sábado, 12 de julho de 2014

Eu e a poesia


Acho que chegou a altura de me crucificar. Quem seguir o blog regularmente já deve ter percebido - eu não me esforço para ser subtil - mas eu odeio poesia.

Talvez odiar seja uma palavra muito forte, mas pronto, eu não gosto mesmo nada de poesia. De uma forma geral, sim. Ou, para os mais esperançosos e preciosistas de vocês, ainda não encontrei um único poema até hoje que me tenha agradado.

As minhas razões são várias, mas essencialmente duas: uma que nada tem a ver com a poesia em si, e outra que corre o risco de ser uma generalização excessiva, mas pronto.

Comecemos pela única que é efectivamente válida, aconteça o que acontecer. Como fã de literatura de uma forma bastante abrangente, e do Fantástico em particular, tenho um ódio de estimação aos intelectuais que predominam na crítica e nos meios académicos.

São pessoas que nem sequer reconhecem o Fantástico como literatura decente, mas sim como literatura de segunda divisão, e que depois elevam a poesia aos píncaros da genialidade e da maravilha escrita.

Logo para começar, alguém que não considere a obra de Tolkien como uma das maiores obras-primas literárias de sempre simplesmente não bate bem da cabeça. Só pode ser alguém com um profundo preconceito e incapaz de reconhecer o brilhantismo fora das diminutas paredes daquilo que acha correcto.

Reparem como o cachimbo lhe fica bem... O Nobel póstumo para ele!
E não, não precisa de gostar dos livros de Tolkien. Eu também não gosto de praticamente nada do que li de Pessoa (as excepções são... prosa), mas admiro o génio e reconheço a importância da(s) figura(s) e do(s) poeta(s) que ele era.

E quem diz Tolkien, diz Stoker, LeGuin, Shelley, Alan Moore (que ainda por cima escreve BD, mas essa é outra conversa) e muitos, muitos outros.

Estes críticos/académicos/intelectuais conseguem apenas ser snobs e fecharem-se numa redoma de suposta "literariedade", ignorando grandes sectores da Literatura, que não é só Saramagos, Hemingways e Balzacs.

Ora, esta ostracização do Fantástico juntamente com o facto de situarem a poesia num pedestal, pura e simplesmente por ser poesia, chateia-me de morte. Faz com que eu seja anti-poesia logo à partida, por princípio. Se podem ser anti-Fantástico, eu posso ser anti-poesia, e vamos ver quem é que se diverte mais.

Percebem o que eu quero dizer, não percebem?

Passemos então ao argumento que muito provavelmente é uma generalização (mas eu não quero saber). Já li poesia, já li sobre poesia, já estudei poesia e nunca - nunca! - encontrei nada que me agradasse. Sim senhor, o Pessoa era um génio, mas acho a poesia dele intragável. O Camões escreveu um épico que é um dos meus livros favoritos de sempre, tudo bem, mas os sonetos dele? Fora! E a lista continua.

Isto porquê? A forma fácil de explicar é: eu não tenho paciência para lirismos entretidos com eles próprios. Eu concedo que existam poemas, inclusivamente alguns que eu li, que são peças literárias de excelência objectiva e absoluta. Mas não suporto que os poetas, ou as pessoas que se consideram poetas, possam cuspir qualquer coisa para uma folha em branco, chamar-lhe poema e ser considerado um autor do caraças.
Tudo o que está errado com a poesia.
Lamento muito, mas o pináculo da literatura não é o Álvaro de Campos a dizer que nem teve tempo de passar a manteiga nos dentes. Ou a descrever meninas de oito anos a masturbar homens no vão das escadas. Nem o Camões a escrever odes às suas conquistas exóticas, que mais não são do que um registo que podia ser reunido num livro chamado "É assim que se apanham doenças sexualmente transmissíveis".

Também já li Cesário Verde, Jorge Luís Borges, alguma coisa de Poe, Shakespeare, António Manuel Ribeiro (vocalista dos UHF) e mais uma mão cheia de autores cujos nomes não me lembro, e a minha opinião é sempre a mesma: a poesia rapidamente se torna no equivalente literário da arte moderna.

Vocês sabem do que falo, aquela "arte" em que se pendura um quadro preto com dois metros por dois metros e uma bolinha branca de cinco centímetros de diâmetro exactamente no meio, e se fecha a loja. Porque já fizeram arte. Um quadro preto com uma bolinha branca no meio.

