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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Que as citações nos caiam em cima [61]


"Um coice. A pólvora queima-me os olhos e penetra-me as narinas. Um pedaço de chumbo voa... Se aquilo fosse um homem... O chumbo partia-lhe a espinha e dexaria de sentir as eprnas, enquanto o seu coração explodia... Outro coice. A bala abria um buraco redondo e eu veria o terror estampado na sua cara enquanto metade do cérebro dele saía pela nuca. Odeio esta arma. Odeio o meu trabalho. E continuo a praticar."

James Gordon em Batman: Ano Um (Batman #1)
Frank Miller

Batman: Ano Um (Batman #1)


Argumento: Frank Miller
Arte: David Mazzucchelli, Richmond Lewis
Tradução: Paulo Moreira

Sinopse

Opinião: Volta e meia faço releituras. Neste caso nem é bem, que ler um livro numa língua ou noutra são coisas diferentes, mas pronto. O que interessa é que há alguns livros que leio mais do que uma vez. E nunca me espanto com o quanto a minha opinião muda.

A sério, leiam a minha opinião de há dois anos sobre este mesmo livro (só que lido em inglês). Já está? Continuemos então. O que é que eu posso dizer? Praticamente só concordo com o facto de que a história é mais sobre o Gordon do que sobre o Batman. De resto? Vamos recomeçar.

Primeiro, a coisa que mais chateou ao reler essa opinião: disse que fazia falta um vilão a sério. Estúpido. Não faz falta nenhuma. Não é esse o objectivo. Ano Um é uma impressionante história de origem que mostra a essência do Batman: alguém que surgiu para proteger uma cidade. Não para a proteger dos supervilões psicopatas, mas simplesmente para a proteger.

E porquê? Porque Gotham é uma cidade que podia ser real. Uma cidade onde o crime é algo banal e tão comum que não é preciso surgir um Joker, nem um Lex Luthor, nem um Magneto, nem um Loki, nem um Thanos, nem nada que se pareça. Gotham precisa de ser salva dos barões da droga, das máfias, dos violadores, dos assaltantes de esquina, dos assassinos, dos políticos corruptos.

É quase religioso. Gotham precisa de ser salva porque peca, quer queira quer não. E da mesma forma que as religiões têm diabos e demónios afins para que as pessoas tenham medo das consequências, também Gotham ganha o seu próprio demónio, Batman, que rapidamente se apercebe que tem de provocar medo, se quer ganhar.

Mas depois a maior parte da narrativa não incide no Batman, mas sim em Gordon. Ou melhor, é dado mais destaque a Gordon, pelo menos. E por muito que eu me tenha queixado da outra vez, agora percebo que faz sentido. É que Gordon - e tenho a certeza de que isto já foi analisado quinhentas mil vezes - e Batman são na realidade aquilo que o outro gostava de ser. O Batman teve que encarnar os seus próprios medos para se tornar eficaz na luta contra o crime, e a sua figura de super-herói acaba por atrair cada vez mais vilões; Gordon, por outro lado, sente-se impotente por ser apenas um homem cumpridor da lei no meio do ninho corrupto que é Gotham.

As histórias paralelas destas duas personagens mostram duas evoluções fascinantes, quase espelhadas. Dois homens que de certa forma se arrependem daquilo que são, mas que têm noção de quais são os seus papéis e os cumprem, apesar de tudo.

A história de Frank Miller ganha assim um novo significado para mim, que a tinha achado mediana. O grafismo de Mazzuchelli também me parece muito mais adequado, não propriamente indefinido, mas impreciso, a revelar no desenho aquilo que Gotham é, uma cidade sem linhas direitas nem linhas tortas, nem recheada de negros nem de brancos, apenas de cinzentos.

Ano Um revela-se uma história muito melhor do que aquela que me lembrava, e uma que aconselho definitivamente, especialmente se forem fãs do Batman. Pode não ser fácil lidar com a falta de protagonismo de Batman, ou a com ausência de um vilão concreto, ou até com a inexperiência do Cavaleiro das Trevas, mas uma leitura mais atenta revela muito mais do que isso: um grande livro.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Regresso do Cavaleiro das Trevas #2


Título: O Regresso do Cavaleiro das Trevas #2

Argumento: Frank Miller
Desenho: Frank Miller
Arte-final: Klaus Janson
Cor: Lynn Varley
Tradutor: Paulo Moreira

Sinopse: Jurando vingar o assassinato dos seus pais, Bruce Wayne transforma-se em Batman, um justiceiro que luta contra o crime...

Mas há mais de dez anos que ele não aparece e que ninguém ouve falar nele...

