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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Orlando - O caracol apaixonado


Texto: Sérgio Mendes
Arte: Elias Gato


Opinião: Não sou a pessoa mais imparcial para falar deste livro. Os desenhos foram feitos por um amigo, o grande Elias Gato, um tipo versátil e com talento para dar e vender, tanto no desenho, como na escrita.

O desgraçado tenta, e tenta e tenta, e raramente desiste. A sua capacidade acaba por ganhar, e acaba a ganhar prémios milionários (sim, tu és rico, paga-me lá o jantar) e a ver o seu trabalho publicado e à venda por todo o país. É merecido, sem sombra de dúvida, e era preciso terem estado no lançamento lisboeta para ouvirem o discurso dele e perceberem o quão importante isto é para ele.

Eu compreendo-o. É ver o trabalho recompensado. Poderá haver algo melhor para alguém? Especialmente para alguém que se dedica a um meio e a uma actividade com relativa pouca expressividade nacional? Melhor que isto, agora, só publicar mais!

Pela minha parte, li o livro, e tenho coisas a dizer. A começar pelo texto e pela história, ambos para lá de fracos. O autor, o Sérgio Mendes, que me desculpe, até é quase meu conterrâneo (é de Guimarães) e pareceu-me uma pessoa simpática e agradável, mas a história tem falhas imperdoáveis. E a quantidade de texto por página? Terrível!

Essa parte, imagino, não será inteiramente culpa do autor, mas também da editora, só que... Pronto, é uma quantidade ridícula.

Depois há o caracol que usa o Facebook para conhecer a namorada, e que tanto é surdo que nem uma porta como ouve perfeitamente pessoas do outro lado da janela a darem instruções sobre a internet, e temos ainda a velhinha que se transforma numa osga, depois de ver que alguém lhe entrou em casa e lhe deixou um recado no computador que a faz ir atrás dessa pessoa até ao Algarve, sem fazer a mínima ideia de quem tenha sido.

Enfim, há coisas muito estranhas a acontecer na história, e se o livro se torna minimamente agradável é graças aos desenhos do Elias, que são muito bons e bastante adequados e apelativos para crianças. Só tenho dois pequenos problemas, dos quais já falei com ele: os narizes das personagens dele são sempre... peculiares; o caracol tem os olhos no sítio errado.

Tirando isso, Orlando - O caracol apaixonado acaba por ser um livro que vale a pena comprar. E mesmo que não valesse, eu ia-vos dizer a mesma coisa, que o Elias merece que o trabalho dele seja visto e tenha divulgação. Parabéns Elias!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Nos Limites do Infinito


Autores: Ana Luiz, Ângelo Teodoro, João Rogaciano, Ricardo Dias, Rui Bastos, Yves Robert


Opinião: Sou um pouco suspeito para comentar este livro. Tem um conto meu! Mas como é uma antologia com contos de cinco outras pessoas, tive que ler.

Já conhecia todos os autores de outras obras, mas o mais importante antes de abrir o livro é notar que tem lombada, apesar de ser fininho, com as suas pouco mais de sessenta páginas. Parece algo idiota de se fazer notar, mas para mim foi uma vitória.

A segunda coisa em que é preciso reparar é nas ilustrações, que são muito boas e fazem deste livro o mais bem-parecido desta jovem editora, com uma capa branca muito distintiva graças aos esboços negros que representam cada um dos contos.

Tudo bons augúrios, portanto. Só falta pegar, ler e ficar com opinião dos contos!

O primeiro é Sorte ao Jogo, de Ana Luiz, e digo já que é um dos meus favoritos. Convenceu-me logo ao início, com diálogos realistas como é raro de encontrar, ainda que a partir de certa alturam tenham regredido em qualidade. Como a autora disse na apresentação, a história de um pacto infernal e de jogos arriscados para a alma não é propriamente original, mas está bem apropriado e adaptado para o universo português.

A seguir vem A Pele de Penélope, de Ângelo Teodoro, que tem uma boa escrita e uma ideia muito boa, mas uma execução abaixo de óptima. O principal problema é a forma como a escrita se enamora de si própria e se perde num mar de metáforas exageradas. O outro problema é a personagem principal com decisões e acções muito incertas e inconsistentes.

O conto seguinte é Memórias de Teddy, de João Rogaciano, outro dos meus favoritos, que só pelo título e descrição do autor me tinha deixado a pensar em João Barreiros e a sua fixação literária com brinquedos. Tive algum receio, mas depois de ler fiquei agradado. É claramente na mesma onda, mas diferente o suficiente, com um estilo próprio e uma boa escrita, apesar do desfecho ser ligeiramente óbvio, deitando a perder a surpresa que podia ter sido.

Depois vem A Casa da Rua dos Mirtilos, de Ricardo Dias, que me aborreceu um pouco. É um conto juvenil, como tinha sido dito na apresentação, o que não tem nada de mal, à partida, mas neste caso não correu bem. A estrutura da história não é eficaz, o desfecho deixa a desejar, e as personagens são demasiado exageradas, e nem a escrita mais do que razoável salva o conto.

Como quinto conto aparece o fantástico A colina que olha para ti do espectacularmente bem-parecido Rui Bastos, um autor fora de série que merecia já o Nobel. Ok, eu confesso, sou eu: surpresa! Fora de brincadeiras, não vou opinar sobre o meu conto, excepto para dizer que sofre do mesmo mal que todos os contos da antologia… Mas já lá vamos.

Antes é preciso falar de Entre Estações, de Yves Robert, que mais parece um excerto daquilo que podia ser um excelente livro, já que o conceito aqui explorado é muito interessante, apoiado por uma boa escrita.

A opinião geral é positiva, e acho sinceramente que esta é a melhor antologia da Divergência até ao momento, embora eu seja suspeito, como é óbvio. Tenho é de apontar que todos os contos sofrem de um gravíssimo caso de demasiado tell e pouco show em momentos em que isso teria sido muito mais eficaz. Eu incluído como culpado principal!

Mas de facto, se descontarmos isso e um, talvez dois contos menos bons (sem contar com o meu), este é um bom livro!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Último Europeu


Autor: Miguel Real


Opinião: Começo-me a sentir como aqueles professores que dizem "eu gostava era de vos dar boa nota a todos, ou melhor, nem sequer vos avaliava". É o que eu sinto com livros de autores portugueses. Como fã e defensor da nossa literatura, assim como aspirante a fazer parte dela, como podem comprovar amanhã, ou comprando o livro em pré-venda (é assim que se faz publicidade subtil, não é?), gostava mesmo que todos os livros de autores nacionais fossem espectaculares.

