quarta-feira, 26 de março de 2014

A terrível criatura sanguinária


Título: A Terrível Criatura Sanguinária
Autor: Nuno Markl

Opinião: A história é confusa, mas curiosa. Até porque envolve um conceito bastante interessante: um mosquitomem! Porque é que não há dezenas de autores portugueses a pegarem neste tipo de conceitos? É genial!

Entre criaturas da noite, que são perfeitamente aceites como algo normal no mundo criado pelo autor, e pessoas que ora as evitam, ora se esforçam por se tornarem nelas, as personagens não são particularmente marcantes.

Acho que o autor podia ter pegado na história de outra forma, e tê-la tornado muito mais interessante, mas não foi dos piores contos que já li, nesta colecção, o que é dizer muito, se tiverem acompanhado as minhas críticas!

segunda-feira, 24 de março de 2014

Peril at End House


Autora: Agatha Christie

Adaptação: Didier Quella-Cuyot
Ilustrações: Thierry Jollet

Opinião: Se ler Agatha Christie é sempre uma bela duma experiência, porque não experimentar as adaptações a BD? Esta foi encontrada casualmente ao desbarato na FNAC, e nem sabia que existia.

A primeira impressão é que a adaptação está bem feita. A história já é boa, pois foi imaginada e escrita por Agatha Christie, portanto não havia muito por onde falhar, desde que não se inventasse muito. E Quella-Cuyot não se perde, mantendo-se fiel à autora e ao seu estilo, sem cair no erro da caricatura ou da interpretação pessoal.

Sim, as personagens soam um bocado artificiais, os acontecimentos precipitam-se um pouco, e o Poirot consegue fazer as suas deduções de forma demasiado disfarçado durante toda a história, mas isto são tudo pormenores que fazem parte do encanto da autora, nomeadamente o facto dela ter conseguido quase sempre contornar essas "falhas" incorporando-as no seu estilo ou construindo uma narrativa tão forte e envolvente que atira o resto para a categoria de "pormenores irrelevantes".

Nesta adaptação isso não funciona tão bem, pois não são exactamente as palavras da autora que estamos a ler. Perde-se um bocado o efeitio, se preferirem, apesar do bom trabalho de Quella-Cuyot.

Mas o que funcionou pior foi outra coisa. Começo por apresentar David Suchet no seu papel de Poirot, provavelmente o mais famoso e a definitiva representação do mais famoso detective francês belga.

Fonte
O desgraçado do actor não é particularmente deformado, mas olhem para aquela foto. Ele tem a cabeça de ovo que Agatha Christie diz nos seus livros que o Poirot tem. Não vou ficar aqui a desbobinar todas as formas como Suchet é um Poirot perfeito, mas é inegável que é bastante semelhante à ideia que toda a gente tem do detective.

Não é que o aspecto físico de Poirot seja particularmente relevante para as histórias, mas é um traço distintivo e é parte do que faz o Poirot o Poirot. Nada que seja imutável, entenda-se, que eu uma vez vi um filme que tinha uma versão aloirada (ia tendo um ataque cardíaco), mas funciona melhor quando o resultado é bastante parecido com a visão original que a autora transmite nos seus livros.

Pois bem, apresento-vos agora o Poirot deste livro.


Reparem na banalidade. Na cabeça completamente normal. No leve ar de galã de Hollywood dos anos 60. Não, não e não! Esta personagem é descrita em todos os livros basicamente como um homem um pouco estranho, e não só por estar constantemente a falar das suas "célulazinhas cinzentas". Esta sua representação, para mim, cai completamente ao lado.

Mas tirando esse pormenor, que não é tão insignificante quanto isso, gostei desta leitura, que passou demasiado depressa. Fiquei seriamente espantado com a rapidez com que se consegue ler este livro. Os policiais desta autora raramente são leitura que se aguente mais do que três ou quatro dias nas minhas mãos, mas esta BD lê-se em coisa de meia hora.

