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sábado, 23 de janeiro de 2016

Porquê Ciências?

"Para perceber como funcionam as coisas!"

Maricas. Essa é a resposta bonita que se dá para a malta não nos achar esquisitos. A realidade é que "fazer ciência" está para "perceber como funcionam as coisas" da mesma forma que "correr a maratona" está para "cortar a meta": até pode ser o objectivo final, mas ninguém tem o título de cortador de metas; são corredores.

Portanto deixem-se disso. É uma visão redutora, e que embora não negue completamente, também não apoio activamente. Até porque existem mais campos do conhecimento que permitem perceber o funcionamento de alguma coisa. Psicologias e afins para perceber o ser humano, Economias e afins para perceber o sistema criminal, por exemplo.

Mas quando alguém se mete nisto, rapidamente percebe que "perceber como funcionam as coisas" é só mesmo um chavão para explicar rapidamente o que andamos a fazer. Um investigador pode passar a vida inteira a estudar uma única bactéria, ou proteína, ou animal, ou processo metabólico, ou o que for, e morrer sem nunca perceber como é que funciona.

Não é perceber que interessa, é aprender. Aquele investigador que esteve cinquenta ou sessenta anos a olhar para a mesma coisa de vários ângulos diferentes pode nunca cortar a meta, mas a sua contribuição para a Ciência pode ser digna de Nobel. Novas técnicas, descobertas secundárias, e até eliminação de hipóteses. A próxima pessoa a pegar no mesmo objecto de estudo pode olhar para trás e dizer "bem, não é assim que funciona" ou "olha, não vai ser assim que vou descobrir".

Sim, a Ciência deve ser o único campo em que um tiro ao lado pode ser tão (ou mais) importante do que um tiro certeiro.

Claro que interessa ter objectivos, metas a cortar, e é preciso tentar atingi-las o melhor possível... Todos temos algum objectivo, em todos os trabalhos em que pegarmos,

(a não ser que ainda estejamos a tirar o curso, aí é só trabalho inútil)

e só ficamos mesmo mesmo satisfeitos se o atingirmos. Mas também é legítimo que, não conseguindo, se aprenda bastante, e isso é importante por si só! Pelo menos para mim é, ou não tivesse sido isso a convencer-me. Sim, descobrir coisas, ajudar pessoas, isso tudo... Mas sabem do que é que eu sempre gostei, desde que era uma criatura minorca de olhos esbugalhados? De aprender. E ainda é disso que gosto hoje, e só isso é que me permite manter o mínimo de sanidade mental!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Era uma vez uma faculdade

Que ainda acha normal exigir trabalhos entregues em papel, e só avisar na véspera, e porque alguém perguntou. Até Sexta.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O mundo já é um sítio dividido o suficiente

Guerras e guerrinhas. O meu pais é melhor que o teu. Preciso mais desse petróleo do que tu. Sou mais branco que tu, portanto sou mais fixe. Isso de não seres heterossexual faz de ti menos fixe. Como sou homem, tens que fazer o que eu digo, ouviste mulher?

Um sítio fantástico, este mundo em que vivemos, não é? Até as notícias que valem a pena se perdem no meio de tanta inutilidade e futilidade. Avanços na Ciência, importantes conquistas políticas, valentes feitos humanitários, extraordinárias vitórias sociais, livros que se publicam, filmes que se lançam, música que vai e vem.

Nada interessa, porque algures nos Estados Unidos da América um grupo armado tomou conta de um edifício federal. E porque em quase todas as indústrias, os homens são mais bem pagos do que as mulheres. E porque isto e porque aquilo e acoloutro e sei lá mais o quê. As grandes notícias e os grandes acontecimentos são estas coisas, pessoas de dois (ou mais) lados de uma muralha, física ou ideológica, a chamarem nomes uns aos outros, ou outra coisa parecida.

Enquanto isso, acontecem muitas coisas boas, excepcionais até, mas que mal são notícia. Vivemos num mundo tão dividido que é impossível prestar a devida atenção às coisas boas, quando existem tantas coisas más para resolver. É injusto e desagradável, mas é assim que as coisas são.

E o pior de tudo? Livros e séries divididos ao meio. O que foi, achavam que ia falar de coisas sérias? É que até vou. Isto de dividir as coisas que leio e que vejo ao meio tem muito que se lhe diga.

Primeiro, e isto é óbvio nos livros, existem argumentos bastante racionais relativamente aos livros grandes que são traduzidos. Podemos espernear o que quisermos, mas livro de mil e tal páginas não são objectos fáceis de produzir a um preço razoável. O mercado em língua inglesa consegue aguentar esses mastodontes graças a um público exponencialmente maior e a uma tradição de publicação muito diferente da nossa, em que não há tanto apreço pelo objecto, e portanto aparecem mais edições em formatos mais pequenos, ou com papel de qualidade mais duvidosa, mas ainda mais do que suficiente.

Mas é irritante que para ler algo que posso comprar em inglês por nem dez euros, às vezes tenha de desembolsar mais de trinta para ter a versão completa em português. E digo isto falando como pessoa que gosta muito do livro-objecto… Apenas sou picuinhas em termos de edição com os livros mais espectaculares e especiais. A maior parte das obras podia vir impressa em papel de jornal ou em papiro antigo (o que era brutal, caso alguma editora esteja a ler), que eu não queria saber.

Já as séries são mais difíceis de compreender. Compreende-se que saltem semanas com alguma coisa importante, ou que façam uma pausa durante a altura do Natal e Ano Novo, por exemplo, mas existem muitas séries que fazem uma pausa no final de um ano e que depois só recomeçam praticamente a meio do ano seguinte.

É uma das coisas mais irritantes em que consigo pensar. E nem sequer consigo encontrar argumentos que o justifiquem. Talvez aquela conversa de os espectadores não ficarem tanto tempo à espera de novos episódios? Tretas.

Imaginem que vos começo a contar a uma história. Vocês interessam-se, querem saber mais, provavelmente até estou a caminhar a passos largos para algum tipo de cliffhanger. Agora imaginem que quando lá chego…

Bem, daqui a três meses conto-vos. Não faz sentido, pois não? Sinto-me sempre irritado. Uma coisa é esperar por um livro, ou por mais uma temporada, mas ambas as coisas são feitas de forma a serem relativamente independentes. Têm que ter valor sozinhas, e não só como parte de um todo, algo que não costuma acontecer se forem divididas ao meio. Portanto vão-se todos lixar, pessoas que decidem dividir livros e séries e tudo o que não devesse estar dividido!

Precisava de deitar isto cá para fora. Já estou melhor.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A quântica dos transportes

No outro dia tive uma revelação. Como utilizador frequente dos transportes de Lisboa, passo muito tempo enfiado dentro duma carruagem do Metro ou dum autocarro da Carris. Isto significa que lido todos os dias com os problemas típicos: atrasos nos transportes, falta de lugar, viagens empacotadas, gente mal educada, enfim, toda uma panóplia de coisas agradáveis.

O mais irritante talvez seja aquela incapacidade que as pessoas têm em esperar. Vocês sabem, quando o metro pára e está uma multidão a querer entrar, e ao mesmo tempo uma multidão a querer sair. Aqueles momentos em hora de ponta quando todos os transportes parecem latas de sardinha com rodas, e quando parecem existir mais pessoas em Lisboa do que ruas a subir.