Até hoje...

Estamos em Gotham, no futuro... Bruce Wayne abandonou o seu uniforme de Batman há uma década e refugiou-se na vida social de um milionário. Mas é arrancado do seu torpor pela aparição de um gang urbano, os Mutantes, contra os quais volta a vestir a farda de Batman. O Regresso do Cavaleiro das Trevas desperta o Joker do coma catatónico em que se encontrava no Asilo Arkham. Os acontecimentos precipitam-se numa série de confrontos épicos, que vão abalar a cidade de Gotham. Esta é uma das mais revolucionárias histórias de super-heróis de sempre, que mudou definitivamente a banda desenhada americana.

Opinião: O segundo volume ainda conseguiu ser melhor que o primeiro! Caraças! Nesta segunda metade de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, assistimos ao declínio do Batman e à sua queda.

Queda? Mas foi mesmo? É que na verdade só parece ser de facto isso durante breves momentos, pois no resto do tempo está a usar todas as armas e a inteligência que tem à disposição para distribuir enxertos de porrada e de esperança por todo o lado.

Até ao Super-Homem. E tudo isto sempre com o mesmo tom sombrio que foi a marca indiscutível do primeiro volume, tanto a nível de enredo como de ilustrações, que continuam muito boas.

O Batman nunca foi tão velho e ao mesmo tempo tão novo. A justiça revigora-o, fazer o que está certo deixa-o emocionado, e parece rejuvenescer durante os confrontos, ainda que no fim seja sempre e só um velho abatido apoiado na adrenalina, nos gadgets e na sua imensa força de vontade.

A verdade é que o seu espírito justiceiro é tudo o que realmente precisa para ultrapassar as dificuldades, mesmo que por vezes tenha que se apoiar na Robin, ou em Alfred, o sempre fiel mordomo.

Com um enredo muito bem construído e desenvolvido, ilustrações que combinam na perfeição com a história e lhe dão o tom que precisa, e personagens fantásticas, este segundo volume é, em conjunto com o primeiro, uma das melhores BD's que já tive o prazer de ler.

domingo, 30 de junho de 2013

O Regresso do Cavaleiro das Trevas #1


Título: O Regresso do Cavaleiro das Trevas #1

Argumento: Frank Miller
Desenho: Frank Miller
Arte-final: Klaus Janson
Cor: Lynn Varley
Tradutor: Paulo Moreira

Sinopse: Jurando vingar o assassinato dos seus pais, Bruce Wayne transforma-se em Batman, um justiceiro que luta contra o crime...

Mas há mais de dez anos que ele não aparece e que ninguém ouve falar nele...

Até hoje...

Estamos em Gotham, no futuro... Bruce Wayne abandonou o seu uniforme de Batman há uma década e refugiou-se na vida social de um milionário. Mas é arrancado do seu torpor pela aparição de um gang urbano, os Mutantes, contra os quais volta a vestir a farda de Batman. O Regresso do Cavaleiro das Trevas desperta o Joker do coma catatónico em que se encontrava no Asilo Arkham. Os acontecimentos precipitam-se numa série de confrontos épicos, que vão abalar a cidade de Gotham. Esta é uma das mais revolucionárias histórias de super-heróis de sempre, que mudou definitivamente a banda desenhada americana.

Opinião: Foi com algum receio que comecei a leitura deste livro. Depois de ler Batman: Ano Um, não me sentia muito confiante quanto a histórias do morcego escritas por Frank Miller.

Mas opiniões de confiança diziam-me que este livro era espectacular, e bem, mais histórias de Batman, menos história de Batman, não me vou queixar.

E a verdade é que ainda bem que dei ouvidos a essas opiniões, porque este livro é de facto tremendo! A visão de um Batman envelhecido e semi-derrotado pela sua própria mortalidade é assustadora.

Isto é algo que é muito frequente uma pessoa esquecer-se, relativamente a este super-herói em particular. Bruce Wayne não veio de um planeta distante, não tem super-poderes, não é nenhum deus. É uma pessoa, um humano, um quase-comum mortal. Quase-comum porque enfim, é o Batman.

Enquanto que o Super-Homem pode provavelmente viver durante séculos e séculos com o mesmo ar jovial, o Batman envelhece. E esta história começa precisamente numa altura em que o morcego pendurou as botas há já 10 anos.

O seu regresso forçado à acção é quase doloroso de observar. Com um corpo que já não obedece tão bem como antigamente, e uma resistência a pancadas bastante diminuída, o seu trabalho de enfrentar ameaças fica bastante mais complicado.

