segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Polvo

Autora: Rita Fernandes


Opinião: Há um limite para o nível de lirismo que eu aguento. A discussão sobre as razões de eu não gostar de poesia é longa, velha, e acaba por ser inútil e pouco relevante. Pelo menos para esta opinião. O que interesse é que já há algum tempo que eu não lia algo com uma escrita tão poética e que me agradasse tanto.

A história é curta, não chega para encher duas páginas da revista, e é simples. Pouco mais do que uma metáfora para um velhote em fim de vida ser uma espécie de polvo. Mas a beleza da escrita afoga (pun intended) a possível palermice da premissa e tira-me qualquer hipótese de não gostar deste conto.

Imaginem um homem idoso com um dia-a-dia cansado da vida que apenas consegue ser abrilhantado pela chegada do filho de meia-idade e do neto jovem e saltitante. Juntos, o primeiro e o último usam a imaginação para viajar aos recantos mais escondidos dos mares, perante a desaprovação ao mesmo tempo paternal e filial do segundo, sempre condescendente e símbolo de uma fase da vida demasiado séria.

Avô e neto vivem aventuras nas suas mentes que lhes parecem mais reais do que a própria realidade. O velho ganha vitalidade a olhos vistos e o rapazito é verdadeiramente feliz naqueles momentos em que conversa com o avô e o leva a viajar.

Agora imaginem tudo isto com uma escrita belíssima, pausada, simples, poética... As curtas descrições fizeram-me ver o dia-a-dia do velhote com poucas palavras, e deixaram-me observar as duas gerações entretidas debaixo das águas das suas imaginações como se os visse através de um vidro de aquário.

Foi assim que a autora, Rita Fernandes, me convenceu. Um conto intenso, bem escrito, bem contado e bem desenvolvido, com um final forte, mas suave, de certa forma expectável mas não menos triste por isso. Em suma, uma grande descoberta que fica mais do que aconselhada!

sábado, 10 de maio de 2014

Estantes Emprestadas [5] - A nossa literatura vista de fora



Se há coisa de que me orgulho é de ter um bom manancial de amigos e amigas completamente loucos da cabeça. No melhor sentido da expressão, claro. Fascinantes talvez seja o termo mais correcto. A autora da crónica de hoje é uma dessas pessoas: chama-se Rebeca Bonjour, também conhecida por Beki, e é mais ou menos muita coisa - jornalista, skater, curiosa, portuguesa, francesa, polaca por afinidade, ligeiramente louca e mais uma série de coisas.

Apenas três frases e já consegui chamar-lhe louca duas vezes. Desculpa Beky. Não duvidem de que gosto muito dela, a verdade é que conheço poucas pessoas de letras com quem me dê tão bem. E além de gostar das suas perguntas sobre Ciência, embora já não mas faça há uns tempos, também gosto bastante da sua forma de pensar. E da sua escrita. A sério, já vão ver, é muito boa. Aprocheguem-se, aprocheguem-se!



Quando o Rui me pediu para escrever uma crónica para o blogue dele, abordou-me com umas palavras que equivalem mais ao menos a um “ah e tal, tu que és muito internacional…”, pelo que não posso começar esta crónica sem falar um bocadinho de mim.

Digamos que fui projectada em avanço no espírito de nacionalidade europeia que cada vez mais se ergue. De mãe portuguesa e pai francês, nasci na terra dos croissants e mudei-me para a dos pastéis de nata aos cinco anos, onde cresci, não deixando no entanto de alimentar cá dentro o bichinho viajador. Por altura da maioridade mudei-me durante um ano para a Polónia e, fazendo jus ao lema de que quem sai uma vez do seu país não consegue parar, mudei-me o ano passado para Paris, onde vivo actualmente. Posto isto, a ideia do Rui era aproveitar-se da minha internacionalidade e fazer-me escrever sobre como a literatura portuguesa é vista lá fora, o que me fez logo pensar em duas ou três coisas que quero partilhar. 

Comecemos então por falar da Polónia. Quantos de vocês conseguem, sem olhar para um mapa, dizer a localização deste país? Aposto que 90% não consegue – fica demasiado longe, tanto a nível geográfico como a nível de importância no panorama nacional. Da mesma forma, a maioria dos polacos não sabem muito sobre o nosso país. Sempre que me anunciava portuguesa tinha que explicar às pessoas que não, não falávamos espanhol, que temos uma língua própria. E aqueles que nos conheciam era mais pelo emblema do nosso país lá fora: o Cristiano Ronaldo, mais famoso do que o galo de Barcelos. 