É nessas alturas que o meu eu mais primitivo vem ao de cima, e me apetece desatar à pancada a tudo o que me aparece à frente. Confesso sem grandes problemas que não hesito em forçar a minha saída e a empurrar quem estiver à frente, e até descobri que isso tem uma vantagem que não fazia ideia: as pessoas que empurro já me ensinaram uma quantidade imensa de impropérios novos.

Mas juntamente com a minha raiva contra estas pessoas, fiquei sempre a pensar em algo mais. Afinal, como é que é possível que as pessoas, tão funcionais quanto eu, não consigam perceber que é mais fácil desviarem-se e esperarem que os passageiros saiam do que tentarem forçar a entrada? As carruagens do metro têm limites físicos, impossíveis de contornar. Se uma já estiver cheia, não cabe lá mais ninguém, e se alguém quer entrar, é preciso que alguém saia.

Isto sempre me pareceu tão óbvio que nunca consegui perceber qual era o problema das pessoas. Custa assim tanto esperar uns segundos e depois entrar? Aparentemente sim, mas as razões escapam-me completamente!

Ou melhor, escapavam! Finalmente percebi o que se passava, e o problema é meu e dos outros maganos que pensam da mesma forma que eu. Pobres idiotas, fomos demasiado arrogantes para perceber o que realmente se passa. Falo por mim, como é óbvio, mas acho que em nome de todos os que pensam como eu, quando digo que se não fosse tão teimoso e convencido, já tinha este problema resolvido!

Tudo se resume a uma questão de física quântica. Aquilo que eu aprendi é profundamente idiota, e vocês preparem-se para verem a vossa vida virada do avesso. Sabem aquelas pessoas que forçam a entrada contra tudo e todos, sem esperar um nanossegundo que seja pela saída das pessoas? Sempre lhes chamei uns burros de… do… hum… do piorio, mas afinal são génios sublimados na mecânica profunda e intricada do mundo quântico: eles sabem que é possível dois átomos ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Ou seja, eles resolveram as equações certas e descobriram que é mesmo possível que dois corpos estejam a ocupar o mesmo sítio ao mesmo tempo, algo que consideramos impensável, nós que somos palermas confiantes nesses especialistas em Física que andam por aí nas Faculdades e no CERN e sei lá. Estas pessoas impacientes compreendem que em vez de esperarem podem simplesmente forçar a passagem e ficarem sobrepostos a quem está a sair, sem que isso impeça a dita saída.

Nunca me senti tão burro. Abençoadas sejais vós, oh grandes sumidades da quântica transportacional, e perdoai-me os meus pecados. Nunca mais me vou preocupar nem esforçar por me desviar nem empurrar quem quer que seja, vou simplesmente sair. Afinal, isso não incomoda ninguém, não é?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Sobre essa coisa do Ano Novo

Olhem para o vosso calendário. Agora olhem outra vez para aqui. E agora para o vosso calendário. E agora para aqui. Repararam no que é que aconteceu?

Fizeram figuras parvas. Ah! Desculpem, eu prometo que aumentar a densidade de humor parvo aqui no blog não é uma das minhas resoluções de ano novo. Até porque eu não faço dessas coisas. Resoluções são para os exercícios e os testes. O dia de hoje não é particularmente diferente do de ontem nem do de amanhã.

Eu bem sei que as pessoas, criaturas de hábitos como são, precisam de momentos especiais para orientarem as suas vidas. Sem algo diferente, ainda que ligeiramente e auto-imposto, tudo é igual, tudo se mantém, e isso sem sempre é o que é preciso. Sem mudança, não há evolução. As resoluções de ano novo não passam disso mesmo: um momento de mudança forçada, já que somos demasiado preguiçosos para que essa mudança aconteça de forma natural e gradual.

Lá estou eu a ser amargo, dirá quem me conhece. Lá estou eu a ser arrogante, dirá toda a gente. Não acho que estejam errados, mas… *encolhe os ombros*

Isto até agora não foi mais do que um prelúdio para aquilo que quero realmente dizer: não faço resoluções de ano novo, pelo menos não directamente, mas não tenho problemas em aproveitar o momento para forçar algumas coisas. Só que no meu caso, por mais hipócrita que seja, não são resoluções, é OCD.

Bla bla bla, compreendam, a sério. Há alguma coisa melhor do que aproveitar o fim de um ano e o início de outro para realmente dar início a alguma coisa? É… limpinho.

Como tal, e caso ainda não tenham reparado, bem vindos ao novo QAENCEC, agora mais azul, mais livre, que mantém o seu Twitter e acrescenta uma página de Facebook! Até criei um logo (amador, claro, mas as minhas capacidades artísticas são deveras limitadas) e tudo! Talvez tenha abusado no azul, mas pronto.

Ah, e por “mais livre”, quero dizer, obviamente, que não vou impôr restrições: eu tenho tantas opiniões sobre tantas coisas, mais vale não falar só de livros, filmes e séries. Portanto vou falar daquilo que me apetecer. A maior parte será livros, muito provavelmente, mas são ossos do ofício.

Vou continuar a publicar às Segundas, Quartas, Sextas e Sábados, pelo menos por enquanto, mas sou capaz de mudar para Terças, Quintas e Sábados, conforme correrem as coisas. Também ainda vão haver algumas alterações por aqui, mas vai ser gradual. Quando tiver um tempinho, faço qualquer coisita.

E pronto, era só isto. Que este ano vos corra bem e tudo isso.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A breve história de como o impensável aconteceu


Eu podia ser o rapaz naquela foto. Só que este ano até nem estou tão a morrer como é costume, por esta altura. Já sou mais velho, tenho mais paciência e preocupo-me menos com o que não merece preocupação. Mas o indício fulcral de que eu não sou de facto aquele rapaz, é que é claramente de dia, e ele está a dormir. Ora aí está um desporto que eu já não pratico há anos.

Idealmente, esse coisa de ser noite é um conceito abstracto para mim, uma daquelas coisas improváveis que só acontece aos outros. Quando acordo, já está sol, quando volto a casa, ainda está sol, e a única diferença é mesmo o silêncio que alastra o suficiente para se conseguir ouvir as prendas intestinais dos vizinhos a afogarem-se.

Mas tirando isso, noite? Quê?

Infelizmente, com essas coisas aborrecidas das mudanças de estação e tal, eu agora acordo de noite e chego a casa com noite cerrada por cima de mim. Ou seja, os meus dias, em vez de parecerem infinitamente grandes, parecem infinitesimalmente curtos. Ainda para mais quando tenho de, literalmente, perder tanto tempo com coisas que não me interessam.

Sim, já estou no quinto ano, segundo do mestrado. O último. Já comecei a trabalhar na tese (ainda que lentamente) e estou envolvido numa série de coisas relevantes que me interessam realmente para o meu futuro. Mas sabem o que é que eu passo a maior parte do tempo a fazer?

Coisas aborrecidíssimas de cadeiras que, ou não deviam existir, ou estão ao nível do primeiro ano. É que ainda dão trabalho! Juntem isso às coisas que eu faço porque realmente as quero fazer e, enfim, não tenho tempo para nada. Nem para ler.

...