Que avant-garde.

Como tal, acabo por sofrer de algum preconceito relativamente à poesia. E de generalizar a minha experiência pessoal com o que já li a toda a poesia. Ambas estas posições são erradas, mas inevitáveis. Literatura não é Ciência, as minhas opiniões e posições nem sempre são necessariamente racionais. Tal como qualquer leitor, temos uma visão mais emocional da Literatura. E acontecem destas coisas.

Dito isto, eu tenho perfeita noção de que não posso "desistir" já da poesia. Provavelmente vou continuar a apregoar que é tudo horrível e uma nódoa na Literatura mundial, mas irei continuar a ler, a fazer experiências. Tenho esperanças para Poe, que irei aprofundar, e para Shakespeare e alguns autores britânicos mais antigos.

Curiosamente, de autores portugueses não espero grande coisa. Eu conheço bem o estilo de escrita português, e embora sejamos considerados um país de poetas, acho que bem mais de metade cai naquela analogia com a arte moderna.

Logo se vê. Eu prometo ir dando notícias. Só nunca irei deixar de preferir uma bela meia dúzia de parágrafos em prosa a um qualquer poema.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Saga (Epic #2)


Autor: Conor Kostick


Opinião: Depois de ler o primeiro volume fiquei bastante curioso com a continuação. É que tudo parecia estar fechadinho e explicado, mas ainda com mais dois livros na colecção.

O começo deste livro responde logo a essa dúvida, mas fiquei com sentimentos contraditórios quanto à forma como o faz: se por um lado fiquei satisfeito com o artifício que o autor arranjou, por outro fiquei bastante desiludido por se ter desligado quase completamente do livro anterior.

Eu explico. Mas ficam avisados que há spoilers a partir daqui. Continuem por vossa conta e risco...

No final de Epic, o protagonista deu cabo do jogo. Concluiu uma missão que terminou o jogo e pronto. Ficou por explicar o que aconteceu àqueles que antes governavam, que não perdem propriamente o poder que tinham só porque o jogo desapareceu. Mas tirando isso, bem, a história ficou basicamente terminada. Todos ficaram a viver felizes e despreocupados, numa sociedade "arranjada".

Mas o autor surpreendeu-me e conseguiu desencantar algo de que eu já não me lembrava. Estas personagens que jogavam Epic não são os humanos originais, são colonos num planeta que não é a Terra. Ora bem, o que aconteceu às pessoas da Terra? Resposta fácil: foram chacinados pela rainha de Saga, outro jogo de computador, que se tornou demasiado inteligente e autónoma.

E essa rainha agora quer conquistar o resto dos humanos, para que estes possam alterar o código do jogo e moldar o mundo de Saga segundo a sua visão.

Interessante. Muito interessante. Começa por soar um pouco forçado, mas até faz sentido e tal. Deixa-se passar. O que não se deixa passar é o facto de Erik e companhia, protagonistas de Epic, terem um papel mais do que secundária, e aparições muito reduzidas. A sua relevância para o enredo também é perto de nula.

E, claro, a pior coisa de todas: nenhuma das pontas soltas no final do último livro foram aproveitadas. Não se menciona nada de especial relativamente à nova sociedade que teve que ser criada depois do fim do Epic, nada. Nem vou falar do facto de descobrirem que existe um jogo novo, já que ninguém devia sequer pegar no equipamento, uma vez que o jogo que tinham, Epic, ter deixado de existir.

Mas enfim, pormenores. Sobre este livro tenho a dizer que as personagens são mais interessantes, se bem que a protagonista não me agrada por aí além. É demasiado... Inconstante. Pouco consistente. Mas felizmente há algo para compensar: a principal antagonista, a Dark Queen, chefe suprema deste mundo virtual, manipuladora, fria e implacável. Alguns dos capítulos seguem o seu ponto de vista e são espectaculares.