A par do desconhecimento do nosso país, a Polónia tem um atrofio cultural, que pode ser explicado pelo facto de ter passado toda a História a defender a sua identidade, e pela passagem dos nazis e da destruição que causaram às obras judias, sendo que os judeus formavam uma grande parte da população antes da II Guerra Mundial. A produção cultural polaca é portanto bastante recente, assim como as suas preocupações a este nível. Mesmo assim, acabei por descobrir, na cidade em que vivia (Poznan, uma cidade de estudantes equiparável a Coimbra e que fica na mesma linha de Berlim), um bar português, onde o Instituto Camões (que, para quem não sabe, é responsável pela divulgação da cultura e língua portuguesas no estrangeiro) organizava todos os meses uma noite portuguesa. Para além de terem disponíveis iguarias nacionais e vinho do Porto, nestas noites falava-se em português, partilhava-se tradições e liam-se textos escritos pelos participantes ou de autores conhecidos. O mais espantoso nestas soirées é que havia tantos polacos quanto portugueses, falantes da nossa língua e amantes da nossa cultura. Uma minoria da população que estava efectivamente interessada em estudar e conhecer mais sobre o nosso país! Do outro lado da Europa! O Mistura Bar foi mais tarde substituído por um bar coreano, mas sei que as actividades do Instituto Camões prosseguiram noutros lugares.

Em Paris a história é totalmente diferente. Com um milhão de habitantes portugueses – quase tantos como no Porto, de onde venho – estão fartos de saber quem nós somos (muitas das vezes com uma ideia deturpada, mas isso dava outra crónica). Além disso, a França, e Paris particularmente, são locais culturais por excelência, onde tudo o que seja arte borbulha pela cidade. Quem é que gosta de literatura e não se sente absolutamente fascinado pela ideia de viver em Paris nos anos 20, onde escritores de todas as partes se encontravam aos magotes nos cafés e esplanadas? Ainda hoje se sente a sua presença, por exemplo no Quartier Latin, povoado por dezenas de alfarrabistas. Não são, como ganhei o hábito de apelidar os alfarrabistas portugueses, cemitérios de livros, com obras a cheirar a mofo que mais ninguém quer ler. Além disso, os nossos espécimes nacionais cada vez mais propõe preços que competem com os de uma Fnac, o que arruína por si só a ideia de alfarrabista. Ora nas lojas parisienses sugerem títulos relativamente recentes e interessantes (já apanhei Oscar Wilde, Primo Levi, ou os Harry Potters, por exemplo) a preços tão irrisórios como um ou dois euros. Cheguei mesmo a encontrar livros a vinte cêntimos. Vinte cêntimos!!!! E o mais interessante é que entre estas pechinchas se encontram versões francesas de livros portugueses (muitas das vezes do género Paulo Coelho, que os franceses apreciam muito – diz o meu amigo Lucas, que é brasileiro, que isto é proporcionado pelo facto de o autor traduzir ele mesmo os seus livros, excepto em francês, língua que não fala, pelo que teve de deixar isso para outra pessoa, que conseguiu melhorar a escrita o suficiente para que os livros se tornassem suportáveis – mas às vezes também Saramagos e Pessoas, e até já cheguei a deparar-me com Os Maias escrito na sua língua-mãe. 

Da própria!
Além dos alfarrabistas temos as Fnacs. Num dos cinco andares da minha preferida (há aí umas dez Fnacs em Paris), encontrei uma estante inteira de literatura portuguesa traduzida. Devo dizer que havia autores, nesta estante, que eu própria não conhecia. Podemos ainda falar, neste campo da divulgação da nossa literatura, na Gulbenkian parisiense, que consiste numa biblioteca enorme com livros em português, como é claro, e numa galeria onde se expõem obras lusófonas. Este organismo propõe ainda palestras e outros tipos de actividades para a promoção da nossa cultura. 

