quarta-feira, 30 de abril de 2014

Os Vingadores #3


Argumento: Jonathan Hickman
Desenhos: Steve Epting
Tradução: José H. de Freitas

Opinião: Fiquei bastante curioso ao ver esta capa. O Black Panther desperta-me a curiosidade desde sempre, o Iron Man nunca falha, o Doctor Strange é outro que me fascina, o Reed Richards é engraçado, vá, e o Raio Negro é uma boa personagem. Porque raio estariam a aparecer associados, e no seguimento das histórias anteriores?

Pois bem, uma das coisas explicou-se logo: não é bem no seguimento das histórias anteriores, e não sei se gosto muito dessa opção. Ou melhor, tenho sentimentos conflituosos. Se por um lado acho que é bom juntarem numa única revista a história relevante, que é tão normal perder-se nas entrelinhas e em títulos laterais ao "principal", por outro acho que é enganar o público.

Mas confesso que vou perdoar e inclinar-me mais para a primeira opção, porque acho que até fizeram bem a coisa. É um desvio à narração principal que faz sentido e que explica algumas coisas, conseguindo sempre ser interessante. É claro que ter um conjunto de personagens muito boas e fascinantes (juntem o Namor e o Capitão América àquela lista lá em cima) é um bónus que permite alicerçar a história no carisma colectivo, mas mesmo assim, acho que foi um bom trabalho.

Já os detalhes... Enfim, passo a explicar: estas personagens, juntamente com o falecido Charles Xavier, formam os Illuminati, um grupo secreto de super-heróis que de alguma forma coordenada os outros e age nos bastidores dos acontecimentos, garantido que tudo corre bem.

Não sei se já perceberam, mas isto é um grupo de elite com elementos de elite em relação aos seus próprios grupos de elite. E se percebo a inclusão de personagens extremamente poderosas como Doctor Strange, Raio Negro e Charles Xavier, assim como de crânios, como o Iron Man, o Black Panther e Reed Richards, a inclusão de Namor e do Capitão América deixa-me um pouco confuso.

Mas talvez isso tenha a ver com o facto de terem as Infinity Gems, um conceito que felizmente é conhecido o suficiente para eu não me ter perdido. Porque isto é um problema, este reset mal amanhado da Marvel, em que não há realmente nada novo, apenas se mata muita gente, ressuscitam-se algumas, arranjam-se desculpas para se ignorarem outras tantas, muda-se a numeração e pronto. Há uma continuidade muito forte que acaba perdida.

De qualquer forma fiquei agradado com este número. Tive pena de não se dar mais tempo de antena ao Doctor Strange, uma personagem que me tem fascinado bastante e da qual ainda sei e li pouco. Por outro lado a história é bastante focada, diria quase centrada, no Black Panther, uma personagem que me interessava mas que não conhecia muito bem, e que me surpreendeu pela positiva e de que maneira!

Inteligente, com poderes marados, fortes morais e uma personalidade grave de quem está habituado a carregar responsabilidades aos ombros, Black Panther além de herói, é um rei. Mas não é um rei distante, como Raio Negro, ou arrogante, como Namor, é um rei que só se distingue dos seus súbditos pela forma como se veste e pelas suas acções. Verdadeiramente fascinante e uma personagem que fiquei com vontade de explorar.

A história propriamente dita não é nada de especial, e consegue dar tempo de antena à inutilidade do Capitão América, que consegue, em cerca de vinte segundos, inutilizar a arma mais poderosa de todos os Universos. Juro que não sei como é que ainda o deixam usar o escudo.

Por agora é esperar pelo próximo comic, que pelo que percebi ainda vai seguir este grupo super-hiper-mega-ri-secreto. Eu estou curioso, e se não inventarem muito ainda conseguem melhorar isto.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Que as citações nos caiam em cima [49]


'[...] You know what's waiting?'

'I'll know soon enough,' said Barrow. 'I'll just enjoy life while I can.'

Cabal leaned forward. 'I know now,' he said, caution gone. 'One place is run by a bored, disappointed sadist. The other... Spiritual transfiguration, do you know what that means? It means having everything that you ever were stripped away, bars of light, too intense to look upon.' He unconsciously fingered the smoked glasses in his breast pocket. 'Homogeneity incarnate. Can you imagine that? That's what the Heavenly Host is, countless thousands of bars of light, souls burning, all the same. Your personality lost forever. Immortal souls, hah! It's the final death. Sacrificed to a mania for order.' He looked around at the middle distance, his disgust a palpable thing. 'Lambs to the slaughter.'