Tirando isso, não há grande coisa a apontar e voltamos novamente ao mesmo problema: o que fazer agora que a história está fechada... outra vez? Concedo que seja possível, e com moderado sucesso, que o autor já o fez uma vez, mas não sei se da segunda vez não vai sair mais forçado, ou então repetitivo. De qualquer das formas, estou curioso. Só não aconselho propriamente esta trilogia... Talvez a pessoas mais novas, como porta de entrada para coisas muito, mas muito melhores.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Perdido na Dimensão Z (Capitão América #1)


Argumento: Rick Remender
Arte: John Romita Jr, Klaus Janson, Dean White, Lee Loughridge, Dan Brown
Tradução: José de Freitas

Opinião: Não sou o maior fã do Capitão América. Já o disse por aqui algures, aquele patriotismo exacerbado, aquele sentido extremo de honra e dever a roçar o ridículo, o protagonismo exagerado só porque os americanos gostam de ver as cores americanas a salvar o dia e a dar porrada a nazis... Enfim.

No entanto estava curioso quanto a esta BD, por várias razões. Para começar, ouvi dizer bem pelas internetes. Depois era uma história que arrancava o Capitão Choninhas completamente da sua zona de conforto e lhe dava um tratamento mais de distopia apocalíptica. Sim, tenho uma coisinha por distopias.

Terminada a leitura, fiquei satisfeito. Sem ser espectacular, e sem que a história tenha de facto muito sumo, é uma BD interessante. A arte é porreira e adequada ao ambiente hostil, e o enredo é cativante e fora do comum para o Capitão Maricas: quando um antigo inimigo o rapta para uma dimensão paralela à nossa, a única hipótese que o herói tem é viver nela durante dez anos antes sequer de ter outro encontro com o dito vilão.

Encontra coisas que o querem matar e coisas que tem de matar, descobre civilizações inteiras e percorre um continente de uma ponta à outra, e tudo isto sempre a proteger um rapazito, roubado ao dito vilão (que já agora se chama Arnim Zola e é uma espécie de bio-terrorista em forma de consciência presa num andróide zarolho), que começa a tratar como um filho.

Essa deve ser a parte mais fascinante. O Capitão Irritante completamente reduzido a um refugiado, um fugitivo, um homem perdido numa terra desconhecida e hostil, com a responsabilidade de tomar conta de uma criança e de a educar. É um papel diferente para esta famosa personagem, e uma que lhe cai bem. Nesta BD, o Capitão América é um derrotado, e isso é fascinante de ver.

O final, como não podia deixar de ser, acaba mesmo a meio, quando tudo começa a ficar interessante. A Panini já prometeu a continuação, mas só daqui a uns meses. Não fiquei completamente deliciado com este número, mas continuo a dizer que estou bastante satisfeito com esta colecção de TPB's, ainda mais do que com a revista dos X-Men, ou a dos Vingadores. Palmas para quem teve a ideia!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Darkly Dreaming Dexter (Dexter #1)


Autor: Jeff Lindsay


Opinião: Fã da série do princípio ao fim, não consegui resistir ao livro em que tudo se baseia. Ainda por cima estava a um preço absolutamente estapafúrdio: um euro.

Para quem não conhece, Dexter é uma série sobre um homem aparentemente normal - eu diria até que ele transpira normalidade - com uma família, uma vida profissional e social completamente insuspeita, mas que tem um segredo... É um assassino em série, um dos maiores de sempre, extremamente inteligente, com fortes princípios morais e completamente desligado de emoções.

Dexter Morgan é um auto proclamado sociopata, mas é muito mais do que isso. É uma personagem complexa e fascinante, que tem de balançar a necessidade que sente de matar com o código imposto pelo seu pai adoptivo, que cedo percebeu o que ele era exactamente e decidiu que mais valia canalizar Dexter para fazer alguma espécie de Bem.

Sim, Dexter só mata os maus da fita. E se pensam que estou a falar apenas do que aparece na série, desenganem-se. Depois desta leitura apercebo-me que a série é uma adaptação muito boa, especialmente no que toca à personagem de Dexter, que parece decalcado destas páginas.

A história é porreira, ainda que recheada de coincidências inexplicáveis a mais para o meu gosto, e o resto das personagens também se safa, mas onde Jeff Lindsay realmente brilha é na construção de Dexter, que é o narrador. A voz criada pelo autor para esta personagem peculiar é fria, distante, sardónica, implacável e hilariante a todos os níveis.