Já vimos, portanto, que não faltam em Paris oportunidades para dar a conhecer a literatura portuguesa, mas será que isso tem uma influência nos nativos franceses? Quando cheguei a Paris, em conversa com um colega de trabalho, disse-lhe que era portuguesa, e ele falou-me logo de um escritor que tinha tentado ler há pouco tempo, um psiquiatra… Lobo Antunes?, perguntei. Esse mesmo! Tentou lê-lo mas não conseguiu, era uma leitura pesada, complicada. No meio da minha surpresa genuína confessei-lhe que ainda não lera este autor, mas que sempre me disseram que as suas crónicas eram mais fáceis de digerir. Ele respondeu-me que não conhecia, mas que tinham uma amiga que era louca por Lobo Antunes, que tinha os livros todos, e que lhe ia pedir emprestado. Ora quantos portugueses é que vocês conhecem que tenham lido todos os livros do Lobo Antunes, a sério? E isto alarga-se para outros campos: já vi franceses a ouvir os Táxi, e não há nenhum que não saiba o que foi a Revolução dos Cravos. 

Sem me querer alongar demais, não posso acabar esta crónica sem olhar para dentro. E nós? Como é que vivemos a cultura estrangeira? Quantos filmes franceses ou polacos chegam às nossas salas de cinema? Quantas secções de livros provenientes de algum país existem nas nossas livrarias e bibliotecas? Nada que se compare às parisienses, com estantes para literatura chinesa, espanhola, japonesa, persa, hindu, russa, etc. Na maioria dos casos quase parece Portugal fica mais perto dos Estados Unidos do que da Europa, factor agravado por uma insuficiência de educação para a cultura - a dos outros e a nossa. Mas isso fica para outra crónica.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

As Cidades Invisíveis


Autor: Italo Calvino


Opinião: Li exactamente um livro de Calvino. Duas vezes, com um intervalo de quatro anos. Da primeira vez escrevi uma opinião que dizia pouco, mas que deixou bem claro o que eu achei do livro: uau.

Vou dar um desconto ao meu eu de dezasseis anos, que ainda não se expressava como deve ser. A verdade é que gostava de falar com esse eu para discutir este livro. Talvez soubesse o que dizer. É que eu, agora, não sei.

Todos nós, leitores, encontramos muita coisa ao longo das nossas vidas: livros maus, livros excelentes, livros hilariantes, livros terríveis, enfim, de tudo um pouco. Mas de vez em quando lá surge um livro que não só quebra as expectativas como as estilhaça completamente. Um livro de tal forma inclassificável e que nos impressiona com tanta intensidade que ficamos, literalmente, sem palavras.

Acho que raramente aconselhei este livro a alguém. Pouco ou nada falo dele. Mas lembro-me dele com frequência. Das conversas filosóficas e metafísicas entre Kublai Khan e Marco Polo e da imaginação prodigiosa deste último, obtida directamente da fonte: o grande Calvino.

Sim, este livro fascina-me. Sim, este autor fascina-me. E não consigo explicar o porquê, é uma atracção irresistível, quase irracional, que sinto por este livro, o que até é estranho, tendo em conta que As Cidades Invisíveis não tem praticamente nada daquilo que mais gosto de ver num livro: uma boa história, personagens bem desenvolvidas, coerência, sangue e tripas...

É um livro especial. Nele, Calvino usa a personagem de Marco Polo como veículo para descrever cinquenta e cinco cidades, algumas realistas outras impossíveis ou deslocadas do seu tempo, mas todas fascinantes e com nome de mulher.

As cinquenta e cinco descrições são curtas, e não há qualquer tipo de história: nada liga as histórias entre si, nem com Polo ou Kublai para além de serem os sítios por onde o primeiro supostamente viajou e que o segundo supostamente governa. A escrita não está nada de especial, suspeito que por causa da tradução, mas mesmo assim o livro fascina-me.

Os curtos trechos de conversa entre Kublai e Polo raramente têm algo de realmente útil para o desenvolvimento da "história", servindo apenas como momentos de discussões filosóficas. Conversas essas que, surpreendentemente, não aborrecem.

Mas tudo isto é completamente irrelevante face às cidades que Polo descreve. "Tudo isto" também inclui o que quer que seja que estejam a fazer. A sério. Vocês não querem perder isto, é pura e simplesmente demasiado bom. E ainda por cima o livro lê-se num par de horas, que é pequeno!

E para além das descrições belíssimas das cidades, cada uma encerra um simbolismo muito próprio e é um pouco "um monstro por si só". No melhor dos sentidos possíveis, acreditem.

