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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [1/2]: ou como Gonçalo M. Tavares, um dos mais galardoados autores portugueses da actualidade, é também um dos piores


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Este texto é altamente irregular. Uma das coisas que menos gosto de fazer é opinar a meio de um livro. Posso dizer qualquer coisa, mas nunca uma opinião decente: até chegar à última página muita coisa pode acontecer.

Nas raras vezes em que isto me acontece é por causa de uma de duas razões: ou o livro é extraordinariamente bom (e mesmo assim acabo por me desapontar), ou o livro é extraordinariamente mau (e por esse lado, raramente mudo de opinião). E este, caros leitores, trolls profissionais e pessoas do futuro que andam a ler umas coisas deste blog para descobrirem se sou um psicopata ou não (spoiler: eu é mais sociopatia), este é um livro extraordinariamente mau.

E ainda só li cerca 45%.

Pois é, depois da queixa disfarçada de opinião da Mensagem, sejam bem vindos a mais um relativamente longo rol de queixinhas.

Nem sei bem por onde começar... Tenho tanto por onde pegar... Ah, já sei! Que tal começar por dizer que não li um, dois nem sequer três livros deste autor, mas sim quatro, e ainda um conto e algo inclassificável? Pois é, estou novamente a falar com conhecimento de causa.

"Ainda não tens é maturidade para esta escrita invejável!"

Bons olhos o vejam, Sr. Burro da Silva, como vai? Não quero saber. Nem sequer vou fazer de conta que sou simpático consigo, se vem aqui defender o Tavares, aviso-o já de que vai ser trucidado. Pronto, quando quiser, esteja à vontade. Como eu estava a dizer, não estou a dizer nada vindo do ar, e esta crítica é mais uma vez uma crítica informada.

Como tal, avancemos. Este livro foi vendido como uma homenagem e um sucessor aos Lusíadas, e é isso que tenta transparecer por todos os poros: desde o título à edição em capa dura, que lhe dá um ar mais sério e vetusto. A história tem inspirações desse grande épico, está dividida em cantos e escrita em verso, é verdade sim senhor. Mas em vez de homenagem pensem mais em colagem.

É que dizer que este livro é uma homenagem à epopeia de Camões é como dizer que o próximo filme do Michael Bay é uma homenagem a um atentado terrorista qualquer: sim, ambas as coisas só fazem é mal às pessoas nas proximidades, e sim, são ambas igualmente desprovidas de qualquer sentido, mas tirando isso...

Logo à partida, estar em verso ou não estar é igual ao litro. E é preciso muito descaramento da parte de Tavares para escrever o livro com esta estrutura. Basta lerem umas páginas para perceberem que a única coisa que ele fez de diferente relativamente a escrever um livro em prosa foi carregar mais vezes no Enter ou usar folhas mais estreitas. De resto, o verso, que não tem métrica fixa nem rima regular (ou irregular, nada), não serve para absolutamente. Torna-se insultuoso para a obra original, que é uma autêntica ode à capacidade técnica de Camões.

Na prática é o equivalente a eu escrever um livro de poemas, todos ao meu estilo, e assinar cada um com um nome diferente. Já estou a imaginar, O livro triunfal, a maior homenagem a Pessoa e os seus heterónimos. Só que não. É uma mera decisão estilística que foi feita só porque sim, e que ainda por cima conseguiu ser extremamente mal executada.

Depois o que dizer da "história"? A escrita em si nem me aborrece por aí além - tal como em Pessoa(s), encontro algumas passagens que considero dignas de anotar no meu caderno de citações - mas a completa ausência de história em prol de pregos ideológicos que o autor tenta martelar através do meu crânio... Lamento, mas isso dói que se farta.

"Esta juventude de hoje em dia já não sabe apreciar um livro contemplativo, é o que é. Gonçalo M. Tavares é um dos maiores escritores de sempre, tem uma técnica impressionante e um talento imenso, e as obras que escreve são de uma profundidade que os comuns mortais apenas podem imaginar."

Mas tem toda a razão, Sr. Burro da Silva, pelo menos nas duas últimas coisas que disso: o autor realmente tem um talento que me deixa espantado e desapontado por o ver a ser desperdiçado, e os seus livros são odes à profundidade filosófica. Aliás, se a profundidade filosófica se medisse em metros, ia ser preciso inventar uma nova classe de números para medir os livros do Gonçalo M. Tavares.

E o problema é exactamente esse. Os livros são tão, mas tão, mas tão profundos, que sabem o que é que se vê cá de cima, quando se começam a folhear as páginas? Nada.

"Trapaceiro! Ignorante! Tu é que não compreendes o que o autor quer dizer!"

Por uma vez concordamos. Eu sou de facto uma pessoa com inclinação para fazer batota, não sei assim tanta coisa quanto isso, e não compreendo PEVAS daquilo que este autor me quer dizer. A única coisa que retiro dos seus livros, para além das ocasionais citações interessantes, é que estou perante mais um autor que se está a borrifar para os leitores. Ou melhor, que está a cultivar um grupo de leitores muito específico, um grupo intelectual de intelectualidades muito intelectuais, que só são capazes de ler obras que avancem a espécie humana e que estejam rotuladas como OBRAS-PRIMAS, CLÁSSICOS e NOBEL.