Pronto, eu confesso, era isto. No meio dos meus afazeres e obrigações, alguma coisa teve que ceder ligeiramente, e foi a leitura. Não me sinto orgulhoso disso, mas já que o ser humano (ainda) não vive tempo suficiente para ler tudo o que quer, também não faz diferença se em vez de ler só 0.5% do que quero, ler só 0.49%. Mais vale despachar as outras coisas, para ficar finalmente livre, do que andar depois a arrastar-me ainda mais.

Foi assim que o impensável aconteceu. Os textos aqui no blog já estão a sair mais depressa do que aquilo que eu consigo ler. Também ajuda que dos últimos livros em que peguei, um tenha sido uma grandessíssima bosta (estou a olhar para ti, Gonçalo M. Tavares) e outro esteja a ser aborrecido, especialmente depois de presenciar o pretensiosismo e ignorância do autor ao vivo. Uma história que fica para depois.

Mas já repararam que na Segunda não saiu opinião de nenhum livro/filme/série? E que hoje se repete essa brincadeira? Pois, não é que eu tenha muita coisa para dizer, tenho é pouca coisa para opinar, já. Bem, para dizer a verdade tenho muita coisa para opinar, mas poucos livros/filmes/séries. Um problema que também será resolvido de várias maneiras no próximo ano, se tudo correr bem...

sábado, 5 de dezembro de 2015

Festival The Padawan Wars


Estive ontem neste evento e fiquei ligeiramente desiludido e ligeiramente agradado. Desiludido por ver pouca gente, pouca publicidade, e nada no átrio. Nem uma banquinha sobre o evento. Dou o desconto de que já era o último dia e as últimas duas horas, mas mesmo assim...

O que me agradou foram as duas conversas: a primeira com o Luís Filipe Silva e a segunda com o David Soares. Assistir a uma palestra do primeiro é sempre um prazer, graças ao enorme conhecimento que demonstra ter, com facilidade, sobre o a ficção científica e o trabalho de ser um escritor.

Já as conversas com o segundo costumam variar de qualidade, mas desta vez esteve maioritariamente bem e foi bom ouvi-lo falar sobre a sua obra e os seus (misteriosos) projectos futuros.

Só não percebi a decisão de ambas as conversas terem formatos diferentes, com Luís Filipe Silva a fazer uma apresentação, e David Soares a responder a perguntas feitas por um moderador. Despropositado, no mínimo.

Resumindo, pareceu-me ser um evento pequeno, muito amador, mas bem intencionado. Era porreiro que se repetisse para o ano, mas não tenho muitas esperanças.

sábado, 28 de novembro de 2015

Ler em diferentes línguas

Uma das coisas que mais gosto de fazer é aprender línguas. Além do óbvio português, já sinto o inglês como uma segunda língua, e ando a dar os primeiros passos no alemão. Sei as bases muito bases do mandarim, sei algumas palavras em francês e italiano, e não costumo ter problemas a perceber castelhano.

Mas ler, ainda só leio em português e em inglês. E já noto diferenças significativas. Torna-se fácil de perceber que nos chamem um país de poetas (embora sejamos muito claramente um país de contistas), já que a nossa língua se dá tão facilmente a tantos malabarismos líricos. É possível brincar com o tamanho e o ritmo da frase de uma forma que é impossível em inglês.

Essa língua, mais utilitária, preza as frases curtas e mais directas. O português é construído de metáforas e outras figuras de estilo. É de facto mais fácil escrever poesia em português do que em inglês, já que as nossas frases são tão mais flexíveis do que as dos ingleses/americanos/por-aí-fora.

Nem sequer quero imaginar a desgraça que é traduzir de uma língua para a outra. De inglês para português até pode ser só acrescentar mais pontos finais e parágrafos, mas fazer o caminho inverso é pedir um bilhete para a loucura. Não deve ser fácil para o pobre tradutor que tem de decepar e subdividir algo que, provavelmente, vai deixar de ter o efeito que era suposto.

Mas se há algo que me interessa ainda mais, é falar sobre as línguas que conheço mal. É uma coisa um bocado misteriosa. Como será ler em alemão? Os meus instintos dizem-me que será uma leitura com mais ênfase nas coisas importantes e muito pouca paciência para tudo o resto. E em italiano? Os meus instintos dizem-me novamente que deve ser algo mais melodioso, que jogue imenso com o ritmo.

Só que eu sei lá. E nem quero imaginar como é que um estrangeiro percepciona leituras portuguesas. Muito provavelmente com o mesmo ar com que eu ficaria depois uma leitura em grego: perplexo. Deve ser algo tão completamente alienígena que nem consigo imaginar. No entanto é algo que considero essencial para realmente perceber um livro. Não só lê-lo na sua língua nativa, como estar relativamente à vontade com a língua.

Ler Saramago ou Pessoa ou outro autor lusófono qualquer, mas traduzido para inglês, por exemplo, deve ser uma experiência bem diferente. Claro que a mensagem e o sentido daquilo que se conta passa, se calhar até melhor do que na nossa língua, mas fica a faltar o ritmo, as brincadeiras com as palavras, os tiques sintácticos que nos são tão próprios...

E a mesma coisa para ler inglês (ou outra língua qualquer) traduzida para português. "Once upon a midnight dreary" nem sequer soa bem, quando traduzido, e é o início de um dos poemas mais famosos e mais valorizados da língua inglesa , The Raven, de Edgar Allan Poe.

Não é fácil. E tanto considero um factor importante, o de ler numa língua ou noutra, que ler encaro a leitura de um livro em duas línguas diferentes quase como dois livros diferentes. Já o fiz algumas vezes, e para mim é mesmo como estar a ler um livro diferente.

Portanto torna-se fácil de perceber qual é uma das minhas razões para querer aprender uma série de línguas que não lembram a ninguém, desde o latim e o grego, ao russo e outras que tais. Quero experienciar certas obras na língua em que foram escritas.

Dito isto tudo, e como nota final, fica um grande apreço da minha pessoa pelos tradutoras e pelos tradutores por esse mundo fora, que têm a tarefa ingrata de traduzir o intraduzível, e ainda ouvir os leitores a queixarem-se!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [2/2]: ou como Gonçalo M. Tavares me fez desistir de um livro pela primeira vez em muitos, muitos anos


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Leram bem. Não acabei o livro. Nem consegui chegar a meio, para ser sincero. Fiquei praticamente onde estava desde a última vez em que falei do livro. E entretanto decidi largá-lo e avançar. Algo que eu já não fazia desde que tinha uns... treze anos. Portanto obrigado, M. Tavares, conseguiste fazer-me quebrar um recorde de nove anos.

Questionemos a minha decisão. Como perceberam com o outro texto, não estava nada satisfeito com o que estava a ler. Não me estava a dar o mínimo de prazer, e a partir de certa altura passei a ver o livro como um empecilho que estava entre mim e coisas que valiam a pena ler.

Não foi uma decisão fácil, por um lado, mas foi simples e deu-me um alívio tremendo, por outro. Depois de quase duzentas páginas lidas, ainda me faltavam mais de duzentas. E o que é que eu estava a retirar da leitura? Nada. Já nem o conseguia analisar minimamente, para depois dizer mal (ou bem, ou neutro, ou chamar nomes). Eram apenas palavras numa folha que eu tinha de ultrapassar para chegar a um sítio melhor.

