Mais do que dos filmes (ou dos livros, que não li) sou um fã da personagem: Hannibal Lecter. Especialmente quando este sociopata é brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins, mas também quando é Mads Mikkelsen a dar a cara. Ambos conseguiram um balanço perfeito entre classe, carisma e loucura, tudo concentrado num psiquiatra canibal com requintes de crueldade... E do qual é quase impossível não gostar.
Eu sei que isto até nem parece estranho hoje dia - os vilões estão claramente na moda - mas suspeito que na altura em que Silence of the Lambs apareceu não era bem assim. Valeu Hopkins e tudo o resto que fez desse um filme impecável.
Mas depois, entre sequelas e prequelas lá foram aparecendo mais filmes, incluindo este Hannibal Rising, que data de 2007 e se predispôs a contar a origem do Dr. Lecter. O resultado é um filme com estrutura de filme de super-heróis: há vilões, há um evento traumático, há um underdog e há uma evolução e um amadurecimento.
A diferença é que aqui o protagonista não é um super-herói, mas sim um vilão, dos perturbadores. E aqui dou a mão à palmatória: Gaspard Ulliel não me convenceu ao início, e durante alguns momentos mais para o fim do filme, mas consegue fazer bem o seu papel, de uma forma geral. De vez quando parece que está a tentar demasiado fazer de Hopkins a fazer de Hannibal, em vez de simplesmente fazer de Hannibal, mas é compreensível. Eventualmente encarna verdadeiramente a personagem e faz o que tem a fazer muito bem feito.
Mas o filme causa-me sentimentos contraditórios. Se por lado acabei de o ver e fiquei satisfeito, por outro não foi difícil apontar várias falhas que me desagradaram bastante, incluindo uma que muito me chateou: a humanização do Mal. É algo que também está na moda e que se traduz em fazer com que os vilões tenham motivos razoáveis para se tornarem vilões.
Na prática não são vilões, são incompreendidos. E isso, caríssimos, é uma seca. A maior parte do fascínio que existe com Lecter é causada exactamente pela sua total ausência de Humanidade. Mesmo quando parece uma pessoa normal e está a conversar com a maior das calmas, emana perigo. Parece que está sempre em posição de atacar a qualquer momento, e olhos não mentem: ali não há réstia de algo humano.
E o filme destrói isso por completo, ao dar-lhe uma razão para ser o sociopata que é. Não sei como é que ninguém encarregue daquele filme não percebeu que estavam a fazer asneira. No fundo, irrita-me que o Mal seja representado como sair do caminho certo. Porque é que o Bem há-de ser o caminho certo? Porque é não podem haver mais caminhos? Porque é que tem que haver alguma justificação? A personagem perde muito interesse e profundidade com esta "explicação", o que é uma pena daquelas monumentais.
Tirando essa falha flagrante, há algumas que eram escusadas e que caem no facilitismo, como ter o jovem Hannibal a experimentar uma antiga máscara japonesa que só lhe cobre a metade inferior da cara. Como o Hannibal adulto depois usa na prisão. Enfim. Compreendo a ideia, mas acho que é um simbolismo bacoco que não acrescenta nada à história, mas que apenas a ridiculariza.
O que vale é que o filme está bem feito, e é interessante acompanhar a evolução de Hannibal desde criança a jovem adulto. A sua lenta descida numa espécie muito peculiar de loucura, o seu quase completo vazio sentimental, a forma como a criança inocente que conhecemos no início se torna no perigoso psiquiatra canibal que conhecemos de outros filmes.
É isso que me confunde. Não sei, muito sinceramente, o que achar. É claramente um filme que só serviu para arranjar mais uns trocos, mas acabou por ficar razoável. Tem coisas que não fazem sentido, e coisas que entram na pura especulação, e consegue falhar na questão fundamental da sua origem. Mas é um filme agradável. Raios o partam, Dr. Lecter!