Se querem uma prova disto tudo, imaginem o que é conseguirem criar empatia com alguém que vos conta na primeira pessoa como mata este e aquele, com todos os terríveis pormenores; alguém que a meio duma conversa com outra pessoa pensa "se calhar devia matar esta pessoa"; alguém que demonstra não querer saber de ninguém e não sentir praticamente nada. Ou seja, alguém que, objectivamente falando, é uma pessoa horrível. E que ainda assim inspira empatia. Lindsay conseguiu criar uma personagem assim tão boa!

O livro é de leitura rápida, graças aos capítulos curtos, prosa directa e extrema capacidade de cativar o leitor. A história é de facto interessante e queremos virar a página mais que não seja para descobrir qual vai ser a reacção de Dexter, ou que pensamento engraçado vai ele ter face a uma qualquer coisa que achamos mundano mas que para ele é completamente inexplicável.

Isto tudo para dizer que gostei bastante do livro. Não o classifico como um dos melhores livros que já li porque ele é tecnicamente pobre e a história não tem muito sumo. Mas foi um dos livros que mais gozo me deu ler, não só por ser o livro que é, mas por já conhecer (e admirar) a série e ter uma imagem bastante vívida destas personagens. Será que consigo encontrar o resto da colecção? Não sei, mas gostava!

sábado, 5 de julho de 2014

O que o Filipe Faria sempre quis saber

Ele que me desculpe por usar uma foto dele tão novo...
Depois de uma conversa na Feira do Livro deste ano com um dos meus autores favoritos, Filipe Faria, tive a oportunidade de trocar uns e-mails com ele, para lhe enviar as minhas opiniões e crónicas do mega empreendimento que foi ler As Crónicas de Allaryia de uma assentada.

Aquele que é, realço, o autor de uma das sagas literárias pela qual tenho mais afeição, mostrou bastante interesse e entusiasmo, e respondeu com muita simpatia, que também distribuiu em abundância durante a nossa conversa. É definitivamente um autor que tenciono voltar a encontrar em futuras edições da Feira (ainda tenho seis livros para ele assinar...).

Mas fiz-lhe uma pequena maldade. Uma proposta no mínimo estapafúrdia. Aproveitei-me da boa vontade e da simpatia deste escritor para lhe roubar uma "entrevista" (já explico as aspas). Na troca de e-mails que já referi, consegui suprimir a histeria de estar a falar com a pessoa que criou o melhor vilão que conheço - TEAM SELTOR!!! - e pedi para lhe fazer uma entrevista para publicar aqui no blog. Bem, pedi-lhe para me fazer uma entrevista. Pormenores. O que interessa é que ele acedeu.

O que vão ler a seguir é o resultado. Decidi inverter os papéis e pôr o autor, normalmente o entrevistado, a fazer perguntas ao blogger/fã, normalmente o entrevistador. A ideia era tornar isto mais interessante, quer dizer, qualquer macaco faz uma entrevista a um autor, mas quantas pessoas é que são entrevistadas por autores? Toma!

O Filipe Faria fez assim uma série de questões sobre As Crónicas, às quais respondi enquanto leitor, fã parcial, blogger crítico e gozão incurável. Divirtam-se!

Filipe Faria é autor de As Crónicas de Allaryia, uma saga de fantasia épica, e de Felizes Viveram uma Vez, uma saga de fantasia em construção sobre as personagens dos contos de fadas. Escreveu o seu primeiro livro, A Manopla de Karasthan, com o qual ganhou o prémio Branquinho da Fonseca atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo semanário Expresso. Já teve incursões pela tradução e pela BD, diz que tem um projecto no forno e continua a escrever de uma forma geral. Podem visitar o seu site oficial aqui.



- Pessoalmente, tenho a convicção de que, boa ou má, uma história triunfa ou claudica consoante a força das suas personagens e o elo que os leitores com elas estabelecem. Como é que me saí nesse capítulo?


Bem, não consigo responder a isto de forma imparcial. Desde a primeira vez que li A Manopla de Karasthan que criei uma ligação com algumas das personagens, como o Babaki e o Worick, por exemplo. Na segunda leitura da saga, há relativamente pouco tempo, notei uma certa empatia com praticamente todas as personagens principais (embora umas me irritassem mais do que outras, não é Lhiannah?), mesmo tendo noção dos defeitos de caracterização com que tinham sido criadas.

Estes defeitos de que falo têm a ver com todas as personagens serem estereótipos muito fortes: todas, ou quase todas, começam como nada mais nada menos do que reciclagens de raças de Tolkien e companhia, mas com nomes diferentes. É que era difícil terem começado mais... genéricas.