Talvez a melhor forma de descrever este livro seja chamar-lhe surreal. Ou surrealmente brutal. Qualquer coisa desse género. As descrições intricadas contidas em meia dúzia de parágrafos ajudam à sensação de deslumbramento, e os vários tipos de cidades com as suas sociedades perfeitamente ajustadas não são nada menos do que absolutamente fascinantes!

Calvino, para mim, e como já devem ter percebido, mais do que um autor a ler é um autor a reter. Vale a pena, este tipo, e tenho a certeza que o resto dos seus livros não me vão desapontar. Pode acontecer e eu ficar tramado, mas acho sinceramente que não. É demasiado bom!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Soul Survivors (The Stand #3)


História: Stephen King
Adaptação: Robert Aguirre-Sacasa
Arte: Mike Perkins


Opinião: Comprei esta BD há uma série de anos, numa Feira do Livro, por menos de metade do preço. Foi mesmo um daqueles momentos "ok, não vou resistir a isto". Por acaso acho que já tinha o livro original, mas ainda não o tinha lido, o que significa que este volume ficou a apanhar pó nas minhas estantes.

Mas no Verão passado lá li as mil e trezentas páginas do The Stand, adorei, e disse para mim próprio que esta BD tinha que marchar.

Nove meses depois... Lá peguei nele. O "problema" de ter muitos livros em lista de espera é que há uns que vão sempre sendo atirados para o fim da lista, ou que são constantemente ultrapassados e pronto. Mas agora já está!

O que tenho a dizer é que gostei da adaptação. Em termos de argumento isto ficou muito bom. Consegue captar o tom do Stephen King, seja nos momentos mais calmos, nos mais violentos ou nos mais perturbadores, sempre fiel ao livro original.

A arte, por seu lado, embora consiga acompanhar minimamente, é o ponto fraco do livro. Não se deixa intimidar por cenas mais sangrentas de cabeças a serem esmagadas de forma bastante explícita, é certo, mas sofre de excesso de detalhe.

São daqueles desenhos que tentam ser o mais realistas possíveis e acabam obcecados com os pormenores. Isto leva a expressões faciais ridículas, mais músculos do que é normal, super-ultra-definição completamente irrealista nalguns objectos... Uma pena.

Mesmo assim fiquei curioso para ler o resto da colecção (ninguém achava que um livro do King se ia dividir em menos de seis livros, pois não?). Este volume é o terceiro, o que não me fez particular espécie por já conhecer a história, o que significa que não perdi nada e entrei de imediato na narrativa, sem grandes problemas, mas que pode trazer problemas a outras pessoas. Só que pronto, é óbvio que não vão começar pelo terceiro volume, não é?

Não é que percam muito... Mas há cenas aqui que só têm o seu efeito total quando devidamente contextualizadas. Os grupos ainda estão todos separados e começam aqui a encontrar-se, já perto de metade da história, que caminha para um ponto de viragem importante. Como tal, esta parte é mais calma e lenta, ainda que cheia de tensão e repleta de momentos marcantes e essenciais, como o "acordar" de Harold e uma cena particularmente poderosa em que uma velhota (a boazinha) é rodeada por bichos à mercê do Dark Man (o vil... acho que não preciso de explicar) e consegue repeli-los.

Para terminar, uma nota positiva para a arte, que mesmo sendo, na minha opinião, o ponto fraco do livro, consegue capturar muito bem alguns momentos, especialmente os mais violentos e uma ou duas situações em que aparece o Dark Man.

Tenho que ver se consigo encontrar o resto, embora não tenha achado isto fantástico o suficiente para precisar de encontrar o resto...

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Simpsons #1


Autor: Matt Groening
Tradutor: Nuno Moreira Santos

Opinião: Aproveitando a onda de lançamentos da Goody, que parece estar a relançar a moda da banda desenhada (juntamente com a Panini/Marvel), comprei este primeiro número dos Simpsons.

Os desenhos, como podem ver, são os típicos da série, simples e icónicos até mais não. Lá dentro, as histórias são também o esperado, dentro do espírito a que estamos habituados, cheias de piadas visuais e humor (mais ou menos) inteligente.

Infelizmente tenho quase a certeza que as primeiras duas histórias, pelo menos, são as mesmas que vinham num comic que acompanhava a fantástica edição de The Simpsons Futurama Crossover Crisis e que eram medianas.