Mas fá-lo. Amargo, desiludido consigo próprio, com um enorme sentido de dever a pesar-lhe nos ombros, velho mas ainda assim resiliente, Bruce Wayne veste a capa e protege Gotham como antigamente.

Os desenhos e as cores sóbrias e escuras ajudam ao ambiente que se espera de uma história do Batman, negro e melancólico. Normalmente pausado e calmo, as ocasionais explosões de acção dão outra dimensão à história, não só aumentando o interesse mas também causando um forte contraste com as sequências mais calmas.

Resumindo, é um livro muito bom e muito interessante, fascinante por o protagonista, mais do que ter que enfrentar os Mutantes, um Harvey Dent enlouquecido, um Joker apático ou uma população desconfiada, tem que lutar com os anos que pesam no seu próprio corpo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Booze, Broads, & Bullets (Sin City #6) [2/2]

Título: Booze, Broads, & Bullets
Autor: Frank Miller

Opinião: Com Blue Eyes voltam a aparecer os pequenos toques de cor que já se tinham visto em Aquele Sacana Amarelo, e que adiciona qualquer coisa de espectacular ao aspecto gráfico da história. Neste caso nem resulta tão bem quanto isso, porque o azul não se destaca tanto como o amarelo ou o vermelho que vem mais à frente, mas continua a ter o seu efeito. No que toca à história, é interessante, principalmente pelo homem completamente maluco da cabeça, que é sempre agradável de encontrar numa história qualquer.

E para não me deixar ficar mal, Rats volta a apresentar uma personagem louca, desta vez um antigo veterano de guerra, que passa as poucas páginas da história a bater mal da cabeça. O destaque nesta história, ainda assim, vai para o tipo de letra, diferente do habitual e que encaixa na perfeição na loucura da personagem.

Daddy's Little Girl foi provavelmente a história que mais me impressionou, pelo simples facto de me conseguir surpreender. Eu bem que já devia saber que o amor em Sin City é sempre a mesma coisa, mas juro que desta vez estive enganado o tempo todo. Brutal e "ligeiramente" violento, esta história é outra que beneficia do toque de cor, desta vez cor-de-rosa, que acaba por resultar estranhamente bem, acentuando a inocência da personagem e contrastando bastante com a violência da história.

Depois de ter sido introduzida em Blue Eyes, Delia volta a aparecer em Wrong Turn, uma história que mostra como a personagem ainda é mais interessante do que aquilo que tinha deixado prever.

É por isso que volta a aparecer em Wrong Track e eu não me chateio que apareça em mais histórias neste volume do que o Marv. A personagem é de facto interessante, e embora a história seja sempre a mesma, acho que consegue manter-se interessante. Eu pelo menos não me fartei de ler sobre Delia, a Blue Eyes, ao mesmo tempo amante fogosa e cabra sacaninha.

Para finalizar aparece The Babe Wore Red, uma história tipicamente noir, com femme fatale incluída e tudo. Desta vez os toques de cor são vermelhos, e ajudam muito mais a contar a história que os próprios diálogos. É uma boa história para finalizar, tem mistério e tem a sua dose de violência, como não podia deixar de ser, e uma qualidade bastante boa em termos de enredo.

Como podem ver, quase todas as 11 histórias têm os seus pontos fortes e os seus defeitos, como era de esperar, mas os primeiros são claramente superiores e abafam por completo os segundos, de tal forma que mal dei conta pelas falhas. Este é um livro que vem novamente elevar a qualidade média desta saga para várias níveis acima da que é possível atingir por comuns mortais.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Booze, Broads, & Bullets (Sin City #6) [1/2]

Título: Booze, Broads, & Bullets
Autor: Frank Miller

Opinião: O formato deste livro é um pouco diferente dos volumes anteriores. Enquanto que os primeiros 5 números tinham uma única narrativa, este Booze, Broads, & Bullets colecciona vários one-shots, histórias mais pequenas entre as 3 e as 30 páginas.

E pensam que isto prejudicou a qualidade, de algum forma? Antes pelo contrário, este novo formato permitiu a Miller contar vários tipos de histórias, de várias formas, dando asas à sua imaginação e presenteando-nos com algumas pequenas pérolas.

Um dos melhores exemplos disso é Just Another Saturday Night, a primeira história, sobre Marv, como não podia deixar de ser, sendo ele a personagem que para mim é a mais bem conseguida. Há violência e a história avança de forma interessante, deixando algumas dicas sobre o passado de Marv. Aguçou o apetite e foi a entrada perfeita neste livro.