No entanto, com o passar dos livros, as personagens tomaram caminhos interessantes e surgiram até algumas que brilharam completamente: Kror, Seltor, Culpa, Tannath... Sim, eu sei, muitos vilões. Acho que foram realmente o ponto forte, em termos de personagens, e conseguiram carregar a saga às costas. Especialmente no caso de Seltor e de Tannath. Kror conseguiu tornar Aewyre interessante, quando este passou pela sua fase complexada, mas Tannath foi causa de surpresa atrás de surpresa, e Seltor... Bem, é o meu vilão favorito, isso diz tudo.


- Certa vez, um leitor disse-me que eu tinha "um gosto bastante saudável por um certo uso do erotismo", mas que o escrevia "com muita graça e moderação", enfatizando a parte da moderação. Com base na tua leitura das Crónicas, em que campo te situarias? 50 Sombras de Allaryia ou Jane Eyreth?

Nem um nem outro. Confesso que a minha reacção à generalidade das cenas mais sensuais da saga é a mesma que a minha reacção às cenas de sexo nos livros do Stephen King: mato-me a rir. E isto é injusto! Mas não consigo tirar da cabeça um Aewyre frustrado a gritar “Mas eu usei a tripa de porco!”, ou a frase mais romântica de sempre, um dos ex-líbris desta saga, “Vamos fazer um bebé.”

Falando mais a sério, não acho que essas cenas estejam exageradas, nem que sejam demasiado leves. Tirando alguns casos pontuais. Talvez dê para situar a saga na média das 50 Sombras de Allaryia e de Jane Eyreth. O que se passa muitas vezes é que acabam por aparecer de forma algo abrupta e, bem, awkward, principalmente no início. Felizmente é algo que, como tudo nesta saga, melhora consideravelmente com o passar dos livros.


- Qual a raça/povo de Allaryia que mais te fascinou ou que achaste mais bem concebida e desenvolvida? Porquê?

Pergunta complicada. A primeira coisa que me veio à cabeça foi “os humanos”. Sim, no meio de tanta coisa, comecei por pensar nos humanos. O Aewyre tem uma boa evolução, embora eu não seja fã da personagem, e acaba por ser uma representação bastante fiel do que é um ser humano. Desde a arrogância e impetuosidade da juventude até à sobriedade e gravidade auto-infligidas, tudo em Aewyre é o que de mais típico se pode ver numa pessoa comum, ainda que levado a extremos ou a interpretações diferentes do habitual.

O povo de Tanarch também tem a sua relevância e papel preponderante nos desenvolvimentos da segunda metade do livro, bem como os wolhynos mas não quero bloquear essa resposta.

Sinto-me tentado a apontar os drahregs, em grande parte graças ao Kror, uma personagem soberba, mas esta associação lembra-me imediatamente de um povo que teve algum destaque e me deixou sempre muito curioso: os Cho Tirr.

Aqueles tipos estranhos dos desertos de neve, montados nos seus cavalos robustos e pequenitos... Criaturinhas fascinantes. E acabam por ter um desenvolvimento muito forte, por contraste com o grupo de protagonistas e com os vilões. Ao situar um grupo reduzido de personagens “estrangeiras” no meio de um acampamento de Cho Tirr, o leitor é empurrado para uma situação de estranheza, em que é possível sentir-se desconfortável perante a familiaridade dos Cho Tirr, que nos é, enfim, estranha. Acho que levam a medalha, sim.

- Combates nas Crónicas: "uau, parece um filme", ou "dasse, estava a ver que nunca mais acabava"?

O nível de detalhe é certamente cinematográfico, se pensarmos em sequências de acção como em 300, em câmara tão lenta que é possível contar o número de gotas de sangue que salpicam o ar. O que não é nem bom, nem mau... É estilo. Gostar ou não, já depende.


As primeiras cenas de luta da saga são exaustivas sem serem propriamente interessantes. Acontece por vezes haver um certo foco em pormenores, sem que a acção principal deixe de decorrer à mesma velocidade. É como se ao ver uma cena duma batalha, estivessemos focados na forma como a luz incide na espada do inimigo, e quando acabamos a nossa reflexão, já a batalha acabou.