Quer dizer... A primeira, com um Homer a ficar gigante, é claramente abaixo da média, sem grande interesse. A segunda é mais porreira, dentro do estilo de terror, com Homer no papel de um coleccionador de BD que se torna inútil sem o seu empregado, e que tem um fim previsível. A história está bem contada, mas não é nada de extraordinário.

Já o mesmo não pode ser dito da terceira história, Bart, o Presidiário, que li como se estivesse a ver um episódio da série de televisão. Inconsequente no melhor sentido possível da palavra, recheado de nonsense e de momentos engraçados, já gostei bastante de ler esta história.

Por fim uma historieta curta e da qual nem desgostei, mas que não é nenhum portento. É uma situação inverosímel típica, envolvendo a mente demasiado imaginativa de Marge e de uma das irmãs, o desespero da outra irmã, e o amor de Homer por... comida.

Como balanço geral, posso dizer que fiquei agradado e que pondero comprar o próximo número, se depois de lhe dar uma vista de olhos ficar satisfeito. Resta esperar que a Goody continue tão activa!

sábado, 3 de maio de 2014

O livro favorito não existe



Antes que comecem a chover acusações do quanto eu gosto de me contradizer, reparem naquele "subjectivamente" e lembrem-se que as pessoas têm direito a mudar de opinião, ainda que não seja bem esse o caso.

Sim, se alguém me perguntar qual é o meu livro favorito, eu provavelmente ainda digo que é o Terrarium, esse épico da ficção científica portuguesa escrito a quatro (talentosas) mãos. Mas tenho noção de que isso é uma mera simplificação. Uma forma de responder sem me perder em deambulações sobre os milhentos livros que já li, apontando falhas e pontos positivos.

Corria o risco de deixar de responder à pergunta, e a passar a tentar convencer alguém de que certos e determinados livros são fantásticos, e a incitar à sua leitura. E não é esse o objectivo. Portanto digo apenas "é o Terrarium, 600 páginas de ficção científica portuguesa escrita por dois dos nossos melhores autores". Chega.

Mas qual é a verdade? Bem, sou de facto um grande fã desse livro, mas é o meu favorito? Depende. Não consigo dizer que gosto mais dele do que da minha edição lindíssima do Kalevala, por exemplo. É impossível compará-los de forma subjectiva, são demasiado diferentes, cada um um campeão na sua área.

Podia fazê-lo objectivamente, mas não quero. Não quero ser objectivo na escolha do meu livro favorito, porque isso destrói à nascença o conceito de favorito. Eu posso achar um livro brilhantemente bem escrito, como os do Mia Couto ou aquele que é para mim um dos expoentes máximos da língua Portuguesa de sempre, o Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, mas não os considerar para livros favoritos.

Também posso encontrar um livro com uma estrutura narrativa e um enredo primoroso e pensado até à exaustão, como o O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o The Green Mile ou o Cem anos de Solidão, e ainda assim não os considerar para livros favoritos.

É preciso mais do que ser objectivamente bom para ser o meu livro favorito. Acho que falo por todos os leitores, quando digo isso. Quantos de nós não leram já um livro que sabemos claramente não é tão bom quanto isso, mas que nos fascina de alguma forma? Vejam as minhas muitas opiniões sobre livros do Filipe Faria.

Estão a ver o problema? Não digo que todos os leitores sejam assim, mas a minha primeira aposta é que um leitor assíduo mais rapidamente dá uma lista de vinte livros favoritos, do que diz qual é o seu livro favorito de sempre. Não é fácil escolher. E na minha opinião, é impossível.

Um livro pode deixar-me impressionado com a sua abordagem visceral ao horror e a forma como consegue tornar sangue e tripas num objecto literário, e outro pode fazer-me sentir uma empatia tremenda pelos protagonistas na sua demanda épica, enquanto outro ainda me faz esquecer a história que contêm, de tão bem escrito que está. Ao fim do dia, se me perguntarem de qual gostei mais, a minha vontade é dizer os três títulos ao mesmo tempo.

E já nem falo do quão voláteis podem ser estas escolhas de livros favoritos... E se eu amanhã ler um livro que acho superior a tudo o que já li? Muda-se a lista toda. E se ler outro depois de amanhã que me faz pensar "é este! é este!" e depois me lembrar de outro que tenho a meio da lista e que é parecido? Muda-se a lista toda. Isto acontece, e com mais frequência do que aquilo que se possa pensar.

