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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Star Wars Episode VII: The Force Awakens (2015)



Não foi horrível! Toquem os trompetes e bradem aos céus! Foi um filme de Star Wars como deve ser. Divertido, cativante, com suficientes acenos ao passado e óptimas questões deixadas em aberto, para o futuro. Os novos actores são, de uma maneira geral, muito bons, e não apareceu nenhum Jar-Jar Binks, nem conversas sobre o Senado, nem midichlorians nem nada que se pareça.

No fundo foi um filme de aventuras, leve e divertido, bem feito, fiel ao espírito original mas compreensivelmente adaptado às audiências de hoje em dia.

Os cenários são realistas, da mesma forma que o eram na trilogia original, e praticamente não há personagens que pareçam falsas montanhas de CGI. No entanto tudo isso perde importância face às personagens.

O filme começa por seguir Poe Dameron, o melhor piloto da Resistência e interpretado por Oscar Isaac, que embora apareça pouco, é impecável. Sou fã deste actor desde que vi Ex Machina e não me desiludiu. Espero que tenha um pouco mais de proeminência, nos próximos filmes.

O foco rapidamente muda para duas personagens peculiares: Finn, o Stormtrooper renegado interpretado por John Boyega, e Rey, a underdog de serviço, interpretada por Daisy Ridley. Ambos se encontram através de circunstâncias improváveis e acabam por ter papéis igualmente improváveis no desenrolares dos acontecimentos - com a devolução da Millenium Falcon ao seu dono original a ser provavelmente o mais icónico deles todos.

Boyega é engraçado, e tem uma história pouco usual para quem apanha o Universo Star Wars: um Stormtrooper que recusa e combate o seu condicionamento, se vira contra os seus chefes mauzões e se alia aos bonzinhos. Mas é Rey que domina, empurrando até Finn para um papel secundário. Não há que enganar: a protagonista é Rey, a personagem encontrada num planeta deserto e que é, acidentalmente, especialista em mecânica de naves espaciais.

Com aspecto de ser da família da Keira Knightley e uma vivacidade digna da saga, é esta personagem que verdadeiramente faz tudo avançar. E bem.

Como é óbvio, os vilões são brutalmente interessantes. O misterioso Snoke, interpretado por Andy Serkis, ainda tem que ser mais explicado e contextualizado, mas já deu para perceber a ideia: Sith Lord super poderoso com planos megalómanos. Mas é Kylo Ren que me interessa. O vilão-mistério dos trailers, com o seu já icónico lightsaber mais parecido com uma espada medieval do que outra coisa.

E aqui chego a um dilema. De um lado, a personagem, fascinante e que me interessou verdadeiramente; do outro, Adam Driver, o actor, que por qualquer motivo não me convenceu minimamente. A revelação das suas origens é chocante, aquilo que faz perto do final é ainda mais chocante, o seu domínio da Força é extraordinário, e a sua falta de domínio do próprio temperamento é ainda mais espectacular. Aqui está um vilão que além de ser complexo e fugir ao estereótipo de vilão super poderoso e confiante de si, ainda enfrenta um dilema novo neste Universo e que muito me interessa ver explorado: alguém que abraça o dark side mas sente a tentação do light side.

Uma ideia tão simples e com repercussões tão brutais! Os meus mais sinceros parabéns a quem teve esta ideia!

No fim percebe-se que há muito fan service, mas não achei que tenha sido mal servido. Não exageraram, o que é bom. E tudo isto faz de The Force Awakens um bom filme e um extraordinário Star Wars, que reacende a chama, ainda que não seja extraoardinário!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Children of Men (2006)



Tremendo. A história cativante e emocionante não põe de lado o vasto worldbuilding, complexo e ainda mais fascinante do que o que quer que seja que aconteça. Não que a história não seja interessante - como já disse, é cativante e emocionante - mas há uma história a ser contada em dois níveis diferentes: a óbvia, que acompanhamos de forma directa no ecrã, e a menos óbvia, que nos é contada nas entrelinhas e através do mundo que é representado.

As camadas de simbolismo são óbvias, embora os significados não o sejam, e tudo isso se conjuga para contar uma história poderosa,  com um tom muito intenso e até pesado, sem que fique exageradamente heavy-handed (está-me a faltar a expressão certa em português). Ou seja, é um tema complicado, num futuro distópico e deveras complicado, com uma mensagem forte e pesada, mas nunca é feito de forma desastrada, nem à bruta.

Em termos simples estamos a falar de um futuro que vê a Humanidade a ficar infértil quase de um dia para o outro, e todas as consequências possíveis desse facto. Tornamo-nos, efectivamente, numa espécie em vias de extinção. A vida que as pessoas levam é mecânica, cinzenta e sem grande esperança do que quer que seja. Ligam-se emocionalmente à pessoa mais nova do mundo, que tem dezoito anos, e choram colectivamente a sua morte.

Enquanto isso há uma crise de refugiados que parece ecoar, antes de tempo, a que se vive hoje em dia, mas levada a um extremo controlador e segregativo. Isto resulta, obviamente, numa série de facções em jogo, todas com objectivos muito próprios e invariavelmente egoístas. Nem toda a gente se resigna, existem rebeldes com um plano e uma esperança.

O protagonista, Theo, antigo activista, é involuntariamente arrastado para o meio de tudo e torna-se numa espécie de herói resignado. Este herói tem como característica mais curiosa um constante problema de calçado: vai perdendo o que tem nos pés, fica muitas vezes ferido, acaba sempre com os pés mergulhados em água quente, para descansar, e passa muito tempo do filme descalço, a fugir de, ou para, algum sítio. Camadas de simbolismo intermináveis.

É também impossível não notar que todos os heróis deste filme surgem dos lugares mais improváveis, e o protagonista apercebe-se disso mesmo, bem como do facto de serem precisos sacrifícios por um bem maior, uma noção que o faz resignar-se ao seu papel de herói.

Por outro lado, e aqui é que está a genialidade do filme, a recusa da câmara em acompanhar o protagonista, como seria normal noutro filme qualquer, permite mostrar o mundo e, no fundo, contextualizar todos os acontecimentos. Acontece muita coisa em pano de fundo, e há até momentos em que mesmo que o foco esteja no protagonista, a câmara não se centra nele, e a história não está particularmente interessada nele, pois está ocupada a desenrolar-se noutro plano.

É uma forma inovadora de contar uma história, que adiciona várias camadas de emoção e de envolvimento do espectador, que se sente parte daquele mundo, tão credível por não fazer do protagonista alguém particularmente especial, nem em termos de história, nem em termos de enquadramento. Para uma discussão mais desenvolvido do assunto, aconselho-vos vivamente o vídeo no final deste texto.

As sequências de acção também são frenéticas, e os planos longos durante todo o filme aumentam a intensidade ao obrigar-nos a focar, ao puxar-nos e a não largar. O resultado é um filme excelente, e com um óptimo final, em que tudo fica bem... Mais ou menos!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Ricki and the Flash (2015)



Tenho de confessar que ia com as expectativas muito em baixo, e até acabei por gostar. Não é, definitivamente, nada de especial, nem obra-prima nem filme de culto nem clássico instantâneo. É um filme relativamente bem executado, com um bom elenco e alguns pormenores que se destacam pela positiva no meio daquilo que podia ter sido uma imensa chuva de lugares-comuns.

