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sábado, 1 de agosto de 2015

Entrevista? A mim? A sério?


Pois é, esta revista online brasileira, a Nonata, entrou em contacto comigo para me entrevistar, enquanto blogger, sobre releituras. Podem ver as respostas aqui.

Um obrigado à Nonata, em especial ao Jáder Santana, que foi quem me contactou, e um apelo a que sigam esta iniciativa, da qual talvez ainda tenham notícias da minha parte!

(Sei que é um recomeço um bocado curto, depois das mini-férias do blog, mas já é qualquer coisa!)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O poder dos palavrões

Falar de palavrões não é tarefa fácil. Por vários motivos, desde preconceitos de quem lê a, infelizmente, preconceitos entranhados no cérebro de quem escreve. No meu caso isso é completamente verdade. Não tenho qualquer problema em ler textos com palavrões, mas já escrevê-los... Quando escrevo uma história, por exemplo, tenho que fazer um esforço consciente para os incluir nos diálogos, porque é algo que me faz mesmo espécie.

Se bem que não é bem preconceito. Acho que são realmente palavras feias, e não gosto de escrever palavras feias. São óptimas para utilizar na oralidade, mas na escrita... Genuinamente falando, não gosto.

É por isso que vou escrever esta crónica sobre palavrões sem escrever um único palavrão. Ah!

Começo é por vos pedir para fazerem uma pausa nesta leitura, e seguirem para a crónica sobre palavrões que o Filipe Faria escreveu para o Morrighan. Muito bom. E explica perfeitamente o que se passa com os palavrões, porque é que os consideramos palavrões, e porque raio é que existe tanto pudor com eles.

Não é sobre isso que quero falar, no entanto. A aceitação, ou não, dos palavrões pelo público geral é algo complicado, mais que não seja porque o público geral tem as grilhetas do politicamente correcto, que não incluem, obviamente, quaisquer palavrões.

Eu quero apenas pôr mais um prego no caixão dos argumentos anti-palavrões dessas pessoas. O meu objectivo é explicar a utilidade e a eficácia dos palavrões. Para tal, vou recorrer à segunda crónica do Filipe Faria, no Morrighan, sobre palavrões, estes menos profanos e mais arcaicos. A defesa que o autor faz da utilização de termos ditos complicados, antigos e obscuros, é quase tão boa como a utilização que faz na sua escrita desses mesmos vocábulos.

É importante, neste texto, repararem em algo muito essencial. Há palavras portuguesas, muitas vezes arcaicas e praticamente caídas em completo desuso e esquecimento, que resumem uma frase inteira. Os exemplos que o autor dá são chanfalho e arandela, que substituem "espada de má qualidade" e "parte saliente da boca do castiçal", respectivamente. Quão genial é isto? Muito!

Reparem em como se trocam expressões compridas e desajeitas por uma única palavra, com um ar peculiar, que chama a atenção e claramente fica no ouvido, mais que não seja pela estranheza? Fantástico! Esta é boa parte da beleza da nossa língua, a capacidade que ela tem de ter uma palavra única para praticamente tudo o que se possa imaginar, algo que também é visível em A Demanda de D. Fuas Bragatela, de Paulo Moreiras.

Temos uma língua riquíssima, é verdade, e aproveitamo-la muito mal. E isto não é válido simplesmente para palavras antigas, complicadas e etc. Também é válido, e muito, para os palavrões. Os a sério.

Digam-me, existe algo mais perfeito para se dizer quando nos aleijamos, do que um belo de um palavrão? Ou na escrita, num diálogo entre pessoas normais, vamos fazer com que chamem "pega" a alguém, quando não é bem isso que se quer dizer? Há algo mais explicativo do que um belo de um palavrão?

Pois é. Faz sentido. E os leitores ficam mais do que esclarecidos. Mas há mais! Os palavrões ainda têm o dom de serem palavras muito fortes e marcantes, de tal forma que podem mudar completamente o tom de um texto. Mais que não seja obrigam o leitor a parar e a dar conta daquilo que está a ler. Porque o palavrão a isso obriga, é algo chamativo, até chocante (para os padrões politicamente correctos de hoje) e que nos faz pensar duas vezes.

Ou seja, os palavrões podem fazer a diferença num texto, desde que bem utilizados. Porque uma coisa é dar realismo a uma conversa, outra é encher um texto de palavrões porque isso é avant-garde, ou o raio que o parta. Palavrão pelo palavrão faz tanto sentido como incluir sexo só porque sim, ou ter uma personagem de uma minoria só porque tem de ser, ou algo parecido. Tem que fazer sentido. Não pode exagerar sem um motivo (muito) válido. E não pode perturbar a escrita, antes pelo contrário: tem que fazer parte, e ser tão natural como o resto que está à volta.

Só que isso é complicado de fazer, e uma boa parte na nova vaga de escritores portugueses, por exemplo, cai no erro do avant-garde-ismo baratucho. O que é mau, não só para a literatura portuguesa, como para os palavrões, palavras tão dignas como quaisquer outras. Um bocado feias, mas dignas.

Não tenham medo dos palavrões, é isso que eu quero dizer, nem na leitura nem na escrita. São úteis, são bastante expressivos e parte genuína da nossa língua, que ainda por cima até é relativamente inventiva e original no que a palavrões diz respeito, principalmente no que toca a chamar nomes a alguém. Só não abusem!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Perraultimato (Felizes Viveram Uma Vez #1)


Autor: Filipe Faria
Ilustrador: Pedro Potier


Opinião: Vamos lá com calma. Vou fazer o mesmo que fiz quando acabei de ler o livro: respirar fundo, contar até dez, lembrar-me do Seltor. Infelizmente, isso não melhora nada, e este livro continua a ser mau. Abaixo do medíocre, sem sombra de dúvida, com algumas notas positivas mas, no geral, um completo descarrilamento para o Filipe Faria.

E chegado a este ponto gostava de ressalvar que gosto bastante do autor e continua a ter As Crónicas de Allaryia como uma das minhas sagas favoritas de sempre. Por causa disso, e da premissa apelativa de mistura de histórias tradicionais com sangue e tripas e o próprio estilo do autor, desde que O Perraultimato foi lançado que tenho bastante curiosidade para o ler.

É aqui que começa a minha história. Observem esta capa:


Não é propriamente feia, mas é infantil. Sofre do mesmo problema que as ilustrações no interior, não tem um estilo adequado ao conteúdo, quer do livro quer das próprias ilustrações. É uma pena, pois Pedro Potier parece ser um bom ilustrador, só que está completamente desadequado a este livro. E ainda por cima o livro foi relançado com a capa que podem ver no cimo do post, com o resto da colecção Felizes Viveram Uma Vez a acompanhar essa linha, muito mais interessante. Como devem imaginar, não queria esta capa, que supostamente até já nem devia estar a ser vendida.

Portanto fiquei aborrecido quando encomendei o livro e ele me veio com essa capa. Mais chateado fiquei quando fui à Fnac fazer a troca, e me sugeriram que eu devia estar à procura do segundo volume. Já não é a primeira vez que acontece, e eu sei que devem ouvir muito pedido estapafúrdio, mas é essencial que tentem compreender cada cliente, e não tentar tratar de todos pela mesma medida. Lá consegui explicar o problema e disseram-me que iam tratar do problema. Imaginem quão chateado fiquei ao voltar lá e ter um livro exactamente igual à minha espera. Só podiam estar a brincar comigo. Foi só com essa terceira tentativa que o livro veio com a capa que eu queria!