Depois vieram Fat Man and Little Boy, duas personagens absolutamente geniais e das quais me esqueço sempre de falar: têm o ar mais criminoso da história do crime, mas são mais eloquentes e faladores que qualquer académico que conheçam. A história é curta e serve apenas para exibir um pouco as duas personagens, sempre hilariantes, mas acaba por ser bastante representativa do que são as duas personagens, criminosos demasiado eloquentes que gastam demasiado tempo a falar e pouco a pensar.

Em The Customer is Always Right podemos ver o exemplo perfeito do que pode ser o amor em Sin City: violento, traiçoeiro, intenso e inesperado. A brevidade da história, pequena mesmo para os padrões deste livro, é um ponto a seu favor, pois adiciona-lhe uma brusquidão que se enquadra muito bem com a história de amor fugaz e intenso que quer contar.

Silent Night é simplesmente soberbo. Praticamente sem diálogos, é mais uma história sobre Marv, muito focada nos desenhos e com o contraste entre o preto e o branco acentuado pela expressividade que cada vinheta precisa de ter, para contar a história sem palavras. O coração doce de Marv, escondido debaixo de uma autêntica máquina de guerra, não é propriamente uma surpresa, mas não deixa de impressionar pelo contraste que faz com o aspecto e as atitudes da personagens, um contraste quase tão forte como o preto e o branco que contam a história. Fenomenal!

A próxima história, And Behind Door Number Three..., é que não beneficia com a brevidade, sendo apenas demasiado rápida e servindo como mero pretexto para mostrar como as prostitutas de Sin City têm mais poder do que é normal, e não hesitam em fazer justiça pelas suas próprias mãos, muitas vezes de formas bastante violentas.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Family Values (Sin City #5)

Título: Family Values
Autor: Frank Miller

Opinião: O talento de Frank Miller enquanto autor de BD's tem-me convencido, e de que maneira. Os seus Sin City's são das melhores coisas que já me passaram pelas mãos. Mas este desiludiu-me.

A história não tem muito mais para além do factor "a Miho é espectacular e bastante mortífera". Normalmente não me queixaria muito disso, mas para a qualidade normal do argumento de Miller, isso faz deste quinto volume um livro meramente mediano.

Ainda por cima a história ficou demasiado presa a isso, não se conseguindo elevar à fantástica qualidade das histórias anteriores. Continua negra e os desenhos ainda têm o forte contraste preto e branco para adicionar o seu quê de brilhantismo ao livro.

E a Miho é de facto bastante espectacular e mortífera. O facto de não ter qualquer fala só lhe adiciona carisma, um carisma bastante assustador, mas carisma. Já a personagem masculina não tem nada de particularmente interessante e serve só como engodo para a Miho espalhar espectacularidade.

Tirando isto, pronto, é uma história de vingança particularmente violenta e com requintes de sadismo, com Miho num papel de destaque e o poder que as prostitutas da Cidade Velha têm em Sin City, graças à sua atitude independente e extremamente agressiva. Como se viu em praticamente todos os livros, elas agarram os assuntos com as próprias mãos e resolvem-nos, com mais ou menos sangue, mas sempre com bastante violência.

Enfim, um livro mediano tendo em conta os outros, mas que acaba por não manchar a aura de brilhantismo que emana desta saga negra (e branca).

sexta-feira, 10 de maio de 2013

The Man Without Fear


Título: The Man Without Fear
Argumento: Frank Miller
Desenho: John Romita Jr., Al Williamson, Christie Scheele

Sinopse: He was raised by a single father, an over-the-hill prizefighter with one last chance to make it good - a chance that cost him his life. Taunted and tormented by children while growing up, Matt's life was irrevocably altered after he was blinded by radioactive materials while saving the life of an old man. The payoff? An unbreakable will and a keen intelligence, helping focus the super-senses he was blessed with during the accident. His story is one of love, pain, disappointment and strength. Witness the tour de force origin of the Man Without Fear by industry legends Frank Miller and John Romita Jr.

Opinião: Nunca fui grande fã do Daredevil. No meio de tantos super-heróis, este é daqueles poucos que nunca me fascinou por aí além. Também nunca li grande coisa em que ele fosse o protagonista, e entretanto apareceu aquela abominação de filme com o Ben Affleck.

Mas encontrei este livro por acaso na nova biblioteca das BLX, em Alvalade, e reparei que o argumento era de Frank Miller, um autor ao qual já me rendi, graças aos seus fantásticos Sin City. Decidi, portanto, dar uma oportunidade ao herói cego.