Depois há as cenas mais épicas, como a batalha no final de Marés Negras, que achei bem trabalhadas e em que se manteve um bom equilíbrio entre os milhares e milhares de intervenientes e o grupo restrito de protagonistas.

Há ainda um terceiro caso, que tem basicamente só uma instância: a batalha entre Quenestil e Tannath, no vulcão, que muita gente diz que se arrasta demasiado. Eu não acho. Está detalhada, está longa, mas é uma parte tão importante da história, que faz todo o sentido.

- Palavreado das Crónicas: "é tão fixe aprender palavras novas", ou "ó para este, a armar-se aos cágados"?

Definitivamente a primeira opção. Nunca me vou esquecer do significado de "barbacã". Ou de "anátema". Mas eu sou suspeito, que adoro palavras esquisitas. Muitas que chatearam outros leitores, não me fizeram espécie porque já as conhecia, e outras deixaram-me fascinado. Por exemplo, foi a ler a saga que descobri a palavra “gavinhas” e uso-a frequentemente nos meus contos, com algum sucesso, que já tive várias pessoas a repararem na palavra e a gostarem!

- Se tivesses de escolher uma personagem que pudesses apagar em definitivo da história das Crónicas, qual seria? E porquê?

Acho que a Lhiannah. Nunca fui fã desta personagem, que começa como uma menina mimada com a mania que é rebelde, e que mesmo tendo uma evolução positiva não passou de irritante. É verdade que até gostei de a ver separada do grupo (ficou um pouco mais tolerável) mas muitas vezes o seu papel parecia ser o de servir de paixão para o Aewyre.

E é assim, a paciência tem limites. A sua participação envolveu mais do que uma vez reacções questionáveis e ridículas, de menina mimada e histérica, que fazem sentido para o tipo de personagem, mas que são absolutamente insuportáveis. E convenhamos, a Lhiannah é uma personagem que, bem analisadas as coisas, não faz tanta falta quanto isso à narrativa e cujo papel podia facilmente ter sido cumprido pelas outras.

- Por outro lado, qual a personagem que devia ter tido mais protagonismo e capítulos que os que teve?

O meu primeiro impulso foi “SELTOR!”, mas nunca na vida. Enquanto vilão ganha muito mais por aparecer pouco, bem doseado. Cria mistério e aumenta a creepiness em redor da sua personagem. Depois pensei logo “BABAKI!”, mas o final precoce desta pobre personagem peluda foi algo bom para a saga. Obrigou as personagens a crescerem e a consolidarem-se, deu-lhes um trauma real, partilhado com o leitor, o que as tornou mais vívidas e acrescentou gravidade à saga, marcando, para mim, um ponto de viragem: da série inconsequente e juvenil iniciada em A Manopla para a série negra, violenta e de temas pesados acabada em Oblívio.


Pensando no resto das personagens, uma que gostei bastante de acompanhar foi Kror, mas acho que até teve o protagonismo que merecia, com o arco narrativo da Essência da Lâmina e os seus alfanges fascinantes.

Talvez dar mais tempo de antena ao pai de Aewyre não fosse má ideia, que pareceu-me ser uma personagem interessante, mas a sua curta aparição também faz sentido e está bem como está. É uma pergunta complicada, esta. A verdade é que ao longo de sete livros com uma média de 400 páginas, complicado é haver uma personagem com protagonismo insuficiente: há espaço e tempo para toda a gente.

Mas ainda assim... Talvez... Sim, talvez Dilet, o fascinante bobo. E aquele thuragar sem nariz cujo nome não me lembro, e o tipo de boca cosida. Sim, acho que sim. Os arautos de Seltor (menos Tannath, que já foi muito bem utilizado) mereciam um pouco mais de destaque, não só pela importância que têm na história mas também pelas suas particularidades.

- Para terminar, onde se situaria cada companheiro, incluindo os falecidos, num Top 8 elaborado por ti?

Bem, esta pergunta também não é simples. Só há três lugares de que tenho a certeza: Worick em primeiro, Babaki em segundo e Lhiannah no fim. O Worick é uma personagem e pêras, pertencente a uma raça feita a partir do que de pior havia nos humanos, consegue demonstrar um carinho e uma preocupação extraordinária por Lhiannah, e as suas interacções com Taislin são simplesmente hilariantes. Tem uma evolução muito boa e demonstra-se sempre útil e relevante para a narrativa. Mais do que um soldado empedernido, um thuragar maldisposto, ou um companheiro rabugento, Worick revela-se uma figura paternal extremosa e ganha assim, facilmente, o primeiro lugar.