Mas pronto, lá o consegui, fiquei todo contente, ainda por cima devia ser interessante, de certeza que ia compensar!

Foi então que o comecei a ler. Novo Acordo, eugh. O prólogo ocupa quase metade do livro, eugh. Mas vamos lá. Nem começa nada mal, a primeira parte do prólogo (que está dividido em cinco) é bastante interessante. Uma versão melhorada e mais sangrenta (yay!) da história mais do que conhecida do Capuchinho Vermelho, e faz sentido que exista.

A escrita, no entanto, ainda mal tinha começado a ler, e já me estava a doer um pouco. Quase amadora! Ou melhor, amadora-que-se-esforça-demasiado-para-ser-profissional. Aquilo que me lembro das Crónicas, especialmente com o avançar dos livros, é de uma boa escrita, capaz de balançar as palavras pouco usuais com uma certa leviandade e um ritmo bastante variável. Neste livro, no entanto, há uma escrita a precisar urgentemente de revisão, com palavras arcaicas e excessivamente complicadas sem necessidade, e que apenas conseguem atrapalhar, e de que maneira, a leitura.

O resto das personagens apresentadas também é interessante, embora algumas histórias de origem (a certa altura só consigo pensar em super-heróis, e que quando acabar o prólogo vou ler uma coisa tipo Avengers) sejam menos interessantes que outras, as suas setenta ou oitenta páginas não me incomodaram. Fazem algum sentido. Talvez o autor pudesse ter lidado com isto de outra forma, mas nem ficou muito mal.

A história, quando "arranca", com aspas porque só arranca mais ou menos, é que deixa muito a desejar. E quando digo muito, quero mesmo dizer muito. Diálogos inconsequentes. Uma escrita consistentemente mediana e muito abaixo da qualidade a que o autor nos habituou. Enredo infantil e violência juvenil, com ambas as coisas a arrastarem-se ao longo dos capítulos sem qualquer necessidade. Uma série de falhas na própria lógica da história.

Enfim. Não quero bater mais no ceguinho. O meu maior problema, para além da demanda súbita e ligeiramente idiota em que os protagonistas se vêem envolvidos, é que este livro tem pouco valor por si só, a sua especialidade é em ser um primeiro volume. Não acreditam? Reparem no Perraultimato, um pergaminho com umas coisas escritas e que é o artefacto da demanda:

Tens de consultar o espelho -> este livro
Para saber onde encontrar o cristal -> próximo livro, O Andersenal, com um cristal na capa...
Com o qual deverás ler o livro -> terceiro livro
Que te permitirá encontrar os ingredientes -> quarto livro
Para o unguento capaz de trazer de volta 
As memórias daquela que se lembra... -> quinto livro

Juntem um final para que tudo se resolva e TA-DA! Temos uma saga. E este livro, o que faz, é passar imenso tempo a apresentar as personagens, com quase zero de desenvolvimento e a maior parte do pouco que é feito a acontecer fora de cena, e ainda divertir-se a apresentar o mundo criado e a história propriamente dita. É um primeiro volume profissional, sem tirar nem pôr.

Acho que o que me chateia mais ainda é o facto de a ideia ser boa, ainda que não propriamente original, e as personagens até terem potencial para caírem na sátira, por muito que agora estejam mais no domínio do ridículo. No fim senti-me desiludido e com a sensação de que era dinheiro mal gasto. As coisas positivas que consigo encontrar nestas páginas não são suficientes para balançar a mediocridade, ou pior, de tudo o resto.

sábado, 27 de setembro de 2014

Personagens favoritas


Tendo em conta o número reduzido de comentadores e comentários que este blog tem, basta alguém comentar mais do que uma vez e eu fico a conhecer essa pessoa. E a considerá-la, pelo menos, uma pessoa conhecida.

Alguns, no entanto, são bastante reincidentes. Por esses, poucos, tenho uma grande estima. Ainda para mais quando todas as suas intervenções são relevantes e interessantes, como é o caso do Francisco Fernandes (aka asesereis).

Esta conversa, para além de agradecer a sua contribuição para as discussões aqui no blog, é só para introduzir uma sugestão que o Francisco fez e que vou seguir (mais ou menos): personagens favoritas.

É complicado falar de favoritos, sejam livros, sejam autores, quando somos completamente viciados em literatura, mas no fim fica fácil. Se tiver sido um livro que nos marcou o suficiente para ser o nosso favorito, não nos vamos esquecer. E o mesmo para autores. Mas personagens favoritas? Personagens há muitas!

No meu caso, assim de repente, basta lembrar-me de Tolkien e de Stephen King, e já fico, literalmente, com um manancial de centenas de personagens disponíveis. E se ficar a saber os nomes dos cerca de cem livros que leio por ano já é abusar da minha memória, nem sequer pensem em ficar a saber os nomes de todas as personagens.

Mas no entanto há algumas que ficam. Outras cujo nome já não sei, mas que conheço perfeitamente. Quer queiramos quer não, é como os livros e os autores - só que a uma escala maior.

E com as personagens até é possível acontecerem coisas bastante curiosas... Como por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é o Glotka, o torturador desfigurado e manipulador da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, que achei apenas mediana. Mas o meu livro favorito deste autor, Best Served Cold, também tem uma personagem que aprecio, embora bastante níveis abaixo de Glotka: Friendly, o tipo frio e obcecado com a matemática, cujo ponto de vista originou alguns dos capítulos mais interessantes que já li.

O "pior" é quando começo a desbobinar os nomes de que me vou lembrando, e o resultado é uma lista recheada de vilões. Seltor, Joker, Pennywise, a enfermeira psicopata que depois é interpretada por Kathy Bates... Podia ficar aqui o dia todo.

Por outro lado, como raio é que faço uma lista destas sem dar destaque a meia dúzia de personagens de Tolkien? Ou de Alan Moore? Ou de Neil Gaiman? Ou do George R.R. Martin? Ou da Rowling? Ou das outras centenas de autores?

E o Sherlock Holmes? E o Poirot? Impossível! Impossível!

A minha resposta ao teu desafio é esta, Francisco: provavelmente, se me perguntares qual é a minha personagem favorita, digo-te sempre o Seltor, mas se todos os dias me pedires uma lista de cinco personagens favoritas, o mais provável é eu dar-te uma lista diferente de cada vez.

sábado, 5 de julho de 2014

O que o Filipe Faria sempre quis saber

Ele que me desculpe por usar uma foto dele tão novo...
Depois de uma conversa na Feira do Livro deste ano com um dos meus autores favoritos, Filipe Faria, tive a oportunidade de trocar uns e-mails com ele, para lhe enviar as minhas opiniões e crónicas do mega empreendimento que foi ler As Crónicas de Allaryia de uma assentada.

Aquele que é, realço, o autor de uma das sagas literárias pela qual tenho mais afeição, mostrou bastante interesse e entusiasmo, e respondeu com muita simpatia, que também distribuiu em abundância durante a nossa conversa. É definitivamente um autor que tenciono voltar a encontrar em futuras edições da Feira (ainda tenho seis livros para ele assinar...).

Mas fiz-lhe uma pequena maldade. Uma proposta no mínimo estapafúrdia. Aproveitei-me da boa vontade e da simpatia deste escritor para lhe roubar uma "entrevista" (já explico as aspas). Na troca de e-mails que já referi, consegui suprimir a histeria de estar a falar com a pessoa que criou o melhor vilão que conheço - TEAM SELTOR!!! - e pedi para lhe fazer uma entrevista para publicar aqui no blog. Bem, pedi-lhe para me fazer uma entrevista. Pormenores. O que interessa é que ele acedeu.

