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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Que as citações nos caiam em cima [57]


"Há estrêlas de primeira, segunda e mais grandezas, outras cuja classificação é difícil de fixar e ainda outras que os sábios estão por descobrir. Muito parecido com o que se passa com as pessoas. Se houvesse só uma estrêla no céu, os homens matavam-se todos uns aos outros cá em baixo. Foi preciso prometer-lhes que havia uma para cada um."

Nome de Guerra
Almada Negreiros

Nome de Guerra


Autor: José de Almada Negreiros

Sinopse

Opinião: Finalmente peguei em alguma coisa de Almada Negreiros. Nunca foi um autor que me parecesse particularmente interessante, e ainda por cima a única coisa dele de que se fala na escola é o Manifesto Anti-Dantas, à qual faço alergia onomatopeica.

Mas graças à exposição actualmente presente no Museu da Electricidade, onde estou a estagiar como guia desde Novembro, fiquei honestamente interessado. Afinal o homem foi uma figura muito mais fascinante daquilo que eu pensava!

Felizmente tinha este livro, numa edição fac-símile. Foi só juntar dois mais dois. E tentar controlar as baixas expectativas. Por muito que o homem tenha sido fascinante, aquilo que estava a conhecer dele dizia-me que eu talvez não fosse o maior fã da sua prosa.

Não podia estar mais errado. E porquê? Porque o tipo era peculiar. Não era estranho, não era bizarro, não era excêntrico, era peculiar. Podem ver aqui um pedaço duma entrevista dele, para verem como é que ele era a falar. Já está? Óptimo. Sabem o que é que é incrível? Ele escreve assim. Tem um ritmo muito próprio, e dá um ênfase muito marcado ao discurso, muitas vezes a coisa a que não estamos à espera.

Neste livro isso acontece com a própria narrativa principal, que tem quase uma importância secundária face às reflexões e particularidades do narrador. De tal forma que nos primeiros capítulos eu achei que isto não ia ter história, que ia ser só uma espécie de ensaio com muita reflexão. Novamente, não podia estar mais errado.

O livro tem uma história, um estranho amor entre Antunes, um rapaz atadinho e que os pais despacham para um familiar para ver se fazia dele um homem, e Judite, uma rapariga com um dia-a-dia, digamos, duvidoso. Entre fixações completamente aleatórias, algum desprezo e muito mel, a coisa dá-se e desdá-se, e no fim quase tudo fica tal e qual como começou.

O Antunes começa por ser um panhonha que fica apanhadinho pelo Judite quase instantaneamente, e que, por sua vez, não é flor que se cheira. Não deixa de ser interessante ver as aventuras e desventuras de Antunes e Judite (principalmente Antunes), tudo por causa da insistência da rapariga para que não dissessem nada aos pais e simplesmente zarpassem dali para fora.

A prosa demasiado activa não é das minhas favoritas, antes pelo contrário, mas  a verdade é que assenta muito bem com aquilo que Almada quer contar. Ou será que é ao contrário? Ajusta-se a narrativa em função da prosa? É uma possibilidade, de tão científico que este homem era, mas sinceramente não sei.

Aquilo que sei é que aconselho vivamente este livro. É preciso algum estômago intelectual para ir lendo isto com o mínimo de atenção, mas é uma leitura bastante recompensadora!