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sábado, 1 de agosto de 2015

Entrevista? A mim? A sério?


Pois é, esta revista online brasileira, a Nonata, entrou em contacto comigo para me entrevistar, enquanto blogger, sobre releituras. Podem ver as respostas aqui.

Um obrigado à Nonata, em especial ao Jáder Santana, que foi quem me contactou, e um apelo a que sigam esta iniciativa, da qual talvez ainda tenham notícias da minha parte!

(Sei que é um recomeço um bocado curto, depois das mini-férias do blog, mas já é qualquer coisa!)

sábado, 1 de novembro de 2014

Entrevista a Joel G. Gomes

O Joel é um bocadinho maluco, no melhor dos sentidos possíveis. Tem milhentas facetas/profissões relacionadas com a escrita, e parece incapaz de estar sem fazer alguma coisa.

Escreve isto, escreve aquilo, prepara lançamento, faz um vídeo-convite, auto-promove-se, arranja tempo para comparecer (de vez em quando!) à Oficina de Escrita de que também faço parte, e sei lá mais o quê!


Recentemente, e a pedido dele, li-lhe o Um Cappuccino Vermelho e o A Imagem, livros que fazem parte de um todo maior mas que se conseguem ler de forma independente, e que são bons. Especialmente o segundo.

Depois da leitura terminada, convidei-o para uma entrevista por e-mail, e o resultado está à vista: muito interessante. Divirtam-se e acompanhem as próximas obras deste (ia dizer jovem, mas jovem sou eu, não tu!) autor que ainda tem muito para contar!


Depois de ter lido Um Cappucino Vermelho e A Imagem em (relativamente) pouco tempo, gostava de começar pela pergunta mais óbvia: que tipo de obsessão tens tu com café?

Há uma ligeira imprecisão na tua pergunta. É verdade que em Um Cappuccino Vermelho o café está bem presente, mas em A Imagem, eu diria que a bebida mais predominante é o chá. Quanto à questão da obsessão, a resposta é não tenho. Diariamente tomo café ao pequeno-almoço e depois de almoço, porém, ao contrário de um dos meus personagens, sou capaz de passar um dia inteiro sem tomar um único café.

Para um começo mais sério, sei que escreves de tudo um pouco, incluindo guiões de curtas-metragens, mas como é que evoluíste até escritor independente?

Nunca estive dependente de ninguém para escrever (às vezes posso depender de outras pessoas para concretizar certos projectos, nomeadamente guiões), mas no caso de contos ou romances, dependo essencialmente de gerir bem o meu tempo e de disciplinar-me. A independência provém sobretudo da não necessidade de interrupção para ir trabalhar todos os dias. Nesse sentido, como a escrita, infelizmente, ainda não me paga as contas, não sou independente.

Algo que me desperta curiosidade são os teus esforços hercúleos de auto-divulgação. Parece que estás em todo o lado, sempre a promover qualquer coisa. Como é que conjugas isso com a tua escrita (e sanidade mental)?

Eu não tenho uma editora, estou a publicar por conta própria (e não a pagar para me publicarem – completamente diferente), a gastar dinheiro do meu bolso. Não tenho grandes dificuldades em conjugar as duas coisas, mas se tivesse, que hipótese teria senão tentar encontrar uma solução? Muitos autores descuram a promoção em detrimento da escrita. Não estão errados. Não vale a pena promoverem os seus trabalhos se estes não forem bons. O que eu quero dizer é que ter trabalhos bons não chega: é preciso saber fazer chegar essa informação aos leitores. Tenho algumas noções de marketing, adquiridas tanto em ambiente escolar como por outros meios, o que me ajuda. Procuro ler muito sobre marketing, blogging, self-publishing; oiço podcasts sobre o tema. No fundo, é apenas outra forma de criação.

E que tipo de feedback tens obtido?

De Um Cappuccino Vermelho as críticas foram, em geral, boas. Como já o publiquei há dois anos, hoje em dia não é tão falado como era antes. De vez em quando ainda recebo uma crítica ou outra, particularmente do Brasil. Sobre A Imagem, como só foi publicado há poucos dias ainda não tive muitas opiniões, mas as poucas que recebi têm sido positivas.

Falando nisso, como é que correu o lançamento de A Imagem?