E a história percebe-se. É de louvar. Tirando isso, a história em si é o costume: acontecimentos estranhos, assassínios curiosos, esquemas estranhos e rebuscados, deduções brilhantes que nos fazem sentir burros, e uma série de coincidências que atraem invariavelmente o detective para o centro da trama.

Assim, sem ser nada de extraordinário, aconselho este livro, que permite ter um vislumbre da rainha do crime num formato completamente diferente do habitual de forma bastante satisfatória.

sábado, 22 de março de 2014

Estantes Emprestadas [3]: Três livros, três imagens [3/3]


A conclusão desta excelente crónica chega hoje, com um texto sobre um livro que a Carolina não leu. Apesar das inseguranças dela, acho que é seguro afirmar que fez um bom trabalho (como todos os convidados têm feito até agora). Um obrigado, Carolina!


O livro que não li


A minha avó tem, mais coisa menos coisa, uma prateleira de uma vasta estante reservada a Saramago. Isto algures numa parede forrada a livros de economia, livros de histórias, alguns exemplares que não sei categorizar, pequenas esculturas feitas de lixo reaproveitado trazido de vários países da África e umas quantas molduras com fotografias, que se contam pelos dedos das mãos. A disposição dos livros, ainda que numa edição esteticamente pouco apelativa, chama à minha atenção quando, de visita, me sento no sofá do escritório. Talvez do efeito conjunto, a dar ares de colecção que embora modesta, dá-se a ares de importância, como cantinho de orgulho, uma homenagem a alguém que honrará concerteza a tinta com que mancha o papel.


O primeiro dia em que Saramago se registou no meu cérebro foi num dia de Verão, descontextualizado da estante e do seu estatuto de colecção. Reparei num livro que assentava sobre a mesa de cabeceira. As Pequenas Memórias, de José Saramago, dizia. O título intrigou-me. O nome não era inteiramente desconhecido. Já o tinha ouvido várias vezes antes, nas palavras do meu avô... E afirmava ele, lembro-me eu, que Saramago era um escritor português que tinha ganho um prémio Nobel. Então peguei-lhe, atraída pelas palavras com que se apresentava, e pela curiosidade em ter uma primeira impressão de um nome tão aclamado. E na página, escolhida ao acaso, lia-se:

"Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo parecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos..."


Penso sempre que se o dissesse a um fã de Saramago, provavelmente apontar-me-ia noutra direcção. O Homem tem mais fascínio pela sua obra, afinal, e no caso de Saramago As Pequenas Memórias seguem um estilo autobibliográfico. Talvez devesse ter escolhido outro livro da estante. Mas este primeiro contacto terá sido há cinco ou seis anos, e juro que o travo da nostalgia que li nas suas palavras me convenceu que não podia haver frase mais bonita no livro inteiro. Não sei de que mais se trata. Se chega à idade adulta entretanto, se os assuntos perdem o tom que me chegou aos ouvidos quando li esta passagem... Afinal, não o li. Mas este pedacinho de retrospectiva sobre o passado de Saramago despertou em mim uma curiosidade de ler a sua perspectiva... E a ideia que sempre me ficou deste livro, errada ou não, foi a de que havia uma forte tentativa de se colocar no lugar de uma criança, e de uma forma geral num tempo menos claro que o presente, e de ver as coisas de então com os olhos de agora. E essa simples ideia tem aguçado a minha curiosidade cada vez que o nome de Saramago se pronuncia em qualquer lugar.

Dito isto e virando-me para o desafio que me foi proposto, houve uma fotografia que encaixou como possível imagem mental quando penso n´As Pequenas Memórias, e em como ter cinco anos demorou mais tempo que qualquer outra idade, e num Saramago ou noutra criança qualquer a viver num mundo que já passou. 

Assim, sem me debruçar muito sobre uma explicação forçada de pormenores, e porque as imagens têm interpretações mais bonitas se as deixarmos ao critério de cada um, escolhi esta fotografia, porque me lembra a infância.