Infelizmente deparo-me frequentemente com desilusões, seja mais um livro incoerente do Gonçalo M. Tavares, ou um incompreensível tomo do David Soares, parece que nada se safa. Não é fácil encontrar algo agradável.

Foi com algum alento que ouvi falar de uma distopia portuguesa! Ligeira excitação que só durou até ver a capa e ler a sinopse. Calma que não é uma distopia, é uma utopia. E não é ficção científica, é um ensaio filosófico sob a forma de prosa de ficção.

A sensação imediata foi a de FC com vergonha de ser FC. Algumas páginas depois de começar a ler, a suspeita acentuou-se: isto é ficção científica com vergonha de o ser, por algum motivo. Não sei se puro marketing, se por vergonha intelectual de escrever num "género menor".

O Último Europeu conta a história de um futuro não tão distante quanto isso, em que supostamente tudo é fantástico. E quando digo tudo, quero dizer que a Europa está dividida entre tribos de bárbaros que aderem aos velhos costumes, e enormes conglomerados populacionais, chamados... Conglomerados, onde as pessoas são livres. Dentro de certos limites.

Nesta Nova Europa não há conflitos, nem insatisfação. Todos os habitantes dos Conglomerados têm um chip implantado no cérebro que lhes permite comunicar através do Grande Cérebro Electrónico, um computador central que domina toda a população. Toma as decisões pelas pessoas, ajuda a inibir as emoções e que simula a satisfação de um certo desejo/vontade, caso não possa ser realmente satisfeito.

Já não há comida, há pó alimentício, já não há pais, mães e filhos, mas sim crianças que nascem de forma artificial, a partir de material genético extraído dos cidadãos e combinado da melhor forma.

Também não há nomes, abolidos em nome (eheh) de um sentimento de comunidade. Tudo funciona às mil maravilhas e tudo é basicamente electrónico. Até ao dia em que os malvados chineses (a sério) os isolam das centrais geotérmicas que lhes dão toda a energia de que precisam. Uma civilização tão avançada que se esqueceu de ter mais do que uma tomada por perto, caso uma avarie.

É então que são lentamente invadidos pelos malditos chineses (a sério), que vaporizam pessoas com os seus raios lasers, lhes sugam as partículas e depois os enviam para o espaço, uma ideia que é muito repetida. A única solução para os Novos Europeus é fazerem um acordo com uma tribo de bárbaros europeus para que alguns consigam fugir e recomeçar.

Parece interessante? Isto é menos de metade do livro. O resto do tempo é dedicado às agruras de começar uma civilização do nada, recorrendo apenas a um grupo de pessoas maioritariamente inútil, de tão pouco que se fazia na Nova Europa.

Se a história já não me estava a convencer, ainda pior fiquei quando ouvi o autor falar, na sessão para a qual fui convidado pela biblioteca da minha escola. Começou logo bem, quando nos apresentaram um ao outro, no meu caso com a indicação "está a ler o seu livro tal e tal", que obteve como resposta, "estás a perceber aquilo? é a utopia-distopia, tens que perceber".

Certo. Ok.

Tudo piora quando lhe pergunto, durante os autógrafos, se rejeita o rótulo de FC. Nem me deixa acabar a pergunta "já tive esta discussão muitas vezes, durante muito tempo", óptimo, diga de sua justiça, "isto não é FC!". Mas... "não tem batalhas galácticas nem intrigas laboratoriais". Ah, agora tudo faz sentido, "não é tanto Clarke, ou Asimov, como Ballard", agora já não, "o que é que chamas ao 1984, do Orwell?", "bem, FC", "pois, não... não tem intrigas laboratoriais", "pronto, está bem, tenha um bom dia", "não fiques chateado, eu sei que quando somos novos não lidamos bem com estas coisas, mas um dia percebes."


Enfim, estão a ver a peça. Pretensiosismo mascarado de intelectualidade. FC é naves e vírus mortais, Orwell não é FC, provavelmente porque é literatura a sério, ou outra coisa do género, e eu sou demasiado novo para perceber estas coisas.

Escusado será dizer que, por muito boa vontade que eu tivesse, o resto da leitura teve direito a uma visão mais dura e mais crítica. E como resultado, não fiquei nada satisfeito. Numa história que usa (mal) conceitos e invenções tecnológicas e científicas para explorar vários aspectos da mente/vida/sociedade humana, de forma bastante óbvia e gritante, tenho que acreditar que isto não é FC, é uma dicotomia utopia-distopia que retrata um ponto de vista filosófico sobre a natureza do ser humano.

Poupem-me. Um dia ainda gostava de conversar com este senhor, para ele perceber bem o que é a FC. E para lhe dizer que este livro é aborrecido, desconexo, repetitivo e incoerente!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [2/2]: ou como Gonçalo M. Tavares me fez desistir de um livro pela primeira vez em muitos, muitos anos


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Leram bem. Não acabei o livro. Nem consegui chegar a meio, para ser sincero. Fiquei praticamente onde estava desde a última vez em que falei do livro. E entretanto decidi largá-lo e avançar. Algo que eu já não fazia desde que tinha uns... treze anos. Portanto obrigado, M. Tavares, conseguiste fazer-me quebrar um recorde de nove anos.

Questionemos a minha decisão. Como perceberam com o outro texto, não estava nada satisfeito com o que estava a ler. Não me estava a dar o mínimo de prazer, e a partir de certa altura passei a ver o livro como um empecilho que estava entre mim e coisas que valiam a pena ler.

Não foi uma decisão fácil, por um lado, mas foi simples e deu-me um alívio tremendo, por outro. Depois de quase duzentas páginas lidas, ainda me faltavam mais de duzentas. E o que é que eu estava a retirar da leitura? Nada. Já nem o conseguia analisar minimamente, para depois dizer mal (ou bem, ou neutro, ou chamar nomes). Eram apenas palavras numa folha que eu tinha de ultrapassar para chegar a um sítio melhor.

E quando a leitura começa a ser uma obrigação, está na altura de largar. Já não estou na escola, em que era mesmo obrigado a ler as coisas (se bem que nem por isso, já que os professores de português fazem vista grossa aos resumos e livros de análise de afins). Posso decidir o que leio, e quando é que o faço!

Foi então que num momento de rebelião contra os meus próprios princípios, tirei o meu marcador, fechei o livro e arrumei-o na estante. Poucas coisas nos últimos tempos me souberam tão bem. E ninguém me convence de que este autor é uma ilusão. Um tipo com talento, sim senhor, mas incapaz de escrever algo coerente.