Correu bem. A casa esteve composta. Não encheu como eu gostaria, mas não esteve mal. Comecei agora a contactar bibliotecas para fazer apresentações. Vamos ver como corre. Já tive algumas respostas positivas. É só questão de agendar. Em 2014 já não deve haver grande coisa, porque o calendário de programação já fechou, mas 2015 ainda está aberto.

Deixa-me aproveitar para falarmos como deve ser dos teus livros. Primeira coisa: levas pontos pelo carácter meta de ambos. Segunda coisa: como é que fazes para não te perderes nos enredos? Ambos dão voltas atrás de voltas, mais A Imagem que o outro, e são tudo menos lineares...

Não me posso dar ao luxo de me perder. Bem ou mal, tenho de arranjar uma maneira de manter os enredos todos em mente. Confesso que eu próprio me perderia se não fizesse esquemas e mais esquemas. Desconstruíndo um pouco o processo, para mim funciona assim: há um enredo principal, geralmente conduzido por um ou dois personagens, e depois há os sub-enredos relativos a cada um dos outros personagens. Não há nada de inovador aqui. Limito-me a traçar linhas na folha e a interseccioná-las, sabendo que não há causas sem efeitos, nem efeitos sem causas.
Quanto à questão do carácter meta, eu cresci com as revistas da Marvel e da DC, nas quais cada herói (ou equipa) faz parte de um universo comum. As aventuras de cada um, mesmo quando isoladas, surtem consequências nas aventuras de outros. Ainda antes de começar a escrever Um Cappuccino Vermelho já pensava em ter personagens a circular de história para história. Aliás, quando inseri o Ricardo em A Imagem não era minha intenção que ele viesse a ter um papel tão activo. Nem ele, nem o João, nem o Luís. Nem sequer era para haver um Alexandre. As coisas acontecem.

Já reparaste que tens relativamente poucas personagens femininas?

É verdade que em Um Cappuccino Vermelho há só uma. Em A Imagem está um pouco mais equilibrado, mas ainda assim a balança pende mais para o lado masculino. No entanto, posso adiantar que os próximos dois volumes, A Voz e O Quarto Vazio, irão ambos ter como foco principal duas personagens femininas, uma já conhecida, outra ainda não (embora faça um breve cameo em A Imagem).

Acho que é seguro dizer que a tua experiência enquanto guionista te ajudou a escrever estes livros, pois tens passagens muito cinematográficas, mas gostava de saber como é que “visualizas” uma história. Como é que elas te surgem? Como imagens de um filme que depois descreves, ou de forma mais abstracta e racional, e tens que fazer um esforço para lhes dar aquele carácter tão visual?

Nenhuma história se escreve à primeira. As minhas primeiras versões são quase sempre só esqueleto (às vezes incompleto), depois dou-lhe órgãos internos, carne e um trapinho ou outro para cobrir as vergonhas. A cada vez que se pega no manuscrito acrescenta-se alguma coisa, retira-se outra. Não há nenhum esforço envolvido senão o de tentativa e erro.

Consegues identificar-te com alguma das tuas personagens, ou são todas criações completamente independentes e sobre as quais tens total controlo?

Há sempre qualquer coisa do autor que perpassa para as personagens que cria. É inevitável. Quanto ao controlo, digamos que se o tivesse, a história do João Martins e do Ricardo Neves teria sido completamente diferente. Talvez nem houvesse A Imagem.

Duas das principais (e melhores) características da tua escrita, é o humor peculiar, de que muito gosto, e uma vincada “portugalidade”, algo relativamente raro em autores portugueses mais recentes. São duas marcas que tentas activamente pôr num texto, ou são coisas que simplesmente passam?

É a minha forma natural de ser. Estou constantemente a fazer apartes parvos, a fazer piadas com tudo e mais alguma coisa. Há uma sequência em A Imagem na qual o protagonista, Lucas, é visitado por um fulano que diz estar ali para o ajudar, mas tudo o que faz é ficar sentado no sofá. Mais tarde, durante uma discussão com outro personagem sobre como libertar alguém que está preso, o mesmo fulano queixa-se por ter tão pouco que fazer. Ao que Lucas responde: “Deve haver um sofá algures onde se sentar”. Admito que alguns trechos só possam ser percebidos na sua plenitude por quem me conhece (às vezes nem isso), mas não consigo evitá-los.