Fotografia por Maria McGinley

sexta-feira, 21 de março de 2014

Meia década de QAENCEC

Cá estou eu, cinco anos depois de tudo ter começado. Uma ideia simples da Alice que se tornou num projecto de grande envergadura pessoal. Podia até dizer que escrever para o Que a Estante nos Caia em Cima se tornou no meu primeiro emprego.

Pois é. Quando penso nisso mais a sério, vejo que gasto uma quantidade absurda de horas com isto. Entre escrever, planear, pensar, pesquisar, arrumar, limpar, gerir e sei lá mais o quê, aqui fica um pedaço da minha semana.

Às vezes arrependo-me um pouco. Isto ainda dá trabalho. E já há algum tempo que sinto uma certa responsabilidade para com quem vem visitar. No início era fácil, as opiniões mal passavam de resumos com um "gostei muito!!" no fim, e publicava quando me apetecia.

Mas depois comecei a ter mais visitas e mais seguidores (e poucos comentários, mas já lá vou). A partir de certa altura começaram a haver pessoas que vinham cá com regularidade, que acompanhavam o que eu escrevia, as minhas opiniões e as minhas crónicas. Comecei a sentir, cada vez mais, que além de ser para mim, isto também era para outras pessoas. Principalmente para outras pessoas.

O meu objectivo nunca foi o de ter um sítio para me gabar das minhas leituras, mas sim, tal como ficou acordado com a Alice há meia década, o de ter um sítio para discussão e incentivo à leitura. Como tal, era importante que me passasse a esforçar como deve ser para escrever textos decentes.

Ninguém quer cá vir ler resumos. Ou melhor, eu não quero que isto se torne num repositório de resumos, para que a juventude que é obrigada a ler livros na escola não tenha de os ler. Quero ter opiniões e crónicas interessantes, cativantes e que transmitam aquilo que me vai na cabeça.

E durante uns tempos andei bastante satisfeito. Consegui criar ritmo e actualizar regularmente. Por menos tempo que tivesse, um problema que ainda me aflige, arranjava sempre forma de escrever qualquer coisa para ser publicado quando era suposto. Como tem acontecido nestes últimos tempos.

Só que isto nem sempre foi espectacular para mim. Já tive momentos em que me apeteceu largar o blog e remeter-me à minha vidinha, nariz enfiado nos livros sem me preocupar com ter que escrever uma opinião no espaço de uma semana, para não me esquecer de nada. E sim, já pensei seriamente em fechar o blog e fazer isso.

Ainda agora, que isto anda relativamente encaminhado, me sinto assim. Seja por não conseguir aumentar o número de visitantes diários, seja por ter poucos comentários, seja por achar que perco demasiado tempo com isto, seja por não estar a gostar de como as opiniões andam a ficar, a verdade é que penso em parar, de vez em quando.

Também não me posso queixar muito do número de visitantes, mas confesso que quando passam meses e anos e os números não evoluem de forma positiva, fico um bocado desanimado. A questão dos comentários é mais grave, pois isso aborrece-me mesmo, e não só por aqui mas em toda a blogosfera. A sensação que tenho é a de que há muita gente a ver, mas muito pouca a comentar. E não percebo porquê. Os blogs servem (de uma forma geral) exactamente para a discussão e para a interacção! Onde é que ela anda?

E por aqui gostava realmente de ter mais comentários. É sinal de que as pessoas leram de facto as coisas e que se está a discutir o assunto, seja ele qual for, e isso é importante. Só espero que isso melhore.

Já a questão do tempo, não tenho que lhe fazer. Já consegui arranjar um sistema que funciona mais ou menos bem, que é simplesmente ter coisas escritas armazenadas, que posso publicar em casos de aperto. Agendo com alguma antecedência e não tenho problemas de maior. Perco na mesma tempo a escrever, mas se num estiver lançado e escrever dois textos, já fico com meia semana garantida.

O último ponto é capaz de ser o mais crítico. Não ando a gostar muito das opiniões e crónicas que escrevo. Também não ando inteiramente satisfeito com as outras coisas que escrevo. Sinto que conseguia fazer melhor e que só não faço porque não me empenho como deve ser, e que não me empenho porque "ando desencantado" com o blog.

