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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Salazar: Agora, na hora da sua morte


Argumento: João Paulo Cotrim
Arte: Miguel Rocha


Opinião: Pegar em BD de autores portugueses é sempre um risco. Tanto posso ter uma excelente surpresa como apanhar a maior desilusão da minha vida. Às vezes com o mesmo autor. Aquela história de os artistas portugueses terem estilos muito variados e pouco interligados traduz-se, simplesmente, como "cada um faz o que lhe apetece para ser fixe e avant-garde".

Está bem, não é tanto assim, mas às vezes é um bocado. E os argumentistas muitas vezes não sabem bem o que andam a fazer, e criam história medíocres que entregam a artistas medíocres, ou artistas bons que insistem em ser diferentes e modernos.

É uma pena. Temos de facto excelente artistas, e alguns bons argumentistas. É assim tão complicado juntarem-se e fazerem algo decente? Temos vários provas de que isso é possível, não inventem!

Mas pronto, com tudo isto já deve estar a pensar que vou desancar completamente este livro. Não é verdade. Esta conversa toda é apenas para dizer que Salazar: Agora, na hora da sua morte, me surpreendeu. Não conhecia nenhum dos nomes envolvidos e não me tinha ainda chamado a atenção.

Ainda bem que peguei no livro. O argumento simples e íntimo de João Paulo Cotrim liga de forma fantástica com o traço difuso e negro de Miguel Rocha. As coisas rapidamente se tornam confusas, em algumas páginas, mas com um bocadinho de atenção é mais do que possível seguir sem problemas a história e perceber o que é que está a acontecer.

E vale bem a pena acompanhar o que acontece. Uma espécie de biografia de Salazar, desenhada como se fosse a vida a passar-lhe em frente aos olhos, na hora da sua morte, e que mostra uma versão mais dócil e mais humana do nosso ditador.

Sim, é uma versão ligeiramente romantizada, mas não perde o interesse por isso. Não custa nada ver o ditador por detrás do homem, basta estar atento aos pormenores, aos detalhes visuais e às subtilezas narrativas.

Só que isso não é importante. Este é um livro bem feito, bem escrito e bem desenhado. Uma leitura rápida, sem dúvida, mas que marca sem ter que recorrer ao formato tradicional da BD. Só por isso já vale a pena!