Barrow put his cup down. 'Why do you hate death so much?'

Cabal seemed to rein himself in. 'I don't hate death. It's not a person. There's no grim skeletal figure with a scythe. I try to avoid hating abstracts, it's a waste of effort.'


The Necromancer (Johannes Cabal #1)
Jonathan L. Howard

The Necromancer (Johannes Cabal #1)


Autor: Jonathan L. Howard


Opinião: Divertido até ao tutano. Acho que a minha opinião fica por aqui. A sério, podia perfeitamente não dizer mais nada. Aquela frase inicial já vos diz tudo o que precisam de saber: ler este livro é embarcar numa longa viagem de figuras tristes (quando desatarem a rir sozinhos em público), dores musculares (de tanto rir), e vista turva (de lerem durante tanto tempo seguido).

Sim, este livro é viciante, engraçadíssimo e muito bem escrito. É o primeiro romance de Jonathan L. Howard, que antes se dedicava a criar jogos de computador, mas não parece. O humor tipicamente britânico está muito presente, aqui permeado pelo macabro, com uma boa escrita, uma história interessante e personagens fantásticas, com destaque para Johannes Cabal, o necromancer do título, e o seu irmão Horst Cabal que, bem... é peculiar.

Juntos, têm que reunir cem almas no espaço de um ano, para que Johannes vença uma aposta feita com o próprio Diabo e possa recuperar a sua alma, que tinha trocado pelo conhecimento negro que possui e que agora lhe faz falta, já que o seu estado sem alma interfere com as suas experiências.

E qual a forma perfeita de fazerem isto? Com uma feira ambulante! O diabo tem uma série delas armazenadas, todas perfeitamente diabólicas, como é óbvio, e empresta uma aos irmãos Cabal. O resultado é uma série de situações engraçadas, negras e ocasionalmente bastante dramáticas, numa trama que consegue balançar momentos emotivos com momentos de chorar a rir no espaço de apenas algumas páginas.

Mas a grande vitória do autor são as personagens, como já disse. Johannes é carismático, engraçado, frio e bastante complexo. Há ali claramente um objectivo escondido desde o início e que é perfeitamente perceptível a meio do livro, embora só seja oficialmente revelado no fim, com essa revelação a proporcionar um final fraco para um livro fantástico. Cabal é um homem racional e implacável, que não olha a meios para atingir os seus fins, e de cada vez que abre a boca está muito provavelmente a gozar com alguém ou alguma coisa.

Já o seu irmão, Horst, embora também seja bastante gozão, e uma personagem com características peculiares por si só, é mais ligado às emoções e tem princípios morais mais fortes e bem definidos, razão dos constantes confrontos com o irmão.

E isto tudo sem falar das inúmeras personagens secundárias, como Mr. Bones e o próprio diabo, todas elas a proporcionarem momentos que além de hilariantes, avançam com a história de alguma forma. Isso é uma das grandes proezas do autor, o conseguir contar piadas E uma história.

Como já disse, só o fim é que me desapontou, porque de resto este é um livro excepcional, com o melhor que o humor britânico tem para oferecer misturado com uma boa dose de fantasia macabra. Só não é aconselhado a quem não apreciar humor negro...


'Have you any interest in psychology?' asked Horst.
'Certainly not,' replied Cabal. 'I'm a scientist.'

sábado, 26 de abril de 2014

Sobre ser-se publicado

Há um problema no mundo literário. Um problema que se tem vindo a agravar a uma velocidade impressionante e com consequências terríveis.

Não, não estou a falar de nada relacionado com a Margarida Rebelo Pinto. Eu sei que parece mas, por muito que me custe a admitir, isto é pior.

Falo de ser-se publicado. Actualmente é tão fácil ter um livro feito de forma "profissional", por "editoras" a sério, que parece que toda a gente que escreve acha que publicar um livro é um direito seu, sejam a sua escrita e as obras que escreve muito boas ou muito más.