A questão de desistir levanta-se nessas alturas: quando isto já não me dá o prazer e a satisfação que deu durante anos. E nunca sei muito bem se os grandes blogs literários que por aí andam, com várias publicações por dia, cheios de passatempos e parcerias e publicidades e seguidores me motivam ou me desmotivam. Se por um lado acho que os devo combater, por serem banais e efectivamente desnecessários na sua grande maioria, pois limitam-se a repetirem-se uns aos outros, por outro não consigo evitar sentir-me sufocado no meio disto. Quem é que me vai ler?

Essa pergunta insiste em aparecer-me em frente, e tenho sempre respondido que "há aí pessoal interessado e que se mantém activo e presta atenção". E também penso sempre em outros bloggers que sigo e admiro, os que se mantêm fiéis aos seus objectivos simples de divulgação e discussão literária, pouco interessados em terem um número suficiente de seguidores para começarem a receber livros de borla. Enquanto houver pessoas assim, vale a pena.

É assim que após cinco anos, cá ando, mais ou menos motivado. Se tiveram paciência para lerem o texto todo (coisa que também rareia, pessoas com paciência para lerem mais do três ou quatro parágrafos magrinhos), já sabem o que penso. Se quiserem um resumo que vos poupe a coisas como "sentimentos", o essencial é que me vou esforçar activamente para escrever melhores opiniões e melhores crónicas, e que gostava mesmo muito de ter mais visitantes e, acima de tudo, mais comentários.

A quem me segue, quem me lê e quem comenta, obrigado. Por tudo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Estantes Emprestadas [3]: Três livros, três imagens [2/3]


Continuando a crónica da Carolina, que já despachou a associação entre um livro que gostou e uma fotografia, hoje é sobre um livro que ela detestou. Neste Sábado podem ler a conclusão, com um livro que não leu!



O livro que não gostei (bolas, era mesmo mau!)

O tema central do desafio que me foi lançado passava por procurar, entre as galerias de fotografias por que ando a vaguear quando tenho um tempinho de sobra, uma imagem que a meu ver caracterizasse um livro. Porquê? Porque se me perguntassem, dir-vos-ia que fotografia é uma das coisas mais fixes do mundo. Daí talvez seja previsível que alguém, conhecendo o meu entusiasmo, tenha achado que eu podia estar interessada n’As Pontes de Madison County, de Robert James Weller, já que uma das metades desta história gira em torno de um fotógrafo.

Mas para ser sincera, depois de me ter sido praticamente impingido, se não fosse tão pequeno... Se calhar nem tinha acabado de o ler. 

As Pontes de Madison County conta a história de um amor súbito e inesperado, e acima de tudo proibido, entre Francesca, mãe e mulher, dona de casa, e Robert Kincaid, fotógrafo. 


Robert não era um fotógrafo qualquer. Era uma espécie de fotógrafo mágico que não dava um passo em falso. Cada movimento, sempre certeiro e seguro, compreendia um vasto conhecimento técnico, um entendimento das formas como a luz cai sobre os objectos, e um apuradíssimo sentido estético. Dominou a arte. Não há acidentes. Sabe usar os rolos certos, focar com exactidão, usar todos os acessórios sem ajudantes, colocar-se no milímetro certo de solo que lhe permite ter a melhor perspectiva do que quer que seja no momento o alvo da sua objectiva. E toda esta perfeição vale-lhe um trabalho na National Geographic – e, para mim, uma personagem desinteressante. 

Francesca não tem muito mais que se acrescente. A breve descrição que dei como introdução é praticamente tudo o que o livro me fez crer que havia para saber acerca da “mãe e mulher, dona de casa”. A única coisa que ficou a faltar é que aparentemente era muito, muito bonita. E é esta personagem que é seguida a maior parte do tempo, muito depois de Robert desaparecer, após a recusa de Francesca de abandonar a família e fugir com ele.