Perdoem-me a comparação, a sério, mas Gonçalo M. Tavares, para mim, é uma versão discreta, com escrúpulos e mais intelectualidade, do Pedro Chagas Freitas. Não há volta a dar. o PCF é um aldrabão e nem sequer o considero um escritor, é um idiota que por ali anda a ganhar dinheiro; não digo tanto do M. Tavares. Mas que é mais uma manobra de marketing do que um escritor realmente bom? Sem sombra de dúvida.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [1/2]: ou como Gonçalo M. Tavares, um dos mais galardoados autores portugueses da actualidade, é também um dos piores


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Este texto é altamente irregular. Uma das coisas que menos gosto de fazer é opinar a meio de um livro. Posso dizer qualquer coisa, mas nunca uma opinião decente: até chegar à última página muita coisa pode acontecer.

Nas raras vezes em que isto me acontece é por causa de uma de duas razões: ou o livro é extraordinariamente bom (e mesmo assim acabo por me desapontar), ou o livro é extraordinariamente mau (e por esse lado, raramente mudo de opinião). E este, caros leitores, trolls profissionais e pessoas do futuro que andam a ler umas coisas deste blog para descobrirem se sou um psicopata ou não (spoiler: eu é mais sociopatia), este é um livro extraordinariamente mau.

E ainda só li cerca 45%.

Pois é, depois da queixa disfarçada de opinião da Mensagem, sejam bem vindos a mais um relativamente longo rol de queixinhas.

Nem sei bem por onde começar... Tenho tanto por onde pegar... Ah, já sei! Que tal começar por dizer que não li um, dois nem sequer três livros deste autor, mas sim quatro, e ainda um conto e algo inclassificável? Pois é, estou novamente a falar com conhecimento de causa.

"Ainda não tens é maturidade para esta escrita invejável!"

Bons olhos o vejam, Sr. Burro da Silva, como vai? Não quero saber. Nem sequer vou fazer de conta que sou simpático consigo, se vem aqui defender o Tavares, aviso-o já de que vai ser trucidado. Pronto, quando quiser, esteja à vontade. Como eu estava a dizer, não estou a dizer nada vindo do ar, e esta crítica é mais uma vez uma crítica informada.

Como tal, avancemos. Este livro foi vendido como uma homenagem e um sucessor aos Lusíadas, e é isso que tenta transparecer por todos os poros: desde o título à edição em capa dura, que lhe dá um ar mais sério e vetusto. A história tem inspirações desse grande épico, está dividida em cantos e escrita em verso, é verdade sim senhor. Mas em vez de homenagem pensem mais em colagem.

É que dizer que este livro é uma homenagem à epopeia de Camões é como dizer que o próximo filme do Michael Bay é uma homenagem a um atentado terrorista qualquer: sim, ambas as coisas só fazem é mal às pessoas nas proximidades, e sim, são ambas igualmente desprovidas de qualquer sentido, mas tirando isso...

Logo à partida, estar em verso ou não estar é igual ao litro. E é preciso muito descaramento da parte de Tavares para escrever o livro com esta estrutura. Basta lerem umas páginas para perceberem que a única coisa que ele fez de diferente relativamente a escrever um livro em prosa foi carregar mais vezes no Enter ou usar folhas mais estreitas. De resto, o verso, que não tem métrica fixa nem rima regular (ou irregular, nada), não serve para absolutamente. Torna-se insultuoso para a obra original, que é uma autêntica ode à capacidade técnica de Camões.

Na prática é o equivalente a eu escrever um livro de poemas, todos ao meu estilo, e assinar cada um com um nome diferente. Já estou a imaginar, O livro triunfal, a maior homenagem a Pessoa e os seus heterónimos. Só que não. É uma mera decisão estilística que foi feita só porque sim, e que ainda por cima conseguiu ser extremamente mal executada.

Depois o que dizer da "história"? A escrita em si nem me aborrece por aí além - tal como em Pessoa(s), encontro algumas passagens que considero dignas de anotar no meu caderno de citações - mas a completa ausência de história em prol de pregos ideológicos que o autor tenta martelar através do meu crânio... Lamento, mas isso dói que se farta.

"Esta juventude de hoje em dia já não sabe apreciar um livro contemplativo, é o que é. Gonçalo M. Tavares é um dos maiores escritores de sempre, tem uma técnica impressionante e um talento imenso, e as obras que escreve são de uma profundidade que os comuns mortais apenas podem imaginar."

Mas tem toda a razão, Sr. Burro da Silva, pelo menos nas duas últimas coisas que disso: o autor realmente tem um talento que me deixa espantado e desapontado por o ver a ser desperdiçado, e os seus livros são odes à profundidade filosófica. Aliás, se a profundidade filosófica se medisse em metros, ia ser preciso inventar uma nova classe de números para medir os livros do Gonçalo M. Tavares.

E o problema é exactamente esse. Os livros são tão, mas tão, mas tão profundos, que sabem o que é que se vê cá de cima, quando se começam a folhear as páginas? Nada.

"Trapaceiro! Ignorante! Tu é que não compreendes o que o autor quer dizer!"

Por uma vez concordamos. Eu sou de facto uma pessoa com inclinação para fazer batota, não sei assim tanta coisa quanto isso, e não compreendo PEVAS daquilo que este autor me quer dizer. A única coisa que retiro dos seus livros, para além das ocasionais citações interessantes, é que estou perante mais um autor que se está a borrifar para os leitores. Ou melhor, que está a cultivar um grupo de leitores muito específico, um grupo intelectual de intelectualidades muito intelectuais, que só são capazes de ler obras que avancem a espécie humana e que estejam rotuladas como OBRAS-PRIMAS, CLÁSSICOS e NOBEL.

É pena. Lá está, acho que o Gonçalo M. Tavares é um dos melhores escritores da actualidade. Mas mantenho-me firme na minha opinião de que é um dos nossos piores autores.

Já se tenho maturidade ou não para para dizer estas coisas, como o Sr. Burro da Silva tão bem questionou ali em cima, a única coisa que vos digo é: se tudo correr bem nunca ninguém vai achar que eu tenho propriamente maturidade suficiente para o que quer que seja. Gosto demasiado de brincar com Legos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mensagem, ou a longa e chateada opinião sobre um livro que, coitado, não tem culpa nenhuma


Autor: Fernando Pessoa


Opinião: Aconteceu um milagre! A sério! Para quem me conhece isto vai ser chocante, eu sei, mas espero que aguentem. Para quem não me conhece, eu explico, em termos simples e simplistas: eu odeio tudo o que o Pessoa (e derivados) escreveu. Mas desta vez, nesta releitura em específico apercebi-me de algo diferente, finalmente caí em mim e dei conta que... Estava a brincar. Odiei na mesma.