Babaki leva claramente o segundo lugar. O conflito entre a sua natureza amigável e pacífica e o seu legado shakarex é dos arcos narrativos secundários mais interessantes de toda a saga, apesar da sua curta duração. O contraste entre o Babaki que brinca com passarinhos e o Babaki máquina de matar é forte, muito forte, e dá uma grande densidade à personagem desde muito cedo, contrariamente ao resto do protagonistas.


Já Lhiannah não hesito em deixar para o fim. Como já referi é uma personagem irritante e que acho que não se perdia nada se saísse de todo das Crónicas.

Os restantes cinco lugares... Bem, acho que para terceiro atiro o Taislin. É das personagens com uma maior evolução e que adquire um papel cada vez mais relevante com o passar dos livros. No começo parece uma criança chata, no fim está uma personagem madura e importante. Além de que as constantes picardias com Worick proporcionam alguns dos momentos mais hilariantes de toda a saga.

Pensando bem no assunto, acho que consigo ver outro lugar relativamente fácil: o de Slayra, que fica para sétimo lugar. Tem uma evolução pobre e aos soluços, passando de desagradável a amorosa a cabra a novamente amorosa em passos descontínuos. Não é credível e é uma falha de caracterização numa personagem com tanto potencial.

Agora sim, os lugares complicados. Aewyre, Allumno e Quenestil. Não sou particular fã de nenhum dos três: o primeiro é demasiado herói bonitão, o segundo é demasiado sábio estereotipado, e o terceiro é demasiado ingénuo e moralmente rígido.

No entanto acho que Aewyre é quem evolui mais e melhor. As constantes desgraças que o atingem moldam-no muito fortemente, e rapidamente se torna num verdadeiro líder. A demanda da Essência da Lâmina também lhe dá uma vertente interessante, ao fazê-lo interagir com Kror e inclusivamente a ajudá-lo, tratando-o mais como um companheiro do que como um verdadeiro inimigo. O quarto lugar para este homem, se faz favor.

Entre Quenestil e Allumno, a escolha é complicada, mas vou pôr Quenestil em quinto e o Allumno em sexto, só por causa da evolução do eahan e da sua preponderância no final. O mago não é uma má personagem, mas cai facilmente no aborrecimento e ensombra demasiado a personagem de Zoryan, o seu mentor de alma aprisionada na gema que tem na testa.

Ou seja, bem vistas as coisas, fica assim: Worick, Babaki, Taislin, Aewyre, Quenestil, Allumno, Slayra e Lhiannah.

*PUB* E agora mesmo para terminar, porque é que ainda não começaste a ler o Felizes Viveram Uma Vez, e o que pensas fazer a respeito disso? *PUB*

Juro que ando com bastante curiosidade. Até porque da primeira vez que abri o Perraultimato, numa Feira do Livro, me deparei com uma personagem a esventrar outra. Melhor augúrio não podia ter. Mas entre dificuldades económicas que me obrigam a ser muito criterioso com o que compro e não compro, e uma lista de livros a ler maior do que a quantidade livros que vou conseguir ler na minha vida toda, esse tem passado.

Nesta Feira ia lançado para o comprar, mas só tinham a edição com a primeira capa, que não só não é a minha favorita, como iria destoar do resto da colecção, e isso não pode acontecer! Da próxima vez que tiver uma oportunidade, no entanto, não hesitarei.

P.S.: as ilustrações são da autoria do Samuel Santos.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Drácula de Rat Stoker


Argumento: Bruno Enna
Arte: Fabio Celoni e Mirka Andolfo
Tradução: Ana Ferreira, Joana Berardo Frazão, Joana Fabião, Rafaela Mota Lemos

Opinião: Esta história é pura e simplesmente uma das melhores adaptações do clássico de Bram Stoker que conheço. Bruno Enna pega na história mais do que conhecida e que já foi adaptada até à exaustão, e escreve uma sátira inteligente, recheada da silliness típica destas personagens.

Mickey é Jonathan Ratker, Minnie é Minnina, Pateta é Van Helsing e Mancha Negra é o próprio Drácula, com todas os poderes e fraquezas inerentes ao cargo, mas com uma ligeira diferença: lembram-se do monstro sugador de sangue? Agora é um apreciador de... beterrabas!