Meryl Streep faz de Ricki, uma mulher de meia-idade que nunca largou a carreira de rocker e continua a tocar num bar, acompanhada dos Flash a banda liderada pelo guitarrista que é também o namorado dela. Por muito que ela diga que não.

Telenovelidades à parte, o interesse começa quando Ricki é chamada pelo ex-marido para lidar com a filha de ambos, recém-divorciada depois de um curto casamento. A filha, interpretada por Mamie Gummer, que é filha de Streep, está completamente de rastos, sem sair de casa e sem tomar banho, incapaz de funcionar como deve ser. O que o pai espera é que Ricki seja capaz de fazer alguma coisa.

Surpresa das surpresas, consegue. Mas não é fácil, nem o faz de maneiras normais. O filme ganha interesse nessa parte: a relação pouco convencional que Ricki tem com a filha (e os outros filhos, o ex-marido, a nova mulher deste, o novo namorado e, enfim, toda a gente) é ao mesmo aquilo que as afasta e o que as une.

O aparente desprendimento de Ricki é o que causa muitos problemas, mas no fim também é o que "salva" muita gente. Só quando se deixa de coisas e decide não tentar esconder o seu verdadeiro eu é que Ricki é útil e produtiva.

As falhas do filme são disfarçadas pela total entrega de Streep ao papel, assim como à boa execução que os outros actores fazem das suas personagens, de uma maneira geral. A personagem de Audra McDonald em especial, a nova mulher do ex-marido de Ricki, é relativamente discreta enquanto personagem, mas estabelece uma forte relação com Ricki que consegue, acima de todas as outras relações do filme, parecer real.

No fim, longe de ser um filme muito bom, Ricki and the Flash é um filme agradável. Bom entretenimento. Mas não teve a capacidade de me agarrar ao ecrã, desesperado para saber a história. É mais um filme para se ver a um Domingo à tarde, por muita qualidade que tenha e por mais divertido que seja.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Mr. Holmes (2015)



Adaptações de Sherlock Holmes é coisa que não falta por aí. Já são décadas de séries, filmes, livros, peças de teatro e tudo o mais que se possa imaginar. A série da BBC, Sherlock, tem feito um excelente trabalho, com Mark Gatiss e Steven Moffat a escrever, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman nos papéis principais, e um espírito de modernização e adaptação que não trai as histórias originais nem a essência das personagens e do autor.

Mas é complicado. Sherlock Holmes não é uma personagem fácil, e as suas histórias não são normais. Já todos estamos mais do que habituados ao estilo, de tanto as lermos, mas basta pensar em como as adaptar a outro meio, que ficamos logo a piar mais fininho.

Raramente há grandes cenas de acção, e há histórias inteiras em que o protagonista, Sherlock Holmes, mal sai do cadeirão no seu apartamento em Baker Street. Literalmente. São histórias intelectuais, mais preocupadas com as personagens e os mistérios do que outra coisa. É por isso que se torna complicado adaptá-las, ao contrário das histórias de Poirot, que é um homenzinho enérgico, carismático e sempre a andar de um lado para o outro.

Sherlock é quase apático. É carismático, é certo, mas é peculiar. Tanto pode ser o centro das atenções como uma nódoa num canto para quem ninguém olha. Para se ter noção da dificuldade da adaptação, basta pensar nos filmes relativamente recentes com Robert Downey Jr. no papel do detective, e Jude Law no de Watson. Chamar-lhes ridículos é dizer pouco. Transformar Sherlock num herói de acção, promíscuo, sempre a fazer piadas e a usar o seu poder de dedução para calcular a trajectória da marreta que lhe vai acertar, é o mesmo que fazer um Poirot sem bigode, um Tyrion Lannister com dois metros de altura, ou uma Carrie lindíssima e popular.

Esses filmes podem até ser minimamente agradáveis (duvido), mas não são filmes do Sherlock Holmes. São filmes de acção relativamente genéricos, numa Londres vitoriana, com personagens com nomes iguais às das histórias de Conan Doyle. Mais nada.

Um problema que não atinge este Mr. Holmes. Baseado em A Slight Trick of the Mind, de Mitch Cullin, a visão que nos dá é a de um Sherlock em fim de vida, reformado e entregue às suas abelhas. Com noventa e três anos, está fragilizado, muito esquecido e completamente reformado das andanças de detective privado. Mas não deixou de ser Sherlock Holmes, profundamente inteligente, socialmente estranho, com uma tenacidade de ferro e algumas surpresas.


Ser interpretado por Ian McKellen já era mais do que suficiente para chamar a atenção. É de facto uma representação excepcional a todos os níveis, que de certa forma acaba por carregar todo o filme às costas. Mas um Sherlock a caminhar para o senil diz-nos mais coisas: que as histórias de Watson são largamente exageradas, que nunca usou um chapéu como o que lá vem descrito, e que a morada está ligeiramente errada, para não atrair demasiados visitantes. Ah, e Sherlock é uma pessoa muito mais calorosa e "normal" do que seria de esperar. Watson é que tomou certas... liberdades literárias.

É por isso que vemos um Sherlock de bengala a passear com o filho da governanta, um miúdo novo e perspicaz que encaixa muito bem na personalidade do detective. Juntos, cuidam das abelhas, ouvem raspanetes da governanta, e vão numa viagem pelas memórias que Sherlock tem do seu último caso. Este é, aliás, uma das grandes questões do filme: a memória. Velho, mesmo muito velho, o detective tenta de tudo para reavivar e manter viva a sua memória, com o objectivo de escrever uma última história, a do seu último caso, desta vez pelas suas palavras, para corrigir algumas incorrecções de Watson.

Esse último caso, acabamos por saber, tem um desfecho fascinante e inesperado, e é o que afasta definitivamente Sherlock da vida de detective. A curiosidade do filho da governanta, por seu lado, é o que o volta a atrair a essa vida, ainda que por breves momentos, não só para completar a história, mas também para a contar, e para conseguir ficar em paz consigo próprio.

Repleto de bons momentos e interpretações fantásticas, particularmente a de McKellen, mas também a de Milo Parker, como filho da governanta, Laura Linney, como a governanta, e mais alguns. Não sei se é uma boa adaptação do livro de Mitch Cullin, mas é uma boa adaptação de Sherlock Holmes, e um bom exemplo dum filme que não precisa de explosões, câmaras a abanar violentamente, trágicas histórias de amor, mamas, nem nada desses elementos que parecem indispensáveis nos filmes modernos. Mr. Holmes é, sem sombra de dúvida, um filme diferente da maior parte dos que andam por aí. E ainda bem, pois tem um dos melhores Sherlocks que já vi!


