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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Palmas para o Esquilo

Título: Palmas para o Esquilo
Argumentista: David Soares
Desenhador: Pedro Serpa
Legendagem: Mário Freitas

Opinião: Este é um livro muito estranho. Confesso que tive que o ler 2 ou 3 vezes seguidas. Já conhecia o trabalho conjunto de ambos os autores, em O Pequeno Deus Cego, e a primeira impressão foi a de que este Palmas para o Esquilo é um livro radicalmente diferente desse.

Há pontos em comum, pois como o David Soares disse no lançamento, as suas obras têm vindo a evoluir e a aproximar-se cada vez mais da alegoria. Desse ponto de vista é possível ver claramente as tendências alegóricas de ambos os livros, e a forma visceral como exploram os seus temas.

Mas se O Pequeno Deus Cego se passa numa China feudal, este passa-se nos dias de hoje, em Portugal (ainda que isso não seja especificado, e se possa considerar que ocorre num sítio qualquer). E se o primeiro já impressiona, não só pela escrita de David Soares mas também pelo traço de Pedro Serpa, este ainda causa uma impressão mais forte.

A sensação que tive foi a que tenho ao ver uma curta-metragem sem som a ser comentada pelo realizador. Acho que os desenhos de Pedro Serpa contam perfeitamente uma história por si só, assim como o texto de David Soares nos obriga a pensar, sem mais nada. A junção das duas dá um resultado curioso, em que as duas coisas são facilmente discerníveis, mas dificilmente separáveis.

Ou seja, embora ambas as coisas se aguentem sozinhas, e não precisem uma da outra para terem valor próprio e fazerem o seu trabalho de forma coerente, depois as ver juntas é muito complicado imaginar uma sem a outra.

A história passa-se num asilo, e as personagens loucas são um dos pontos fortes desta BD, de tão bem retratadas que estão. A principal, então, que quase não fala, é bastante expressiva nas suas acções e nas suas memórias. A loucura, ou imaginação, que o assola, tem uma evolução rápida ao longo das páginas, e vê-lo a cair no abismo da sua mente é indescritível.

Só há uma coisa neste livro que não me agradou por aí além, e que não sei se se justifica completamente. O vocabulário usado por David Soares. Eu bem sei que a sua escrita é tipicamente assim, e já estou mais do que habituado a ter um dicionário por perto quando o leio, mas acho que neste caso talvez tenha exagerado.

A sua escrita habitualmente complexa e trabalhada, chega a ser quase incompreensível nalgumas passagens, sem o auxílio de um dicionário a cada 2 palavras. Isso tem um propósito e faz parte do estilo do autor, mas a mim dificultou-me a leitura, e não me deixou envolver tão completamente como podia ter acontecido. É um caso em que acredito que uma escrita mais simples provavelmente tornaria o livro melhor.

Mas fiquei bastante agradado na mesma, especialmente com os desenhos de Pedro Serpa. Nota-se uma evolução, e as suas imagens fortes desenhadas de forma simples são claramente uma imagem de marca, com todo o seu traço a contrastar fortemente com a escrita de David Soares, e a criar um efeito bastante interessante.

domingo, 15 de setembro de 2013

"Palmas para o Esquilo" de David Soares e Pedro Serpa

Deve ter sido a primeira vez que fui ao lançamento de um livro. Pergunto-me porque raio é que não comecei a fazê-lo antes.

A loja da Kingpin, de que já aqui falei, é um sítio quase acolhedor, assim cheio de pessoas que se conhecem umas às outras, todas ali para o lançamento do Palmas para o Esquilo, escrito por David Soares e desenhado por Pedro Serpa.

Esta colaboração, que vem dos tempos de O Pequeno Deus Cego, continua a dar frutos e, pelo que percebi, não será de estranhar mais colaborações no futuro.

Mas falemos deste livro, tão promissor que teve direito uma tiragem maior do que o habitual, mostrando claramente a aposta da Kingpin no livro, e não só pelo facto de agora ter distribuição nacional.

Palmas para o Esquilo fala de imaginação e fala de loucura. Pessoalmente, estou interessado. São dois temas sobre os quais gosto de ler (e de escrever), e que considero serem dos temas mais inesgotáveis à face do planeta.

E depois, durante a apresentação, ambos os autores me deixarem curioso. David Soares, para começar, falou de como este livro se relaciona com as suas obras anteriores, e ainda explicou um bocado a forma como trabalho: em ciclos, e que presentemente caminha para uma abordagem cada vez mais alegórica das questões.

E Pedro Serpa, com o seu desenho simples recheado de imagens fortes, um traço descomplicado que contrasta fortemente com o estilo negro e profundo de David Soares, falou das suas influências, e de como é trabalhar este tipo de histórias.

Durante isto tudo, a imagem do Mário Freitas de pernas esticadas, super descontraído e a fazer perguntas pertinentes, guiando a apresentação com jeitinho, nunca me vai sair da cabeça.

Na altura de assinar, ainda aconteceu algo interessante: o David Soares reconheceu o meu nome dumas mensagens que trocámos pelo Facebook, e dumas críticas que escrevi, na altura em que li um monte de BD's dele de rajada e fui assistir ao seu espectáculo de spoken word com o Charles Sangnoir. Bem, é um autor que admiro e que me reconheceu. Foi... fixe.