Eu sei que A Imagem já não era propriamente uma sequela de Um Cappuccino Vermelho, mas desta vez não me parece que tenhas deixado muito espaço para uma continuação, e no entanto já prometeste mais dois livros. O que é que se pode esperar deles? E de outros projectos futuros, já agora!

O próximo volume irá chamar-se A Voz. Quem se der ao trabalho de visitar o meu site e clicar onde diz PROJECTOS FUTUROS encontrará lá uma breve descrição da história que irei contar nesse livro. Será a história de uma mulher que ainda está a tentar lidar com a morte do marido, ocorrida cerca de um ano antes. O marido era locutor de rádio, fazia um programa nas madrugadas e deixou várias cassetes com programas seus gravados. Como forma de o manter vivo, ela passa o tempo a ouvir essas cassetes. Até que há uma noite em que ela o ouve dizer qualquer coisa que a leva a crer que ele sabia exactamente quando e como iria morrer. Como é que isto depois se encontra com o universo de Um Cappuccino Vermelho e de A Imagem é algo que ainda não posso revelar.
O quarto e último volume intitular-se-á O Quarto Vazio e será uma história sobre as contrariedades da natureza humana. Houve algumas pontas que deixei soltas nos dois trabalhos anteriores (algumas de propósito, outras não) que espero deixar devidamente aparadas neste último trabalho.
Quanto a outros projectos, estou a trabalhar em várias prequelas, todas elas para o mesmo projecto, que será uma sequência de pequenas novelas em formato episódico, tipo série. 

Para terminar, gostava que dissesses algumas palavras sobre o actual panorama literário português. Há quem diga que estamos ligeiramente estagnados, com autores já estabelecidos que simplesmente não evoluem, e outros emergentes muito direccionados para nichos, especialmente na área do Fantástico, em que parece que ninguém se esforça muito para atingir mais do que um grupo específico de pessoas. No entanto começa a aparecer alguma mudança, com obras de qualidade a surgirem com mais frequência e uma cada vez maior abertura a outros públicos. Tu vais claramente nesta direcção, com obras dentro do Fantástico e um esforço em atingir um público abrangente, mas o que é que achas?

Eu acho que uma coisa não deve excluir a outra. Lá porque um género é mais de nicho do que outros, isso não é razão para só escrever para meia dúzia de pessoas. Eu gosto de escrever dentro do género do fantástico, mas não me obrigo a escrever só nesse género. É conforme a história que quiser contar. Repetindo o que já disse em cima, sou eu que estou a pagar pelas minhas edições. Se eu escolho escrever assim e pagar por isso, então tenho de procurar chegar ao maior número possível de leitores. Caso contrário, mais vale abrir a janela e deixar as notas voarem.

sábado, 13 de setembro de 2014

Entrevista a David Soares

David Soares é um autor que exerceu um estranho fascínio sobre mim antes mesmo de lhe ter lido o que quer que fosse. Foi um estranho efeito, que apelidei, de forma bastante original, de Efeito David Soares, e que se viu justificado quando comecei a ler as suas obras.

Autor com provas dadas numa variedade enorme de formatos, começou por publicar BD's e recebeu vários prémios nacionais e internacionais, tendo inclusivamente obtido algum destaque em França com algumas das suas primeiras BD's.

Além disso é uma pessoa fascinante. Quer se concorde ou não com ele (e eu muitas vezes não concordo), e quer se goste ou não da forma como diz as coisas (por vezes também não sou muito fã), vale sempre a pena ouvi-lo/lê-lo. As suas obras mais recentes têm-me deixado desapontado, por uma série de razões, mas tenho alguns dos seus livros entre as minhas obras favoritas de sempre e considero-o um autor de enorme talento e que ainda me vai proporcionar excelentes leituras.

Podem conhecer melhor o autor e o seu universo autoral no seu blog, Cadernos de Daath, e na entrevista que lhe fiz por e-mail, em que não só tentei fazer perguntas interessantes sem bater sempre na mesma tecla, como ainda aproveitei para satisfazer alguma da minha curiosidade pessoal relativamente a certas coisas que tenho a certeza interessam a mais gente.

Nas proximidades temporais não percam Sepulturas dos Pais, com lançamento previsto para 25 de Outubro, pela Kingpin Books, e mais alguns projectos mencionados na última pergunta da entrevista.