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Divertida-Mente (2015)




Os filmes para putos costumam ser interessantes. Às vezes nem sequer se pode dizer que sejam propriamente para putos. Este Divertida-Mente (Inside Out, no original) é um caso especial, de um tipo que tem andando, abençoadamente, muito em voga. É um filme que vai agradar bastante aos miúdos, mas que é capaz de ser mais apreciado pelos graúdos.

Não é estranho que os temas abordados num filme infantil sejam pesados, e que as piadas que aparecem sejam, digamos, ocasionalmente mais adultas do que seria de esperar em algo direccionado a crianças, mas são poucos os filmes que o fazem de forma tão explícita. A parte dos temas, não das piadas, tenham calma.

A própria premissa diz logo tudo: vamos entrar dentro da cabeça de uma criança/adolescente, e perceber como é que a sua mente funciona a partir de um complicado esforço de trabalho de equipa entre cinco emoções primárias, que ganham vida e se tornam nas personagens principais da história: Medo, Tristeza, Alegria, Repulsa e Raiva.

Todos os cinco são devidamente coloridos tendo em conta a emoção que representam, e agem como tal: Medo está sempre aterrorizado de alguma coisa, Tristeza fica demasiado triste para se mexer, Alegria é uma coisinha irritante e saltitona, de tão feliz, Repulsa é uma tipa perpetuamente enojada, e Raiva é a personagem mais razoável de sempre um tipo baixinho e vermelho que se irrita com facilidade.

Juntos respondem ao que acontece a Riley, a criança/adolescente a quem pertence a cabeça que habitam. Estão encarregues de coordenar as suas acções e de pôr as memórias, bolinhas coloridas de acordo com a emoção dominante, no sítio.

Incrivelmente simples, enquanto explicação para como é que nós funcionamos. Futuras gerações de pais podem poupar-se a muito trabalho e simplesmente pôr os miúdos a ver este filme.

E como se isto não bastasse, a transição de Riley de criança para adolescente, que acompanha a mudança de casa da sua família, é posta em perspectiva quando a Tristeza ameaça dominar e contaminar todas as memórias de Riley, não de propósito, mas apenas porque as saudades e a sensação de abandono tomam conta da criança. O que por sua vez leva a uma viagem interessante pela mente de Riley, incluindo passagens pelo pensamento abstracto, os bancos de memórias, o mundo da imaginação e tantas outras coisas, com a companhia do surpreendente Bing-Bong, o antigo amigo imaginário de Riley.

Há vários momentos comoventes, a pobre da Tristeza deixa de ser desprezada e passa a ser reconhecida como uma parte igualmente importante da mente de Riley, a Alegria torna-se (ligeiramente) mais suportável, Bing-Bong tem um percurso digno, tudo acaba bem, e a aceitação de memórias bicolores é uma excelente metáfora para a maturidade de já se ser capaz de ver para além do branco e preto (ou, neste caso, roxo e azul e amarelo e verde e vermelho).

Mas todo filme é uma grande viagem pela mente de uma criança a tornar-se adolescente, e praticamente nada falha. É como eu disse: muitos pais vão ter menos trabalho se se limitarem a mostrar este filme aos filhos. As explicações podem ser superficiais, por vezes, mas são mais do que suficientes para que as crianças percebam o que se passa. E isso é fenomenal.

O elenco português também esteve bem, e as únicas falhas que realmente aponto ao filme são apenas duas: o facto das memórias passarem da primeira pessoa, do ponto de vista da Riley, para a terceira pessoa, o que não faz muito sentido; e o desprezo que se acaba por dar às três emoções que apesar de protagonistas, são secundárias, o Medo, a Repulsa e a Raiva. Eu sei que estas cinco divisões já são simplificações, e que há uma mensagem a enviar, mas não é realista a visão que o filme dá.

Tirando isso, nada a apontar, tirando as picuinhices. Divertida-Mente é um bom filme, sem sombra de dúvida!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

The Curious Case of Benjamin Button (2008)



O livro está lido. Ou melhor dizendo, o conto, que este filme com mais de duas horas é adaptado de um conto de F. Scott Fitzgerald, e um que nem achei nada de especial. Foi porreiro, sim, mas nada muito grandioso.

Ao contrário deste filme, que ultrapassa o material original e de que maneira. Ainda há pouco tempo falei de adaptações de livros e de como era possível que ultrapassem o texto, e este filme é um exemplo perfeito disso mesmo.

E nem sequer é pela intensidade da actuação de Brad Pitt, que parece que a única coisa que sabe fazer é debitar frases que sejam citáveis, nem do bom papel que Cate Blanchett faz, também ela a fazer um esforço consciente e visível para ser intensa, mas o próprio filme é excelente. A construção da narrativa, os jogos visuais e todos aqueles detalhes técnicos ligados à imagem dos quais eu não percebo nada.


Parece estar tudo afinadinho ao máximo para proporcionar a melhor experiência possível a contar esta história em específico. E consegue fazê-lo mesmo, mesmo bem.

Já toda a gente conhece o enredo, e a premissa é realmente muito, muito simples: Benjamin Button nasce velho e vai ficando mais novo com o passar dos anos. Não há mais do que isto. Espanta-me como normalmente são as ideias mais simples as que dão origem às melhores obras, seja em que meio for.

O que o filme faz é levar esta ideia ao extremo e acompanhar a vida de Benjamin Button desde que nasce velho até que morre bebé. Sim, morre bebé, numa cena que é, obviamente, triste, muito triste, mas que também consegue ser feliz. Isto porque é duro ver Benjamin a crescer. Abandonado pelo pai às portas de um lar, educado num lar de idosos, que sempre foram os seus amigos e foram morrendo um a um, enquanto ele crescia e rejuvenescia.


A sua entrada na adolescência é invertida, pois toda a gente acha que ele é um velho de setenta anos, quando na realidade nem perto dos vinte anda. É óbvio que depois é enternecedor, e também chocante, vê-lo a reverter ao estado de criança, uma criança velha, a ficar demente. Uma mente de oitenta anos num corpo de oito meses. A parte enternecedora é ver alguém que sempre o amou a cuidar dele, porque não podia fazer outra coisa.

Aquilo que mais me fascinou foi a personalidade de Benjamin. Uma verdadeira alma inocente quando é novo e parece velho, torna-se em alguém muito sábio e decidido, mas com cara de puto. As decisões que toma nem sempre são fáceis, e não tem pudor em viver a vida, assim que a descobre a sério, mas vive quase sempre isolado e afastado de todos, de forma natural. Só perto da meia-idade é que se sente bem, pois a mente que tem corresponde ao corpo que tem, mas tirando isso é fácil de perceber que tenha tido uma vida conturbada.


As personagens secundárias brilham todas à sua vez, desde o pai de Benjamin, que o abandona, ao casal de negros que cuida dele, a cada um dos velhos do lar, ao velho lobo-do-mar que se torna um dos seus melhores amigos e todos os outros que vão aparecendo.

O filme acaba por se tornar num conjunto de histórias de amor, algumas com mais sucesso do que outras, mas nunca se esquece da viagem pessoal de Benjamin, esse sim o ponto importante e que torna todos os outros quase irrelevantes, apesar de os usar como afluentes do seu fluxo narrativo.