É pena. Lá está, acho que o Gonçalo M. Tavares é um dos melhores escritores da actualidade. Mas mantenho-me firme na minha opinião de que é um dos nossos piores autores.

Já se tenho maturidade ou não para para dizer estas coisas, como o Sr. Burro da Silva tão bem questionou ali em cima, a única coisa que vos digo é: se tudo correr bem nunca ninguém vai achar que eu tenho propriamente maturidade suficiente para o que quer que seja. Gosto demasiado de brincar com Legos.

sábado, 14 de novembro de 2015

Sr. Burro da Silva, o leitor hipotético


Lembram-se deste texto, sobre suspensão da crença? Foi lá que nasceu o Sr. Burro da Silva, um ser imaginário que fez sucesso entre quem acompanha o blog. Na altura não pensei muito nisso, mas a pedido de uma imensa quantidade de famílias (duas pessoas) decidi que não era má ideia fazer deste meu amigo abstracto um membro regular dos meus textos.

Mas quem é, afinal, o Sr. Burro da Silva? Qual o motivo do seu nascimento? Porque é que se chama assim? E qual vai ser o papel daqui para a frente?

Para começar, o Sr. Burro da Silva é uma criatura conceptual que condensa na sua não-existência todas as características possíveis e imaginárias que me irritam noutras pessoas. Especialmente no que diz respeito a escrita e leitura.

É que, digamos, como alguém que sempre teve opiniões fortes, e que não tem vergonha de ler e escrever o que muito bem lhe apetece, pessoas a gozarem comigo por causa disso é o pão nosso de cada dia, há anos. Às vezes nem é gozar, é mesmo menosprezar.

Este Sr. Burro da Silva é um leitor hipotético que simboliza, de uma forma geral (mas também particular), pessoas que me irritam. O que quer dizer que se significados simbólicos se medissem numa qualquer unidade de massa, o Sr. Burro da Silva seria um indivíduo imaginário deveras gordo.

Felizmente este meu amigo mora num espaço abstracto e meramente conceptual, com o objectivo de ser puxado da cartola sempre que precisar de dialogar com alguém para explicar melhor alguma coisa a quem lê estes textos que teimo em publicar por aqui.

"Sirvo para quê, repete lá?"

Ora se não é o próprio Sr. Burro da Silva! Bons olhos mentais o vejam, ainda bem que voltou do seu retiro intelectual chamado Fantasia não é Literatura: se eu quisesse ler coisas irrealistas ia ler os acordos do PS com o BE, o PCP e o PEV.

Sim, ele é agressivamente de direita, em termos políticos. Nem sequer um PSDzito, é mesmo CDS-Paulo-Portas-é-um-deus-irrevogável. Mas deixemos a política fora destas coisas! Como vai, Sr. Burro da Silva?

"Estou confuso."

Não me surpreende. A única coisa que consegue estar mais vezes do que surpreendido é perplexo, e acho que é só porque pensa que querem dizer a mesma coisa. Mas não se preocupe que eu explico rapidamente: agora trabalha para mim!

"Ai sim? Por alma de quem, seu rabilas que lê Stephen King e gosta de Dan Brown?"

Tenha calma, que ambos esses autores tendem para fast food, mas Stephen King é mais uma espécie de hamburgueria gourmet, enquanto que Dan Brown é um McDonalds daqueles gordurosos e mal encarados. Não interessa. Fico mais curioso com o facto de não gostar de Dan Brown...

"Aquilo não é literatura a sério."

Bem, até concordo. É repetitivo, como o Nicholas Sparks, e o tipo estica-se demasiado a escrever. Mas, e não me orgulho muito desse facto, mas também não me envergonho particularmente, até gosto bastante de um livro dele, Fortaleza Digital, ou pelo menos lembro-me de gostar, que já o li há uns anos largos.

"Bah. Ainda por cima a compará-lo com o génio literário que é o Nicholas Sparks."

Como?

"Nicholas Sparks! Um dos maiores escritores vivos, com histórias tocantes, bem escritas, originais!"

Que... Ah, calma. Já sei. Também não gosto de pessoas que não são coerentes. Isto vai ser divertido. Sr. Burro da Silva?

"O que foi?"

Pode regressar para a sua casa conceptual e ler... bem, o que andar a ler agora.

"Estou a fazer uma maratona pelas notas de rodapé e os anexos dos livros do David Soares! Aquilo sim, vale a pena."

Está bem, então. Adeus, até à próxima.

Como podem ver, o Sr. Burro da Silva é uma óptima desculpa para eu gozar com as coisas e fazer de conta que tenho piada. Não sei quando é que ele volta, mas há-de voltar de certeza absoluta. Por agora não percam o próximo episódio, porque nós... também não!