O que vão ler a seguir é o resultado. Decidi inverter os papéis e pôr o autor, normalmente o entrevistado, a fazer perguntas ao blogger/fã, normalmente o entrevistador. A ideia era tornar isto mais interessante, quer dizer, qualquer macaco faz uma entrevista a um autor, mas quantas pessoas é que são entrevistadas por autores? Toma!

O Filipe Faria fez assim uma série de questões sobre As Crónicas, às quais respondi enquanto leitor, fã parcial, blogger crítico e gozão incurável. Divirtam-se!

Filipe Faria é autor de As Crónicas de Allaryia, uma saga de fantasia épica, e de Felizes Viveram uma Vez, uma saga de fantasia em construção sobre as personagens dos contos de fadas. Escreveu o seu primeiro livro, A Manopla de Karasthan, com o qual ganhou o prémio Branquinho da Fonseca atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo semanário Expresso. Já teve incursões pela tradução e pela BD, diz que tem um projecto no forno e continua a escrever de uma forma geral. Podem visitar o seu site oficial aqui.



- Pessoalmente, tenho a convicção de que, boa ou má, uma história triunfa ou claudica consoante a força das suas personagens e o elo que os leitores com elas estabelecem. Como é que me saí nesse capítulo?


Bem, não consigo responder a isto de forma imparcial. Desde a primeira vez que li A Manopla de Karasthan que criei uma ligação com algumas das personagens, como o Babaki e o Worick, por exemplo. Na segunda leitura da saga, há relativamente pouco tempo, notei uma certa empatia com praticamente todas as personagens principais (embora umas me irritassem mais do que outras, não é Lhiannah?), mesmo tendo noção dos defeitos de caracterização com que tinham sido criadas.

Estes defeitos de que falo têm a ver com todas as personagens serem estereótipos muito fortes: todas, ou quase todas, começam como nada mais nada menos do que reciclagens de raças de Tolkien e companhia, mas com nomes diferentes. É que era difícil terem começado mais... genéricas.

No entanto, com o passar dos livros, as personagens tomaram caminhos interessantes e surgiram até algumas que brilharam completamente: Kror, Seltor, Culpa, Tannath... Sim, eu sei, muitos vilões. Acho que foram realmente o ponto forte, em termos de personagens, e conseguiram carregar a saga às costas. Especialmente no caso de Seltor e de Tannath. Kror conseguiu tornar Aewyre interessante, quando este passou pela sua fase complexada, mas Tannath foi causa de surpresa atrás de surpresa, e Seltor... Bem, é o meu vilão favorito, isso diz tudo.


- Certa vez, um leitor disse-me que eu tinha "um gosto bastante saudável por um certo uso do erotismo", mas que o escrevia "com muita graça e moderação", enfatizando a parte da moderação. Com base na tua leitura das Crónicas, em que campo te situarias? 50 Sombras de Allaryia ou Jane Eyreth?

Nem um nem outro. Confesso que a minha reacção à generalidade das cenas mais sensuais da saga é a mesma que a minha reacção às cenas de sexo nos livros do Stephen King: mato-me a rir. E isto é injusto! Mas não consigo tirar da cabeça um Aewyre frustrado a gritar “Mas eu usei a tripa de porco!”, ou a frase mais romântica de sempre, um dos ex-líbris desta saga, “Vamos fazer um bebé.”

Falando mais a sério, não acho que essas cenas estejam exageradas, nem que sejam demasiado leves. Tirando alguns casos pontuais. Talvez dê para situar a saga na média das 50 Sombras de Allaryia e de Jane Eyreth. O que se passa muitas vezes é que acabam por aparecer de forma algo abrupta e, bem, awkward, principalmente no início. Felizmente é algo que, como tudo nesta saga, melhora consideravelmente com o passar dos livros.


- Qual a raça/povo de Allaryia que mais te fascinou ou que achaste mais bem concebida e desenvolvida? Porquê?

Pergunta complicada. A primeira coisa que me veio à cabeça foi “os humanos”. Sim, no meio de tanta coisa, comecei por pensar nos humanos. O Aewyre tem uma boa evolução, embora eu não seja fã da personagem, e acaba por ser uma representação bastante fiel do que é um ser humano. Desde a arrogância e impetuosidade da juventude até à sobriedade e gravidade auto-infligidas, tudo em Aewyre é o que de mais típico se pode ver numa pessoa comum, ainda que levado a extremos ou a interpretações diferentes do habitual.

O povo de Tanarch também tem a sua relevância e papel preponderante nos desenvolvimentos da segunda metade do livro, bem como os wolhynos mas não quero bloquear essa resposta.

Sinto-me tentado a apontar os drahregs, em grande parte graças ao Kror, uma personagem soberba, mas esta associação lembra-me imediatamente de um povo que teve algum destaque e me deixou sempre muito curioso: os Cho Tirr.

Aqueles tipos estranhos dos desertos de neve, montados nos seus cavalos robustos e pequenitos... Criaturinhas fascinantes. E acabam por ter um desenvolvimento muito forte, por contraste com o grupo de protagonistas e com os vilões. Ao situar um grupo reduzido de personagens “estrangeiras” no meio de um acampamento de Cho Tirr, o leitor é empurrado para uma situação de estranheza, em que é possível sentir-se desconfortável perante a familiaridade dos Cho Tirr, que nos é, enfim, estranha. Acho que levam a medalha, sim.

- Combates nas Crónicas: "uau, parece um filme", ou "dasse, estava a ver que nunca mais acabava"?

O nível de detalhe é certamente cinematográfico, se pensarmos em sequências de acção como em 300, em câmara tão lenta que é possível contar o número de gotas de sangue que salpicam o ar. O que não é nem bom, nem mau... É estilo. Gostar ou não, já depende.


As primeiras cenas de luta da saga são exaustivas sem serem propriamente interessantes. Acontece por vezes haver um certo foco em pormenores, sem que a acção principal deixe de decorrer à mesma velocidade. É como se ao ver uma cena duma batalha, estivessemos focados na forma como a luz incide na espada do inimigo, e quando acabamos a nossa reflexão, já a batalha acabou.

Depois há as cenas mais épicas, como a batalha no final de Marés Negras, que achei bem trabalhadas e em que se manteve um bom equilíbrio entre os milhares e milhares de intervenientes e o grupo restrito de protagonistas.

Há ainda um terceiro caso, que tem basicamente só uma instância: a batalha entre Quenestil e Tannath, no vulcão, que muita gente diz que se arrasta demasiado. Eu não acho. Está detalhada, está longa, mas é uma parte tão importante da história, que faz todo o sentido.

- Palavreado das Crónicas: "é tão fixe aprender palavras novas", ou "ó para este, a armar-se aos cágados"?

Definitivamente a primeira opção. Nunca me vou esquecer do significado de "barbacã". Ou de "anátema". Mas eu sou suspeito, que adoro palavras esquisitas. Muitas que chatearam outros leitores, não me fizeram espécie porque já as conhecia, e outras deixaram-me fascinado. Por exemplo, foi a ler a saga que descobri a palavra “gavinhas” e uso-a frequentemente nos meus contos, com algum sucesso, que já tive várias pessoas a repararem na palavra e a gostarem!

- Se tivesses de escolher uma personagem que pudesses apagar em definitivo da história das Crónicas, qual seria? E porquê?

