sexta-feira, 11 de abril de 2014

A Bondade dos Estranhos

Autor: João Barreiros


Opinião: Só existem duas razões para alguém não saber que João Barreiros é um dos meus autores favoritos de sempre: ou esse alguém não convive o suficiente o comigo, ou então não segue o blog há tempo suficiente. Como alguns amigos meus podem comprovar, eu sou um tipo chato, e Barreiros é um dos autores que eu mais tento impingir.

Já lhe li um número razoável de obras, incluindo o magistral Terrarium, que escreveu em conjunto com o Luís Filipe Silva, outro escritor que admiro e cujas críticas ouço com frequência (e atenção, eu prometo) nas sessões da Oficina de Escrita da Trëma, que continua por aí em modo semi-clandestino.

A minha opinião geral é que Barreiros é um fenomenal escritor de ficção científica. A forma como cria universos para as suas histórias e situa o leitor nesses mesmos universos com pistas subtis mas que contextualizam o todo na perfeição... Muito bom, muito bom mesmo!

Mas depois de ler este A Bondade dos Estranhos, fiquei desiludido. A caracterização está lá, mas apressada. As personagens interessantes também, mas exageradas ao extremo. A história tem uma qualidade discutível. Em suma, um livro que fica muito aquém dos padrões de qualidade deste autor.

Vamos devagar. O Projecto Candy-Man era um projecto de Barreiros, do já mencionado Luís Filipe Silva e ainda de outro autor, João Seixas. A ideia era escrevem uma trilogia, iniciada por este livro, dentro deste universo, enriquecendo-o e, imagino eu, contando uma história maior que a soma das três histórias.

Não sei porquê, mas os volumes seguintes não existem. Cada um dos autores ia ter um livro a seu cargo, mas até hoje (e este foi lançado em 2007) só existe este. É uma pena, porque acho que com projectos destes é que o Fantástico português podia avançar como deve ser.

Eu percebo é pouco dessas coisas, portanto vou-me focar mais neste livro. Imaginem que existem três espécies alienígenas a conviver connosco de forma relativamente pacífica, com as habituais intrigas políticas e afins à mistura. Agora imaginem que uma dessas raças decide andar a brincar com seres humanos, dando uns comprimidos especiais a alguns escolhidos que lhes dão alguns... poderes, vá.

Agora imaginem que uma das pessoas que tomaram esses comprimidos é contratada para tomar conta de quinhentos putos (que são mais lagostas do que outra coisa) alienígenas. A ideia é interessante, mas não tanto quanto isso, e a execução parece-me pobre, especialmente para o autor que é.

Barreiros tem um dom para caracterizar cenários, universos e personagens, é certo, mas usa esse dom de forma um bocado caótica ao longo das páginas deste livro. O resultado é uma enorme sensação de "quero saber mais". Acaba por acontecer tudo demasiado depressa, e a informação que Barreiros passa em poucas linhas é pura e simplesmente demasiada para ser assimilada como deve ser.

Talvez isto tenha acontecido por o autor estar mais habituado a contos, onde brilha verdadeiramente? Não tenho a certeza. Sem saber, diria que este livro foi escrito bastante depressa, e que das duas uma, ou é uma expansão de um conto, ou um romance enorme bastante cortado. Porque a sensação é exactamente a de algo incompleto.

Só há uma coisa que me chateou mesmo muito: a protagonista. Deve ser uma das personagens mais irritantes que já encontrei, e embora isso seja levemente intencional, para transmitir a ideia de uma rapariga que não confia em ninguém e que se defende do mundo exterior sendo uma pain in the ass armada aos cucos, essa ideia acaba por transparecer menos do que o facto de ela ser uma chata do caraças. O livro tem 150 páginas e eu já não a podia ver à frente!

E depois, claro, o final apressado não ajudou a nada. É verdade que gostei mais da segunda metade do livro, quando as coisas se desenvolvem como deve ser e os planos estranhos se desenrolam por ali fora, mas continuei a achar apressado e, pior do que isso, sem grande sentido. As motivações pareceram-me fracas, e o fim, ainda que a tender para épico e recheado de conceitos fantásticos, como todo o livro, não me agradou nem um bocadinho. Demasiado simples não é a melhor expressão, mas pronto, foi isso.