E quando a leitura começa a ser uma obrigação, está na altura de largar. Já não estou na escola, em que era mesmo obrigado a ler as coisas (se bem que nem por isso, já que os professores de português fazem vista grossa aos resumos e livros de análise de afins). Posso decidir o que leio, e quando é que o faço!

Foi então que num momento de rebelião contra os meus próprios princípios, tirei o meu marcador, fechei o livro e arrumei-o na estante. Poucas coisas nos últimos tempos me souberam tão bem. E ninguém me convence de que este autor é uma ilusão. Um tipo com talento, sim senhor, mas incapaz de escrever algo coerente.

Perdoem-me a comparação, a sério, mas Gonçalo M. Tavares, para mim, é uma versão discreta, com escrúpulos e mais intelectualidade, do Pedro Chagas Freitas. Não há volta a dar. o PCF é um aldrabão e nem sequer o considero um escritor, é um idiota que por ali anda a ganhar dinheiro; não digo tanto do M. Tavares. Mas que é mais uma manobra de marketing do que um escritor realmente bom? Sem sombra de dúvida.

sábado, 21 de novembro de 2015

Não exagerar

Nem sempre se tem grande coisa para dizer. E isso não é mau. Nenhum ser racional pode esperar que todas as pessoas tenham sempre algo de relevante para dizer. Sim, relevante. Dizer alguma coisa é estupidamente fácil. Dizer algo que valha a pena dizer é que não.

Há quem consiga direccionar essas coisas de formas bastante construtivas e úteis para a sociedade. Filmes. Séries. Livros. Outras obras de arte. Trabalho. Princípios de vida. Raramente é fácil, mas são essas pessoas que fazem o Mundo avançar.

E depois há as pessoas que não têm grande coisa a dizer, mas que falam muito. Ou que direccionam os instintos de falar para coisas nada construtivas. Como certos e determinados autores que já deviam ter aprendido que os livros que escrevem não são Testemunhas do Autor, prontos a converter todo e qualquer leitor que lhes passe à frente.

Esses autores, e muita gente, deviam aprender que um corolário essencial da liberdade expressão é o direito a estar calado. E também deviam aprender que é preciso saber quando falar pouco, dizer pouco, e acabar na altura certa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [1/2]: ou como Gonçalo M. Tavares, um dos mais galardoados autores portugueses da actualidade, é também um dos piores


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Este texto é altamente irregular. Uma das coisas que menos gosto de fazer é opinar a meio de um livro. Posso dizer qualquer coisa, mas nunca uma opinião decente: até chegar à última página muita coisa pode acontecer.

Nas raras vezes em que isto me acontece é por causa de uma de duas razões: ou o livro é extraordinariamente bom (e mesmo assim acabo por me desapontar), ou o livro é extraordinariamente mau (e por esse lado, raramente mudo de opinião). E este, caros leitores, trolls profissionais e pessoas do futuro que andam a ler umas coisas deste blog para descobrirem se sou um psicopata ou não (spoiler: eu é mais sociopatia), este é um livro extraordinariamente mau.

E ainda só li cerca 45%.

Pois é, depois da queixa disfarçada de opinião da Mensagem, sejam bem vindos a mais um relativamente longo rol de queixinhas.

Nem sei bem por onde começar... Tenho tanto por onde pegar... Ah, já sei! Que tal começar por dizer que não li um, dois nem sequer três livros deste autor, mas sim quatro, e ainda um conto e algo inclassificável? Pois é, estou novamente a falar com conhecimento de causa.

"Ainda não tens é maturidade para esta escrita invejável!"

Bons olhos o vejam, Sr. Burro da Silva, como vai? Não quero saber. Nem sequer vou fazer de conta que sou simpático consigo, se vem aqui defender o Tavares, aviso-o já de que vai ser trucidado. Pronto, quando quiser, esteja à vontade. Como eu estava a dizer, não estou a dizer nada vindo do ar, e esta crítica é mais uma vez uma crítica informada.

Como tal, avancemos. Este livro foi vendido como uma homenagem e um sucessor aos Lusíadas, e é isso que tenta transparecer por todos os poros: desde o título à edição em capa dura, que lhe dá um ar mais sério e vetusto. A história tem inspirações desse grande épico, está dividida em cantos e escrita em verso, é verdade sim senhor. Mas em vez de homenagem pensem mais em colagem.

É que dizer que este livro é uma homenagem à epopeia de Camões é como dizer que o próximo filme do Michael Bay é uma homenagem a um atentado terrorista qualquer: sim, ambas as coisas só fazem é mal às pessoas nas proximidades, e sim, são ambas igualmente desprovidas de qualquer sentido, mas tirando isso...

Logo à partida, estar em verso ou não estar é igual ao litro. E é preciso muito descaramento da parte de Tavares para escrever o livro com esta estrutura. Basta lerem umas páginas para perceberem que a única coisa que ele fez de diferente relativamente a escrever um livro em prosa foi carregar mais vezes no Enter ou usar folhas mais estreitas. De resto, o verso, que não tem métrica fixa nem rima regular (ou irregular, nada), não serve para absolutamente. Torna-se insultuoso para a obra original, que é uma autêntica ode à capacidade técnica de Camões.

Na prática é o equivalente a eu escrever um livro de poemas, todos ao meu estilo, e assinar cada um com um nome diferente. Já estou a imaginar, O livro triunfal, a maior homenagem a Pessoa e os seus heterónimos. Só que não. É uma mera decisão estilística que foi feita só porque sim, e que ainda por cima conseguiu ser extremamente mal executada.

Depois o que dizer da "história"? A escrita em si nem me aborrece por aí além - tal como em Pessoa(s), encontro algumas passagens que considero dignas de anotar no meu caderno de citações - mas a completa ausência de história em prol de pregos ideológicos que o autor tenta martelar através do meu crânio... Lamento, mas isso dói que se farta.

"Esta juventude de hoje em dia já não sabe apreciar um livro contemplativo, é o que é. Gonçalo M. Tavares é um dos maiores escritores de sempre, tem uma técnica impressionante e um talento imenso, e as obras que escreve são de uma profundidade que os comuns mortais apenas podem imaginar."

Mas tem toda a razão, Sr. Burro da Silva, pelo menos nas duas últimas coisas que disso: o autor realmente tem um talento que me deixa espantado e desapontado por o ver a ser desperdiçado, e os seus livros são odes à profundidade filosófica. Aliás, se a profundidade filosófica se medisse em metros, ia ser preciso inventar uma nova classe de números para medir os livros do Gonçalo M. Tavares.

E o problema é exactamente esse. Os livros são tão, mas tão, mas tão profundos, que sabem o que é que se vê cá de cima, quando se começam a folhear as páginas? Nada.

"Trapaceiro! Ignorante! Tu é que não compreendes o que o autor quer dizer!"

Por uma vez concordamos. Eu sou de facto uma pessoa com inclinação para fazer batota, não sei assim tanta coisa quanto isso, e não compreendo PEVAS daquilo que este autor me quer dizer. A única coisa que retiro dos seus livros, para além das ocasionais citações interessantes, é que estou perante mais um autor que se está a borrifar para os leitores. Ou melhor, que está a cultivar um grupo de leitores muito específico, um grupo intelectual de intelectualidades muito intelectuais, que só são capazes de ler obras que avancem a espécie humana e que estejam rotuladas como OBRAS-PRIMAS, CLÁSSICOS e NOBEL.