("Afluentes do seu fluxo narrativo", tão adulto)

No fim o que vos posso dizer é que este filme vale bem a pena, e se ainda não o viram, já o deviam estar a ver. Há poucas formas de ilustrar tão bem os conceitos de ternura e de tristeza como este filme.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Best Exotic Marigold Hotel (2011)



Tal como o fenómeno das super-bandas, começaram a aparecer os super-filmes. Ou melhor, os filmes com super-elencos. É o caso dos Expendables, um filme com todas as estrelas de acção possíveis e imaginárias a, em termos muito simples, serem fixes.

Mas é também o caso de Best Exotic Marigold Hotel, num registo completamente diferente e a reunir um elenco de luxo que conta com Judi Dench, Bill Nighby, Maggie Smith, Penelope Wilton, Ronald Pickup, Celia Imrie e ainda mais alguns.

Qualquer pessoa que veja o filme reconhece todos os actores de algum lado, na melhor das tradições britânicas de só terem meia dúzia de actores e actrizes que usam para TUDO.

O risco de um elenco destes é que se ofusquem uns aos outros. Praticamente todos personalidades mais do que estabelecidas, com uma enorme presença no ecrã e um ainda maior historial cinematográfico, televisivo e teatral, não era difícil que a coisa corresse mal. Felizmente são todos, também, excelentes actores (e actrizes). Cada um faz o seu papel, brilha quando tem de brilhar e deixa que os outros brilhem quando é a vez deles. É impressionante.


Nem sequer é o meu tipo de filme, e deixou-me agarrado ao ecrã. Convenhamos, uma "comédia dramática" relativamente ligeira é mais o tipo de coisa para eu ver numa preguiçosa tarde de Domingo, apenas com meio cérebro acordado. E no entanto, as representações excepcionais, a história bem construída e os diálogos deliciosamente, digamos, britânicos, conseguiram ganhar a minha atenção.

A história sobre um grupo de velhotes que por um motivo ou por outro acaba na Índia, num suposto hotel fantástico que na realidade está a cair aos bocados, torna-se para lá da hilariante, com os seus momentos de intensidade emocional. É fascinante ver uma Maggie Smith racista e resmungona rodeada de indianos, ou uma Judi Dench completamente zen a curtir a vida.


Best Exotic Marigold Hotel não é um filme que siga alguma moda das que por aí andam: é um filme calmo, exuberante sem precisar de explosões ou relações explosivas, e que consegue ter momentos de excelente comédia ao mesmo tempo que explora as emoções de várias personagens de forma extraordinária. Particularmente com uma certa personagem, que tem a maior complexidade e a história mais triste e satisfatória.

E no meio disto tudo, quem consegue juntar este elenco todo e de certa forma pô-los a funcionar em conjunto, é a personagem de Dev Patel, o gerente do hotel, com muitos sonhos, muita ingenuidade, e muita falta de jeito. E que também é outro que tem uma óptima evolução e uma boa história ao longo do filme.

Junte-se a isto os cenários bem feitos e cativantes, diferentes do habitual... Enfim, parecendo que não, foi uma autêntica receita para o sucesso. De tal forma que fizeram um segundo (que não vi), ainda que me custe a acreditar que haja história para mais. Foi bom, mas um filme chegou perfeitamente. Pode ser que me surpreendam, quer dizer, se me conseguiram surpreender com este, porque não com outro?, mas não sei se não será abusar da sorte. Este pelo menos já valeu a pena.

sábado, 23 de maio de 2015

Adaptações de livros


(o que segue não é uma crónica estruturada nem pensada com antecipação, é uma opinião escrita de rajada e que deixa muito por dizer. prossigam.)

O fascínio em adaptar livros a filmes/séries está em alta. Mais do que nunca, que eu me lembre, essa é claramente uma tendência a seguir e que dá muito, mas muito dinheiro. Porquê? Na minha opinião principalmente por duas razões.

A primeira é que é fácil de aproveitar o sucesso da literatura que agrada às massas, e fazer cinema que agrada às massas, que vai aumentar o público literário e por sua vez aumentar o público cinematográfico e por aí fora. É simples e é óbvio.

A segunda é que há um estilo de escrita relativamente moderno que cada vez se vê mais e que facilita ainda mais as coisas: o estilo cinematográfico. É algo geral e usado cada vez mais por um número cada vez maior de autores. Uma escrita mais simples, com uma acção mais directa e uma estrutura mais episódica e mais próximo do cinema (e no limite, do teatro), com vários actos claramente bem definidos e correspondentes a troços de evolução da história muito bem demarcados.

Isto é bastante diferente da literatura de estrutura complexa a que os autores mais clássicos nos habituaram. Era fácil não existir propriamente um protagonista muito proeminente, nem sequer uma história muito bem definida, algo que pode ser bastante complicado de passar para filme (ou televisão). Aquilo que vemos hoje em dia é exactamente o contrário: o livro tem um protagonista, tem uma história, uma acção, um intervalo temporal, e quase zero de momentos mortos, tudo sempre extremamente bem definido.

É por isso que os livros juvenis, especialmente as distopias, têm sido tão adaptadas. Além de serem moda, e de moverem massas, são também simples. A escrita, o enredo, as personagens, a evolução, a acção... É tudo simples, ou melhor, simplificado, graças à tendência "infantilizadora" do termo juvenil.

Não quero apontar dedos, mas...
Se bem que isto não é propriamente verdade. Ou melhor, não é inteiramente verdade. Aquilo que disse até agora é que é uma extrema simplificação da questão, porque se as coisas realmente são assim, como explicar coisas como Game of Thrones? Aquilo de simples, só mesmo a escrita, que é boa e bastante cinematográfica.

O que se passa é que quando pensamos bem neste assunto, temos que ver os dois lados da questão, as duas pontas do espectro. Existem estas adaptações simples e existem as adaptações gritty, mais negras, mais sujas, mais "realistas" (porque têm mais sangue e consequências terríveis). Essa é na realidade uma tendência curiosamente paralela ao primeiro ponto de vista, e que apenas consigo explicar como uma moda.

Se calhar, até como uma tendência de "levar as coisas a sério". Como os filmes do Batman do Nolan, que também são relevantes para esta discussão porque são, tecnicamente, adaptações de livros. Só que BD's, e não de forma muito directa e linear.

Esses filmes, por muito agradáveis que sejam (particularmente o segundo, graças ao brilhante Joker de Heath Ledger), são excessivamente pesados. E o pior é que esse tom depois foi transferido para o novo filme do Super-Homem e parece mais do que a caminho para o Batman vs Superman. O que é um erro, dos grandes.


*sigh*
Faz sentido que tenham criado uma identidade muito própria e muito diferente do tom brincalhão da Marvel, mas claramente exageraram e arriscam-se a deitar tudo a perder. Um problema que não afligiu Game of Thrones, pelo menos, que funciona tal como está, porque os próprios livros já são assim.