Para terminar, eu que normalmente venero tudo o que este homem escreve, vou ter que guardar este livro na estante dos mal comportados. O estilo típico de Barreiros está claramente lá, mas de tal forma diluído que não consegue fazer do livro algo bom.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Que as citações nos caiam em cima [47]


"Ao contrário do que diz a ciência, existe som no espaço. É certo que o vácuo elimina o som das explosões... Mas, através dos intercomunicadores das naves, os gritos de agonia misturam-se com o ruído da estática."


Inumanos
Carlos Pacheco e Rafael Marin

Inumanos

Título: Inumanos

Argumento: Carlos Pacheco e Rafael Marin
Desenho: Jose Ladronn e Jorge Lucas
Tradução: Paulo Moreira


Opinião: Com uma arte fantasticamente detalhada, este Inumanos convenceu-me de imediato. Pouco ou nada sabia sobre este grupo, para além de que são uma espécie de X-Men, mas meio alienígenas, futuristas, e bastante mais dramáticos.

Ou seja, não tinha expectativas de nenhum tipo, não sabia mesmo o que esperar. Aquilo que encontrei foi um bom worldbuilding, com uma história que não achei particularmente cativante, talvez por me faltar algum contexto, mas que apreciei e me despertou a curiosidade.

Os diálogos é que me deram ânsias. Não sei se é problema de tradução ou se já são assim de origem, mas estão mesmo muito maus. Artificiais, ridículos e muitas vezes desnecessárias, já que a arte é tão expressiva que conta a história praticamente sozinha.

Basicamente, os Inumanos são os descendentes de uma antiga raça extraterrestre, e vivem isolados e sossegados num canto escondido do nosso planeta, até ao momento em que o que sobra dessa raça extraterrestre aparece, sob a forma de Ronan, o Acusador (um dos vilões do próximo filme da Marvel, Guardians of the Galaxy).

A partir daí há porrada, traições, chantagem, esquemas políticos que brincam com as hierarquias de várias galáxias, e por aí fora, numa mistura entre space opera e a "comum" história de super-heróis.

Não fiquei fascinado, em grande parte graças aos diálogos execráveis, mas fiquei certamente com curiosidade, e se a oportunidade surgir, não hesitarei em ler mais sobre este grupo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

X-Men #2


Argumento: Brian Michael Bendis
Desenho: Stuart Immonen, David Marquez
Tradução: Filipe Faria

Opinião: Como se pode ver pela capa, este segundo número é bastante focado em Jean Grey, uma das mutantes mais poderosas, controversas e ressuscitadas de sempre. Não tenho a certeza se sou grande fã dela, porque além dos momentos overpowered, não me parece a personagem com as melhores escolhas à face da terra (quem é que no seu perfeito juízo gosta mais do Ciclope do que do Wolverine?).

No entanto fiquei agradado com a forma como aparece nesta nova linha narrativa. Depois de no primeiro número Hank McCoy, o Besta, ter andado a brincar com o passado e o futuro, eis que nos deparamos com a situação crítica de ter o Ciclope do presente e o seu bando de mutantes renegados e ligeiramente fascistas a esbarrarem com os X-Men originais.

Não é das piores histórias que já vi, e o motivo de Besta é bastante razoável, ainda que um bocadinho demasiado complicado: quer confrontar Ciclope com uma versão sua mais inocente, para que ganhe consciência do quão errada é a sua conduta actual.

Pessoalmente não percebo bem como é que isto é mais simples do que dar-lhe um enxerto de porrada até ganhar juízo, ou tentar dialogar de forma razoável com aquele que é um dos membros mais pacifistas e choninhas dos X-Men. Mas é assim que funciona no mundo dos super-heróis!

Como não podia deixar de ser, a história está recheada de confrontos, encontros, reencontros e comparações entre os X-Men originais e os actuais. O Hank McCoy do passado passa o tempo todo a tentar salvar o seu eu futuro, cuja mutação auto-infligida (a que o deixou peludo e azul) o está a matar; o Homem de Gelo do futuro e o do passado passam o tempo a comparar-se um ao outro e a assustarem-se um com o outro; o Ciclope do passado consegue tornar-se mais irritante do que o Ciclope original; o Anjo original acha estranho que o seu eu futuro não esteja em lado nenhum, e o momento em que o encontra é dos mais peculiares; e quase todas as personagens olham para a Jean Grey do passado com um misto de saudade e horror.