Qual é o problema disto? É que há uma lei algures num tomo obscuro num canto obscuro duma biblioteca obscura, que proíbe um português de não gostar de Pessoa. Oh, não me venham com tretas, eu sei do que falo. Entre as pessoas com quem me dou, assim de repente, só conheço uma que leia tanto como eu, e de forma ainda mais diversificada. E é difícil apanharem-me em falso numa conversa sobre livros e literatura, que eu tenho sempre muito a dizer.

Ou seja, sou um tipo informado e que percebe do assunto, quer a minha professora de História do nono ano queira ou não (velhas quezílias). E no entanto sabem o que é que acontece se eu disser que não gosto de Pessoa?

"Ainda vais a tempo!", "Não sabes o que é Literatura.", "É porque não percebes, só pode.", "Olha aqui esta parte, isto não é lindo? Como é que podes não gostar?", "Quando cresceres vais perceber.".

E a lista continua. Eu raramente respondo de forma (muito) agressiva, mas sabem o que é que me passa pela cabeça?


Sim, sem tirar nem pôr. Pelo simples facto de que, por muito arrogante que eu seja, ninguém pode negar que eu percebo de Literatura, mesmo que assumam que todo o conhecimento que eu tenho do assunto passou para a minha cabeça por osmose, de tanto queimar as pestanas. Ainda por cima quando eu sou o primeiro a realçar, e a admirar, o génio de Fernando Pessoa. O homem era, de facto, brilhante, e tinha uma mente como se fazem poucas. E não é preciso ser muito esperto para perceber que o homem tinha talento - desafio-vos a tentarem escreverem textos como se fossem três pessoas diferentes, mas ao ponto de que uma pessoa que leia consiga distinguir claramente uma personalidade distinta para cada uma dessas personagens, que têm os seus estilos e peculiaridades muito próprias.

Pessoa fez disso às dezenas. É impossível consegui-lo sem se ser um génio, um esquizofrénico ou, e esta é a minha versão favorita, um bocadinho dos dois.

Portanto eu, como toda a gente com dois dedos de testa, sou da opinião de que o homem era um génio e que merece de facto ser mencionado como uma das maiores personalidades portuguesas de sempre. Apenas não gosto das coisas que ele escreveu.

Desculpem, mas eu sou um tipo chateado que anda particularmente chateado. Este longo preâmbulo serve para mostrar que quando eu digo que a Mensagem é uma leitura de casa de banho, não o estou a dizer só porque sim. Digo-o de forma provocativa, mas sei bem o que estou a dizer. A releitura não me convenceu.

Eu até consigo encontrar pedaços que aprecio. Enquanto citações. A sério, o livro está cheio de marcadores autocolantes de um laranja brilhante a apontarem para sítios à espera de serem transcritos. Mas como um todo, sabem o que isto é? Uma resposta melancólica a Os Lusíadas, e pouco mais.

"Sim, Luís, tens razão, nós já fomos os maiores. E sim, Luís, tens toda a razão, agora somos uns nhonhas. Mas sabes que mais? Ainda vamos ser os maiores outra vez, olha aqui o potencial, olha, olha aqui, oh para este povo cheio de potencial, até já nos deixámos de confiar em reuniões departamentais dos deuses, e criámos os nossos próprios mitos! Somos DIVINOS, olha para nós, estamos tristes por já não sermos o que fomos, mas potencial! NÓS SUAMOS POTENCIAL PELOS NOSSOS POROS, LUÍS!!"

Enfim. O livro está escrito com a mesma simplicidade técnica da poesia do ortónimo. Não, não é a simplicidade de quem recusa a máquina da complexidade estilística e quer quebrar barreiras; é a simplicidade de quem estava tão perfeitamente convencido da sua genialidade que sabia que podia não ter demasiado trabalho.

O tipo era óptimo a encadear palavras para que as frases soassem bonitas, mas era péssimo a encadear frases para que as ideias soassem a alguma coisa palpável. É por isso que a sua prosa era entediante, no mínimo, e é por isso que se dava melhor com a poesia, o formato literário em que a forma se sobrepõe ao conteúdo.

A lengalenga que nos vendem na escola é que isto é a melhor coisa de sempre. Só que não. E quem contraria é crucificado ("booo, boooo, estás a exagerar"... pois estou). Infelizmente este autor, e a grandiosidade da sua excelsa obra, já estão instalados e fazem parte da mobília. E é pena. Porque há muito bom autor, entre romances, contos, teatros e poesia (se eu tivesse paciência para procurar estes últimos), que merecia ser estudado. E em vez disso, paletes de Fernando Pessoa a serem-nos enfiadas pelas sinapses adentro! Nem digo para o eliminarem do programa, mas caramba, variem um bocado a coisa e...


Fiquemos por aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os Lusíadas


Autor: Luís de Camões
Tradutor: não tem, mas quase que precisei!


Opinião: É a terceira vez que leio este livro. Eu sei que sou louco, não se preocupem. Mas além de gostar genuinamente da obra, que é um dos pináculos máximos da nossa Literatura, não é difícil de descobrir novos significados e novos pormenores com cada leitura. Especialmente quando se parte para essa mesma leitura com perspectivas diferentes.

Reparem: da primeira vez que li isto estava no décimo segundo ano, e quis ter uma noção da obra como um todo para a analisar melhor em aula; da segunda vez foi por causa de uma iniciativa aqui no blog, a Temporada Épica, durante a qual me propus a ler uma série de epopeias; esta terceira vez também foi inserida numa temporada temática, mas desta vez a massiva Lusofonices, e num contexto de outras obras que têm ligações com este épico (A Mensagem, de Fernando Pessoa e Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares).

Sou um tipo que gosta de se divertir.

No entanto não vale a pena fazer de conta que adorei a leitura. É que desta vez decidi fazê-la numa edição fac-símile da primeira edição, em 1572 (!), o que significa que tive que sobreviver ao português de há quinhentos anos. Não foi uma tarefa nada fácil. Desenganem-se. Custou bem mais do que aquilo que eu estava à espera.

Nem sequer consegui acompanhar a narrativa de forma decente. Também estava mais interessado em apanhar as simbologias e os significados, e a partir de certa altura fiquei fascinado com as diferenças para o português actual (usavam a letra beta, com os alemães, em vez de 'ss'!), mas a verdade é esta: a escrita afastou-me do conteúdo e fez-me focar na forma.

O que, só por si, não é propriamente mau. Afinal, estou a falar de um dos livros mais tecnicamente perfeitos da história da Humanidade. E já conheço a(s) história(s) bem o suficiente, graças às minhas leituras anteriores e ao estudo semi-forçado de há quatro ou cinco anos.