Acho que a Lhiannah. Nunca fui fã desta personagem, que começa como uma menina mimada com a mania que é rebelde, e que mesmo tendo uma evolução positiva não passou de irritante. É verdade que até gostei de a ver separada do grupo (ficou um pouco mais tolerável) mas muitas vezes o seu papel parecia ser o de servir de paixão para o Aewyre.

E é assim, a paciência tem limites. A sua participação envolveu mais do que uma vez reacções questionáveis e ridículas, de menina mimada e histérica, que fazem sentido para o tipo de personagem, mas que são absolutamente insuportáveis. E convenhamos, a Lhiannah é uma personagem que, bem analisadas as coisas, não faz tanta falta quanto isso à narrativa e cujo papel podia facilmente ter sido cumprido pelas outras.

- Por outro lado, qual a personagem que devia ter tido mais protagonismo e capítulos que os que teve?

O meu primeiro impulso foi “SELTOR!”, mas nunca na vida. Enquanto vilão ganha muito mais por aparecer pouco, bem doseado. Cria mistério e aumenta a creepiness em redor da sua personagem. Depois pensei logo “BABAKI!”, mas o final precoce desta pobre personagem peluda foi algo bom para a saga. Obrigou as personagens a crescerem e a consolidarem-se, deu-lhes um trauma real, partilhado com o leitor, o que as tornou mais vívidas e acrescentou gravidade à saga, marcando, para mim, um ponto de viragem: da série inconsequente e juvenil iniciada em A Manopla para a série negra, violenta e de temas pesados acabada em Oblívio.


Pensando no resto das personagens, uma que gostei bastante de acompanhar foi Kror, mas acho que até teve o protagonismo que merecia, com o arco narrativo da Essência da Lâmina e os seus alfanges fascinantes.

Talvez dar mais tempo de antena ao pai de Aewyre não fosse má ideia, que pareceu-me ser uma personagem interessante, mas a sua curta aparição também faz sentido e está bem como está. É uma pergunta complicada, esta. A verdade é que ao longo de sete livros com uma média de 400 páginas, complicado é haver uma personagem com protagonismo insuficiente: há espaço e tempo para toda a gente.

Mas ainda assim... Talvez... Sim, talvez Dilet, o fascinante bobo. E aquele thuragar sem nariz cujo nome não me lembro, e o tipo de boca cosida. Sim, acho que sim. Os arautos de Seltor (menos Tannath, que já foi muito bem utilizado) mereciam um pouco mais de destaque, não só pela importância que têm na história mas também pelas suas particularidades.

- Para terminar, onde se situaria cada companheiro, incluindo os falecidos, num Top 8 elaborado por ti?

Bem, esta pergunta também não é simples. Só há três lugares de que tenho a certeza: Worick em primeiro, Babaki em segundo e Lhiannah no fim. O Worick é uma personagem e pêras, pertencente a uma raça feita a partir do que de pior havia nos humanos, consegue demonstrar um carinho e uma preocupação extraordinária por Lhiannah, e as suas interacções com Taislin são simplesmente hilariantes. Tem uma evolução muito boa e demonstra-se sempre útil e relevante para a narrativa. Mais do que um soldado empedernido, um thuragar maldisposto, ou um companheiro rabugento, Worick revela-se uma figura paternal extremosa e ganha assim, facilmente, o primeiro lugar.

Babaki leva claramente o segundo lugar. O conflito entre a sua natureza amigável e pacífica e o seu legado shakarex é dos arcos narrativos secundários mais interessantes de toda a saga, apesar da sua curta duração. O contraste entre o Babaki que brinca com passarinhos e o Babaki máquina de matar é forte, muito forte, e dá uma grande densidade à personagem desde muito cedo, contrariamente ao resto do protagonistas.


Já Lhiannah não hesito em deixar para o fim. Como já referi é uma personagem irritante e que acho que não se perdia nada se saísse de todo das Crónicas.

Os restantes cinco lugares... Bem, acho que para terceiro atiro o Taislin. É das personagens com uma maior evolução e que adquire um papel cada vez mais relevante com o passar dos livros. No começo parece uma criança chata, no fim está uma personagem madura e importante. Além de que as constantes picardias com Worick proporcionam alguns dos momentos mais hilariantes de toda a saga.

Pensando bem no assunto, acho que consigo ver outro lugar relativamente fácil: o de Slayra, que fica para sétimo lugar. Tem uma evolução pobre e aos soluços, passando de desagradável a amorosa a cabra a novamente amorosa em passos descontínuos. Não é credível e é uma falha de caracterização numa personagem com tanto potencial.

Agora sim, os lugares complicados. Aewyre, Allumno e Quenestil. Não sou particular fã de nenhum dos três: o primeiro é demasiado herói bonitão, o segundo é demasiado sábio estereotipado, e o terceiro é demasiado ingénuo e moralmente rígido.

No entanto acho que Aewyre é quem evolui mais e melhor. As constantes desgraças que o atingem moldam-no muito fortemente, e rapidamente se torna num verdadeiro líder. A demanda da Essência da Lâmina também lhe dá uma vertente interessante, ao fazê-lo interagir com Kror e inclusivamente a ajudá-lo, tratando-o mais como um companheiro do que como um verdadeiro inimigo. O quarto lugar para este homem, se faz favor.

Entre Quenestil e Allumno, a escolha é complicada, mas vou pôr Quenestil em quinto e o Allumno em sexto, só por causa da evolução do eahan e da sua preponderância no final. O mago não é uma má personagem, mas cai facilmente no aborrecimento e ensombra demasiado a personagem de Zoryan, o seu mentor de alma aprisionada na gema que tem na testa.

Ou seja, bem vistas as coisas, fica assim: Worick, Babaki, Taislin, Aewyre, Quenestil, Allumno, Slayra e Lhiannah.

*PUB* E agora mesmo para terminar, porque é que ainda não começaste a ler o Felizes Viveram Uma Vez, e o que pensas fazer a respeito disso? *PUB*

Juro que ando com bastante curiosidade. Até porque da primeira vez que abri o Perraultimato, numa Feira do Livro, me deparei com uma personagem a esventrar outra. Melhor augúrio não podia ter. Mas entre dificuldades económicas que me obrigam a ser muito criterioso com o que compro e não compro, e uma lista de livros a ler maior do que a quantidade livros que vou conseguir ler na minha vida toda, esse tem passado.

Nesta Feira ia lançado para o comprar, mas só tinham a edição com a primeira capa, que não só não é a minha favorita, como iria destoar do resto da colecção, e isso não pode acontecer! Da próxima vez que tiver uma oportunidade, no entanto, não hesitarei.

P.S.: as ilustrações são da autoria do Samuel Santos.

sábado, 23 de novembro de 2013

Livros de quando era puto

Antes de começar a dizer o que quer que seja, preciso que tenham em consideração o facto de eu ter sido puto há pouco mais de meia dúzia de anos. Portanto não esperam livros do tempo em que não havia telemóveis, lamento desapontar-vos...

No fundo podem encarar esta situação como quem encara aquelas biografias "escritas" pelas "celebridades" de vinte e poucos anos. Descrença, uma risada e "oh, you amuse me, fool". Ainda mal tenho idade para me considerar adulto, e já estou a fazer uma coisa destas!

Eu cá concordo com vocês. Mas a verdade é que há uma série de livros que me parecem ter sido comprados quando ainda andava de fraldas (exagero do ano), e aos quais tenho sentido vontade de regressar.

Como podem comprovar pelas minhas temporadas de Harry Potter e das Crónicas de Allaryia. Os da autora britânica estão muito na moda, é certo, e são os preferidos de muita gente, mas eu nem me lembro bem de quando recebi o primeiro. Mas lembro-me de o ler em duas tardes, no infantário, o que significa que estava na primária!