E ainda bem que o fiz. Para minha surpresa, acabei por gostar do livro. Não tenho dúvidas de que o culpado é Miller, que conseguiu escrever uma história interessante sobre as origens desta personagem, um tema que me desperta sempre a atenção, seja qual for o super-herói, mas as ilustrações também tiveram alguma influência: têm os seus momentos noir, como é devido à personagem, e acrescentam bastante à história.

Neste The Man Without Fear, Miller dá motivações, objectivos, problemas, defeitos e virtudes ao Daredevil, focando-se na sua vida pré-super-herói-de-collants. Ao fazer isso dá uma profundidade à personagem que a faz ganhar muitos pontos, na minha opinião. E embora goste muito mais do Batman enquanto personagem, gostei muito mais deste livro do que de Batman: Ano Um. Só prova que Miller é um argumentista excepcional, capaz de me fazer apreciar um livro com uma personagem que não me diz nada.

Vamos assumir que o Batman foi um desaire... Porque de resto, a única coisa que quero é ler mais obras deste autor!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Aquele Sacana Amarelo (Sin City #4)

Título: Sin City - Aquele Sacana Amarelo

Autor: Frank Miller
Tradutor: João Miguel Lameiras

Sinopse: John Hartigan, o último polícia honesto de Sin City, está a poucas horas da reforma, quando o perverso filho do Senador Roark, o homem mais poderoso de Sin City, rapta uma miúda de 11 anos, chamada Nancy Callahan, e muda a sua vida para sempre.

Opinião: Foi completamente rendido a Sin City que comecei a ler este livro, e foi completamente rendido a Sin City que acabei de o ler. Aquele Sacana Amarelo atinge níveis tão elevados como o primeiro volume, na minha opinião.

Frank Miller volta a provar que há poucas histórias com tanto potencial narrativo e emocional como as histórias de vingança. Desta vez é um polícia à beira da reforma, John Hartigan, que mesmo no último dia de trabalho se vê envolvido no rapto de uma rapariga de 11 anos por um pedófilo.

Essa rapariga é Nancy Callahan, que vemos nos anteriores volumes, normalmente com muito pouca roupa. E se o que vimos é prenúncio do que aqui vai suceder, já sabemos que Nancy é a rapariga mais protegida da cidade, o que se confirma, com John Hartigan a fazer o papel de cavaleiro andante.

Hartigan é tramado, mas não cede. Aguenta estoicamente o que tem que aguentar para manter Nancy a salvo. Mas como não podia deixar de ser, algo corre mal, e a partir daí é ver os enxertos atrás de enxertos de porrada e violência que se sucedem.

O sacana amarelo do título é literalmente um sacana amarelo. Pela primeira vez em quatro livros aparecem mais cores além de branco e preto: o amarelo do sacana, tão vívido e aberrante em comparação com o resto do desenho. Este toque de cor nada subtil acaba por se enquadrar bastante bem na narrativa, dando o devido destaque à personagem e ajudando a criar um sentimento de repugnância partilhado entre o leitor e as outras personagens.

Algo que me tenho esquecido de mencionar é as ligações que os livros têm uns com os outros. Não me lembro de grandes referências no terceiro, para além de se saber que acontece a seguir ao segundo, mas a história do segundo cruza-se com a do primeiro, e a deste vai inclusivamente atrás do primeiro e encontra Dwight, personagem do segundo e terceiro livro, a queixar-se da mulher que tantos problemas lhe vemos trazer depois. São pormenores que facilmente passam despercebidos mas que contribuem para a solidez da narrativa.

Em suma, posso dizer que gostei muito deste livro e que estou definitivamente rendido à mestria de Frank Miller enquanto contador de histórias sombrias e violentas e enquanto artista gráfico. O estilo que usa em Sin City, com os seus implacáveis jogos de sombras e, no caso deste livro, pequenos toques de cor bem planeados, transmite uma intensidade fora do comum às histórias e permite o tal envolvimento do leitor no ambiente de Sin City. Muito bom.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Grande Matança (Sin City #3)

Título: Sin City - A Grande Matança
Autor: Frank Miller
Tradutor: João Miguel Lameiras

Sinopse: Nas ruas de Sin City reina uma frágil trégua entre a polícia e as raparigas da Cidade Velha. Quando a morte de um polícia na Cidade Velha vem pôr em causa essas tréguas, Dwight vê-se obrigado a entrar em acção para defender as suas amigas. Mesmo que para isso tenha que morrer, ou matar montes de gente.

Opinião: Começo a acreditar que vai ser complicado encontrar uma personagem nestes livros que me agrade como Marv, ou uma história que me agrade tanto como a sua. Este livro ainda por cima continua a seguir Dwight McCarthy, protagonista de Mulher Fatal que não me fascinou por aí além.

