Nobel. Mas principalmente por aquilo que ouvia dizer.

De um lado diziam que os livros dele eram lixo, que nunca deviam ter sido publicados, de outro já aclamavam esses mesmos livros como obras-primas universais. Desde pequeno que oiço os dois lados disparar e esgrimir argumentos, insultos e vá-se lá saber mais o quê. Ora deitavam abaixo a sua escrita, pouco ortodoxa, ora criticavam o seu ataque à religião, por ser um ataque à religião, ou comparavam o facto de criticar tão duramente tudo o que metesse Deus e afins, com o facto de pouco se pronunciar sobre o comunismo, que apoiava. Mas logo muito rapidamente aparecia alguém a explicar o porquê de Saramago escrever assim e a elevá-lo ao panteão dos orgulhos nacionais.

Mas bem, sobre Saramago, o homem, não me pronuncio muito mais. Preciso só de dizer que é um dos poucos escritores que me deixa tão curioso e empolgado com a sua obra e com a sua pessoa. A machadada final foi dada com a minha chegada ao 12º ano. Então não é que um dos livros de leitura obrigatório é precisamente o Memorial do Convento, de Saramago? Ora, como eu já sabia que a escrita podia ser complicada de assimilar, dediquei-me a ler um outro livro dele antes do Memorial, para que quando chegasse a altura de o estudar, o fizesse sem problemas. Procurei cá por casa, e encontrei três livros dele, entre os quais este Evangelho, que por ser exactamente sobre o assunto que tornou Saramago mais polémico e por ter sido (pelo menos em parte), o livro que o levou a auto-exilar-se, me encheu de uma tremenda curiosidade e me fez pegar nele.

E bem... Demorei exactamente 15 dias a lê-lo, mais do que o habitual para um livro deste tamanho, por várias razões. Primeiro porque tive um começo de ano atribulado, com montes de coisas para pôr em dia, deixando-me assim pouco tempo para a leitura. Segundo, porque o livro aparentemente tem 352 páginas, mas só mesmo aparentemente, pois embora a escrita não seja densa, longe disso, a mancha gráfica é, ou seja, como Saramago só faz parágrafos muito de vez em quando e como os diálogos são todos seguidos, com as falas separadas por vírgulas, isto são parágrafos que parecem nunca mais terminar! Acredito seriamente que se este livro estivesse escrito de forma mais tradicional, teria nas calmas umas 600 e tal páginas, ou mais.

Desculpas à parte, não sei bem o que dizer. Adorei o livro como há muito tempo não adorava o livro. Aliás, acho que nunca gostei tanto de um livro, que nunca um livro me impressionou da forma que este o fez. O livro conta basicamente a história de Jesus Cristo, seguindo fielmente os acontecimentos descritos na bíblia, e que todos, melhor ou pior, conhecemos (eu próprio, que sou muito pouco dado a essas coisas, reconheci montes de momentos), embora, como não podia deixar de ser, tenham o seu toque anti-cristão, que era isso que Saramago era, anti-cristão e anti-religião de qualquer espécie, faceta que transparece muito neste livro (e ao que parece, em todos).

Já me estou a alongar demasiado. Mas tem que ser! É que a história é fabulosa e da escrita nem se fala... Irónica, sarcástica, crítica, divertida e que mesmo com o seu estilo de pontuação deveras original, se entranha bem e às tantas nem se dá por ela. Acaba por se tornar fluida, houve mesmo alturas em que virei páginas praticamente a correr. Para ajudar a festa, a história é interessante, tem vários pontos altos e alguns poucos pontos menos altos. As aparições de Deus a Jesus são algo de divinal (passe a piada subliminar), a parte que o Diabo tem na história é curiosa, e há diálogos absolutamente excepcionais, já para não falar do momento que oscila entre o forte e o ligeiramente cómico, em que Deus enumera uma lista dos mártires dos séculos vindouros, por ordem alfabética, e a forma como morreram.

Pode-se tornar um livro complicado para pessoas mais fortemente religiosas, mas especialmente essas deviam ler este livro, com calma e prestando atenção.

E agora chega, senão ninguém me lê esta opinião!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

As Intermitências da Morte


Só posso começar esta critica com a frase não ler Saramago é um crime.

É verdade, o grande nobel português ficou automaticamente entre os meus escritores preferidos, e esta é a primeira obra que leio dele.

Há uns anos, quando vi um teatro de marionetas inspirado neste mesmo romance de José Saramago, prometi a mim mesma ler o livro quando me sentisse preparada para ler Saramago. E a altura chegou.

A história, que começa e acaba com a mesma frase "No dia seguinte ninguém morreu", concentra-se nesse mesmo facto: a partir daquele dia, ninguém morreu. No primeiro dia do primeiro mês de um determinado ano, a eternidade foi concedida às pessoas daquele país.

Mas aquilo por que todo o ser humano anseia, a vida eterna, revelou-se um verdadeiro pesadelo: as pessoas que não morriam ficavam num estado de dormência entre a vida e a morte, sem realmente viverem; o ramo funerário entra na falência; a segurança social detêm-se com inúmeros problemas; as pessoas tomam medidas extremas tentando suicidar-se à força.

Uma reflexão profunda sobre a vida e a morte, numa narração perfeita e original.