E foi aqui que comecei a ficar verdadeiramente desiludida. Não houve um trabalho cuidado de adornar a história com grandes adjectivos, de trabalhar o cenário mental. E porque não estava a ouvir a prosa de um contador de histórias, mesmo neste livro tão pequeno dei por mim a fazer um esforço para ler à medida que passava os capítulos. E se não bastasse ter em memória este como o livro com a pior escrita que alguma vez li (seja do livro ou da tradução), a história é muito parada, com muito pouco conteúdo, e na verdade nunca cheguei a sentir que sabia o suficiente sobre estas personagens para me envolver na sua história e sofrimento.

Chego a um ponto que não sei de que mais formas vos falar de um livro que me disse tão pouco. No entanto, se penso neste livro penso em Francesca, que apesar de tudo acompanhei, e achei que a imagem a retratava bem.

Fotografia por Alison Scarpulla

segunda-feira, 17 de março de 2014

Great Expectations

Título: Great Expectations
Autor: Charles Dickens


Opinião: Charles Dickens nasceu há mais de duzentos anos. Este livro já foi publicado há cerca de cento e cinquenta. O autor considerava-o o seu melhor trabalho. A opinião geral considera o autor como um dos melhores escritores de sempre. Já se fizeram pelo menos dois filmes baseados no livro, um em 1998 e um em 2012. Tinha que o ler.

Não sabia o que esperar, apenas que ia ser bom de certeza. Dickens foi um escritor prolífico, bem-humorado e original. Publicou romances em fascículos, escreveu humor e escreveu tragédia. Tudo isto há duzentos anos, e ainda é visto como um dos grandes, o seu trabalho para sempre imortalizado, e estudado e lido vezes e vezes sem conta.

Além do mais, olhem para a cara dele.

Fonte
Badass. O que é que há para não gostar? Só podia ter boas expectativas. E confesso que tinha uma vaga ideia de que as suas obras eram maioritariamente de humor. Por essas e por outras, achei que estava na altura de me estrear a ler Dickens, e Great Expectations foi o mais pequeno dele que encontrei aqui em casa. Sim, o homem escrevia que se fartava.

Depois de começar a ler apercebi-me que não podia ter escolhido pior altura para ler um romance de quatrocentas páginas em inglês com cento e cinquenta anos. A leitura arrastou-se, por falta de tempo e paciência para enfrentar a escrita detalhada e ocasionalmente densa do autor inglês.

Mas não desisti. Estava a ser demasiado espectacular! A história é narrada pelo protagonista, Pip, que começa como um rapaz com pouco futuro, um órfão a viver com a irmã, que lhe dá autênticos enxertos de porrada, e o marido desta, Joe Gargery, que também apanha porrada da mulher de vez em quando.

Joe é um ferreiro, e serve de pai para Pip, sendo a única pessoa com quem a criança é sempre honesta, e uma das poucas que tem verdadeira afeição pelo rapaz. Juntos tentam não irritar muito a irmã de Pip, uma figura autoritária e agressiva, que aproveita todas as ocasiões possíveis para se vitimizar por tomar conta do irmão e ainda ter um marido que não é muito esperto.

A infância de Pip ocupa mais ou menos um terço do livro, e é recheada de personagens memoráveis (assim como o resto do livro) e acontecimentos marcantes e importantes para o futuro do rapaz, embora ele só o descubra muito mais tarde.

Agora podia ficar aqui a desfilar personagens fantásticas, pois se Dickens tem uma escrita maravilhosa, com a qual consegue contar uma história interessante e intricada, narrada por uma personagem bem construída, são as personagens secundárias que brilham. A irmã de Pip, Joe, Miss Havisham, o prisioneiro foragido, Estella, Wemmick, Orlick, Mr Jaggers, enfim, tantos!

De uma forma ou de outra, Dickens consegue dar profundidade a dezenas de personagens, às vezes com muito poucas palavras, apenas o suficiente para causar uma impressão no leitor. Praticamente todas as personagens com um mínimo de importância têm um relevo fora do comum, sem serem profundamente caracterizadas nem demonstrarem preto no branco quais são as suas preocupações e questões existenciais.