E porque é mais fácil adaptar um romance do que uma BD, por mais contra intuitivo que isso possa parecer. Com aquela tendência simplista de que falei no início, queria dizer exactamente que qualquer que seja a obra, é mais fácil de adaptar hoje em dia do que uma obra qualquer de há umas décadas ou séculos atrás. Mas as BD's continuam a não ser fáceis de adaptar.

Isso acontece, em parte, porque o público já tem uma imagem das personagens e do mundo em que se movimentam. Um mau elenco ou um mau design dos cenários, por exemplo, pode estragar tudo sem grande dificuldade.

"O fato dele ficava melhor se fosse todo de cabedal!", disse ninguém, nunca.
Mas no meio desta conversa toda, fica a dúvida: como adaptar? Há várias formas, como é óbvio. Por exemplo, pode-se optar por tentar capturar a essência e o ambiente, usar as personagens e uma história parecida, mas acabar por criar algo radicalmente diferente do livro. Não é a minha hipótese favorita, mas pode fazer sentido em alguns casos.

Outra hipótese é uma adaptação super-hiper-mega fiel. Raramente é uma boa hipótese, porque um livro e um filme têm uma forma de comunicar extremamente diferente. Pelo menos era assim, antigamente, mas com a tendência cinematográfica de um grande pedaço da escrita actual, essa barreira dilui-se com uma facilidade cada vez maior.

A minha hipótese favorita é pegar no livro, tentar seguir ao máximo, mas fazer as alterações necessárias que a conversão livro -> filme exigem. Como exemplo, dou-vos O Perfume, de Patrick Süskind, um livro excepcional que teve direito a um filme excepcional e que não é 100% fiel pela simples razão de que era impossível. Em vez de meter os pés pelas mãos a tentar pôr tudo no ecrã, fez as concessões que eram precisas para contar a mesma história e transmitir a mesma mensagem, com uma história o mais parecida possível.


Não fazer isto foi o erro de um filme que abomino, Harry Potter e o Cálice de Fogo, baseado num livro agradável, mas que é um filme francamente desagradável, e apenas porque tentou contar tudo! Digamos que falha redondamente.

E para quem é apologista de que o livro é sempre melhor do que o filme, fiquem a saber que não concordo. O filme (ou a série, eu estou-me a esquecer de falar de séries mas é tudo igualmente válido) pode conseguir fazer jus ao livro e até ultrapassá-lo. Veja-se o caso de Precious, que achei consideravelmente superior ao livro.

Eu sei que este texto fica relativamente incompleto, mas ou é isto, ou não fazer mais nada o resto do semestre para escrever um ensaio a divagar sobre o assunto. Em vez disso (e para preservar a minha sanidade mental e currículo académico), digam-me a vossa opinião. Perde-se sempre alguma coisa na adaptação? Ou ganha-se sempre alguma coisa? Têm alguma adaptação favorita? Algumas que vos dê vontade de chorar, chamar nomes às pessoas e atirar o filme para a Fossa das Marianas?

Elucidem-me!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Equilibrium (2002)



Cá está um filme que não é muito conhecido e que até merecia algum destaque. Acusado, e bem, de ser uma mistura de várias obras de ficção-científica, tem actualmente o estatuto de filme de culto, mas esconde muito mais do aquilo que as pessoas pensam.

Primeiro, é fácil de reparar nos vários paralelos e inspirações, principalmente no que diz respeito a distopias. Uma droga para controlar as massas? O Admirável Mundo Novo faz isso melhor. Uma enorme importância à proibição de livros e arte? É o tema central de Fahrenheit 451. Uma sociedade de quase-autómatos, todos iguais uns aos outros? Bem-vindos ao enredo de Nós. Um governo totalitário que gera falsas notícias e tudo vê e tudo controla? 1984, chapadinho.

Tem este filme alguma coisa de novo e original? Em cada uma das partes que o compõem, nem por isso, mas no total? Eu acho que sim, logo a começar pela mensagem que transmite e os temas que aborda.


Falando daquelas quatro distopias, toda a gente sabe que se Huxley diz que é o excesso de entretenimento que nos vai dominar, Orwell diz que é a falta de entretenimento. Bradbury, por seu lado, transmite a mensagem de que é a nossa procura por entretenimento que nos vai salvar, enquanto que Zamiatine diz que é a nossa procura instintiva por liberdade que nos vai salvar.

São visões um bocado simplista das quatro obras, mas verdadeiras na sua essência. E mais do que suficiente para se perceber que são visões extremistas, que falam sobre as duas pontas do espectro, o bem e o mal, a liberdade e a ausência de liberdade, e por aí fora. Equilibrium, como o nome indica de forma bastante óbvia, é um filme feito de equilíbrios.

É uma diferença algo subtil, mas muito relevante. A sociedade de Equilibrium é forçada a viver em equilíbrio com o Estado através da droga que lhes tira as emoções. O enredo do filme está centrado no equilíbrio precário do protagonista, Christian Bale, entre o dever e a liberdade. O próprio estilo de luta marcial criado para o filme é composto de movimentos precisos e calculados, e assenta num peculiar equilíbrio entre manobras estudadas e improvisação.


A mensagem que o filme transmite, desde o início com Sean Bean a desvirtuar o protagonista até ao final, com esse mesmo protagonista a desvirtuar toda a sociedade a um nível máximo, é uma que nem concorda nem discorda com todas as outras distopias que mencionei. É uma mensagem de equilíbrio, mas não a de que é preciso viver dessa forma, mas antes que, digamos, em média é preciso viver dessa forma.

É por isso que o protagonista tem momentos tão contrastantes e isso funciona tão bem: por vezes tem que estar mais próximo de uma ponta do espectro e por vezes mais próxima da ponta oposta, mas no fim, tudo somado, está no meio, uma posição radicalmente diferente da imposta pelo Tetragrammaton (o governo do filme, simbolizado por quatro T's, que curiosamente também é o símbolo idolatrado em Brave New World, em honra ao Model T de Henry Ford), que tenta obrigar as pessoas a viverem perfeitamente em equilíbrio, sem um único desvio dessa linha.


Todo o filme está planeado de forma meticulosa, e é interessante ver como pequenas coisas, no início, descambam num final grandioso e espectacular. É óbvio que há falhas, com algumas cenas de acção menos bem conseguidas, e pelo menos uma perseguição que só tem o resultado que tem porque é num filme, já para não falar de algumas coincidências que são demasiado convenientes para serem verdadeiras.

Mas é um bom filme, que transmite uma mensagem muito interessante. Gosto dos actores e gostei particularmente do twist perto do fim que adicionou mais uma camada de significado a todos os acontecimentos. Sem dúvida uma visualização aconselhada.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Precious



Eu já sabia que ver este filme não ia ser fácil. O livro também não é  uma leitura fácil. A realidade que é representada pela história de Precious é uma que eu não imaginava de todo. E sim, eu sei que é um livro de ficção, mas também sei que existem casos assim. Vidas assim. Precious, tanto o livro como o filme, são ficção, mas são também um duro retrato da realidade.