É pena. Lá está, acho que o Gonçalo M. Tavares é um dos melhores escritores da actualidade. Mas mantenho-me firme na minha opinião de que é um dos nossos piores autores.

Já se tenho maturidade ou não para para dizer estas coisas, como o Sr. Burro da Silva tão bem questionou ali em cima, a única coisa que vos digo é: se tudo correr bem nunca ninguém vai achar que eu tenho propriamente maturidade suficiente para o que quer que seja. Gosto demasiado de brincar com Legos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mensagem, ou a longa e chateada opinião sobre um livro que, coitado, não tem culpa nenhuma


Autor: Fernando Pessoa


Opinião: Aconteceu um milagre! A sério! Para quem me conhece isto vai ser chocante, eu sei, mas espero que aguentem. Para quem não me conhece, eu explico, em termos simples e simplistas: eu odeio tudo o que o Pessoa (e derivados) escreveu. Mas desta vez, nesta releitura em específico apercebi-me de algo diferente, finalmente caí em mim e dei conta que... Estava a brincar. Odiei na mesma.

Qual é o problema disto? É que há uma lei algures num tomo obscuro num canto obscuro duma biblioteca obscura, que proíbe um português de não gostar de Pessoa. Oh, não me venham com tretas, eu sei do que falo. Entre as pessoas com quem me dou, assim de repente, só conheço uma que leia tanto como eu, e de forma ainda mais diversificada. E é difícil apanharem-me em falso numa conversa sobre livros e literatura, que eu tenho sempre muito a dizer.

Ou seja, sou um tipo informado e que percebe do assunto, quer a minha professora de História do nono ano queira ou não (velhas quezílias). E no entanto sabem o que é que acontece se eu disser que não gosto de Pessoa?

"Ainda vais a tempo!", "Não sabes o que é Literatura.", "É porque não percebes, só pode.", "Olha aqui esta parte, isto não é lindo? Como é que podes não gostar?", "Quando cresceres vais perceber.".

E a lista continua. Eu raramente respondo de forma (muito) agressiva, mas sabem o que é que me passa pela cabeça?


Sim, sem tirar nem pôr. Pelo simples facto de que, por muito arrogante que eu seja, ninguém pode negar que eu percebo de Literatura, mesmo que assumam que todo o conhecimento que eu tenho do assunto passou para a minha cabeça por osmose, de tanto queimar as pestanas. Ainda por cima quando eu sou o primeiro a realçar, e a admirar, o génio de Fernando Pessoa. O homem era, de facto, brilhante, e tinha uma mente como se fazem poucas. E não é preciso ser muito esperto para perceber que o homem tinha talento - desafio-vos a tentarem escreverem textos como se fossem três pessoas diferentes, mas ao ponto de que uma pessoa que leia consiga distinguir claramente uma personalidade distinta para cada uma dessas personagens, que têm os seus estilos e peculiaridades muito próprias.

Pessoa fez disso às dezenas. É impossível consegui-lo sem se ser um génio, um esquizofrénico ou, e esta é a minha versão favorita, um bocadinho dos dois.

Portanto eu, como toda a gente com dois dedos de testa, sou da opinião de que o homem era um génio e que merece de facto ser mencionado como uma das maiores personalidades portuguesas de sempre. Apenas não gosto das coisas que ele escreveu.

Desculpem, mas eu sou um tipo chateado que anda particularmente chateado. Este longo preâmbulo serve para mostrar que quando eu digo que a Mensagem é uma leitura de casa de banho, não o estou a dizer só porque sim. Digo-o de forma provocativa, mas sei bem o que estou a dizer. A releitura não me convenceu.

Eu até consigo encontrar pedaços que aprecio. Enquanto citações. A sério, o livro está cheio de marcadores autocolantes de um laranja brilhante a apontarem para sítios à espera de serem transcritos. Mas como um todo, sabem o que isto é? Uma resposta melancólica a Os Lusíadas, e pouco mais.

"Sim, Luís, tens razão, nós já fomos os maiores. E sim, Luís, tens toda a razão, agora somos uns nhonhas. Mas sabes que mais? Ainda vamos ser os maiores outra vez, olha aqui o potencial, olha, olha aqui, oh para este povo cheio de potencial, até já nos deixámos de confiar em reuniões departamentais dos deuses, e criámos os nossos próprios mitos! Somos DIVINOS, olha para nós, estamos tristes por já não sermos o que fomos, mas potencial! NÓS SUAMOS POTENCIAL PELOS NOSSOS POROS, LUÍS!!"

Enfim. O livro está escrito com a mesma simplicidade técnica da poesia do ortónimo. Não, não é a simplicidade de quem recusa a máquina da complexidade estilística e quer quebrar barreiras; é a simplicidade de quem estava tão perfeitamente convencido da sua genialidade que sabia que podia não ter demasiado trabalho.

O tipo era óptimo a encadear palavras para que as frases soassem bonitas, mas era péssimo a encadear frases para que as ideias soassem a alguma coisa palpável. É por isso que a sua prosa era entediante, no mínimo, e é por isso que se dava melhor com a poesia, o formato literário em que a forma se sobrepõe ao conteúdo.

A lengalenga que nos vendem na escola é que isto é a melhor coisa de sempre. Só que não. E quem contraria é crucificado ("booo, boooo, estás a exagerar"... pois estou). Infelizmente este autor, e a grandiosidade da sua excelsa obra, já estão instalados e fazem parte da mobília. E é pena. Porque há muito bom autor, entre romances, contos, teatros e poesia (se eu tivesse paciência para procurar estes últimos), que merecia ser estudado. E em vez disso, paletes de Fernando Pessoa a serem-nos enfiadas pelas sinapses adentro! Nem digo para o eliminarem do programa, mas caramba, variem um bocado a coisa e...


Fiquemos por aqui.

sábado, 14 de novembro de 2015

Sr. Burro da Silva, o leitor hipotético


Lembram-se deste texto, sobre suspensão da crença? Foi lá que nasceu o Sr. Burro da Silva, um ser imaginário que fez sucesso entre quem acompanha o blog. Na altura não pensei muito nisso, mas a pedido de uma imensa quantidade de famílias (duas pessoas) decidi que não era má ideia fazer deste meu amigo abstracto um membro regular dos meus textos.

Mas quem é, afinal, o Sr. Burro da Silva? Qual o motivo do seu nascimento? Porque é que se chama assim? E qual vai ser o papel daqui para a frente?

Para começar, o Sr. Burro da Silva é uma criatura conceptual que condensa na sua não-existência todas as características possíveis e imaginárias que me irritam noutras pessoas. Especialmente no que diz respeito a escrita e leitura.

É que, digamos, como alguém que sempre teve opiniões fortes, e que não tem vergonha de ler e escrever o que muito bem lhe apetece, pessoas a gozarem comigo por causa disso é o pão nosso de cada dia, há anos. Às vezes nem é gozar, é mesmo menosprezar.

Este Sr. Burro da Silva é um leitor hipotético que simboliza, de uma forma geral (mas também particular), pessoas que me irritam. O que quer dizer que se significados simbólicos se medissem numa qualquer unidade de massa, o Sr. Burro da Silva seria um indivíduo imaginário deveras gordo.