A maior parte das vezes basta simplesmente o facto de serem peculiares, e terem defeitos. O facto de serem todas completamente diferentes umas das outras, únicas e individuais. E Dickens não faz isso a duas ou três, mas mais de quinze personagens, de certeza. Além disso, ainda consegue dar a algumas um percurso também ele memorável: Pip começa como órfão sem futuro e torna-se um cavalheiro com great expectations; Herbert passa de inimigo momentâneo a amigo e companheiro para a vida; Joe é o marido oprimido que se torna no marido feliz, entre outros.

Fonte
Mas é preciso destacar duas personagens, Miss Havisham e Wemmick. A primeira é uma solteirona fria e cruel que convida Pip, enquanto criança, para ir ao seu casarão onde onde todos os relógios estão parados na mesma hora, brincar com Estella, a sua filha adoptada. Miss Havisham sofreu enquanto jovem, e vive a sua vida determinada em criar Estella de forma a que esta possa tornar-se uma mulher capaz de fazer aos homens o que um homem lhe fez a ela.

A sua viagem de redenção é longa, mas brilhantemente executada por Dickens, que nunca lhe dá um protagonismo fora do comum, mas consegue torná-la numa personagem mais do que memorável.

Já o segundo tem uma personalidade dupla auto-imposta. Há o Wemmick do trabalho e o Wemmick em casa. Um é frio e calculista, completamente racional e focado no seu trabalho, enquanto que o outro cuida carinhosamente de um pai idoso. O peculiar é que Wemmick nunca deixa as duas coisas misturarem-se, como se levasse duas vidas, levando a algumas das passagens mais peculiares de todo o livro.

E é completamente impossível não sentir que o livro tem uma crítica à sociedade vitoriana, cheia de protocolos e formalidades ridículas que apenas serviam para esconder um vazio intelectual e emocional de muitas pessoas. Esses pormenores são levados ao extremo durante narrativa, expondo o ridículo das fundações daquela sociedade.

Como nota final, notei que o autor era fã da técnica mais usada nas telenovelas actualmente, a coincidência e uma espécie de destino mais ou menos subtil. Estão a ver aquelas histórias de "este afinal era o filho perdido daquela, que andava em segredo a ajudar a outra que era a sua tia desconhecida"? Pois, esse tipo de coisas acontecem. Aliás, são um grande motor da narrativa, e uma forte ponte de ligação entre os acontecimentos aparentemente aleatórios da infância de Pip com os da sua vida adulta.

Feito por outro autor, acho que isto me ia desagradar, mas Dicken fá-lo bem, integrando bem essas coincidências numa história intensa que apenas me deixou a desejar ler mais, por mais pesada que seja a leitura. Um autor que irei visitar, sem dúvida.

sábado, 15 de março de 2014

Estantes Emprestadas [3]: Três livros, três imagens [1/3]


Este mês a crónica convidada foi um dos desafios que mais gozo me deu de propôr. A Carolina, minha colega de curso e uma das minhas melhores amigas, é louca... Por fotografia. Tem um blog e uma página no Flickr. Quando me lembrei de convidar pessoas para esta série de crónicas, ela foi uma das primeiras em quem pensei. Sugeri-lhe, um pouco como fiz com o Jorge e com a Júlia, aliar à literatura algo que a faz delirar. Fotografia e literatura. Para tornar a coisa mais interessante, disse-lhe para o fazer com três livros diferentes: um que ela tenha gostado, um que ela tenha detestado, e um que não tenha lido. O resultado não me podia agradar mais. Ela não costuma escrever este tipo de coisas, e disse-me que tinha receio de não conseguir escrever nada de jeito, ou nada do que eu queria, ou sei lá (ela é capaz de me matar por revelar isto), mas depois de ler, disse-lhe logo que não precisava de se preocupar. Vejam por vocês mesmos!