Aliás, isso não interessa. É preciso é ter qualquer coisa escrita. E uma das grandes causas deste problema são as vanity presses, entidades abjectas e desagradáveis que cobram ao autor para lhe publicar o livro. Ou para participarem numa antologia.

O escritor David Soares expõe muito bem o assunto num mini-manifesto em que aponta tudo o que estas entidades têm de mau. Maléfico, até!

E a pior parte ainda é a mudança de mentalidade a que isto leva. Seja numa "editora" ou num site manhoso, por mais ou menos euros, qualquer pessoa pode ser "publicada" de forma oficial. É assim que acontecem acidentes, caríssimos. Quando toda a gente achar que é o Gordon Ramsay ou o Jamie Oliver, passo a comer só enlatados. Se toda a gente achar que sabe escrever bem o suficiente para ter um livro publicado... Bem, tenho pena das gerações futuras.

O que acontece depois é o seguinte: desespero e humilhação levam os autores a aceitar condições miseráveis em troca de se verem publicados. Como por exemplo serem publicados exclusivamente num formato de que ninguém quer saber e dá problemas com facilidade, inseridos num projecto condenado ao fracasso.

Coolboks é só o mais recente ceguinho em quem toda a gente está a gostar de bater, como podem ver no blog da Alexandra Rolo, num post a apontar os defeitos desta nova iniciativa. Alguns, porque há mais.

Não quero com este seguimento fazer qualquer juízo de valor relativamente aos livros publicados dentro desta nova chancela, até porque tenho confiança que o da Carla Ribeiro seja bom, tendo em conta o que já li dela. Mas... Enfim.

Casos como estes há muitos, e a minha abordagem usual de ignorar até me esquecer que existem e não me aborrecer muito a pensar nisso já começa a falhar, provavelmente por causa do elevado número de situações. Só queria que as pessoas tivessem noção do que andam a fazer, e a escrever, e não se submetessem a estas coisas. Como diz o David Soares: leitores, não comprem; autores, não se metam nisto.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

X-Men #3


Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Stuart Immonen e David Marquez
Tradutor: Filipe Faria

Opinião: Por mais fascinantes que eu os ache, é melhor que estes X-Men se desenvolvam rapidamente, porque isto corre o risco de se tornar fraco.

Neste comic já há um pouco da acção acelerada, divertida e inconsequente que caracterizam as típicas histórias de super-heróis, bem como o humor a piscar o olho aos filmes, mas não me convenceu.

O argumento até está bem construído, a forma como o Scott do passado lida com o facto de estar no futuro e a forma como o Scott do presente não lida com o facto de ver uma versão sua vinda do passado, por exemplo. Ou o fascínio do Anjo pelo seu eu mais novo e o mistério que este último não consegue deixar de sentir no seu eu mais velho.

É terreno perigoso, concedo. Viagens no tempo são muito complicadas de trabalhar, entre paradoxos e situações estranhas e imprevisíveis, mas uma coisa é certa: pode-se tornar muito interessante com uma velocidade impressionante.

Infelizmente Bendis apenas aborda esses assuntos muito ao de leve, preferindo "perder" mais tempo a desenvolver as personagens e a fazê-las interagir umas com as outras, o que não é mau, antes pelo contrário. Só se torna desagradável quando em tão pouco tempo narrativo se revisitam as mesmas personagens com exactamente os mesmos dilemas.

Ainda por cima dilemas juvenis. Por muito que eu gostasse de intrigas amorosas e afins, há um limite para a quantidade de vezes que eu conseguiria ouvir falar disso sem ter vontade de furar os tímpanos. E o argumentista decide ignorar isso e focar-se principalmente em três personagens que são as que acho menos interessantes: o Ciclope, a Jean Grey e o Anjo, os três vindo do passado e cada um a lidar de forma diferente com o que se está a passar.

Ciclope parece negar, um pouco como a sua versão adulta faz, mas sente um peso na consciência por algo que ainda não fez e que ainda por acima é acirrado pelos olhares recriminatórios dos outros mutantes. Já Jean Grey oscila entre o "mas o que é que eu estou aqui a fazer" e o "sou uma mulher forte e independente e vou fazer o que quer que seja preciso" com uma frequência assustadora. Mas embora não seja fã da personagem, devo dizer que fiquei impressionado e agradado com a sua faceta mais implacável nascida na adversidade, exemplificada quando convence o Anjo, completamente perdido, derrotado e humilhado, a juntar-se à sua causa, proporcionando, em 3 vinhetas, um dos momentos mais arrepiantes que já li na minha vida.