Sabem há quanto tempo estive na primária? Entrei para o primeiro ano em 1999. No milénio passado! Ou seja, podemos contar pelo menos 10 anos desde que li Harry Potter e a Pedra Filosofal pela primeira vez. Mal sabia eu, na altura, que ia ser uma saga que me iria acompanhar durante tanto tempo, e que ainda me ia encantar quando já tivesse idade para ter juízo.

Acho que foi uma boa escolha de leitura. Provavelmente um dos primeiros "livros grandes" que li, e quase de certeza o primeiro livro de Fantástico em que agarrei. Introduziu-me logo em dois mundos diferentes. Três, se contarmos com Hogwarts e companhia. E a re-leitura mostrou-me uma saga não tão juvenil quanto isso, mais na recta final, e com uma qualidade excepcional.

Defeitos, também, é claro, e encontrei muitos mais da última vez que li os livros, mas consegui facilmente passar por cima deles. Alguns são bastante estranhos, e há mesmo defeitos a nível da história (sim, estou a falar do facto de o feiticeiro mais poderoso de sempre ter que confiar no feiticeiro mais inútil de sempre para derrotar o feiticeiro mais maléfico de sempre), mas são coisas que se superam. Ou que eu, pelo menos, superei, mas possivelmente por estar semi-hipnotizado a reconhecer palavras lidas há anos e anos.

Depois existem As Crónicas de Allaryia, de Filipe Faria. Uma monstruosa saga de high fantasy portuguesa escrita por Filipe Faria. O segundo livro, Os Filhos do Flagelo, foi-me oferecido, não sei quando, mas era novo. E deixei-o estacionado nas estantes quase dois anos antes de lhe pegar, e só depois de ter encontrado e lido o primeiro, A Manopla de Karasthan.

Pensam que estes livros são bons? A saga em geral é boa, e tem alguns livros que achei bastante bons, mas em sete, num total de quase 3000 páginas, há muito por onde falhar. Basta olhar para o primeiro livro. Se quando o li pela primeira vez fiquei absolutamente deliciado, a re-leitura disse-me que eu em puto era parvo. É um livro mau! Terrível! Pouco mais do que uma adaptação de um guião de Dungeons & Dragons!

Mas algumas das personagens ficaram-me para sempre na memória (como esquecer Worick?!) e o vilão, Seltor, é dos melhores vilões que já vi na vida. E mesmo após alguns anos, com centenas e centenas de outros livros lidos pelo meio, ainda me ri com as peripécias e fiquei interessado no que se ia passar. Chamem-lhe nostalgia precoce ou cegueira selectiva, o que quiserem, mas que aconteceu, aconteceu. Li o primeiro a um ritmo lento, depois despachei o segundo, o terceiro e por aí fora, até um final GLORIO... Não, o final foi fraquito. Os últimos livros são bem porreiros, mas o final nem por isso.

Não interessa! É uma saga que acarinho e que defendo com unhas e dentes. Sou o primeiro a reconhecer-lhe os defeitos, mas acho que é preciso dar-lhe uma oportunidade. O autor mostra claramente algum potencial, e tenho boas perspectivas para os seus livros mais recentes O Perraultimato e O Andersenal. Só sei que o primeiro tinha ar de livro infantil, abri ao calhas e li umas linhas sobre alguém a puxar as tripas de outro alguém para fora.

De qualquer forma é uma saga que conta como pertencendo à minha infância. E se estão espantados por ainda só ter falado de sagas, a explicação é fácil: cá por casa sempre houve muitas colecções, que os meus pais faziam quase todas as que apareciam nos jornais e revistas e sei lá. Sempre foi uma coisa muito natural para mim, ter vários volumes. Tenho para mim que é por isso que encaro sagas e colecções com tão bons olhos.


Nunca me restringi foi a tipos de livros. Pronto, tudo bem, nunca confiei grande coisa na poesia. E li pouco teatro, mas não foi por querer, tenho muito interesse. Não me julguem! O que eu queria dizer é que não lia só prosa, também me metia nas BD's. Nomeadamente nos do costume: Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey (embora sempre tenha sido mais fã dos patos), Pateta, Professor Pardal e por aí fora.


Isto inclui uma descoberta que fiz de forma quase acidental e que acabei por ler tanta vez que, coitado, está num estado desgraçado: A Saga do Tio Patinhas. Parte de uma colecção (que acho que tenho toda), este é dos melhores livros de banda desenhada que já li. E isso inclui leituras mais recentes, como Watchmen, V for Vendetta, Sandman... Eu nem sabia que a personagem do Tio Patinhas podia ser tão interessante, mas as histórias recolhidas neste livro dão-lhe um passado interessante e que justificam claramente o pato avarento mas de coração mole que todos conhecemos.

Muito, mas muito bom mesmo, e se já não o leio há uns bons tempos, tal acontecimento não há-de estar muito longe. Tal como no caso dos próximos livros que vou mencionar e que fazem parte do meu tesouro literário pessoal.

Falo de Dragonball. Toda a gente sabe o que é. Algumas pessoas talvez lhe chamem Son Goku, ou pensem que todas as personagens se chamam Dragonball ou, ainda, que isso é uma série de televisão. Mas os livros existem e são fantásticos. Vi no outro dia que fiz a colecção há uns doze anos, ou coisa que o valha. Tendo em conta que tenho vinte, isso é muito tempo.

E mal posso esperar para os reler! São absolutamente fantásticos! Super palermas, super dramáticos, com altos e baixos mas sempre hilariantes e emocionantes. E nada pode ser melhor do que lembrar-me de um Vegeta a chamar CACHALOOOTE ao Son Goku, na versão portuguesa, por razões que me escapam. A minha teoria até hoje é que era o mais parecido com Kakarot (o nome certo) que encontraram, mas a série estava recheada de momentos desses, autênticas pérolas de tradução.

Enfim, é uma saga inocente, brincalhona, muito bem feita e que no fim do dia conta uma história como deve ser, muito bem contada, algumas partes melhores que outra, mas sem nunca desapontar. Já para não falar das inúmeras personagens e momentos absolutamente memoráveis!

Regressando a livros-livros, mas sem deixar o meu tesouro pessoal, apresento-vos a colecção que mais me orgulho de ter, de um autor que me maravilhou e cujos livros esperei ansiosamente que me chegassem ao correio.


Júlio Verne. Edições de luxo. Cinquenta e um livros, com as ilustrações originais, capas fantásticas e edições fabulosas. Eu não me canso de elogiar estes livros. Babo-me um pouco sempre que olho para eles.

Sei que na altura, há uma catrefada de anos, li os primeiros dez seguidos, ou lá o que foi, e que nesse entretanto me fartei, ou eles começaram a chegar mais depressa do que eu os conseguia ler, nem sei, mas estive sem pegar neles durante alguns anos, até que decidi voltar a ler e li mais uns poucos, intercalados com outras coisas. E agora já há muito tempo que não o faço.

Vocês nem imaginam as ânsias com que ando de ler Júlio Verne. Não há muito tempo até li dois livros dele, mas lê-lo nesta colecção... Lembro-me tão bem de pousar sempre A Volta ao Mundo em Oitenta Dias como se fosse a coisa mais preciosa e frágil do mundo, e de me deitar na cama e mergulhar no As Vinte Mil Léguas Submarinas, de ir aos correios e ter um caixote para mim, com LIVROS lá dentro...