Querem saber o que é que encontrei? Além da já mencionada mestria em manipular a língua portuguesa, encontrei uma camada muito subtil de alguma coisa debaixo de toda a crítica, sátira e de todo o nacionalismo. Não é algo que seja facilmente identificável, mas pareceu-me ter um tom auto-acusatório direccionado ao povo português.

Não, não é o Velho do Restelo, um símbolo para a mentalidade retrógrada e simplista que ainda domina a opinião pública nos dias de hoje, nem é a comparação do povo português real com Vasco da Gama e sua armada, símbolos do grandioso povo português. É algo mais do que isso. É quase vergonha, e uma visão racional e surpreendentemente actual das coisas, como se Camões dissesse, por exemplo, "sim, há deuses a conspirar contra nós, mas também há deuses a conspirar a nosso favor".

Os Lusíadas, para mim, nesta terceira leitura, pareceu-me um longo discurso contra a passividade que nos tem sido tão natural enquanto povo (a minha ex-co-autora aqui no blog, a Alice, vai adorar isto). A narrativa não é só efabulada, é altamente exagerada e enaltece os nossos actos durante os Descobrimentos de forma descabida. Parece um nacionalismo do mais exacerbado possível, mas não é esse o tom. Não são dez cantos a dizer "VASCO DA GAMA RULZ", nem nada que se pareça.

É antes a história do que acontece se condensarmos o povo português num homem e respectiva armada. Faz-se a pergunta, em termos simples, "e se nos deixássemos de coisas e trabalhássemos com um objectivo comum?", e responde-se, em termos complicados mas com tradução simples, "levávamos tudo à frente!". E no entanto não o fazemos agora, nem o fazíamos na altura, aparentemente.

Até podíamos ser considerados um dos maiores e mais poderosos povos de todo o Mundo, mas o nosso Império está no dicionário à frente da expressão "em cima do joelho". Desta perspectiva, a Ilha dos Amores, mesmo perto do fim do livro, não é uma recompensa, é uma distracção. Depois de tudo o que construímos, distraímo-nos, e panhonhas como somos, acabamos o livro com um tom novamente repreensivo.

Talvez não seja a leitura mais óbvia, mas foi a ideia com que fiquei desta vez. Nem sequer é muito fácil de explicar, eu sei. Mas pensem nisso.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Diabo e Eu


Autor: Alcimar Frazão


Opinião: Sabem o que se faz quando se encontra um livro excelente? Aquela vontade de pular e de reler e de folhear e de contar a toda a gente o quão espectacular é o livro, e tudo isso? Sabem o que é que eu fiz quando acabei este livro?

Nenhuma dessas coisas.

Tinha alguma esperança, pois a arte é muito boa, e a história é uma daquelas que faz parte da nossa mitologia moderna: um acordo faustiano entre o Diabo e um músico, para que este último tenha talento e sucesso para dar e vender.

Todas as dicas, do título ao prefácio, indicam que é exactamente essa a história que vai ser contada. Mas nem por isso. Em vez disso acompanhamos o protagonista durante a sua infeliz, em que vê a sua mãe ser forçada a prostituir-se, ganha um alcoólico abusador como padrasto, e é miserável de uma forma geral.

Não que não seja uma história interessada e carregada com os seus próprios simbolismos: também há uma espécie de acordo feito com uma espécie de Diabo. Mas este livro é basicamente um pecado capital das personagens interessantes: uma história de origem desnecessária.

Da mesma forma que explicar de onde vem o Joker, e o porquê de ele ser como é, lhe tira força enquanto vilão e enquanto personagem, por nos tentarem fazer sentir empatia por uma personagem que é suposto deixar-nos perturbados, também esta história de origem nos vai obrigar a ver o protagonista sobre outro ponto de vista completamente diferente. O que não é bom, neste caso.

Safa-se a arte, que é realmente impecável, e é uma pena que o autor tenha escolhido uma via tão banal, com uma arte tão excepcional e um argumento com algum potencial.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Living Will #2


Argumento: André Oliveira
Arte: Joana Afonso


Opinião: Estou rendido. Ganharam, André Oliveira e Joana Afonso. A arte continua impecável, o jogo de cores é fantástico, e desta vez até a história brilhou.

Aquilo que podia ser apenas mais uma história banal de alguém a resolver erros do passado torna-se exactamente isso, só que interessante. O ritmo emocional está muito bem conjugado com o que se vai mostrando, e acaba por ser uma história com um pequeno final feliz, no meio de uma série de histórias tristes.

Gostei que o foco tenha sido mais ou menos dividido entre Will, o idoso que conhecemos no volume anterior, e Betty, uma nova personagem que parece ter mais ou menos as mesmas motivações de Will. Não se conhecem, não interagem, e as suas histórias não se cruzam, mas não deixa de ser uma forma de marcar a história como uma exploração da idade, da memória e da solidão.

O desenvolvimento da história acontece da melhor maneira, e até parece meio inesperado e sem contexto suficiente, mas tudo encaixa perto do final. Se isto não é sinal de uma história bem contada, não sei o que poderá ser. Ainda para mais com a vantagem de ter a arte de Joana Afonso, que se está a revelar uma tremenda mais valia nesta história, ao contar tanto, ou mais, do que aquilo que os diálogos e a narração conseguem sequer fazer imaginar.

A fasquia agora fica bem alta, portanto espero bem que a qualidade se mantenha. Só que não estou muito preocupado, porque muito sinceramente, estou confiante que isto só pode, e só vai, melhorar.

sábado, 24 de outubro de 2015

[Projecto Adamastor] - Votação «Os Melhores Romances Escritos em Língua Portuguesa»



É sempre bom falar do Projecto Adamastor. Uma das iniciativas com mais potencial e mais qualidade que me lembro de ver no panorama literário português. E inteiramente sobrevivente à base de voluntariado, boa-vontade e, tenho a certeza, alguma (abençoada) carolice!

Quando o projecto foi lançado, entrevistei o Ricardo Lourenço, o culpado da sua existência. Desde aí tudo evoluiu e o projecto passou a incluir uma colecção de ficção especulativa, a Colecção Génesis, uma fantástica adição ao já fantástico catálogo.

(De notar as impressionantes capas!)

Agora há um novo objectivo: o de elaborar uma lista dos melhores romances em língua portuguesa. Mais uma iniciativa de louvar e em que vale a pena participar.

Fiquem também com uma nova  e pequena entrevista a Ricardo Lourenço, que merece a minha admiração pela forma como tem guiado e desenvolvido o projecto.

