
Vivemos numa época de pré-mudanças. Encontramo-nos num impasse social em que todos os dias esperamos algo de novo que insiste em não aparecer.
Vamos a uma livraria, e raros são os livros novos que diferem do que já existe aos montes. Vemos um filme e concluímos que aquele assunto já fora abordado antes. Ligamos o rádio e chegam-nos aos ouvidos as mesmas e repetidas batidas comerciais. Nada de novo, nada de novo, nada de novo.
Este bloqueio cultural leva-nos a voltar atrás no tempo, a procurar o que de bom já foi feito. Rendemo-nos aos clássicos.
Queremos, portanto, uma mudança. Ver o que de bom a nossa era tem para oferecer. Mas antes de mudarmos a capa, caros leitores, há que mudar o conteúdo.
Temos de modernizar o nosso código, temos de modernizar a nossa língua portuguesa.
Se alguém me perguntar se o novo acordo ortográfico me incomoda, direi com toda a certeza que sim, e muito. Mas se por outro lado me perguntarem se sou a favor, darei a mesma resposta com a mesma convicção: sim.
Nada, a não ser o nosso comodismo cultural, justifica um c antes de um t, em palavras como "correcto" ou "objecto". Depois do japonês, a nossa língua foi identificada como a mais difícil de aprender. Não queremos nós expandir o nosso dialeto? Não seria proveitoso para a nossa economia se outras culturas o aprendessem? Não compliquemos as coisas. O inglês, por exemplo, de tão gramaticalmente simples que é, tornou-se na língua universal, algo que o mandarim jamais atingirá.
Queremos tornar a nossa língua em algo mais familiarizado com a vida que levamos, não numa onda de facilitismo, mas sim de progresso. Se a própria linguagem oral muda todos os dias, qual é o interesse de por pura teimosia, continuarmos a escrever como os nossos avós?
Admitamos, inclusive, que se torna muito mais fácil explicar a uma criança do 1º ano que a palavra "ato" provém da junção dos sons destas três letras do que sermos obrigados a justificar-lhes um c antes de um t "só porque sim".
Em França, por exemplo, onde não se fazem alterações gramaticais há mais de 300 anos, registam-se também os mais elevados números de erros ortográficos de toda a Europa, por parte da população francesa.
Está na hora de a língua de Camões deixar de o ser de uma vez, porque, com todo o respeito, entre o século XVI e a época em que vivemos, já muita coisa mudou. Não façamos do português uma língua morta.
Venho portanto rogar para que nos deixemos de romancismos patriotas e que aceitemos a mudança. Afinal também foi difícil mudar do escudo para o euro, mudar da monarquia para a república. A mudança não é fácil, mas todos temos que fazer parte dela, não por nós, mas por aqueles que virão.