Depois de ler o livro e ver o filme, nem sequer acho que seja uma versão romantizada das coisas. É como é. A vida de Precious é a pior possível, acontece-lhe de tudo, e no fim consegue melhorar consideravelmente a sua vida, mas não é um processo fácil. O livro e o filme retratam esse problema de forma excelente. Até diria que o filme o faz melhor.


A vantagem do livro é aproveitar-se da escrita para mostrar como é que a Precious escrevia, e como a sua ortografia, o seu vocabulário e a sua construção frásica vão melhorando ao longo das páginas. É um mecanismo muito eficiente para dar aparência de veracidade ao relato.

O filme não pode fazer isso, mas pode fazer algo melhor: dar uma cara ao sofrimento. Ou neste caso, várias. Sim, porque o sofrimento de Precious não é o único: todas as personagens, sem excepção, são exemplos de sofrimento, em maior ou menor grau. Até a assistente social de voz monocórdica interpretada por Mariah Carey (!), que só consegue ficar cada vez mais desiludida com o que se passa na vida de Precious.


Mas mais do que uma história de sofrimento, Precious consegue ser uma história de esperança. A protagonista enfrenta todas as adversidades e consegue, no final do filme, estar mais do que encaminhada para ter uma boa vida. Toma o controlo, consegue estudar, consegue ter sucesso, consegue dizer que não à mãe abusadora e negligente, e consegue ficar com os filhos.

Aquilo que achei mais interessante no filme foi o seu ritmo. Não tem momentos de acção, nem momentos de grande desenvolvimento; em vez disso prefere investir o tempo num ritmo lento, mas constante, sempre com uma enorme intensidade emocional. Incluindo aqueles que passa na nova escola, com a nova professora e as novas colegas/amigas, todas elas pessoas que lhe vão apresentar conceitos que não deviam ser novos: liberdade, amizade, alegria...


Desde os primeiros momentos, incluindo a sequência honestamente perturbadora de Precious a sair de casa e a comprar um balde de fast-food que enfarda a caminho da escola, e que depois vomita quando lá chega, que todos os pormenores indicam que os assuntos não vão ser abordados de forma leve. Essa mesma sequência do balde de fast-food, podia ter sido uma coisa tremendamente leviana... Mas não. Torna-se assustadora, como marco do ponto baixo a que a protagonista chegou. E também como indicação de mais qualquer coisa...

Mas confesso que apesar da fantástica actuação de Gabourey Sidibe como Precious, tenho que me juntar à crítica e dizer que foi Mo'Nique (raio de nome) que merece todos os aplausos neste filme. Faz um verdadeiro papelão enquanto mãe de Precious! Aliás, a maior parte dos momentos verdadeiramente marcantes só o são por causa da sua presença.


Digamos que a mãe de Precious é uma mulher absolutamente desprezível. Nojenta, até. E o filme não hesita em mostrar-nos várias sequências dos seus actos mais horríveis, desde a negligência completa até ao abuso sexual da própria filha, que deixou que fosse abusada durante anos pelo pai.


E ainda assim, vê-la esparramada no sofá a gritar com a filha é das sequências mais difíceis de se ver em todo o filme. Assim como uma das cenas finais, quando a mãe de Precious revela todo o novelo de abusos e negligência a que submeteu (e assistiu) a filha à assistente social. É um monólogo poderoso e, de certa, forma, horripilante. Mas também um momento que nos permite, finalmente, compreender o que se passa dentro daquela cabeça, que tipo de vida e de problemas é que teve e que acabaram por a levar até àquele estado. Não digo que seja fácil sentir pena, mas não é difícil de compreender o que se passou.

O que depois só dá mais à força à conclusão: uma tomada de decisão de Precious que deixa toda a gente abananada, mãe e assistente social em partes iguais. Porque é neste momento que ela finalmente se apercebe de que não precisa de ajuda. Ou melhor, de que a ajuda que precisa não é a ajuda que ninguém lhe possa dar. A decisão que toma é corajosa e, acima de tudo, desafiadora. E nesta altura do filme, a única coisa em que conseguimos pensar é "bom para ti, Precious, dá-lhe!".

Precious é assim, sem dúvida, um bom filme. Corre o risco, em várias partes, de cair no exagero e na pura vontade de chocar, mas eu acho que consegue balançar bem as várias situações e os vários momentos. O resultado é bom, muito bom, e um daqueles raros casos em que o filme é superior ao livro.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

The Theory of Everything



Baseado em Travelling to Infinity, o livro de memórias de Jane Hawking sobre o tempo em que esteve casada com o físico Stephen Hawking, The Theory of Everything é um bom filme. Está bem feito, tem boas representações, é visualmente bonito e tem uma história cativante que, apesar de tudo, consegue não cair na lamechice pegada e gratuita.

Não que fosse difícil. Sem querer menosprezar o trabalho das pessoas envolvidas neste filme, o facto deste estar relacionado com Stephen Hawking, uma das pessoas mais conhecidas do planeta, e certamente um dos físicos com um dos maiores impactos de sempre na História e na Ciência, já é mais do que meio caminho andado para o sucesso.


Mas é preciso pôr as coisas em perspectiva e ver que poucas coisas falham. As que falham são importantes, mas compreensíveis, por muito que não tenha gostado delas. Além de que Eddie Redmayne e Felicity Jones estão completamente irrepreensíveis como Stephen Hawking e Jane Hawking, ambos a revelarem-se actores de peso.

Ao grande sucesso do filme, e à sua qualidade, muito contribuiu a história genuinamente cativante que é a de Hawking. Sem dúvida uma das mentes mais brilhantes que alguma vez passou pelo mundo da Ciência, a sua luta contra a Esclerose Lateral Amiotrófica que o atingiu muito cedo é realmente exasperante e inspiradora: ultrapassou largamente os poucos anos de vida que lhe prometeram, sem perder o sentido de humor e continua hoje em dia, com setenta e três anos, a fazer Ciência.


O filme retrata principalmente a parte da sua vida que mais foi afectada por esta doença, a altura em que a descobriu, ao mesmo tempo que começava a fazer verdadeiros desenvolvimentos no campo da astrofísica e dava início à sua relação com Jane. Foi uma altura conturbada, como é fácil de imaginar, durante a qual teve de enfrentar desafios sérios e complicados ligados com a sucessiva perda de autonomia física.

E é aqui que o filme falha. Já vi em vários sítios que o livro retrata um Hawking um bocadinho mais, digamos, idiota, do que o do filme, e não duvido. Não que tenha algo a dizer sobre o carácter do físico, que me parece ser uma pessoa excepcional, mas todo o filme tem uma ligeira sensação artificial, como se a história apresentada só o tenha sido depois de ter sido bastante polida.


É que Hawking é retratado como alguém que pouco vacilou frente à doença, Jane como alguém completamente incansável que nunca teve dúvidas até à altura do divórcio, e o próprio divórcio parece ter sido algo muito simples. O filme tem uma história quase demasiado bonita. Soa a conto de fadas. Há uma vertente mais dramática, completamente impossível de evitar devido à doença de Hawking, mas falta qualquer coisa.

