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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Crônicas Birmanesas


Autor: Guy Delisle
Tradutores: Constância Egrejas e Claudio R. Martini

Sinopse (por algum motivo está em francês...)

Opinião: Depois de ler dois outros livros de Guy Delisle, tinha boas expectativas para este, o terceiro numa série de BD's de viagem sobre a visita do autor a países, digamos, complicados. Neste caso é Myanmar, antiga Birmânia, e o seu regime ditatorial aparentemente soft.

A diferença para os outros livros é que Delisle não se deslocou a este país em trabalho, mas sim a acompanhar a mulher, que trabalha numa ONG a tentar (já lá vou) desenvolver acção humanitária naquele país. Com eles levam Louis, o filho de ambos, como é óbvio, e o rapazito torna-se num incontornável centro de atenções, como os bebés costumam ser!

Esta aparentemente pequena diferença é na realidade bastante grande, pois muda completamente a dinâmica da narrativa, que é quase um diário. Aqui, Delisle não é chefe de ninguém nem tem qualquer tipo de obrigação que não esteja relacionada com o filho. Torna-se, basicamente, num pai numas férias muito longas num país desconhecido.

E isso leva a situações muito caricatas, desde o seu curto retiro espiritual à frustração de se tornar completamente invisível para toda a gente na rua, se não levar o filho atrelado. Acaba também por aprender a lidar melhor com o filho, e a cuidar melhor dele, mas ai dele que não o fizesse, tanto tempo passou com o rapaz!

Isto é tudo muito engraçado de acompanhar, mas falta-lhe qualquer coisa, que é a opressão bem explícita nos outros dois livros. O regime aqui é mais suave, igualmente idiota, mas mais suave. Não há grandes restrições aos estrangeiros, e os próprios birmaneses sabem o que é que a casa gasta e falam abertamente sobre o assunto.

Acaba por ser mais uma opressão nos bastidores do que outra coisa. Ou melhor, uma opressão nas altas esferas de influência, com óbvias consequências nas esferas mais baixas, mas consequências subtis. Ou que se manifestam de forma subtil, por mais intensas que sejam.

Crônicas Birmanesas acaba realmente por perder algum do interesse por isso, mas nada de grave. O humor de Delisle é mais do que suficiente para compensar tudo o que for preciso, e o seu traço simples e despreocupado afigura-se como o ideal para este tipo de histórias, por permitir bastante expressividade em tudo o que rodeia as personagens, em vez de ser exclusivamente centrada nas personagens.

Definitivamente um autor a seguir, de tal forma que já tenho Crônicas de Jerusalém de baixo de olho...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pyongyang


Autor: Guy Delisle
Tradutor: Claudio R. Martini


Opinião: Quanto mais sei sobre o assunto, mais me parece que vivemos numa ilusão. Primeiro a China, agora a Coreia do Norte, dois países muito falados, mas sobre os quais sabemos pouco. O que apenas demonstra que esta realidade europeia e norte-americana é apenas uma fatia do Mundo em que vivemos, e não tão grande quanto isso.

Conhecemos o lado Ocidental razoavelmente bem, se ignorarmos o facto de não sabermos bem como é a vida na América do Sul e o de ninguém querer saber como ela é em África. Mas a verdade é que se achamos que existe um grande desequilíbrio social na Europa e nos Estados Unidos, estamos enganados.

Ele existe, mas não é grande. Não quando comparado com o que existe no resto do Mundo. Basta pensar no Brasil, uma realidade que nos é mais próxima, com as suas zonas de luxo e as suas favelas. Ou em praticamente qualquer país africano, onde há pessoas com riquezas de um nível absurdo, e pessoas a viver em condições mais do que miseráveis.

E a Ásia não é muito diferente. Ou melhor, a Ásia é bastante diferente. São um mundo mais fechado, mais privado, muitos dos seus habitantes a viverem trancados numa ilusão da qual dificilmente vão sair.

Não quero correr o risco de generalizar demasiado, depois de dois livros sobre o assunto e alguma pesquisa na internet, mas o que vejo é um continente que praticamente se esforça para se isolar do resto do mundo.