Isto qualquer dia vai ter que ser, é ordená-los todos por ordem cronológica e toca a ir agarrando num de vez em quando. Vai ser lindo, compreendem, lindo!

E por hoje é tudo. Há mais livros, mas nem me lembro assim de repente de muito mais coisas sem ir espreitar as minhas estantes, e isso dá trabalho. Fiquemos por aqui, e da próxima vez há mais.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Fim da Viagem

O último livro das Crónicas de Allaryia chama-se Oblívio, mas talvez se devesse chamar Alívio. Depois de já ter lido os outros 6 livros, o sétimo pareceu-me interminável. Eu sei que a culpa foi minha, ninguém me manda reler toda a saga só para acompanhar o último volume como deve ser, mas enfim...

Não que o livro tenha sido mau. Foi bom, ou quase quase quase bom, como já mencionei na opinião respectiva. Mas aquele fim... Ahhh, aquele fim... Tenho que dizer que o Filipe Faria tem um certo jeito para as personagens, mas não faz a mínima ideia do que fazer com elas, quando é para desaparecerem de cena, ou simplesmente para acabar a história delas. Deve ser o maior defeito que tenho a apontar a este autor, agora que tenho a saga toda lida.

Mas falemos das coisas boas durante breves momentos. Não me farto de dizer que tenho uma afeição especial por esta saga, portanto toda e qualquer opinião que eu emita sobre algum aspecto da mesma, está obviamente condicionada pela minha parcialidade. Acho que não sou capaz de me distanciar como deve ser, para dar uma opinião objectiva sobre estes livros. Portanto vou-me limitar a opinar com o todo o meu facciosismo (não confundir com fascismo) orgulhosamente exibido e assumido.

A saga, no geral, é espectacular. Esquecendo a divisão em 7 livros e pensando apenas nas suas 3000 e qualquer coisa páginas como um contínuo, esta saga é algo de bom e inovador no panorama literário português. Ainda está a léguas metafóricas de um David Soares, ou de um Saramago, como é mais do que óbvio, mas é bom, especialmente tendo em conta o género, a high fantasy. É claro que se pode sempre afirmar que high fantasy a sério foi Tolkien e pouco mais, mas acho que é injusto comparar o que quer que seja com um escritor tão magistral como J.R.R.Tolkien. Não considero que os seus livros sejam high fantasy, são Tolkien.

Adiante, que já estou a divagar demasiado. Filipe Faria é um autor que tenho seguido com uma atenção especial, pelas razões que já estou farto de mencionar. As suas Crónicas acompanharam-me durante alguns anos e isso leva a que por um lado não consigo dizer muito mal destes livros, mas, por outro, leva a que me sinta bastante desapontado com o final. Foi fraco. O autor tinha tudo para acabar esta autêntica odisseia de uma forma espectacular, mas aproveita muito mal as personagens que tem, algumas delas geniais. Como Seltor. Seltor. Uma das melhores personagens que tenho visto, com tanto potencial e tão mal aproveitado.

A coisa começa bem, com o desenrolar sub-reptício dos seus planos, lenta e misteriosamente. E depois de mais um momento deveras conveniente no final do sexto livro, Seltor é renegado a vilão de segunda, neste último volume. Enfim, nem tudo podia ser bom.

Porque sim, a escrita tem qualidade. Não necessariamente um grande nível literário, mas qualidade. Ainda por cima essa característica destaca-se bastante, vendo o contraste entre o primeiro e o último livro. A diferença é abissal! O miúdo de 16 anos do primeiro livro cresceu e tornou-se num escritor a ter em conta.

Quero só mencionar que tenho a edição de luxo do último livro. Que de luxo quase só tem o nome. Aquilo vem numa caixa de qualidade deplorável, traz um livrinho bastante interessante, mas de qualidade deplorável, e um CD apenas vagamente interessante. A única coisa que se safa é mesmo o livro, em capa dura, isso sim, com boa qualidade.

Por fim, tenho que chegar a alguma conclusão. A melhor saga de sempre? Nem lá perto. Uma saga muito boa? Prefiro não arriscar. Uma boa saga, portanto? Confirma-se. O mais objectivamente possível, digo que é uma boa saga, cujos pontos fortes são as cenas de porrada e algumas das personagens. Isso e tão cedo não me volto a meter numa destas...

domingo, 11 de novembro de 2012

Oblívio

Título: Oblívio
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Tomados pelo desânimo, os companheiros enfrentam agora o seu maior desafio e o Oblívio ameaça a própria existência, da mesma forma que parece ser a sua única salvação. Na mais negra hora de Allaryia, a Sombra ergue-se triunfante, mas nem tudo o que parece é, e ainda falta a'O Flagelo jogar a sua última cartada

Opinião: O tão aguardado fim desta saga chega por fim. Após alguns anos a acompanhar e a seguir fielmente as desventuras de Aewyre e companhia, a par das movimentações de Seltor e vilões afins, agarrei no último volume, o único que ainda não tinha lido, e fiquei a saber como tudo terminava. Ou começava.

Isto porque, digam o que disserem, este pode ter sido o último livro desta saga, mas muito dificilmente será o último livro passado em Allaryia. As últimas páginas são um mero prenúncio de algo enorme, um breve vislumbre daquilo que ainda vai acontecer, e a sensação com que fiquei foi uma de "isto não pode acabar assim...". Até porque depois de mais ou menos 500 páginas de um óptimo livro, as últimas 100, o final do final que afinal talvez não seja um final, são bastante fracas. Fiquei desiludido. E mesmo no fim, as últimas 20 páginas começam a salvar o livro... E é então que ele acaba.

Essa é a única razão para eu não decretar este livro como o melhor dos 7. A escrita atinge aqui um nível estável e satisfatório, notando-se uma clara, aliás, claríssima evolução relativamente ao primeiro livro; as personagens continuam absolutamente geniais, de uma forma geral. O enredo até começa por enveredar por bons caminhos, mas sensivelmente a meio do livro, o autor começa a estragar tudo. O fim que vai dando a algumas personagens deixa muito a desejar, a forma como salva (ou não) os companheiros das desgraças em que se metem é demasiado fácil, e acaba por recorrer demasiadas vezes a facilidades narrativas.

E é uma pena. A sério. Tinha tudo para ser um óptimo livro... Tudo! Mas no fim da leitura posso apenas classificá-lo como ligeiramente abaixo de bom, pois foi, acima de tudo, desapontante e anti-climático. Talvez isso também se deva às minhas expectativas, ao facto de andar há um ano para ler este livro e ao ter começado a ler esta saga há tanto tempo, mas a verdade é que a maior parte das minhas expectativas foram defraudadas, e em grande estilo.

Ainda por cima com um fim que promete tanto! Não me parece que as possibilidades de haver uma continuação num futuro próximo sejam muitas, mas ela vai existir, tenho quase a certeza. Ou pelo menos o autor está a pensar nisso. No entanto, não é assim que se acaba uma saga, uma saga tão inovadora no meio literário português, odiada por uns, amada por outros e completamente indiferente e/ou desconhecida à maior parte, uma saga cujos fãs foram acompanhando de forma fiel, sempre à espera do próximo volume...

Lamento, mas Filipe Faria, desapontaste-me. Este livro podia ter sido melhor. É uma boa leitura, e uma conclusão razoável para saga, mas esperava mais, muito mais, e acho que o autor tinha qualidade suficiente para escrever um fim muito mais digno. Fiquei triste, com o folhear das últimas páginas, tanta história e tanta possibilidade terminada assim, quase em cima do joelho. Um livro inteiro de desenvolvimento, de evolução progressiva e constante de urgência e de tensão, e umas últimas páginas tão fracas.