Felizmente este meu amigo mora num espaço abstracto e meramente conceptual, com o objectivo de ser puxado da cartola sempre que precisar de dialogar com alguém para explicar melhor alguma coisa a quem lê estes textos que teimo em publicar por aqui.

"Sirvo para quê, repete lá?"

Ora se não é o próprio Sr. Burro da Silva! Bons olhos mentais o vejam, ainda bem que voltou do seu retiro intelectual chamado Fantasia não é Literatura: se eu quisesse ler coisas irrealistas ia ler os acordos do PS com o BE, o PCP e o PEV.

Sim, ele é agressivamente de direita, em termos políticos. Nem sequer um PSDzito, é mesmo CDS-Paulo-Portas-é-um-deus-irrevogável. Mas deixemos a política fora destas coisas! Como vai, Sr. Burro da Silva?

"Estou confuso."

Não me surpreende. A única coisa que consegue estar mais vezes do que surpreendido é perplexo, e acho que é só porque pensa que querem dizer a mesma coisa. Mas não se preocupe que eu explico rapidamente: agora trabalha para mim!

"Ai sim? Por alma de quem, seu rabilas que lê Stephen King e gosta de Dan Brown?"

Tenha calma, que ambos esses autores tendem para fast food, mas Stephen King é mais uma espécie de hamburgueria gourmet, enquanto que Dan Brown é um McDonalds daqueles gordurosos e mal encarados. Não interessa. Fico mais curioso com o facto de não gostar de Dan Brown...

"Aquilo não é literatura a sério."

Bem, até concordo. É repetitivo, como o Nicholas Sparks, e o tipo estica-se demasiado a escrever. Mas, e não me orgulho muito desse facto, mas também não me envergonho particularmente, até gosto bastante de um livro dele, Fortaleza Digital, ou pelo menos lembro-me de gostar, que já o li há uns anos largos.

"Bah. Ainda por cima a compará-lo com o génio literário que é o Nicholas Sparks."

Como?

"Nicholas Sparks! Um dos maiores escritores vivos, com histórias tocantes, bem escritas, originais!"

Que... Ah, calma. Já sei. Também não gosto de pessoas que não são coerentes. Isto vai ser divertido. Sr. Burro da Silva?

"O que foi?"

Pode regressar para a sua casa conceptual e ler... bem, o que andar a ler agora.

"Estou a fazer uma maratona pelas notas de rodapé e os anexos dos livros do David Soares! Aquilo sim, vale a pena."

Está bem, então. Adeus, até à próxima.

Como podem ver, o Sr. Burro da Silva é uma óptima desculpa para eu gozar com as coisas e fazer de conta que tenho piada. Não sei quando é que ele volta, mas há-de voltar de certeza absoluta. Por agora não percam o próximo episódio, porque nós... também não!

sábado, 31 de outubro de 2015

Suspensão da crença: a importância da coerência e a irrelevância do realismo

O título é só para parecer mais intelectual. A sua tradução para português-não-snob é algo como: "quero lá saber se está errado, quero é saber se faz sentido". O que também não parece ter muita lógica, mas eu passo a explicar.

Imaginem que pegam num livro que diz, logo na primeira página, que a civilização ruiu completamente no meio de um apocalipse zombie. Imaginem agora que alguns capítulos à frente os protagonistas vão tomar um café ao último Starbucks funcional do mundo. Ou estamos perante uma comédia que tem consciência do ridículo do que nos está a contar, ou isto é estúpido.

Agora imaginem que o livro em que pegam a seguir vos diz, também na primeira página, que a sociedade do livro se governa à base de duelos, e que depois um cliente de um restaurante desafia o cozinheiro para um duelo porque a comida estava salgada. É idiota? É. Mas é minimamente coerente!

Pronto, está bem, estes dois exemplos não são muito razoáveis, mas foi o que se arranjou sob pressão. Conhecem o significado da palavra extrapolar? Pois extrapolem. Extrapolem à força toda. Ignorem os detalhes dos meus exemplos, e percebam a ideia que quero passar com cada um deles.

Muitos dos livros que leio estão muito longe de serem denominados realistas. Ora dá para viajar mais depressa do que a luz (algo que talvez não seja assim tão irreal, num futuro não tão distante quanto isso), ora existem criaturas sobrenaturais estranhíssimas, ora é possível consumir vários tipos de metal para se ter algum tipo de poder especial... Uma série de coisas impossíveis bastante óbvias, e outras menos óbvias.

Estes são alguns dos motivos favoritos de muita gente, incluindo algumas pessoas que conheço, para dizerem que não gostam de ler o tipo de coisas que eu leio normalmente. Se bem que eu leio tanta coisa que não é fácil fazer uma média. Dizem que aquilo não é real, e que portanto não tem valor literário. E outras coisas que tais.

Eu normalmente pergunto-lhes se só lêem autobiografias e relatos históricos, mas como já não me levam a sério à partida, limitam-se a achar que estou a gozar com elas, e ignoram-me. O tom de voz repleto de basófia com que costumo fazer essa pergunta claramente não tem nada a ver com essa reacção das pessoas.

O que faço a seguir é assumir a premissa dessas pessoas - que estas histórias não são reais - e explicar-lhes calmamente que isso não interessa para nada. Idealmente, a seguir a isso eu explicaria o meu raciocínio, mas não costumo sequer chegar a essa fase. Para perceberem, vamos assumir um leitor hipotético, o Sr. Burro da Silva.

Este nosso amigo abstracto diz-me algo como "Sabes lá o que é ler um bom livro, nem me venhas com essas tuas conversas." e eu olho para ele com um ar sábio, calmo e ponderado e respondo com um tom de voz apaziguador: "Olha lá, cara de rabo, quem é que tu pensas que és? Já devo ter lido mais livros este ano do que tu na tua vida toda!"

Ajuizado como sempre. É então que o Sr. Burro da Silva decide começar a disparar nomes de escritores clássicos e obscuros a uma velocidade impressionante. Após uns vinte ou trinta nomes, lá se lembra de um que não conheço e exclama, hipoteticamente triunfante: "AH! AH! Como é que queres dizer que és um leitor a sério, nem conheces a [inserir nome de autora que ninguém conhece]!"

A minha hipotética reacção é enfiar o Sr. Burro da Silva numa caixa, fazer uns buraquinhos para as orelhas e começar a minha calma e completa dissertação sobre técnicas narrativas e coerência de enredo.

Em termos muito simples, aquilo que eu comecei por dizer é a mais pura das verdades. Um livro não tem que fazer sentido per se, nem tem que aderir às leis da Natureza que nós conhecemos. Apenas tem que ser coerente com a utilização das suas próprias regras. A chamada suspensão da crença (suspension of disbelief) depende, e muito, disso mesmo.

Muitas vezes até nem é de forma óbvia e particularmente explícita, mas as pessoas reparam que está ali algo que não faz muito sentido. Quebrar as regras internas da história é dizer às pessoas que o mundo e a história que estão a conhecer é uma falsidade completa, e ainda por cima mal feita, pois nem tem a capacidade de distrair alguém.