As personagens parecem constantemente iludidas, como se fossem versões ultra-inocentes das pessoas que representam. E embora seja possível compreender que, apesar de tudo, Hawking nunca terá sido uma pessoa fácil, de tão teimoso e impetuoso que era, não me parece que esse aspecto tenha sido suficientemente realçado.

Qual a relevância disso? É uma questão de coerência. Sim, ninguém precisa de saber, e não, o filme não tem de dar igual importância a tudo e mais alguma coisa, mas era importante que a história retratada fosse o mais verdadeira possível, mesmo que isso signifique mostrar um lado menos simpático de Hawking. Como é óbvio, isso talvez afastasse algumas pessoas, incapazes de conciliar essa figura com a imagem que têm de Hawking, mas faria deste filme algo ainda melhor.


Os actores seriam certamente capazes de lidar com isso. Tanto Redmayne, como Jones, como qualquer outro actor ou actriz, estão impecáveis durante o tempo todo, conseguindo captar e mostrar os vários e complicados estados emotivos de cada personagem. Uma tarefa especialmente ingrata para Redmayne, que teve que conseguir manter a expressividade quando a personagem já mal se conseguia mexer.


Mesmo com esta falha, o filme é extraordinário. Não acho que seja nenhum portento cinematográfico que vá ficar para a História do Cinema, mas é certamente um filme bem feito, que faz aquilo que é preciso, entreter, cativar e contar uma história que não só nos consegue tocar a todos, como nos permite perceber melhor como é a vida de Stephen Hawking.

The Theory of Everything (A Teoria de Tudo) é assim um filme que vale a pena ver, e que gostei muito de ter apanhado no cinema. Fiquem com o trailer e ganhem curiosidade suficiente!


quarta-feira, 15 de abril de 2015

The Cabinet of Dr. Caligari




As coisas que vou encontrando pela net de vez em quando surpreendem-me. Mas este filme expressionista alemão conseguiu superar todas as minhas expectativas. Feito há quase cem anos (1920), é mudo, a preto e branco, e tem um paradigma completamente diferente do que é usado nos filmes hoje em dia.

As representações são exageradas, os cenários tendem para o surreal são quase chocantes e a história brinca com os nossos conceitos de certo, errado, real e imaginário de uma forma fantástica.


A história base é a do Dr. Caligari, um hipnotista claramente louco (e parecido com o Penguin de Danny DeVito) que usa um sonâmbulo para cometer uma série de crimes. A realidade, no entanto, pode ser pior... ou melhor. Depende do ponto de vista. E parece que o twist final foi introduzido no filme à revelia dos argumentistas, o que não lhe tira a força, embora possa realmente dar interpretações completamente diferentes à história.

Dividido em vários actos, como se de uma peça de teatro se tratasse, esta divisão lógica dá-lhe um ar de deturpação das clássicas tragédias gregas: tem um prólogo e um epílogo e tudo. Só que em vez de mascarar um actor para o tornar semelhante aos deuses e assim contar uma história divina mais próxima da nossa realidade, The Cabinet of Dr. Caligari exagera as suas para as afastar emocionalmente do espectador e com esse distanciamento permitir uma visão muito mais crítica dos acontecimentos.

A própria exageração dos cenários também contribui para isso mesmo. É claramente o nosso mundo que ali vemos, mas distorcido, mais rígido e fantasiado, mas também mais literal, com sombras e luzes pintadas directamente nos cenários. O filme faz com o que espectador identifique o cenário, mas não deixa que o tome como real. O que ali se vê é uma história que nos está a ser contada.


Isto dá mais força aos acontecimentos e também obriga a uma maior atenção. O que é que diferente do normal? Que pormenores é que são relevantes? Junta-se o mistério de algo desconhecido à excitação de descobrir algo novo, sem se querer perder a história que se desenrola à nossa frente.

Digo-vos que não esperava uma experiência tão interessante nem, de certa forma, tão intensa. Ainda por cima juntava-se a música a tudo isto, também ela arrepiante e complementar da acção e do ambiente, e que me deu uma estranha sensação de imersão à distância. Senti-me não dentro da acção, mas ao lado da acção.

A estrutura lógica também ajuda, pois nunca deixa perder de vista a linha de pensamentos que se está a seguir. Por muito embrenhado que se esteja no filme, a certa altura aparece um ecrã a dizer "Acto x" e somos subitamente atirados para trás e sentados no nosso lugar, conscientes de que queremos saber mais.

O ambiente é estabelecido logo no primeiro acto. Com a música a encaixar perfeitamente, somos apresentados a cenários surrealistas e góticos, com pendor decadente. Até me sinto um bocadinho mais snob depois de escrever a última frase, mas a ideia é mesmo essa. É uma vertente do expressionismo em que se nota a Alemanha, rígida, austera e com emoções tão vincadas que chegam a parecer artificiais.


Snobismos à parte, além de nos apresentar Caligari, o primeiro acto também introduz o narrador e protagonista, Francis, e Cesare, o sonâmbulo mais arrepiante da história do cinema. De olhos extremamente encovados e postura rígida, esta personagem vai-me ficar na memória durante muito tempo, graças à excelente representação de Conrad Veidt (que depois de fugir da Alemanha Nazi fez frequentemente de Nazi em filmes americanos!).

No segundo acto começa a acção realmente a desenvolver-se em força. Dá-se um assassínio, inexplicável na até ali pacífica cidade, e tudo começa a descambar da melhor forma possível. Foi aqui que notei de forma mais intensa o expressionismo, a visão subjectiva da realidade que atravessa todo o filme e que tem um momento brilhante na cena do assassínio.

O próximo acto e meio é puro desenvolvimento, com várias peripécias incluídas e uma qualidade de argumento acima da média. Mas as coisas começam a ficar realmente interessantes na última metade do quarto acto, quando a história dá uma reviravolta sobre si própria, tão bem feita e tão chocante que fiquei a duvidar de mim próprio e quase que andei com o filme para trás para ver se tinha perdido alguma coisa.


No entanto os meus receios foram tranquilizados quando uma personagem começa a alucinar palavras, noutra cena fantasticamente elaborada. E para terminar em beleza, o resto do filme é um clímax alargado em que o contraste com os acontecimentos anteriores é enorme.

Agora, se o que se diz é verdade, e este twist final não era suposto existir, aquilo que tenho a dizer da história é que é um excelente retratar de ideias sobre autoridade, medo, livre-arbítrio e insanidade (numa mensagem que até achei parecida à d'O Último Alienista, de Machado de Assis). Mas contando com o final torna-se mais numa reflexão sobre a nossa capacidade de questionar a realidade e os que nos rodeiam. Há interpretações mais políticas, mas parecem-me exageradas e forçadas, se querem que vos diga.