O estilo continua a ser o mesmo, negro e depressivo, aquele arzinho noir que Miller tão bem consegue retratar, nos seus aspectos mais piedosos e mais brutais, normalmente ao mesmo tempo. O preto e o branco do jogo de sombras característico do autor continua a dar uma intensidade descomunal à história, que desta vez se foca mais num elemento bastante curioso dos livros anteriores: a Cidade Velha.

Em Sin City as prostitutas vivem todas na Cidade Velha, e ditam as suas próprias regras. Isso fica bem patente nos dois primeiros volumes de Sin City, com as aparições das prostitutas a serem dos momentos mais intrigantes dos vários enredos. Além de, bem, terem ar de prostitutas, têm todas um ar implacável, e é exactamente isso que acaba por ser explorado neste livro.

Isso e vertente emocional da praxe, que parece-me que Miller nem deve dormir bem se não enfiar uma história ou problema de amor no meio da história, que serve invariavelmente como motivação para os protagonistas matarem montes de pessoas. Oh sim, porque Miller também deve adorar ver bonequinhos a serem torturados e mortos das mais variadas e imaginativas maneiras, muitas delas devidas a Miho, a pequena e mortífera ninja protectora das prostitutas.

Sei que isto assim parece um pouco estranho, mas acreditem em mim, quando se está a ler um livro destes, que nos consegue deixar mergulhados na história da maneira que estes conseguem, isto faz tudo bastante sentido.

E tenho que dar destaque ao Jackie-boy, a personagem que despoleta grande parte dos acontecimentos deste livro, e que tem o seu momento alto enquanto alucinação, um papel que desempenha de forma perturbadora e ainda assim bastante natural.

Deixo-vos com esta ideia, bastante simples e fácil de seguir: Sin City é uma saga a ler. Ainda que o primeiro livro tenha sido o pico da espectacularidade, e estes 2 tenham sido só muito bons, esta é uma saga com qualidade do princípio ao fim (até ver) e que se torna obrigatória para qualquer fã de BD.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Mulher Fatal (Sin City #2)

Título: Sin City - Mulher Fatal
Autor: Frank Miller
Tradução: João Miguel Lameiras

Sinopse: Depois de Marv, chegou a altura de conhecermos outro habitante da Cidade do Pecado, Dwight McCarthy. Dwight é um fotógrafo com um passado violento, que pretende esquecer e de que faz parte Ava, uma mulher bela e sedutora, completamente desprovida de escrúpulos. Até que Ava reentra na vida de Dwight, despertando demónios que estavam adormecidos. Dominado pelo charme mortífero desta Mulher Fatal, Dwight vai ter que matar por ela, mas essa será apenas a primeira de muitas mortes...

Opinião: Sem ter a força e a intensidade do primeiro volume, Mulher Fatal continua na linha negra e violenta de A Cidade do Pecado. Frank Miller volta a pegar numa personagem masculina bastante badass, dá-lhe problemas por causa de uma mulher, e é o caos.

A personagem peca por não ser o Marv. Mas o nível dessa personagem é praticamente inatingível, especialmente por outra do mesmo estilo. Faça essa nova personagem o que fizer, Marv já o fez, só que de forma mais violenta.

Mas Dwight não é completamente desprovido de piada. A sua devoção a Ava é bastante parecida à que Marv tinha por Goldie, só que aqui a mulher está viva, e não há um desejo de vingança por causa dela, mas sim contra ela. Sem querer revelar demasiado da história, a mulher fatal do título é realmente fatal e acaba sempre por trazer problemas ao protagonista, que é momentaneamente acompanhado na pancadaria por Marv, que não podia faltar a este livro.

E isso levou a alguns pormenores engraçados, em que a história do primeiro livro é vislumbrada nesta, com as mesmas cenas a aparecerem de outro ponto de vista, e essa história a desenrolar-se escondida, em pano de fundo.

A história acaba por ser bastante linear. Homem atraiçoado quer andar à pancada, e anda, fim. Não há tantas voltas como na história anterior, mas talvez não deva comparar assim ambos os livros, para não fazer pouca justiça a este, que é tremendo. Não tão tremendo como o primeiro, mas isso não o diminuí. A história é diferente, o grafismo é exactamente o mesmo (e os homens continuam aberrações deformadas) e a força que Frank Miller consegue transmitir através de todos esses aspectos e ainda através do próprio enredo e da dimensão das personagens, continua a ser enorme.