No entanto a história acaba por se focar mais na personagem de Jean Grey, que por um lado é a causa de muita coisa má que aconteceu a este grupo de rejeitados da sociedade, mas que por outro sempre foi um dos seus membros mais valiosos, poderosos e icónicos. Achei muito interessante a forma como as personagens lidam com ele: desde Wolverine, sempre durão mas claramente quase a quebrar, a Kitty Pride, que não era a maior fã de Jean, mas que cria uma ligação muito forte com esta Jean.

Por esse lado, as relações ficaram muito bem exploradas. Já para não falar que a interacção entre os Homens de Gelo e os Bestas é hilariante e espectacular.

Agora, onde é que isto vai levar? O confronto entre o grupo de Ciclope o grupo de X-Men "oficial", ajudado pelos X-Men originais, ainda deve andar longe. Pelo menos o definitivo. Mas os jovens pareciam bastante determinados. Não tenho a certeza de quais as consequências que isso vai trazer, mas estou certamente curioso. Apenas gostava de ver mais explicações, ou melhor, mais dicas das relações anteriores, porque isto de cair aqui de pára-quedas, por muito reset que tenha havido, só é engraçado até um certo ponto. Mas tirando isso... Bom trabalho que para aqui vai.

sábado, 5 de abril de 2014

A desgraça dos Contos Digitais do DN

Queria começar por louvar a iniciativa da Biblioteca Digital do DN. O jornal ofereceu um número bastante razoável de contos de autores portugueses, de diversas áreas e estilos, em formato digital relativamente bem editado (e incluindo um com ilustrações!). Todos os contos foram acompanhados por uma curta biografia do autor.

É de louvar não só o princípio da coisa, como a tentativa de apresentar um conjunto de autores de tal forma diversificado que até incluiu ficção-científica e fantástico, na forma de João Barreiros e David Soares, por exemplo!

No entanto é preciso pôr os pontos nos i's e deixar bem claro que foi um fracasso. Podem ler a minha opinião sobre todos os contos para perceberem o que quero dizer. E não estou sozinho. Já vi críticas por aí que acham mais ou menos a mesma coisa que eu para a maior parte dos contos,

A verdade é que a apreciação geral é má. Terrível. Não sei se os autores foram de alguma forma pressionados e escreveram tudo à pressa, ou se foi um momento de desinspiração colectiva ou de obrigação contratual, mas são poucos os que se aproveitam.

E se Barreiros não me desiludiu, o que dizer de David Soares, que escreveu um conto mediano, ou de João Tordo, que escreveu um conto mau? Já para não falar dos outros escritores todos, que na sua grande maioria conseguiram apenas aborrecer-me e revoltar-me ligeiramente com os seus contos.

Nem tudo foi mau, é verdade. O já mencionado Barreiros, sempre com o seu estilo característico, é o caso fulcral. Mas fiquei a saber que aprecio a escrita de Lídia Jorge, de Afonso Cruz, e até gostei dos contos de Onésimo Teotónio Almeida, David Soares, Rui Cardoso Martins, Possidónio Cachapa e David Machado. O do Nuno Markl também não foi mau de todo. Mas todos os outros? Entre o mediano-a-tender-para-desinteressante e o deplorável.

O que é uma pena! Havia tanto potencial nesta colecção. Autores relativamente conhecidos à mistura com autores desconhecidos, diversidade de estilos e gerações, uma boa edição e uma divulgação que não foi má de todo... Tinha tudo para ser fantástica e infelizmente ficou-se pelo medíocre!

Também já pensei se este resultado não estará relacionado com a pouca tradição e apetência dos escritores portugueses para o conto. Pelo menos não encaram esse formato como eu acho que ele merece, na sua maioria. Talvez isso já esteja de tal forma enraizado na nossa cultura literária que os escritores têm uma aversão natural e acontece isto...

Mas confesso que dá esperança. Esperança que de talvez apareçam mais iniciativas assim. E com mais destaque para o Fantástico, que também merece e tem muito boa gente capaz de o representar como deve ser junto do público geral. Quando é que volta a acontecer algo assim? Gostava de saber.