O David tem uma presença muito distinta: barba comprida, cabelo comprido, roupa escura, muitos anéis, uma maneira de falar diferente, pausada, ponderada, enfim, digamos que se destaca. Isso podia, no entanto, ser uma persona, um David-Soares-escritor diferente do David-Soares-homem. Daquilo que eu conheço da sua obra e das ocasiões em que o ouvi, não acho que seja o caso, mas essa diferença existe, mesmo que de forma inconsciente e mais subtil?

Desde os tempos helénicos que a Prudência, uma das quatro virtudes cardinais, é representada pelos artistas e descrita pelos escritores como sendo uma mulher a olhar-se ao espelho enquanto agarra uma serpente: esta simboliza a Sabedoria, enquanto o espelho representa a Verdade. Acredite-se ou não, esse é o modo arcaico pelo qual me oriento em questões de gestão de imagem pessoal: com prudência, lá está!, tento mantê-lo no domínio privado. Ou seja: enquanto autor, o único elemento que deverá interessar aos leitores é, evidentemente, a minha obra. Sob esse ponto de vista, penso que a minha imagem não tem importância nenhuma para a maneira como os meus leitores observam a minha obra.

Compreendo que não é fácil perceber onde termina o indivíduo e começa o artista, talvez porque seja impossível separá-los, que nem os Hemisférios de Magdeburgo, mas não penso que a imagem, seja ela qual for, desempenhe um papel preponderante na criação artística, nem que seja pelo facto de que esta é um fenómeno imaginal e a imagem é, por natureza, fenotípica – ou seja, excepto nos casos em que a criação passa, também, pela imagem pessoal do artista, ela pouco ou nada se relacionará com a obra; por conseguinte, poderá ser, somente, uma curiosidade, um faits divers.

O meu discurso é «pausado» e «ponderado», porque, na maioria das vezes, em virtude da minha obra e dos temas sobre os quais escrevo, encontro-me em situações em que tenho de discorrer sobre assuntos complexos e estes, na minha opinião, não devem ser reduzidos ou apressados. Sou um indivíduo que racionaliza tudo, constantemente, e isso afasta-me da frivolidade que, por vezes, o ambiente social cultiva e que parece ser um fabuloso ascensor para um determinado tipo de popularidade que, com toda a sinceridade, não me interessa. Esse tipo de popularidade, assente no efémero e no transitório, não é a minha praia, perdoe-se-me o plebeísmo: estou aqui para a longa-duração e se tiver de sacrificar algumas comodidades para alcançá-la, sacrifico-as. Sou um indivíduo que lê dicionários como quem lê romances: do início para o fim. Há uma certa magistralidade nesta atitude, confesso, mas aquela que advém do puro gozo pessoal sentido por quem, no fundo, não tem interesse absolutamente nenhum naquilo que se diz ou escreve sobre si próprio. Não perco tempo com coisas inúteis e, em definitivo, não peço desculpa por existir: a falsa modéstia não é um dos meus múltiplos defeitos.

Fala muitas vezes da sua voz autoral, quase como se fosse uma entidade distinta. Essa voz nota-se ao longo da sua obra, mas foi sempre assim? Ou seja, quando é que essa entidade nasceu ou, melhor ainda, quando é que se deu conta que ela existia?

A voz autoral relaciona-se com aquilo que um criador tem para transmitir. Se não se for um criador, a voz autoral não existe: será mais recompensador procurar-se por harmonia na música pop contemporânea. Existem vários elementos importantes numa obra literária, como eufonia, respeito pela gramática, arrojo, desrespeito pela gramática, um sentido de missão que quase alcança o significado religioso dessa palavra, mas nenhum é tão importante quanto estes dois: a voz autoral e o tom da obra. A primeira é formada pelo conjunto das mais vigorosas características de um autor e define aquilo que torna singular cada autor. Um autor é um criador que se preocupa com um tema-chave ou vários temas-chave em especial e os vai interrogando a cada nova criação; sendo assim, é fácil entender que os autores se definem pelos seus universos autorais, mas estes desenvolvem-se sempre a partir de um núcleo primitivo de sentimentos, imagens e ideias primordiais que são intrínsecos a diferentes indivíduos. Não se escolhe ser autor: é-se autor.