Antes disso, no entanto, tenho que dizer qualquer coisa sobre os desenhos. E a cor. A arte em geral, vá. Não sei bem como descrever o estilo, mas talvez gótico seja apropriado... A verdade é que as cores sombrias e bem conjugadas estão perfeitas e em sintonia com os traços semi-rabiscados, exagerados mas elegantes. É o grande ponto a favor desta história, o facto de ser um autêntico regalo para a vista!!

Quanto à história, eu quando comecei a ler nem me lembrei, mas isto é uma publicação para putos, não podiam propriamente ter a história de contornos sexuais e pormenores sangrentos correspondente à original. Mas nada de preocupante! Trocaram o sangue por beterrabas e tudo ficou bem.

Além de hilariante, é genial, proporcionando alguns momentos de pura comédia. Ver o Pateta a falar com um sotaque holandês falso foi qualquer coisa de especial, e o Mickey ficou felizmente reduzido a ser o herói secundário que merece ser (não sou fã do pequeno rato irritante, não). A Clarabela como amiga de Minnina e primeira vítima do Drácula também é engraçado... A certa altura começa a tornar-se numa beterraba!

Bem, vocês não sabem o que eu me ri a ler isto, Conhecendo bem o livro de Bram Stoker, esta história foi uma autêntica delícia. Fiquei com pena que fosse tão curta, não me importava que tivessem roubado espaço aos Ultra-Heróis! Mas pronto, não foi nada mau. Agora vá, toca a procurar e a ler a Comix #48 e a #49, nas quais a história está dividida. Eu aconselho.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A História


Autor: John H. Arnold
Tradutoras: Ana Tanque e  Armandina Macedo

Opinião: Era mais fã de História quando era mais novo. Quando aprendia por mim próprio e explorava o que me apetecia, e depois quando comecei a aprender na escola sobre a Pré-História, a Antiguidade, o Renascimento... E depois começaram a ser tempos muito próximos da actualidade, se não em datas (1700 ainda nos parece longe), pelo menos em estilo.

Muita política, poucos desenvolvimentos reais, muito diz que disse e diz que fez, mas pouco dito e pouco feito. Pelo menos era essa a ideia que eu tinha. Desinteressei-me um pouco, já para não falar de que a partir de certa altura parecia que a disciplina de História consistia só e apenas em decorar datas, e eu tenho sérias dificuldades com isso e não gosto mesmo nada.

Agora já olho para essa história com outros olhos. Vejo que essas épocas que comecei a desprezar são mais ricas do que eu poderia imaginar, e que muitas vezes basta é olhar para elas de outra perspectiva. Ultimamente até me tornei fã de política e intrigas palacianas: é uma forma de guerra cerebral e desonesta, mais mortífera que andar à espadeirada e, quando bem feita, muito mais interessante.

Ainda assim sempre olhei com desconfiança para a profissão de historiador. A forma como interpretam as coisas soa-me a aldrabice e achava a maior parte deles pouco melhores que charlatães. Portanto ainda bem que li este livro.

Numa linguagem clara e directa ao assunto, John Arnold demonstra claramente como é que estuda - e faz - história. Aquela dose de interpretação pessoal faz parte do trabalho. As fontes em que têm que se apoiar não são claras nem imparciais, não há por aí pilhas e pilhas de documentos arrumadinhos e organizados, com uma descrição objectiva de tudo o que se foi passando, à espera dos historiadores. Não.

Por vezes têm que se apoiar em coisas incompletas, difusas e, pior que tudo, pelo menos parcialmente falsas. É um trabalho complicado, sim. Este livro traça um caminho claro, partindo de alguns casos particulares, desde a fonte até à descrição histórica. Não é um caminho fácil, de todo. É preciso saber pesquisar nas fontes, saber ler as fontes, saber interpretar as fontes, ser capaz de aceitar que a versão que se conta não é necessariamente a correcta, nem sequer a mais correcta...

Neste livro vemos isso tudo. É um pouco como ir aos bastidores de um livro de História. Muito interessante, muito educativo e bastante bom para aguçar a curiosidade. Sejam curiosos e investiguem, garanto-vos que vale a pena, especialmente se começarem por este livro.