Para não me alongar muito mais, digo que gostei, mas não foi o fim que eu queria, o fim que eu esperava. Tenho dificuldade em ser muito imparcial com esta saga, pois como já o referi, tenho-lhe uma afeição especial, mas este último livro tinha muito potencial e o autor não o aproveitou. Mas não é por isso que deixa de ser um bom livro, que dá finalmente por satisfeita a minha curiosidade em saber como tudo acaba em Allaryia.

Um fim. Não um fim digno, mas um fim.

sábado, 3 de novembro de 2012

As personagens de Filipe Faria

Podem pôr muitos defeitos a este escritor, eu próprio aponto alguns sem dificuldade, mas de uma coisa não se podem queixar: as personagens.

Sim, tem algumas ligeiramente menos interessantes ou mais incoerentes, mas há ali uns pequenos focos de pura genialidade, se querem que vos diga.

Falo de Worick, por exemplo. Um thuragar (basicamente um anão), mal encarado, refilão e antipático, como é característico da sua raça, e com uma forte inclinação para distribuir cachaporrada, mas que demonstra um forte apego a Lhiannah, a sua protegida, digamos assim. E com o evoluir da história, vai-se notando uma crescente preocupação contrariada para com os seus companheiros.

A parte gira é mesmo o feitio do thuragar, e a forma como fala. Para além de querer sempre resolver todo e qualquer problema com o seu martelo na cabeça de alguém, fala de uma forma simplesmente hilariante! Promete doses de porrada a cada 3 falas, chama torrentes intermináveis e extremamente criativas de nomes a toda gente. Lhiannah é a cachopa, duma forma geral. Taislin, um burrik (na prática um hobbit), vai desde o mafarrico a caganito... E a certa altura acho que chega a ser o filho desgraçado de uma cabra estropiada, ou algo do género. Nem sei. É apenas genial.

Este é apenas um dos exemplos em que o Filipe Faria demonstrou toda a sua habilidade enquanto escritor. Worick é uma personagem irritável e antipática, verdadeiramente desagradável e com uma aversão a quase tudo e todos, mas que no fundo está apenas recheado de boas intenções e que vai dando sinais cada vez mais claros de gostar dos seus companheiros, por muito que isso lhe custe.

E depois há Culpa, o pai de Seltor, o grande vilão da saga. Culpa, além de ser o mortal que foi seduzido por Luris, a negra potestade primordial, tendo com ela um filho que se tornou n'O Flagelo de Allaryia, é para mim uma das personagens mais geniais das Crónicas. Vergado pela culpa de ter trazido tamanho mal ao mundo, está condenado a vaguear, cego, com o peso de ter cometido o Segundo Pecado e ter indirectamente causada tanta dor, destruição e sofrimento, ao mesmo tempo que espalha essa mesma Culpa por onde passa. As pessoas quando se aproximam dele sentem todos os pequenos resquícios de culpa que possam ter dentro de si, seja para si próprias ou para pôr em cima de outros. Tudo isso vem ao de cima, e há sempre gente a falecer.

Nem vos consigo explicar muito bem, só lendo, mas é basicamente isto. Uma personagem que se sente tão culpada que se torna (mais ou menos) imortal e passa os seus dias a trazer ao de cima aquilo que de pior há em cada pessoa pela qual passa? Genial.

E agora, já que falo no pai de Seltor... Tenho que falar no Seltor. Tenho-me aguentado bastante bem, como já devem ter reparado, mas já atingi a saturação. Seltor é das melhores personagens que eu já vi na Literatura em geral. Agora no último livro está a passar por uma fase um bocado estranho, mas acho que ainda vem aí muita espectacularidade. Quase que a cheiro, quase que a sinto. Desde que apareceu, no fim do terceiro livro, que tem vindo a espalhar o caos... Se bem que não da forma que se poderia estar à espera.

Isto porque o Anátema (que nome tão fixe, não é?) volta passado 20 anos com desígnios tão inescrutáveis que nem os seus servos mais próximos fazem a mais pálida ideia do que raio é que ele vai fazer. E quando começa a fazer coisas, são dos capítulos mais espectaculares de todos os 7 livros. As consequências desses actos afectam toda a Allaryia, e toda a história, mostrando-se ao longo dos capítulos maioritariamente como coisas que acontecem no pano de fundo.

O que é importante é que Seltor é uma personagem magnífica. Sempre com uma aura maléfica quase palpável, mas aparentemente com boas intenções... Ou ele pelo menos assim o apregoa. Quando aparece, o escritor descreve a situação de forma avassaladora, quase deixando o próprio leitor de joelhos em profunda reverência aterrorizada. Uma personagem de mestre e um dos grandes trunfos do autor.

Mas é óbvio que isto não é só espectacularidade. Há um aspecto em particular, no que toca às personagens, em que acho o Filipe Faria deveras fraquinho. As relações amorosas. É que não há o mínimo de paciência para aturar os amores e desamores do Quenestil e da Slayra, nem os arrufos pré-entendimento do Aewyre e da Lhiannah. Nomes que não dizem nada à maior parte de vocês, mas enfim, os dois primeiros são um eahan e uma eahannoir, que é como diz um elfo e uma elfa negra, e os dois últimos são humanos. E andam sempre às turras, e tanto estão nos braços uns dos outros como se odeiam de morte e tentam matar, ou algo do género. Não gosto da forma como as relações estão desenvolvidas.

Resumindo, apesar de algumas menos bem conseguidas, acho que Filipe Faria tem jeito para as personagens, pelo menos para as que encontrei ao longo das Crónicas, não faço a mínima de como serão as da nova saga... Mas já abri O Perraultimato ao calhas e vi uma das personagens a estripar alguém.

Não me vou queixar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Fado da Sombra

Título: O Fado da Sombra
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Os deuses estão mortos, e a sua queda deixa Allaryia à beira de uma espiral de desordem e destruição. As sementes dos planos d'O Flagelo germinam em segredo, e Aewyre Thoryn e os seus companheiros são os únicos que estão cientes da insidiosa ameaça, bem como os únicos em condições de a combater. Dá-se então início a uma desesperada corrida contra o tempo, enquanto servos renegados de Seltor conspiram para levarem a cabo a queda de Ul-Thoryn. Uma ameaça de tempos imemoriais acerca-se entretanto da Pérola do Sul, ameaçando cortar pela raiz a resistência contra O Flagelo. A norte, ventos gélidos prenunciam a guerra iminente e uivos nas serranias norrenas anunciam o despertar de um poder anciano, que tanto poderá ser a salvação dos reinos humanos, como a sua ruína derradeira. O ponto de viragem da Oitava Era, após o qual nada será como dantes em Allaryia, é o penúltimo capítulo da saga, que neste sexto volume levanta a parada num inesquecível épico de acção e aventura.

Opinião: Maior guerra que a que se ameaça abater sobre Allaryia, foi a que eu tive para ler este livro, e maior ainda será a que vou de certeza ter para ler as 600 páginas do próximo e último volume. A leitura não foi complicada, e não acredito que a próxima o seja, e este sexto livro é, até agora, o meu favorito, confirmando a qualidade ascendente da saga, o problema foi o de sempre: falta de tempo.

Parecendo que não, e com alguma pena minha, a minha vida não é só ler. E embora tenha tido um início de semestre deveras tranquilo, as coisas começam a apertar e ameaçam estrangular ligeiramente nos próximos tempos. Daí ter levado 2 semanas a ler este e levar provavelmente outras 2 (e tal) a ler o próximo.