As personagens secundárias também são interessantes, algo com que o autor consegue lidar bastante bem: tem a história focada em 2 ou 3 personagens principais, e cria personagens secundárias que mesmo sendo mais planas continuam a dar uma impressão bastante realista, excepto a pequena ninja, ainda que isso não faça dela menos espectacular (os ninjas são fixes, caros leitores).

Por fim, acho que a grande conclusão que tiro deste livro é que quero ler mais sobre Sin City. Quero conhecer melhor os seus cantos escuros, ver mais histórias na Cidade Velha, o território dominado pelas prostitutas, e mais pancada, sangue, tripas e violência crua de uma forma geral, tão bem escrita e desenhada nestas BD's.

terça-feira, 26 de março de 2013

A Cidade do Pecado (Sin City #1)


Título: Sin City - A Cidade do Pecado

Autor: Frank Miller
Tradução: Pedro Pires

Sinopse: O primeiro volume da Cidade do Pecado começa como devia começar: com um crime. Marv, feio e bruto como é, não tem muita sorte com as mulheres e quando matam Goldie, a deusa com quem passou uma noite de sonho, decide descobrir o que se passou, fazendo justiça pelas suas próprias mãos. E não vai ser uma coisa rápida e silenciosa, como aconteceu com Goldie. Não, vai ser feio e sangrento e ruidoso!

Opinião: Quando vi o filme baseado neste (e noutros dois) livros, lembro-me de ter reparado no aspecto bastante distinto e forte. Quase completamente a preto e branco, os detalhes de vermelho, amarelo, verde e azul davam-lhe uma intensidade difícil de encontrar noutros filmes, em termos puramente visuais.

A curiosidade para ler os livros era bastante, como podem imaginar. Digo-vos desde já que fiquei ligeiramente desapontado ao início, por não haver cor nenhuma, mas rapidamente me deixei de parvoíces e me rendi à mestria de Frank Miller.

O uso forte e contrastante do preto e branco consegue dar uma expressividade fora do comum não só às personagens como a cada cenário. Um homem num beco escuro é literalmente um homem num beco escuro: não se vê o beco, vê-se um homem rodeado de escuridão, tão perdido e isolado como o estado mental que o levou ao dito beco.

Mas nem só de imagens se faz esta BD, ainda que isso fosse mais do que suficiente. A história é também muito boa, uma história de amor e de vingança brutal, sanguinária, sem qualquer tipo de misericórdia, mas bastante comovente em várias alturas.

E as personagens... Marv, o gigante feio que nem cornos, tem uma força e resistência descomunal, mata pessoas sem sequer piscar os olhos, e também as tortura sem grandes remorsos. Mas não bate em mulheres. E ai de quem se tente meter com aquelas que ele protege. É por isso que matarem Goldie, a loira bombástica, a deusa pessoal de Marv, a mulher que lhe dá uma noite sonho, não é de todo uma boa ideia.

É assim que começa o livro, e o desenvolvimento não podia ser mais violento e espectacularmente brutal, ou brutalmente espectacular, qualquer das hipóteses serve. Não só Marv como também outras personagens, incluindo a própria Goldie, morta desde as primeiras páginas, são personagens tão bem construídas que me pareceram reais. Têm personalidades bem definidas, quase palpáveis. Os casos de Marv e de Goldie são bastante particulares: ele por ter uma personalidade tão improvável e aparentemente inconjugável com a sua aparência e forma de pensar, mas ainda assim tão real; ela por praticamente não aparecer viva e ainda assim ser das personagens de que mais me recordo, em grande parte graças a Marv, que a mantém viva na memória.

A força do livro é imensa por isso mesmo. A história que conta é de vingança, mas do tipo de vingança com o qual toda a gente se consegue identificar e compreender, a vingança por amor. Marv passou uma noite com Goldie e ficou verdadeiramente apaixonado, apenas para a ver a ser morta ao seu lado, enquanto estava inconsciente, de tão bêbedo. Mesmo com Marv a ser um brutamontes cujo primeiro instinto é partir a cabeça de alguém e só depois fazer as perguntas, não acredito que a maior parte dos leitores consiga não torcer por ele. É uma personagem demasiado boa numa história demasiado boa.

Tudo isto e nem sequer falei da cidade em sim, Basin City, mais conhecida por Sin City, que ganha uma vida própria página atrás de página, através dos seus habitantes, muitos deles personificações da própria cidade (ou será a cidade uma objectificação das personagens?) e representantes de uma das suas vertentes, invariavelmente pecaminosas, agressivas e olharem a meios. Marv vê-se envolvido em vários problemas graças à sua demanda pessoal e também pelo simples de estar na cidade em que está.