Um excelente exemplo de como a coerência narrativa é importante e adiciona uma quantidade de dimensões a um livro que fariam invejar qualquer tesseracto que se preze, é Brandon Sanderson e os seus sistemas de magia. Têm regras, e têm limitações. E se uma personagem tem a capacidade de empurrar metal, pode saltar alturas inimagináveis, e até quase voar, desde que a peça de metal em que se está a apoiar seja mais pesada, esteja mais fortemente fixa, ou tenha um apoio tal que a torne mais pesada do que a pessoa que está a usar o poder.

Fantástico! Coerência! Curiosamente, e acho que as pessoas que acusam o Fantástico e afins de falta de realismo deviam tentar perceber isto, este tipo de coisas acaba por dar credibilidade à história. Torna-a mais realista. Não no sentido de "isto até podia acontecer", mas no sentido de "isto é uma realidade paralela em que isto é possível, e tudo bate certo com isso". O que, só por si, já é impressionante!

Por isso é que não me importo de ler uma história em que alguém tenha conseguido neutralizar a gravidade no nosso planeta, desde que as coisas comecem a flutuar pelo espaço fora. Se houver coerência, não me custa nada aceitar a história, algo que já é bem mais difícil de acontecer se a história é apenas estúpida.

Até o hipotético Burro da Silva acena que sim. Se bem que, possivelmente, por medo, mas isso já são pormenores.

sábado, 10 de outubro de 2015

Originalidade


Ser original não é muito fácil. Fazer algo novo, diferente o suficiente do que já existe, e ainda assim interessante o suficiente para cativar a audiência... É trabalho complicado. Eu ainda por cima estou na situação privilegiada de estar activamente envolvido em dois mundos em que isso é notório, bem como as suas consequências: a ciência e as letras.

Há um enorme cuidado no que a originalidade diz respeito, não só a nível de trabalho, mas também a nível de artigos científicos e até do próprio desenvolvimento das ideias. E, claro, a literatura também tem os seus polícias do plágio enraizados em cada leitor, sempre à cata da mais pequena falha desse género.

Mas é preciso esclarecer já que falta de originalidade não implica plágio. Uma coisa é não saberem o que escrever a seguir, e então escrevem algo previsível, simples e que já foi contado milhares de outras vezes em tantas outras histórias; outra é chegarem à mesma situação, pegarem num livro das vossas estantes, e copiarem meia dúzia de parágrafos e declararem-nos como vossos.

A primeira opção é fraca e pouco interessante, mas a segunda é criminosa e imoral!

No entanto também é preciso ver que isso da originalidade não cai do céu. Não é difícil que pessoas parecidas, a passarem pelo mesmo tipo de ambiente social e tudo o mais, acabem por escrever coisas parecidas. E isso não é plágio, como devem imaginar. Também tenho dificuldade em chamar-lhe "falta de originalidade", mas na verdade é o que é.

Esse conceito, para mim, significa algo tão simples como "dadas as mesmas condições, arranjar uma solução diferente". Pode fazer mais ou menos sentido, e dependendo do que estivermos a falar, ser mais ou menos legítimo enquanto solução, mas isso é quase secundário. Burocracias mentais, se assim quiserem.

E é exactamente por isso que é tão complicado ser-se original. É preciso ter uma mente que nos permita ver para lá daquilo que os outros vêem. Ou pelo menos é preciso ter a mente suficientemente aberta a que isso aconteça.

Como isso dá algum trabalho, as pessoas caem facilmente nos facilitismos. Para um cientista/engenheiro/pessoa genérica de ciências, há confiança de que um professor não vai verificar todas as referências e  não vai dar conta que lá no meio do texto aparecem dois parágrafos novos que resolvem tudo. Portanto é muito fácil ir buscar os ditos parágrafos a quem já o disse, e melhor, e simplesmente usar.

Isso é plágio. Depois há aquilo a que eu chamo de plágio moral, que é o que o Fifty shades of grey é em relação ao Twilight. A história, mesmo tendo em conta pouco mais do que as sinopses, são sobre uma rapariga peculiar de alguma forma que se apaixona por alguém "superior" a ela e aceita as condições dele sobre a relação, sem ai nem ui.

Felizmente isto são coisas (relativamente) isolados e (relativamente) pontuais, o que quer dizer que o que não falta por aí são livros de qualidade. Já se são originais ou não, deixo ao vosso critério.

sábado, 3 de outubro de 2015

Esforcei-me para falar de livros, a sério que me esforcei

Mas está-me a parecer impossível fugir ao tema do momento: as eleições de amanhã. Aquele momento que muitos esperam com ansiedade, e que outros tantos apelidam de "o momento em que vai ficar tudo na mesma". Amanhã é o dia em que é suposto levantar o rabo do conforto precário para pôr uma cruzinha num quadradinho.

Para quê?, perguntam os muitos que não vão votar, Não há ninguém que valha a pena!, exclamam aqueles que votam em branco, Nem sei bem, são todos tão iguais..., balbuciam os indecisos, VOTA NO MESMO QUE EU!!!, berra quem já escolheu partido e o vai defender com unhas e dentes.

E no fim o mais provável é que realmente fique tudo na mesma. A dicotomia PS-PSD (agora com uma indecente, desavergonhada e descarada contribuição do CDS) é a telenovela favorita dos portugueses, e uma que promete longevidade. E é um facto inegável que esta luta de poder é uma coisa entre centro e direita, com o PS já muito esquecido das suas raízes de esquerda e mais entregue às directivas europeias, que continuam a virar à direita, sem qualquer pudor.

A esquerda lá fica esquecida, renegada por um povo que deve a sua liberdade à coisa mais esquerdista de sempre: uma revolução militar pacífica para derrubar um governo quase abertamente fascista. Claro que a esquerda de antigamente não é a esquerda de hoje, embora andem aí a surgir algumas caras que se esforçam, mas dá que pensar.

Antes de avançar gostava de fazer a ressalva que aquilo que eu percebo de política advém de três fontes: as notícias que vejo ao jantar, livros de ficção (normalmente medievais), e humoristas como o Jon Stewart do The Daily Show e os Gato Fedorento, que parecem gostar mesmo dessa coisa de gozar com políticos.

Dito isso, acho triste que no meio deste aparato todo, as pessoas se vão esquecendo daquilo que deviam discutir: as ideias. Toda a gente fala da pizza do Sócrates, ou da mulher doente do Pedro Passos Coelho, ou de como a Catarina Martins é a única mulher candidata ao cargo e outras mil coisas, mas ninguém fala das ideias que estão por detrás desta gente todo.

Também toda a gente ignora a figura abjecta, labrega, descarada e completamente despropositada que é o Paulo Portas. A sério, estamos a falar de um tipo cuja contribuição para a história política do país é um conto de corrupção que termina em águas de bacalhau por obra e graça do espírito santo, e que num dos momentos mais críticos da nossa História promete instabilidade política se não o promoverem de Ministro duma porcaria qualquer a Vice-Primeiro-Ministro. O que é que ele queria, um gabinete maior? Um carro mais bonito?

A sério, digam-me qual é o trabalho dele? Acenar com a cabeça quando o primeiro-ministro fala? Servir como embaixador do poder em todas as feiras portuguesas possíveis e imaginárias? Se há tipo que me enerva no panorama político actual, é este. Nunca vi ninguém tão sedento de poder e tão explícito quanto a isso.