Mas isso não importa. O que interessa realmente é que as coisas começam a encaixar umas nas outras! Após 5 livros de porrada, demandas, sangue e tripas, inimigos caídos que regressam, companheiros separados e um vilão de desígnios completamente inescrutáveis, começa-se a ver... algo. Ao início não se percebe absolutamente nada, tão intrincados e retorcidos estão os fios narrativos, mas vê-se claramente que a história está a tomar uma certa direcção. Lá mais para o fim começa-se a perceber, e eu nesta segunda leitura topei demasiado bem qual é a essa direcção, algo que me tinha escapado por completo na primeira... A capa do último livro ajuda a perceber, também, se estiverem curiosos!

É que finalmente as coisas começam a encaixar, a fazer sentido, todas a alinharem-se na antecipação daquilo que promete ser um final absolutamente estrondoso! Embora seja ligeiramente previsível. Pelo menos algumas partes. Não interessa! Eu sempre fui fã do Filipe Faria, mas cada vez gosto mais dele... Aquilo que começou por ser uma história quase infantil e aleatória é agora uma história sólida com desenvolvimentos marcantes e reviravoltas de suster a respiração. As personagens continuam a ser a melhor parte (SELTOR! SELTOR! SELTOR!), bem trabalhadas, algumas hilariantes, algumas assustadoras, todas a funcionarem bem umas com as outras, e com uma profundidade psicológica apreciável, em contraste com as mentes lineares que demonstravam no início, em particular no primeiro livro.

Com tanta coisa que já foi acontecendo ao longo destas (eu contei) 3086 páginas, as personagens amadureceram, amarguraram, endureceram e enlouqueceram. O que, do meu ponto de vista, apenas pode significar que se tornaram mais interessantes. Sejamos honestos, personagens felizes da vida, a cantarolar canções de amor de mãos dadas com as suas caras metades, enquanto saltitam alegremente por prados verdejantes raramente são interessantes. As melhores são as personagens loucas e amarguradas, as maléficas e cruéis, as ambíguas e imprevisíveis! E nesse campo, as Crónicas de Allaryia estão bem entregues. Entre Seltor, que é para mim a melhor personagem e o melhor aspecto desta saga, e Culpa, uma personagem absurdamente genial, ainda há espaço para uma quantidade enorme de personagens interessantes.

Já para não falar da escrita, mais madura e bem trabalhada, violentamente melhorada em relação aos primeiros livros, em especial ao primeiro. Filipe Faria já ameaçava ser um bom escritor, ainda que não tremendamente literário e a léguas de um David Soares ou de um Gonçalo M. Tavares, só para citar nomes mais recentes, escreve bem, é capaz de construir uma boa história e a de a desenvolver em condições, mesmo que a tenha começado com alicerces algo periclitantes. Nesse aspecto em particular, os meus sinceros parabéns ao autor.

Para terminar queria só dizer que este livro tem um tremendo defeito. Um defeito absolutamente horrível e doloroso, um defeito capaz de me magoar fisicamente, um defeito tão execrável e pestilento que nem tenho palavras para o descrever. É que após estes 6 livros relidos, e com a história fresquíssima na cabeça, este penúltimo volume deixou-me extremamente curioso para ler a conclusão. Quando digo extremamente não estou a exagerar. Se a curiosidade fosse uma ideologia política, eu era um fascista anarquista, neste momento. Espero que compreendam a dor que é começar a ler este livro em vésperas de ter 4 testes, 2 laboratórios, um projecto e um mini-teste em 10 dias.

Só sei que vai valer a pena.

sábado, 20 de outubro de 2012

O tamanho das Crónicas


Por mais espectacular que esta saga se esteja a tornar com o passar do tempo, nada lhe tira o seu tamanho a tender para o descomunal. Há sagas bem maiores (estou a olhar para ti, Robert Jordan, com os teus 15 volumes de A Roda do Tempo), mas estes 7 livros em que o mais pequeno tem 444 páginas são grandes o suficiente.

É que eu, muito sinceramente, não tinha esta ideia. Já andava a planear fazer esta releitura para ter uma leitura decente do sétimo e último volume, mas pensava que despachava cada livro no máximo em 3 ou 4 dias. Qual quê! Quando me pus a ler o primeiro ainda fui de férias, durante as quais pouco li. O segundo foi de facto mais rápido, mas por altura do terceiro já as aulas estavam a começar. Foi o descalabro. Esse, o quarto e o quinto levaram-me pelo menos 1 semana a ler, e este sexto promete arrastar-se ainda mais.

E já nem falo do sétimo volume, que pelas minhas contas vai cair mesmo em cima dos 10 dias mais maravilhosos de sempre, em que tenho 4 testes, 2 dos quais ao Sábado e todos eles provavelmente a horas indecentes, 1 trabalho para fazer e sei lá mais o quê. Não me estou propriamente a queixar de ter tanta coisa para fazer, assim é que eu gosto, com pressão e tudo, para sentir que estou de facto a trabalhar. Estou-me a queixar que para isso, tenha que perder tempo de leitura. Muito tempo de leitura.

Já me tinha acontecido algo parecido quando me decidi a fazer a minha Temporada Épica. Achei muita piada à ideia de ler Os Lusíadas, o Beowulf, Fausto e A Divina Comédia todos seguidinhos, "ah e tal, isto num mês despacho isto". Ingénuo. Tolo. Idiota. Demorei quase 3 meses a ler tudo. Claramente não sabia o que me esperava.

Com estas Crónicas está-me a acontecer mais ou menos o mesmo. Tinha planeado ler tudo em, vá, 2 ou 3 semanas. Passado quase 2 meses (comecei as leituras no início de Setembro, as opiniões é que só começaram a aparecer no fim), ainda cá ando. E relativamente longe de acabar.

Tendo dito isto, não me arrependo minimamente do que estou a fazer. É verdade que estou a morrer um bocadinho por dentro todos os dias, ao ver as minhas prateleiras de livros a ler a encherem em vez de esvaziarem, o que é ridículo, tendo em conta que já nem sequer compro livros, mas esta releitura está a valer pena cada segundo cada vez mais mais valioso que gasto.

Não digo que seja como estar a ler livros diferentes, mas tenho definitivamente uma perspectiva bastante diferente dos livros, o que me leva a ter uma segunda leitura e uma segunda opinião que pode divergir bastante da primeira. Basta ver o caso do primeiro livro, que na altura adorei e delirei por completo, e que agora achei abaixo de mediano, safando-se apenas se se tiver em conta a tenra idade do autor na altura e a minha afeição especial pela saga em si. Nisso e no agora notório aumento de qualidade proporcional do número do volume, algo que não tinha achado da primeira vez.

Ou seja, isto tudo só para dizer que parece que nunca mais acabo de ler as Crónicas, o que é verdade, e que estou em pulgas para começar a desbaratar as minhas estantes, o que é ainda mais verdade, mas que não me arrependo desta ideia como em certa altura me arrependi ligeiramente de quando me pus a ler as epopeias. Foi um processo muito mais moroso e foram leituras extremamente mais complicadas.

Filipe Faria está-se a tornar num dos meus autores portugueses favoritos, não ao nível de Saramago ou de David Soares e João Barreiros, nunca na vida, mas um escritor de qualidade, um pioneiro do género em Portugal, e claramente um autor que ainda tem potencial para muita coisa, o que me tira o ligeiro peso na consciência que tinha por estar a gastar tanto tempo com os seus livros.