Porque Sin City é mais do que uma cidade, é um verdadeiro ecossistema moral completamente fechado, com as suas próprias regras e divisões de poder, que dão a ideia de terem nascido de forma orgânica, sem intervenção ou pressão dos seus habitantes. A cidade simplesmente evoluiu de forma natural para o antro brutal e cruel que é. E com ela os seus habitantes fizeram o mesmo. E com ambas as coisas, também a história o faz. É brutal, cruel e algo sádica. As mulheres são todas voluptuosas e andam sempre pouco vestidas, e os homens têm sempre montanhas de músculos que mais parecem deformações ou grandes barrigas e grandes carecas, mas uma coisa é certa: ler sobre Sin City é ir até Sin City e sentir a sua atmosfera. E um livro que consiga fazer isso da forma que este faz não pode ser nada menos do que um excelente livro.

sábado, 23 de março de 2013

Batman: Year One

Título: Batman: Year One

Argumento: Frank Miller
Desenho: David Mazzucchelli
Cor: Richmond Lewis
Tradução: Paulo Moreira

Sinopse: Elevou-se no ar, batendo as asas, então começou a cair, e as suas asas tornaram-se uma capa esvoaçante que envolvia o corpo de um homem. Esta é a história do Cavaleiro das Trevas de Gotham City... Como apareceu e quem ele veio a ser.

Opinião: A história de como o Batman se tornou o Batman já foi contada tanta vez, que agarrar num livro destes tem que ser feito com algum cuidado. Mas se o nome do autor for Frank Miller, não é preciso hesitar lá grande coisa.

Criador de Sin City, uma saga de BD's bastante conhecida, e argumentista de títulos não só como este Batman, mas também coisas do Wolverine, do Daredevil, mais Batman, a saga Ronin e 300, Frank Miller é um nome de peso da BD americana.

Neste livro é preciso notar que a história mais interessante acaba por não ser a do Batman, mas sim a de James Gordon, o polícia quase sempre presente em todas as histórias deste super-herói, seu cúmplice e amigo.

A razão é simples: a evolução de Bruce Wayne enquanto Batman não é nada de especial. A ideia que dá é a de um jovem ridicularmente rico que andou a aprender artes marciais e agora veste uns collants e tenta deter uns criminosos, só que tem pouco jeito para a coisa, e a certo ponto a coisa torna-se inverosímil, até para os padrões do universo da BD.

No espaço de, digamos 10 páginas, o desgraçado apanha 3 ou 4 tiros, leva com metade dum prédio em cima e apanha alguns sopapos. Limita-se a ignorar a dor e a pontapear uma coluna, ainda com uma bala enfiada na perna, que obviamente se parte a meio. Eu sei que isto é comum nestas histórias, mas aqui não ficou muito conseguido. Normalmente há o factor "ele é um super-herói, ele aguenta!", mas aqui, como já disse, o Batman é apenas um jovem absurdamente rico com uma máscara.

Já Gordon tem uma história mais interessante. Enquanto tenta lidar com o facto de todos os polícias em Gotham City serem corruptos, tem a mulher grávida e envolve-se com uma colega de trabalho. E para ajudar à festa, aparece o Batman, este "super-herói" meio inútil que não sabe bem o que anda a fazer e consegue tornar-se no inimigo número 1 de meia dúzia de pessoas. No meio disto tudo, Gordon tem que aceitar certas coisas, lutar contra outras e, acima de tudo, fazer escolhas, muitas escolhas.

Um Batman muito longe do Batman misterioso e que aparenta ter super poderes, quando na realidade é tudo à base de muita habilidade física, algumas maquinetas engenhosas e o pobre do Alfred, mas um Gordon bastante interessante, com uma história bem construída e uma personalidade bem desenvolvida e explorada. As suas lutas interiores são das mais difíceis, pois a certa altura tem que escolher entre fazer o que está certo e... fazer o que está certo. As nuances são uma coisa tramada.

No fim de tudo, o aspecto gráfico podia ser melhor, mas gostei do pormenor de a narração do Batman ter um grafismo diferente da narração do Gordon. Deu um ar muito mais distintivo e pessoal ao ponto de vista de cada um. Ah, já me ia esquecendo de dizer que para mim, o grande defeito deste livro é não ter um vilão "a sério", um Joker ou um Penguin, ou outro qualquer. E o Gordon acaba por ter uma aura muito mais negra do que aquele que é suposto ser o Cavaleiro das Trevas. Tudo isto faz de Batman - Ano Um um livro agradável, mas que podia ter sido bem melhor.