Isto tudo e ainda há tempo para os Anjos derrotarem um pelotão de assalto da Hydra, que decidiu que a Torre dos Vingadores ficava mais bonita na horizontal, mas infelizmente não há muito tempo para seguir os mais-ou-menos-vilões da história, Ciclope-adulto, Emma Frost, Magneto e companhia limitada. No entanto o aparecimento de Mystique (ou Raven, como lhe chamaram) é um elemento interessante e que pode desencadear muita desgraça, ou não estivesse esta personagem sempre ligada de alguma forma a algum tipo de caos.

Falta ver como é que tudo se desenvolve. Gostava de ver mais do Magneto porque, bem, o Magneto é fixe. E no final deste comic acontece algo com bastante bom aspecto mas que me é, de momento, completamente inexplicável. Ou seja, estou curioso, muito curioso, embora a minha confiança esta periclitante...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Disney Especial: Patinhas vs Patacôncio


Argumento: Giovanna Bo, Fabio Michelini, Stefano Enna, Bruno Sarda, Gaya Perini, Bruno Concina, Giorgio Pezzin, Rodolfo Cimino, Ennio Missaglia, Massimiliano Valentini
Arte: Giorgio di Vita, Sergio Cabella, Luciano Gatto, Alessandro Gottardo, Graziano Barbaro, Ottavio Panaro, Stefano Intini, Danilo Barozzi, Comicup Studio, Andrea Lucci

Opinião: Depois de eu muito bradar aos céus, as minhas preces foram ouvidas! Não sei que tipo de divindade cartoonesca controla estas coisas, mas se descobrir ergo-lhe um altar. É que já li vários especiais e Big's deste renascer destas personagens por terras lusas, e devo ter dito em todas as críticas que gostava mesmo de ver o Patinhas era em confrontos com alguém. Especialmente se esse alguém fosse rico, poderoso, teimoso e implacável como ele. Acho que traz o melhor do Patinhas ao de cima.

E é então que lançam este especial inteiramente dedicado a confrontos entre o Tio Patinhas e o seu jovem inimigo, o Patacôncio! Trezentas e vinte páginas de porrada, sangue e tripas!

Não, isso não é aqui, esqueçam essa última parte.

Falemos das histórias. Há algumas parvas e inverosímeis, mas que não deixam de ser engraçadas, e há outras tantas que são mesmo muito boas. Logo para começar em força, uma história com um fim surpreendente, que nas mãos de um desenhador com outro estilo ainda tinha ficado melhor. Spoiler alert: é tudo um jogo no computador no Patacôncio. Foi interessante e altamente inesperado, mas tinha sido muito mais satisfatório se ao longo da história tivessem aparecido pistas subtis que permitissem chegar ao fim e pensar "ah, então é por causa disso que aconteceu aquilo".

Interessante de ver, também, são as histórias em que nenhum dos dois ganha. Mais que não seja porque nessas normalmente há algum tipo de colaboração entre os dois, ou uma rivalidade ainda mais acirrada do que o normal, o que implica mais interacção entre ambos. E isso é sempre bom de se ver. A dinâmica que conseguem ter entre inimizade e companheirismo é fascinante e raramente estragada por um argumento menos bom. Personagens que vivem verdadeiramente por si só!

Há ainda alguns destaques a fazer, como a história dupla com a participação do Avô Metralha, provavelmente o melhor Metralha de todos, e uma história que em si não tem nada de extraordinário (para além da primeira cena ser o Tio Patinhas a pedir a Brigitte em casamento), mas que tem uma arte absolutamente fantástica. O desenhador é Graziano Barbaro e fiquei fã! As personagens estão mesmo muito expressivas, e os desenhos cuidados são um regalo para os olhos.

Tirando uma ou duas histórias mais fraquitas, e o uso de "ciência" em pelo menos duas das histórias, este Especial foi uma óptima leitura e só posso redobrar a minha confiança nesta colecção!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Que as citações nos caiam em cima [48]


"Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixo mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar"


A Menor Mulher do Mundo in Laços de Família
Clarice Lispector