Por essas e por outras, se me perguntarem qual o meu livro favorito, eu respondo que é o Terrarium. Ou o Kalevala. Ou o Flatland. Ou... Ou... Ou...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A Conspiração dos Abandonados

Autor: António de Macedo


Opinião: Li há relativamente pouco tempo outro livro de contos deste autor, do qual fiquei com a melhor das impressões. Antes disso li um conjunto peculiar de peças de teatro que me impressionou de certa forma. E como é público, tenho António de Macedo de pedra e cal no meu panteão de pessoas a idolatrar/venerar. Aliás, gostava de aproveitar esta opinião para vos incitar a dar um empurrão ao documentário sobre a sua obra cinematográfica. Podem ver os detalhes no link.

Por isso é com pena que digo que este livro é meramente mediano. Os contos ("Neogóticos", como diz na capa) são seis e têm o ponto a favor de terem um elo de ligação bem claro, salvando este livro do marasmo de livros-de-contos-só-porque-sim que grassam por essas prateleiras fora.

Fã de contos como sou, confesso que este pormenor me deixa bastante satisfeito. Se há coisa que gosto de ler é um livro destes, de contos, mas com um tema central. Os contos não precisam de estar directamente relacionados, nem sequer precisam de ser do mesmo género, mas se existir esse ponto em comum... Oh!

Aqui, ele existe. Infelizmente isso é a melhor característica do livro, juntamente com as ocasionais passagens de fazer cair o queixo. Nenhuma das histórias é particularmente boa e estão recheadas de inconsistências ou, pelo menos, de pormenores que quebram a "suspensão da descrença" (suspension of disbelief, no original).

Os diálogos artificiais e excessivamente expositivos são apenas um desses pormenores, que nem sequer são bem pormenores: acabam por se tornar problemas graves. As personagens com reacções pouca naturais, os acontecimentos em catadupa sem as consequências normalmente expectáveis, e toda uma sensação geral de... falso.

Sim, toda a ficção é falsa, por definição, mas não é isso. Ler ficção, para mim, consiste em acreditar numa série de mentiras como se a nossa vida dependesse disso, depois de sabermos que são mentiras. "Suspensão da descrença". Um sinal de que um livro é bom, e de que um autor fez bem o seu trabalho, é quando se fala das personagens como se fossem pessoas, ou se discutem eventos da narração como se fossem as mais recentes notícias.

Em A Conspiração dos Abandonados, e apesar da mestria de Macedo (em tudo o que faz), isso não acontece. Eu bem tentei, mas a esta sensação a falso não me largou nem por um segundo. Nunca me consegui ligar às personagens, nunca consegui relacionar nada com os acontecimentos e nunca senti estas histórias da mesma forma que sinto uma boa história.

O primeiro conto ainda é capaz de ser o melhor contado, e foi uma boa abertura, com direito a plot twist nas últimas linhas. A partir daí foi mais ou menos sempre a descer, e embora nenhuma conto seja propriamente mau, também não são propriamente bons. Nota-se sempre um tom quase académico. Demasiado académico! A narrativa não flui naturalmente e as histórias não se desenvolvem como deveriam: a trama avança aos solavancos, com duas páginas de descrições secundárias seguidas de um parágrafo a avançar o enredo.

No entanto é uma leitura agradável. Não tão agradável como poderia ser, e com problemas gritantes não só a nível das histórias, como da escrita (já lá vou), mas agradável e interessante.

Agora, antes que me esqueça, eu não sei se foi tudo escrito às três pancadas, ou se os revisores estavam todos de folga, mas a pontuação deste livro está má. Muito má. Nem sequer é uma questão subjectiva de "acho que ficava melhor sem essa vírgula", mas sim uma constatação do mais objectiva possível.

Ultrapassando isso, só é preciso deixarmos que Macedo nos guie nas suas histórias sobrenaturais, que roçam frequentemente a ficção científica e que fazem algo que me deixa fascinado. O autor consegue dar dicas de ficção científica no meio de uma história repleta de magia e de fantasia afim, sem nunca dar a entender o que se está realmente a passar. Seres incorpóreos de outro plano de existência, ou aliens? Era bom saber, não era?

Enfim. Digamos só que aconselho a leitura, mas com calma, moderação e espírito crítico. Provavelmente é mais fácil ignorarem um pouco a pontuação e lerem como se sentirem melhor. Mas podem ter a certeza que aconselho!