Até lá, é continuar a cascar nestes, para ver se este pessoal aprende!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ultra-Heróis

Titulo: Ultra-Heróis

Argumento: Ricardo Secci, Alessandro Ferrari, Giorgio Salati, Augusto Macchetto
Desenho: Stefano Turconi, Antonello Dalena, Ettore Ghia, M. Razzi, E. Urbano, Roberta Migheli, Lara Molinari

Opinião: Ok, eu confesso, isto não é exactamente um livro, uma vez que os episódios da história foram distribuídos por nove revistas Comix. Mas tem um ar apelativo! E é fixe!

E pronto, não é a primeira vez na história que os livros são publicados aos pedaços, portanto vou criticar isto como se de um livro se tratasse.

Para começar, a arte surpreendeu-me. É moderna, coisa que normalmente não me costuma agradar, mas o traço é fenomenal, e as cores e sombras estão muito bem usadas, sem tornar a coisa demasiado cartoonesca.

Agora há uma série de coisas que são engraçadas: a reunião dos super-heróis, os Bad-7, o plano, a interacção entre os vários heróis e entre os vários vilões, a distinção clara de personalidades entre todas as personagens... Por aí, foi um bom trabalho.

E as personagens estão super expressivas. Esta deve ter sido a banda desenhado de patos e ratos em qeu vi estas personagens mais expressivas, mais vívidas. Fiquei honestamente impressionado e agradado. Junte-se isso a um bom sentido de humor, e está tudo preparado para algo bastante interessante...

Quanto à história em si, é simples (e familiar): um grupo de vilões reúne-se para executar um grandioso plano maléfico, e os heróis juntam-se para os derrotar. Não só os mais conhecidos, como o Superpato, o Morcego Vermelho, o Superpateta e a Superpata, mas também um Iron Gansolinus e um Gastão com um nome que não me lembro.

Gostei mesmo foi de ver este último a sofrer as consequências da sua personalidade horrível, e a tramar-se à grande por causa da sua sorte. Foi um bom twist na personagem, e um bónus para mim, que não gosto nada deste tipo.

A situação entre o Superpato/Donald e a Superpata/Margarida é deveras engraçada, mas no meio disto tudo fiquei com a sensação de que os vilões funcionam melhor enquanto equipa e enquanto personagens do que os heróis!

E depois... A reviravolta! A intriga! Não estava à espera. E é fascinante como as pessoas mais úteis são os não super-heróis: Tio Patinhas e Mickey. Vou ignorar o facto de ser sempre o Mickey a salvar o dia, mas foi bem ver um Tio Patinhas a lembrar o Patinhas jovem da Saga do Tio Patinhas, destemido, inventivo e sempre a safar-se de problemas pelas suas próprias mãos!

No fim, acho que a história podia ser melhor, mas gostei muito de ler isto. Ler algo maior do que as quinze a quarenta páginas de uma história normal é sempre algo bom de se fazer, e achei esta história bem encadeada e bem contada. O final não me satisfez muito, e fiquei sem perceber o motivo de o Mickey também ter sido recrutado, se não se tornou num super-herói e se as únicas contribuições decentes não eram esperadas.

Mas pronto, não foi nada mau, e aconselho a leitura, se conseguirem reunir as Comix com a história!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um romance



Título: Um Romance
Autor: Rui Zink

Opinião: Já li este conto há algum tempo, e por acaso entretanto já li e comentei outra história do autor, da qual até gostei. Mas este conto não me agradou minimamente, e a ideia com que fiquei do autor foi a de que ele é um tipo parvo.

Não querendo ofender ninguém, sempre o achei um homem que se esforça demasiado para ser engraçado, e acaba por falhar redondamente, caindo mais facilmente na palermice do que no humor.

Enfim, não conheço o homem e não sei praticamente nada dele, portanto não quero aqui fazer juízos de valor, mas é esta a ideia que o conto me transmite. Não achei a escrita nada de especial, e a história não ata nem desata, chegando mesmo a ser uma parvoíce pegada.

"Não me convenceu minimamente, e se já tinha pouca curiosidade quanto aos seus livros, agora não tenho nenhuma.", foi o que eu anotei depois de ler isto, mas agora não sou tão radical, depois de ter lido A Espera. A ver vamos!