Há quase um ano o Projecto Adamastor passou a incluir uma colecção de Ficção Especulativa, a Colecção Génesis. Sei que era o objectivo inicial do Projecto, mas o que permitiu que isto fosse finalmente feito?

Creio que o que nos permitiu esse regresso às origens foi o facto de termos estabelecido as bases do projecto. A experiência acumulada ao longo dos primeiros dois anos de actividade abriu-nos novos horizontes e pareceu-nos uma boa oportunidade não só para diversificarmos o nosso catálogo, mas também para divulgarmos obras que muitas vezes acabam por ser menosprezadas devido ao género literário em que se inserem.

A colaboração dos membros do grupo Tr­­ëma foi também essencial, tanto na selecção das obras da colecção, como no processo de revisão das mesmas.

O Projecto continua a viver exclusivamente de trabalho voluntário? Como é que tem sido essa experiência?

Sim, continuamos a depender de trabalho voluntário. Não existindo qualquer remuneração, os colaboradores contribuem essencialmente por gosto, demonstrando uma dedicação louvável. Nesse aspecto a experiência tem sido bastante agradável.

No entanto, como seria de esperar, este modelo implica também algumas limitações: por um lado porque a disponibilidade de cada um varia consoante os seus compromissos pessoais e profissionais, por outro porque os custos associados ao projecto, embora não sejam excessivos, têm de ser suportados por nós.

Qual é a tua posição actual sobre o Novo Acordo, em termos de o incluir nos lançamentos do Projecto?

De momento a nossa posição mantém-se inalterada: continuaremos a publicar os nossos eBooks sem aplicar o Novo Acordo. Caso este venha a ser ratificado por todos os países de expressão portuguesa, voltaremos a debater internamente esta questão.

Como é que tens visto a abertura e o interesse das pessoas neste Projecto?

Em geral a resposta tem sido positiva e acredito que, à medida que o mercado digital se for desenvolvendo no nosso país, tenderá a melhorar. Apesar disso, desde o início da nossa actividade temos vindo a lutar contra um certo preconceito: refiro-me à noção de que aquilo que é gratuito é necessariamente de qualidade inferior. Tentamos contrariar essa ideia a cada novo lançamento, através de um trabalho rigoroso, tanto a nível de revisão como de design.

Para terminar, qualquer pessoa pode ajudar? Como?

O único requisito é mesmo o gosto pela literatura. Aos interessados costumo recomendar a leitura do nosso Guia do Colaborador, para terem noção das tarefas envolvidas na produção das nossas edições digitais e, assim, decidirem qual a melhor forma para contribuírem. Acreditamos que essa liberdade de escolha é importante; também não existe qualquer imposição em termos de prazos, pelo que cada pessoa pode trabalhar ao que ritmo que julgar mais apropriado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Living Will #1


Argumento: André Oliveira
Arte: Joana Afonso


Opinião: Esta pequena BD já há muito que olhava para mim. A arte de Joana Afonso é um dos melhores chamativos que conheço, e o baixo preço (que é relativo, pois isto é minúsculo) convenceu-me.

O que descobri foi um dos poucos casos em que é legítimo julgar um livro pela capa. Talvez o melhor caso possível: o traço típico da artista, estilizado mas realista o suficiente, com os detalhes certos nos sítios certos que obrigam a focar onde é preciso, parece indicar um livro visualmente extraordinário. E é exactamente esse o caso.

Em termos de argumento não é mau, mas é uma parte demasiado curta de uma história que não é propriamente original, e portanto é difícil de fazer grandes julgamentos. Mas pesa o facto de estar em inglês - uma daquelas escolhas que continuo a achar difíceis de justificar, obras portuguesas escritas em inglês - e o facto de alguns dos diálogos serem estranhos.

Ou seja, no fim salvam-se os desenhos, com um excelente uso da cor para determinar o tom e o ambiente, e uma excelente caracterização de cada uma das personagens e situações. É possível perceber claramente o que se passa através dos desenhos, pelo menos em termos emotivos, que é o ponto forte desta pequena história.

Aliás, esta BD só tinha beneficiado de não ter diálogos: o traço de Joana Afonso é forte e expressivo o suficiente para contar a história só por si, como a artista já provou noutras alturas.

Não tinha expectativas formadas para esta leitura, para além do aspecto visual, e fiquei agradavelmente surpreendido. Falta-me agora continuar a comprar os outros livros e acompanhar a história de Will, o triste viúvo que decide fazer alguma coisa com o tempo que lhe resta...

sábado, 17 de outubro de 2015

Polícia Bom, Polícia Mau - não se esqueçam deste nome


Eu sei que o símbolo tem um ar estranho, especialmente em junção com o título. Mas tudo tem explicação. Eu acho que já falei aqui deste grupo de que faço parto, Polícia Bom, Polícia Mau (PBPM para os amigos), a evolução natural da Oficina de Escrita Fantástica da Trëma. É como grupo que nos encontramos todos os meses com novas histórias escritas e novos comentários a fazer. E é fantástico.

Ultimamente também já degenerámos ligeiramente num grupo de apreciação gastronómica e cultural, mas isso são consequências de além de colegas de escrita, sermos bons amigos. A dinâmica do grupo é espectacular, e acho que pelo menos alguns de nós já não escreveríamos com tanta regularidade (ou de todo) se não fossem por estes encontros.

O nome é apenas uma homenagem cómica aos mentores originais da Oficina de Escrita, Luís Filipe Silva e Rogério Ribeiro, que tinham basicamente esse papel: um era mais assertivo e mais crítico, com foco em apontar as falhas, mas sempre no espírito de se poder melhorar o texto; e o outro era mais fã de divagar um pouco, realçar o que funcionava e sugerir soluções para os problemas.

O primeiro não ia na conversa de "somos todos amigos, vamos lá encorajar", porque queria era ler material de qualidade, e o segundo não resistia a envolver-se com as nossas histórias e a sugerir que matássemos o protagonista. Ambos tiveram um papel essencial na génese do grupo, e um papel importante na nossa formação enquanto escritores (alguns mais amadores do que outros).

Agora deixo ao vosso critério descobrirem quem é que era o Polícia Bom e quem é que era o Polícia Mau.

Mas o nome pegou, de qualquer forma, e o Luís Melo, extraordinário artista e membro original do grupo (agora está de sabática), criou o logo e a coisa ficou. Não nos arrependemos.

O que interessa é que hoje venho apresentar-vos a mais recente evolução do grupo: depois de muito debate e de muita conversação, lá concordámos nos moldes em que íamos fazer isto, e lançámos o nosso blog e respectiva página do Facebook, onde vão poder acompanhar as nossas peripécias, conhecer os sítios (normalmente fantásticos) onde nos reunimos, e ler um pouco dos nossos textos. É uma forma de divulgação que, na minha opinião, já era mais do que merecida.