O livro que gostei


Quando era pequena tinha hábitos de leitura completamente diferentes. Se bem me lembro tinha sempre um livro para ler, nem que relesse os livros que gostava mais na altura, e sempre fui descobrindo colecções que gostava e sabia que queria ler. Eventualmente a frequência com que fazia esse tipo de descobertas foi diminuindo e, com isso, aliado sobretudo à descoberta de novos interesses, diminuiu também a frequência com que pegava num livro. De vez em quando lia, e podia até gostar bastante, mas não era a mesma coisa. E foi tão gradual que nem estranhei.

E antes de mais, eu sei. Eu sei que provavelmente é absolutamente ridículo vir contar isto a esta audiência, que se já chegou aqui, em princípio é porque tem na literatura uma área de interesse e um hobby que acarinha. Mas não digo isto por acaso.

Na verdade, foi ler A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, que fez com que essa realidade recaísse sobre mim. Foi a primeira vez em anos que um livro me agarrou desde a primeira página, que fiquei de tal forma presa ao que tinha nas mãos que reverti ao modo de antigamente e não o pousei até o acabar. E perante a constatação de que os livros afinal continuavam tão interessantes como outrora os tinha achado, tomei consciência da mudança e, pela primeira vez, o facto pesou-me. Este foi O livro que me deixou com pena de não ter andado mais atenta naqueles anos todos.


Imaginem a vossa história habitual. Há uma família enquadrada no cenário temporal da polémica política, inspirado na própria história do país. E é essa família, e como ela se entrelaça com outras, e como ela evolui ao longo de gerações, que vemos no contexto histórico do Chile da(s) época(s). E depois juntem os espíritos e os santinhos, mais as cores, e ainda (e sobretudo) a intensidade apaixonada com que a América Latina parece viver o mundo – contributos importantes para a atmosfera fantasiosa e carregada de superstição que caracteriza um dos meus livros favoritos do início ao fim.

Fiquei fascinada com a mística das personagens, que apesar de enquadradas num cenário muito real, conferia ao seus intervenientes, ou a alguns deles, um qualquer elemento sobrenatural, num misto de supersticioso e mágico. Como Rosa, a irmã mais velha de longos cabelos verdes, pele de boneca de porcelana, ou de um azulado leve quando a luz batia da forma certa. Uma personagem de mistério, meio sereia, que tricotava uma manta sem fim com criaturas impossíveis que se entretinha a imaginar, metade uma coisa, metade outra. Ou Clara, mais nova, dona de uma beleza mais discreta e com poderes psíquicos. Clara, que passaria nove anos sem proferir uma palavra após a primeira grande tragédia, e que acompanhamos no processo de uma documentação quase obsessiva do seu dia-a-dia nos seus cadernos, até à data da sua morte.

Sempre gostei de histórias com um quê de “realisticamente impossível”. E podia falar-vos muito mais. Mais sobre Rosa e sobre Clara, com relevâncias muito diferentes mas que acabaram por ser as personagens que mais me marcaram, e sobre todos os acontecimentos que determinaram o rumo da sua família e todas as coisas meio estranhas que se vão intercalando. Mas no que diz respeito às minhas observações escritas sobre esta obra, penso que vou terminar por aqui. Porquê? É simples. Dizer-vos mais seria estragar um livro que, na minha opinião, vale tanto a pena ler. Por isso, em alternativa, passo a partilhar convosco a imagem que escolhi. Para mim, foi sem dúvida a mais difícil de escolher. Quis encontrar algo que remetesse para a atmosfera em que me envolvi nas horas em que me ocupei de ler este livro. E tendo em conta todas as coisas diferentes em que estava a pensar, encontrar essa imagem parecia impossível. Mas entre os diferentes elementos que regista e os bocadinhos que formam a minha imagem mental, a questão harmonizou-se na minha cabeça. De uma forma um pouco menos literal, talvez... Não é propriamente fácil resumir numa imagem um livro que nos disse tanto.

Fotografia por Bella Kotak