E tanto o David Soares como o Pedro Serpa se mostraram bastante simpáticos, com o primeiro a escrever dedicatórias nos livros, e o segundo a fazer pequenos desenhos. Foi assim, o lançamento deste livro, o primeiro que tenho assinado.

Sim, o Pedro Serpa incluiu a caveira de um esquilo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Lançamento: "Palmas para o Esquilo" de David Soares


Como sabem, sou fã de David Soares, e gostei de ler O Pequeno Deus Cego, em que contou com a colaboração de Pedro Serpa.

Pois bem, os dois voltam a juntar-se para Palmas para o Esquilo, um livro com uma capa e um título interessantes, e que promete falar sobre imaginação, loucura, e a relação entre ambas as coisas.

O lançamento é este Sábado, e tenciono estar presente. Deixo-vos com o texto de apresentação e uma página, para abrir o apetite.

"Palmas Para o Esquilo, o meu novo livro de banda desenhada, escrito por mim e desenhado porPedro Serpa, será lançado a 14 de Setembro (sábado), às 17H00, na loja da Kingpin Books, em Lisboa (Rua Quirino da Fonseca, 16-B).

Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013) consiste numa observação sobre a distância que existe entre a imaginação e a loucura."


segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Pequeno Deus Cego

Titulo: O Pequeno Deus Cego
Argumento: David Soares
Ilustração: Pedro Serpa

Sinopse: A vida da pequena Sem-Olhos torna-se uma tragédia quando a mãe determina que ela seja iniciada num sangrento rito tradicional, mas ainda mais doloroso é o grande segredo da família, oculto no passado, que duas personagens misteriosas irão desmascarar. Será que Sem-Olhos é apenas uma criança ou poderá ser um pequeno deus sobre a terra?

Opinião: Se o sapo que figura na primeira imagem deste livro é um começo inofensivo, o sémen lhe cai em cima pouco depois situa-nos de imediato numa história de David Soares.

Se bem que esta não é uma história tão típica de David Soares quanto isso. Ou melhor, não é típica do David Soares a que eu já me habituei, o que escreve páginas atrás de páginas de coisas absolutamente horripilantes e viscerais, horror puro na sua forma mais negra.

Não, este não é esse David Soares. Em O Pequeno Deus Cego, o escritor revela uma forte inclinação para a fábula, sem nunca deixar de lado uma vertente literalmente mais visceral.

Quando olho para o que já li do autor, vejo que há claramente uma evolução, das coisas mais antigas para as mais recentes: de histórias de horror visceral, com tripas, sangue e muita morte estranha por todo o lado, para histórias mais "calminhas", mais focadas no objectivo principal de passar uma certa mensagem.

Tenho de confessar que é com algum receio que assisto a essa evolução. Já se sabe como sou com mensagens que os autores querem passar. Felizmente, David Soares tem-se safado bem, e nas poucas páginas desta BD conta uma história interessante, algo muito parecido com uma fábula, sem dúvida, sobre uma menina sem olhos, que não é bem uma menina, e a sua mãe muito pouco carinhosa e muito pouco... mãe.

Mas antes de se preocuparem com a história, sobre a qual não posso revelar grande coisa além do que vem na sinopse, queria deixar aqui bem expresso a minha admiração pela personagem de Wang, o Castrador. Sim, é um dragão, o que lhe dá logo pontos positivos, do meu ponto de vista, mas além disso é uma personagem profundamente intrigante. Já encontrei personagens que gostei, odiei, venerei, percebi, com as quais simpatizei e de tudo um pouco. Mas é a primeira vez que encontro uma personagem que me deixa perplexo. Intrigado e extremamente curioso. Wang, o Castrador, é um dragão maléfico, filosófico, teatral, ao mesmo tempo todo-poderoso e completamente indefeso.

A ideia com que fiquei foi a de estar a ver uma personagem e a ler as falas de outra. A imagem do grande dragão verde de dentes grandes e olhos negros e encarnados não encaixa com o monólogo teatral e com os maneirismos tão humanos que o dragão faz durante o discurso. Altamente intrigante.

E a/o pequeno Sem-Olhos, a pequena personagem que nasceu, adivinharam, sem olhos, é iniciada na vida feminina com o ritual sangrento dos sapatos minúsculos que deformam os pés das raparigas, pela própria mãe, o maior monstro do livro. Mas ao mesmo tempo é iniciada na sua vida masculina recém-descoberta pelas palavras de um misterioso e sábio velho, que lhe revela a verdade.

O fim não fica propriamente em aberto, mas não fica propriamente fechado. É um final que pode ficar aberto a interpretações, tendo em vista a coragem, o medo, a curiosidade, a luz no meio das trevas e as trevas enquanto luz. E também sobre o destino e a procura da verdade. Estaria o futuro de Sem-Olhos pré-definido como sangrento e brutal por causa do seu começo de vida sangrento e brutal? E tudo isso por causa da sua procura inocente pela verdade que sempre lhe foi negada, tal como a visão? É a falta da primeira que o leva ao dragão mais intrigante que já vi, mas é a falta da segunda que a livra do medo e de uma morte certa.

Uma interessante fábula sobre ver, compreender e a curiosidade enquanto face reversa do medo, O Pequeno Deus Cego agradou-me bastante e deixou-me com vontade de pegar em mais livros do autor, algo que não deverá andar muito longe...