Aquilo que queremos é dar-nos a conhecer. Achamos que já temos material e qualidade mais do que suficiente, e que pode realmente haver interesse das pessoas. Acompanhem!

sábado, 12 de setembro de 2015

Trilogia da Viagem: Camões, Pessoa e M. Tavares


Já todos conhecem a minha veia literária masoquista. É aquela minha faceta que me faz ler coisas que nem quero assim tanto e que me obriga a terminar um livro, por muito mau que seja. Tem uma razão de ser: a minha personalidade ligeiramente obsessiva-compulsiva não consegue lidar muito bem com deixar um livro (ou o que quer que seja) a meio, e o meu espírito teórico pode não querer ler algo, mas precisar de ler esse algo.

É essa veia masoquista que me vai fazer ler Os Lusíadas pela terceira vez na minha vida, Mensagem pela segunda, e Uma Viagem à Índia pela primeira. Acreditem, é preciso ser-se masoquista: embora seja fã da epopeia de Camões, não é uma leitura fácil; o livro do Pessoa deve ser uma das coisas dele que mais abomino; e Gonçalo M. Tavares é um autor que me irrita profundamente.

Então porquê, perguntam vocês? Porque existe uma ligação entre estes três livros, e eu quero vê-la muito claramente. Pessoa foi bastante óbvio quanto aos seus paralelismos com a obra de Camões, e M. Tavares foi bem explícito quanto à forma como se "colou" a essa mesma obra. E eu tenho curiosidade. Lembro-me de estudar a Mensagem e reconhecer alguns traços em comum com Os Lusíadas - chega-se mesmo a fazer a comparação, nas aulas - mas fiquei sempre com a sensação de que me estava a escapar alguma coisa.

As semelhanças e as diferenças mais imediatas são chamativas, é certo: a demanda mística do povo português está bem patente em ambos os livros, mas enquanto que Os Lusíadas nos falam desde um passado distante, com esperança e vontade, a Mensagem fala-nos desde um passado recente, com amargura e melancolia. Ambos querem a mesma coisa, mas o segundo já não tem espaço para o optimismo desbragado do primeiro.

Mas ainda assim falta qualquer coisa. Isto é demasiado simples. E onde raio se encaixa o livro de M. Tavares, esse esquizofrénico talentoso, incapaz de escrever um texto decente, mas que ainda assim arrecada todos os prémios e mais alguns?

Tenho curiosidade. E a minha curiosidade é que manda. Portanto pode não ser já, mas ainda este ano hei-de ler os três de seguida, para ser capaz de falar com certezas. Ainda por cima tenho algumas esperanças de que este livro de M. Tavares seja melhor que os outros e me deixe satisfeito de alguma forma!

sábado, 5 de setembro de 2015

Coluna mensal na revista Nonata


Eu disse que ainda apareciam novidades. Chama-se Camõesidades (nome potencialmente provisório, mas habituem-se de qualquer forma), é sobre literatura portuguesa em todas as vertentes possíveis e imaginárias que eu me consiga lembrar, e é escrita por mim.

Podem ler aqui o primeiro texto, mas não deixem de acompanhar. Será uma viagem interessante pela história da literatura portuguesa (de forma altamente não linear) vista pelos meus olhos. A única coisa que prometo é ser diversificado e falar dos meus ódios e gostos pessoais com alguma profundidade.

Esta foi daquelas oportunidades que surgiu por uma nesga e que eu não hesitei muito em apanhar. É algo com uma dinâmica diferente daquela que tenho aqui no blog, que uso para conversar com quem me lê, e que me vai permitir explorar a literatura portuguesa de várias formas, algo que me interessa muito.

Por enquanto tenho só um plano vago daquilo que vou escrever, o que significa que estou aberto a sugestões. Há algumas temas que já sei que vão surgir, e há pelo menos uma outra crónica que já tenho a certeza que vai ser escrita: só falta mesmo sentar-me e escrevê-la.

Agora não se esqueçam é de acompanhar e de comentar! Têm aqui o site, aqui a página dedicada aos meus textos, por aqui o Facebook da revista,  e também o Instagram, que não faço a mínima ideia de como funcionam, mas sigam, ou sei lá.

É mais uma coisa a juntar à lista de coisas a fazer, é o que é!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sepulturas dos Pais


Argumento: David Soares
Arte: André Coelho


Opinião: Abençoados sejam os deuses que vocês preferirem: mais uma obra recente de David Soares que me agradou! A arte de André Coelho, excelente, contribuiu bastante, mas o argumento agradou-me genuinamente.

Começando pela pior parte, vou já deixar bem claro que detestei o final. Para mim foi como ver um sketch de humor que não sabe quando acabar, e continua e continua e continua, bem para lá daquilo que é engraçado - ou, neste caso, daquilo que é bom.

Mas pronto, deixemos isso. Vamos focar-nos no enredo, interessante, retorcido e negro, mas também esperançoso, de certa forma. Nunca nada é demasiado explicado, nem nunca nada fica muito claro, mas as narrativas entrecortadas funcionam bem e contam a história toda. Pelo menos a que o leitor precisa de saber.

David Soares consegue "brincar" muito a sério com a acto de dar vida, e cria metáforas excelentes com as criaturas de areia que o protagonista consegue criar, de forma tão simples. E mesmo com um tema destas, a história consegue ser surpreendentemente negra e agressiva, como é apanágio de algo escritor por este autor.

A arte de André Marques é um excelente complemento (por favor não se inibam de voltar a colaborar), tão ou mais negra que a escrita de David Soares. Os diálogos sofrem, muitas vezes, de excesso de davidsoarismo, mas já nem é defeito, é mesmo feitio, e como o livro se mantém coerente, isso acaba por não destoar demasiado.

Já a noção que dá origem ao título, as sepulturas dos pais, é um bocado forçada, e acho que o livro só tinha em ganhar se o autor tivesse deixado essa ideia de parte, e se tivesse focado noutras coisas. Felizmente nunca exagera, e esta ideia, ainda que importante e central, mas também vaga e secundária, não polui nada.

Resumindo, é bom ver Soares a produzir material de verdadeira qualidade, depois de algumas francas desilusões. Venham mais assim.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Cidade Suspensa


Autor: Penim Loureiro


Opinião: A capa intrigante, boas opiniões que tinha ouvido, e um preço simpático. Foram estas as três razões que me levaram a comprar este livro na Feira do Livro. Não sabia minimamente ao que ia, e posso desde já dizer que até estava à espera de uma coisa, e encontrei outra, sem que isso tenha diminuído o quanto gostei do livro.