Por fim, a sensação com que fiquei foi a de ter visto um excelente filme, repleto de pormenores fascinantes e que me deixou uma enorme vontade de ver mais coisas do género. Já sei que o actor que faz de Cesare fez pelo menos outro filme perturbador, no qual fiquei obviamente de olho. O que eu queria mesmo era ver esta qualidade e esta dedicação às ideias em mais filmes actuais. Parece-me que o cinema é um meio que preza cada vez mais o realismo - até os filmes de super-heróis que andam com as cuecas de fora a salvar o mundo são feitos com o intuito de serem realistas - em detrimento das histórias, o que não é necessariamente mau nem necessariamente bom.

Em certos filmes faz todo o sentido. Noutros nem tanto. E um total desprendimento do realismo para melhor explorar uma história é algo que a mim me faz todo o sentido, mas talvez eu tenha tendência para o expressionismo... Enfim, não faz mal, peguem é em vocês e vejam este filme, porque garanto-vos que vale mesmo muito a pena.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fight Club (1999)



Não costumo ver um filme antes de ler o livro, mas este é suficientemente icónico para que eu quebre essa regra. Amplamente visto como um clássico e um excelente filme, a minha curiosidade era muita. As opiniões que conhecia ao livro também eram bastante positivas, portanto, porque não?

Infelizmente, grande parte do poder do filme está contido no twist final, que eu já sabia mais ou menos. Felizmente, o filme é bom o suficiente para isso ser quase irrelevante. Claro que há coisas em que reparei que de certeza que não teria reparado caso não soubesse, mas a qualidade do filme é realmente muito elevada.

Confesso que nem sequer estava à espera de encontrar algo tão bom. A própria estrutura do filme é fora do comum, com a excelente narração de Edward Norton sempre ao virar do frame, e um espectáculo visual durante todo o filme que me deixou completamente rendido.


Junte-se a isso a melhor representação de Helena Bonham-Carter que já vi, mais excelentes actuações de Brad Pitt e Edward Norton, e têm aqui excelentes razões para eu ter gostado tanto do filme. Mas há mais!

Todo o filme é bastante intenso, de tal forma que cai naquela corrente de filmes em que TUDO parece carregar um enorme peso e simbolismo. Todas as falas, todas as acções das personagens, todos os cenários... Fica pesado, é certo, mas quando bem feito, como é o caso, também fica espectacular.

O filme começa logo bem, com uma representação perturbadora do desespero da personagem de Edward Norton (cujo nome nunca sabemos!), que para combater as insónias e a depressão em que se arrisca a cair, começa a frequentar grupos de ajuda aos quais não pertence. Estar no meio daquelas pessoas, mais miseráveis que ele, ouvir as suas histórias e partilhar as suas próprias desgraças imaginadas faz com que se sinta melhor.


Pode soar estranho, mas tem lógica. Não só consegue arranjar pessoas com quem se ligar e socializar, como se consegue apoiar nelas para aguentar os seus verdadeiros problemas. E estar rodeado de tanta desgraça permite-lhe relativizar esses seus problemas, o que acaba por ser, de certa forma, refrescante. Dificilmente vão conseguir encontrar uma explicação mais eficaz para o que sente uma pessoa desesperada.

Mas o protagonista tem mais coisas à sua espera. Conhece Marla, que faz exactamente o mesmo que ele nos grupos de ajuda, e conhece Tyler, uma personagem completamente louca e radicalmente idealista. E se Marla é quase uma igual, alguém que se sente como ele e que arranjou exactamente a mesma solução, Tyler é um completo oposto: tão extrovertido quanto o protagonista é introvertido, tão vistoso quanto o protagonista é discreto, tão barulhento e bon vivant quanto o protagonista é silencioso e reservado.

Mais interessante ainda é ver como Marla deixa o seu desespero reflectir-se no seu aspecto: é magra, nervosa, desleixada e impulsiva. Está tão desesperada quanto o protagonista, mas não se preocupa em escondê-lo. Prefere mostrá-lo abertamente, o que entra, obviamente, em conflito com a personalidade do protagonista.


Mas a jóia da coroa deste filme é Tyler e a sua relação com o protagonista. Conheceram-se num avião, por terem ficado sentados lado a lado, quando o protagonista regressava de uma viagem de negócios. Logo nesses primeiros momentos o filme mostra-nos o quão diferentes estas duas personagens são. Praticamente opostos. Mas também dá pistas de como se complementam, de como se dão bem de forma imediata.

Quando o protagonista depois precisa de ajuda, e de um lugar onde ficar, é a Tyler que liga. Estranho? Sim. Razoável? Também. É mais fácil recorrer a um completo estranho do que a alguém conhecido, quando se está desesperado. Assim, o protagonista vai viver com Tyler. E é então que o filme arranca a sério.

Ao viver numa casa a cair aos bocados, com um tipo mais do que meio louco que gosta de fazer coisas como andar de bicicleta dentro de casa, e roubar gordura de clínicas estéticas para fazer sabão e vender de volta às mulheres ricas que vão a essas clínicas (brilhante!), o protagonista vai começar lentamente a mudar. Ou pelo menos a aperceber-se de como as coisas realmente funcionam.


Depois de algum tempo a viverem juntos e a acentuarem o contraste entre ambos, formam o Fight Club do título. A ideia é hardcore para lá do concebível: um grupo de homens que se juntam para andarem à porrada uns com os outros. O espírito de camaradagem que se forma é incrível, e este Fight Club torna-se num autêntico chamariz de pessoas, que revelam desta forma o seu próprio desespero interior, ou a necessidade de libertarem as suas emoções numa forma que consigam compreender como funciona: com os punhos.

O que vem a seguir é uma autêntica montanha-russa narrativa. Sem querer revelar demasiado, o Fight Club torna-se no grupo terrorista mais eficaz de sempre, guiados principalmente por Tyler, mas também pelo protagonista, quando a necessidade surge, mesmo contra a sua vontade, o que fica bem explícito num dos momentos mais poderosos do filme.

Começam a morrer pessoas, tudo começa a ficar mais sério, a luta de Tyler contra o capitalismo e a sociedade em que vivemos começa a ganhar pernas e a andar praticamente sozinha, ao ponto de continuar depois de ele simplesmente desaparecer.


Isto leva à conclusão do filme, com a grande revelação a ter um enorme impacto na forma como nós - e o protagonista - vemos tudo o que se passou até ali, mas a não significar o fim do filme, que consegue continuar de forma natural para lá desse clímax, com o protagonista a lutar com os seus próprios demónios até os vencer... Rendendo-se. O verdadeiro final, com o verdadeiro clímax, é espectacular, e deixa as coisas suficientemente em aberto para interpretações pessoais.

Para mim ficou bem claro que o Jorge tinha razão quando disse que o livro em que este filme se baseia era grunge. Porque se for minimamente parecido com o filme (e parece que este está razoavelmente fiel, pelo menos na temática e no ambiente), não tem outra hipótese. E o filme, pelo menos, é fantástico. Uma gigantesca ode ao carácter destrutivo da depressão e do desespero, e uma brilhante reflexão sobre a necessidade de libertação emocional. E se ainda não o viram, por favor façam-no, porque vale mesmo muito a pena!