Não tenho ilusões, e sei que a maior parte dos políticos são exactamente assim, mas ao menos disfarçam um bocadinho. E sou perfeitamente capaz de conceder que para umas coisas precisamos de ideologias de direita e para outras precisamos de ideologias de esquerda. Nada contra. Eu também não vou dar consultas ao hospital, nem um médico vai tentar construir um electrocardiograma com o que quer que eu tenha ali na gaveta. Mas o Paulo Portas é a personagem manhosa da história, aquela pessoa que anda lá sempre, de sorriso em punho, sem qualquer vergonha quanto à sua inutilidade.

Ainda por cima isto é algo que funciona muito bem em democracia: diferentes opiniões e diferentes perspectivas a trabalharem em conjunto para um bem comum. É por isso que as decisões são tomadas no Parlamento, com representantes de todos os partidos. Ou pelo menos era isso que acontecia se estivessemos de facto a viver numa democracia. O que acontece é que o Parlamento não é mais do que um recreio gigante com 230 cadeiras para onde os partidos vão jogar Risk.

É por isso que é notícia quando há pessoas como a Mariana Mortágua, a Catarina Martins, a Heloísa Apolónia e outros tantos, que se levantam e fazem o que é suposto: argumenta, contra-argumentam, chamam imbecis e nomes vários a algumas pessoas, dizem o que têm a dizer, e depois sentam-se tranquilamente. Só que até isso é transformado num circo, e se querem provas basta relembrar o historial de insultos infantis e de infelizes demonstrações de imaturidade que se revelam no Parlamento.

Só que quer dizer, isto é pouco, não é? O desconhecimento das pessoas em geral deste tipo de coisas é assustador. A quantidade massiva de pessoas de todas as idades que não faz ideia do que raio se está a passar a nível político no país é mais do que preocupante. Não, não é só jovens, é mesmo gente de todas as idades. As massas são abanadas pelas demagogias dos partidos, que são cada vez mais descaradas, e optam pelas saídas fáceis: ficar em casa ou votar nos mesmos. Já que tanto faz, ao menos que seja um a quem eu já conheça as manhas, não é?

Não, não é. Mas eu nada sei disto, e pouco posso fazer para além de votar bem. O que é essa coisa de votar bem, que alguns partidos até usam como slogan para dizer que votem neles? Votar bem não é votar em A, B ou C, especificamente. Votar bem é não só votar, mas votar em consciência, para que os resultados sejam de facto representativos daquilo que Portugal quer, e não daquilo que 30% de Portugal quer.

sábado, 26 de setembro de 2015

Sobre o empreendedorismo

Esta semana tive uma aula sobre empreendedorismo. Foi o primeiro seminário de uma cadeira deste semestre, e foi ridícula. A própria noção actual de empreendedorismo faz-me comichões, mas esta aula/palestra conseguiu tocar em quase todos os pontos que me fazem abominar esta tendência.

Mas o que é, afinal, isto do empreendedorismo? A definição dada na aula foi algo como "ir atrás de uma oportunidade sem preocupação com os recursos que se controlam na altura". Que é como quem diz "gastar mil euros quando só se tem um". A ideia até podia nem ser das piores, tendo em conta que estamos basicamente a falar de correr riscos e podemos ir daí para um controlo preciso do dinheiro que sai e dinheiro que entra. Controlar esse fluxo ao máximo, não no sentido de maximizar ganhos e minimizar gastos, mas sim no controlo de quando é que essas coisas acontecem, pode ser a solução.

Claro que eu não percebo nada de finanças, economia e mercados de uma forma geral, portanto as coisas que eu digo sobre estes assuntos são baseadas em lógica, o que faz delas não aplicáveis à vida real.

No entanto percebo relativamente bem este fenómeno do empreendedorismo. Estamos a viver numa fase de massificação tão avassaladora, que começámos a retroceder. Há cada vez mais o ressurgimento de coisas antigas, e o aparecimento de coisas personalizáveis, ou únicas. Basta olhar para os livros. A oferta é tanta que já nem sabemos bem para onde nos virar. Começam a formar-se monopólios. Para um livro ser publicado, ou tem vendas garantidas e portanto grandes tiragens e preço decente, ou então tem um preço absurdo, que talvez seja balançado com um "edição limitada".

É aqui que entra o empreendedorismo, como pai da Chiado "Editora" e outras que tais. Agora, por módicas quantias, qualquer pessoa pode ser um autor publicado. Esses autores, bons ou maus, são todos uns palermas por se meterem nisso, mas a Chiado? A Chiado é empreendedora. Aliás, eu acho que se fossemos analisar esta "editora" de um ponto de vista de negócio, tínhamos aqui um caso de sucesso como há poucos!

O modelo de negócio, em termos simples, é que eles publicam, sim senhor, se o autor pagar x, e/ou se comprar x exemplares. Cria-se assim, ao mesmo tempo, uma oferta completamente diferente de tudo o resto, e vendas garantidas. Imagino que só uns cinco ou dez por cento é que vendam muito mais do que esses exemplares comprados pelo autor, mas por cada mil paspalhos há um Pedro Chagas Freitas, outro empreendedor profissional, que vende que nem pãezinhos quentes, por razões que me escapam.

Este modelo de negócio significa que (e volto a frisar que não percebo nada disto), muito provavelmente, a Chiado manda fazer um certo número de exemplares, vende um certo número de exemplares ao autor suficientes para cobrir os custos e ainda fazer lucro, e todos os outros livros que vender, por poucos que sejam, são lucro puro e duro.

Aqui é fácil que as opiniões comecem a divergir. Há quem chame a isto empreendedorismo, eu chamo-lhe fraude.

A Chiado é o exemplo que conheço melhor e que acho que percebo minimamente, mas há muitos mais casos de "sucesso" que não passam disto, fraude, ou então de falsa inovação e originalidade vazia.

Só que é isso que é o empreendedorismo hoje em dia. Não interessa a formação que temos, não interessa aquilo que gostas de fazer, se surge uma oportunidade, inventa, e segue. O limite é quando surgem os dois tipos de pessoas deste tipo de coisas que mais me fascinam: os empreendedores profissionais e os porta-vozes do empreendedorismo.

Falar dos primeiros é falar do Pedro Chagas Freitas, um tipo praticamente incapaz de escrever duas frases coerentes com qualidade literária, que se farta de ganhar dinheiro à custa da escrita, mas também de pessoas cuja vida é gerir dinheiro e ideias de outras pessoas para criar empresas, sem saber nada de como funciona o produto/serviço que a empresa oferece, simplesmente com o objectivo de as fazer ganhar muito dinheiro que lhe possa ir parar aos bolsos.

Falar dos segundos é falar de todos os idiotas que andam por aí a dar palestras sobre empreendedorismo. Aquela malta motivacional, normalmente todos muito modernos e despachados, com respostas rápidas, humor e um discurso tão vazio de conteúdo que até flutua no ar.

Eu estou farto de uns e de outras, e esta aula que tive esta semana apenas conseguiu relembrar-me desse facto. A quantidade de clichés, frases feitas e informação infundada é tanta que tenho a certeza que já deve dar para abrir uma empresa à volta disso e começar a fazer dinheiro.

Tenho uma ideia melhor: que tal deixarem-se de merdas e fazerem algo realmente produtivo para a sociedade?