Pelo menos é essa a verdade em alguns países asiáticos, em especial nos que ainda sofrem com a ditadura e a opressão desregrada. Como na Coreia do Norte. E nós aqui, no quentinho dos nossos problemas com a troika e com governos cuja missão é passar semanas atrás de semanas a debater "mais 1%! não, menos 2%! não, mais 3 milhões dos pensionistas! não, mais 5!", fazendo passar as novas medidas de mansinho, sem que ninguém dê por elas, não fazemos a mínima ideia do que se passa nesse país governado pela única ditadura comunista existente.

Achamos que sabemos, e rimo-nos daquilo que passa cá para fora, mas não imaginamos os níveis a que tudo chega lá dentro. A missão que Guy Delisle incumbiu a si próprio foi a de contrariar essa ignorância. Tal como em Shenzhen, foi em trabalho para a Coreia do Norte, mais especificamente para a cidade de Pyongyang, e documentou tudo o que lá viu e viveu através da banda desenhada.

É difícil resistir ao humor leve, mas estranhamente acutilante, com que Delisle conta as suas peripécias, desde ser sempre seguido por um tradutor que pouco traduz, até visitar um museu dedicado unicamente a mostrar como o ex-governante é um ser quase todo-o-poderoso e benevolente. Aquilo que se percebe é que além de uma ditadura comunista, a Coreia do Norte vive num estado semi-religioso, em que as divindades são os filhos de uma linhagem de governantes.

Muito bom e muito interessante, este livro consegue ser, acima de tudo, chocante. É uma leitura fácil, e divertida, mas depois de o fecharem e de se lembrarem do que lerem... Pesa um bocado.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Shenzhen - Uma Viagem à China


Autor: Guy Delisle
Tradutor: Claudio R. Martini


Opinião: Como representar um mundo que nos parece estranho, mas que é bem real? Uma sociedade tão diferente da nossa que nem a conseguimos compreender, mesmo depois de estarmos imersos nela durante algum tempo?

A resposta é dada por Guy Delisle neste Shenzhen: com humor. A verdade é que não há melhor forma de expor e criticar uma situação do que com uma sátira bem feita. E no caso da China que Delisle aqui retrata, nem teve que se esforçar muito, pois a sátira criou-se a si própria.

Deixem-me explicar, antes disso, que o meu interesse na China é puramente acidental. Tudo começou com dragões (sou fã incondicional), a Mulan (primeiro filme que fui ver ao cinema) e um profundo desconhecimento daquela cultura, que sempre me pareceu tão rica.

Com o passar do tempo, e o desenvolvimento do meu apetite por aprender línguas novas, caiu-me no colo a oportunidade de aprender chinês e começar a explorar este país e a sua cultura fascinante. Eventualmente chegarei à mitologia, e provavelmente nunca mais de lá saio, mas por agora estou-me a controlar.

Este livro é, portanto, uma consequência natural desse meu interesse. Uma das principais cidades chinesas de negócios, pelo ponto de vista de um ocidental... em BD? Inevitável!

A arte é simples, mas expressiva, e por vezes exagerada, para acentuar alguma situação em particular. A história, essa, é a rainha. Domina por completo cada página, e nem é bem uma história, no sentido em que não há propriamente um enredo, nem um princípio, um meio ou um fim. É uma espécie de diário de um tipo que acha tudo aquilo muito estranho.

E depois de dez minutos a ler este livro, é fácil chegar à conclusão de que a China é de facto um lugar estranho. Pelo menos para os nosso padrões ocidentais. Trabalhadores que dormem abertamente em cima da secretária, formalidades e protocolos que nunca mais acabam, toda uma forma de estar com os outros bastante peculiar, e uma organização das cidades ainda mais peculiar. Nem vou falar das casas de banho.

O resultado é fascinante, ainda que ligeiramente aborrecido e desconexo, em algumas partes. Defeito de ser uma espécie de diário, mas uma falha que podia ter sido facilmente colmatada com mais investimento nas transições duma cena para a outra. No entanto, e apesar disso, no fim é um óptimo livro.