O ponto principal, quem discordar que me desculpe, é a arte. O traço de Penim Loureiro é fantástico, de uma mestria subtil que não deixa nada ao acaso e que conta tanto, ou até mais do que as palavras que a acompanham.

Também há pormenores excelentes, uma excelente noção de como contar uma história, e um excelente aproveitamento de Portugal e colectivo imaginário lusófono, mas é a arte que brilha, em todo o esplendor, com o virar de cada página.

Até porque o enredo é, digamos... mehzito. Tem interesse, e é uma boa exploração semi-autobiográfica do percurso do autor, bem enredada na História e Cultura portuguesa, com aparições da Passarola e menções a D. Sebastião, azulejos, a cidade de Lisboa um bocadinho por toda a parte e até uma menção a As Horas de Maria, um filme do grande António de Macedo (caro Penim Loureiro, pontos a dobrar, ou a triplicar, por isso!). Mas no entanto nunca me cativou por aí além. Talvez por causa da forma desapaixonada com que a história é contada, pelo menos na parte escrita.

Este parece-me ser daqueles livros que tinha beneficiado de ter menos narração e menos diálogos, para dar mais espaço aos desenhos e às cores. Basta folhear o livro e escolher os momentos mais marcantes e mais excepcionais: são, quase todos, apenas imagens sem narração nem diálogo. A força do autor está na construção da narrativa gráfica, e embora o resto esteja bom, não óptimo, mas bom, é mesmo a arte que acaba por triunfar.

E isto vindo de um autor que me era um completo desconhecido, assim como o será para a maior parte dos leitores, parece-me. O facto da sua actividade enquanto autor estar maioritariamente circunscrita ao início dos anos oitenta, este Cidade Suspensa é um excelente convite para o ficar a conhecer, algo que acho que toda a gente devia fazer.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lágrima


Autor: André Pereira


Opinião: Lágrima é o segundo livro de André Pereira, que é meu primo, e que escreve bem que se farta. Só esses dois factos me fazem ignorar o nome da "editora" que vem ali estampado na capa. Já me queixei disso mais do que uma vez, portanto vamos avançar para a crítica.

Fim de Abril. Manhã cedo. Afonso dá entrada no consultório com sintomas de absolutamente nada. Bom ar, postura simples, corpo firme. Discurso coerente e articulado. Consciência do espaço e do tempo. Nenhum distúrbio psíquico aparente. Tudo indica que seja mentalmente equilibrado. Um pormenor, o seu filho morreu ontem.

Este é o primeiro parágrafo, uma excelente entrada para o livro, e uma saída fácil para qualquer crítica que se lhe faça. Obcecado (da melhor forma possível) com primeiros parágrafos, não é de estranhar que o André tenha escrito um desta qualidade, que prende logo o leitor, quer ele queira quer não. Mas é também um ponto de partida óbvio, quando se fala do livro, e toda a gente que o fez começou exactamente por aqui, portanto o que se segue?

É que no meio do muito que se possa dizer sobre Lágrima, o mais difícil é defini-lo, exactamente por causa do que se segue ao primeiro parágrafo.

Uma série de capítulos curtos, mas eficazes, a maior parte das vezes bastante emocionais, a contrastar fortemente com o protagonista que parece incapaz de se emocionar. E que é, já agora, um dos protagonistas da história, que tem uma premissa estupidamente simples: um casal que se afasta depois da morte do filho. A mãe chora e desespera, o pai ri e desespera. A mesma consequência, derivada do mesmo motivo, mas por causa de reacções completamente opostas.

Rapidamente se podia escrever um ensaio sobre este contraste de emoções, e como se disse na apresentação do livro, sobre como a maior dor é a de quem não chora, exactamente por não conseguir chorar. Mas eu não concordo. O contraste não é importante, assim como não interessa qual das dores é maior. Até era fácil fazer uma outra leitura, sobre como o pai é uma representação do macho português emocionalmente reprimido, mas isto não é uma aula de Português, portanto não é preciso inventar nada tão elaborado.

A realidade é mais simples que isso, e também mais dura. O ponto central da história, aquilo que faz o enredo avançar, aquilo que motiva todas as personagens e aquilo que dá realmente sumo ao livro, é o facto do filho deste casal ter morrido. O livro começa por aí, de forma disfarçada, e não hesita em discorrer sobre a morte, das mais variadas maneiras. A mensagem que passa é a da dureza da morte, tão esquecida hoje em dia. Com os jornais cheios de morte brutais e sanguinárias, e as ruas cheias de morte lenta e sem tecto, já nos tornámos insensíveis.

Vemos notícias de um violento tiroteio num bairro desagradável qualquer com a mesma impassividade com que vemos notícias de mais uma medida de austeridade, ou mais uma notícia sobre imigrantes ilegais que viajam em condições desumanas para fugirem de condições desumanas, e que acabam por ser tratados de formas desumanas.

Lágrima tem capítulo atrás de capítulo a dizer que a morte é cruel e não quer saber de nada disso. Gostas, não gostas, queres, não queres, tens cuidado, não tens, és novo, és velho, és homem, és mulher, és burro, és um cientista nuclear, pai, mãe, tio, primo, filho, namorada, marido, não interessa. Morres como os outros. A jornada do pai que não chora, e que solta gargalhadas no funeral do filho, é equiparável a qualquer demanda heróica de qualquer outro livro, apenas de forma mais subtil. E no fim, sabem qual é a conclusão? A mesma que no início: o seu filho morreu.

O que este pai percebe, e que toda a gente acha estranho, é que chorar não adianta. O filho continua morto. No final é vencido, por circunstâncias curiosas, mas não tem o filho de volta, porque tinha razão. E a mãe? A mulher deste homem estranhamente feliz com a morte do filho? Ora, não passa de um reflexo distorcido do marido. As acções de um e de outro correm em paralelo de forma quase simétrica, não deixando margem para dúvidas que se está a contar apenas uma história, a da morte do filho, e não outra, nem outras.

No meio disto tudo, personagens muito bem caracterizadas, um desenvolvimento extraordinário, uma escrita para lá de boa, ecos de Saramago, umas técnicas de escrita de pôr cabelos em pé em qualquer professor de português, mas que funcionam de forma maravilhosa, e uma capacidade de ser emotivo, sem nunca se tornar lamechas, de fazer inveja.

Recheado de cenas fortes e a dar vontade de ler duma assentada, este livro comprovas apenas aquilo que eu já disse antes: o André devia dedicar-se aos romances. Porque este é, sem sombra de dúvida (nem parcialidade, garanto), extraordinário.