A minha experiência é esta: sou inquieto, insatisfeito e obstinado. Tenho de agarrar nos meus temas, nos meus desassossegos, e fazer-lhes perguntas. Elas levam-me a sítios inesperados, no entanto a voz com a qual as faço é a mesma. Essa identidade é que oferece autenticidade à obra e faz com que um determinado livro só possa ter sido escrito por um autor em particular. Nesse sentido, aquilo que diferencia um autor de um executante é o seguinte: este, de forma fabricada, vai ao encontro de certa temática numa direcção de fora para dentro – por gosto genuíno ou até por cínica conveniência, isso não interessa para o desfecho –, enquanto o primeiro, de modo inato, vai ao encontro de certa temática na direcção de dentro para fora – por inteira inquietação, porque entre temática e indivíduo não existe distância nenhuma. Os autores são os seus temas.

Sempre observei a arte do ponto de vista de um criador, de um autor, e, por essa via, consciencializei-me muito cedo que esse ponto de vista era peculiar e, por natureza, desigual do ponto de vista de um destinatário. Os tons das obras sempre me fascinaram e aprendi, desde cedo, a apurar os sentidos para compreendê-los – e para capturá-los nas minhas obras. O tom de uma obra é a sua voz, que fala em paralelo com a autoral. Uma obra tem sempre duas vozes: a do autor e uma própria. Enquanto autor, cada nova obra que faço é sempre construída com base no tom: o tom é o sustentáculo de tudo e cada parcela tem de harmonizar-se com ele. Pensem naquilo que Rick diz a Louis no final de «Casablanca», mas, mais do que uma «bonita amizade», tem de existir uma simbiose perfeita entre o tom da obra e a voz autoral. Normalmente, quando uma obra fracassa em transmitir uma mensagem ou uma ideia é por culpa de problemas de tom. Esta qualidade, tão transparente e tão tangível quanto celofane (que, por acaso, é uma das minhas palavras preferidas), é difícil de apurar. Já abandonei a escrita de livros, porque tive dificuldades em apurar o tom certo que tinha em mente, por exemplo. Há livros que a gente abandona e, mais tarde, reencontra, com outra idade e outro ponto de vista, mais adequados ao tom que, originalmente, se tinha em mente. Um escritor não é um futebolista, cuja carreira termina aos trinta anos de idade: tem-se dezenas de anos para reencontrar ideias e aperfeiçoá-las. Quem não for paciente, nunca poderá ser escritor.

Tendo em conta essa voz autoral e o seu universo autoral específico, muito visceral, filosófico e muito pouco aconselhado a crianças e pessoas sensíveis, como é que deu consigo a escrever um livro infantil (O Homem Corvo, Saída de Emergência), e como é que foi essa experiência?

Não tenho muitas ideias que possam servir de ponto de partida para livros infantis, mas, ainda assim, vou imaginando algumas. Acho que as crianças adoram histórias negras, histórias perigosas – somente têm de ter um enorme sentimento de faz-de-conta, senão as ideias negras e perigosas podem tornar-se muito duras. Desde que as ideias mais heterodoxas sejam expostas de um modo que faça as crianças sentirem-se num mundo de faz-de-conta total, que poderão abandonar por uns instantes e, em seguida, regressar quando quiserem, tudo resultará bem e não haverá lágrimas, nem equimoses. Psicologiza-se demasiado sobre se certas referências serão ou não boas para crianças e, às vezes, investe-se num discurso paradoxal, quando, no fundo, a verdade é que basta transmitir-lhes, claramente, a noção de que é tudo a fingir. Recordo que as crianças seiscentistas rebolavam a rir a ver gatos reais a serem incinerados em massa em fogueiras no meio das praças e, contudo, cresceram e tornaram-se adultos responsáveis e empáticos – algumas até se tornaram autores de títulos maiores da literatura ocidental. Há trezentos anos, há duzentos anos, o entretenimento popular, impresso em folhas volantes e folhetins, era mais violento que as imagens televisionadas das guerras contemporâneas e, não obstante, a sociedade é obcecada em censurar imagens cada vez mais depuradas, o que é particularmente patético no que concerne à ficção. Dito isto, «O Homem Corvo», que é uma fábula bem inocente, transmite um elevado sentimento de faz-de-conta.

Esse livro partiu de uma ideia para uma história que andava há anos na minha cabeça e que acabei por concretizar somente para colaborar, propositadamente, com os ilustradores, porque tivemos vontade de fazer um livro juntos. A criação foi uma experiência agradável e acho que algumas coisas que estão no livro resultaram muito bem. As ilustrações são admiráveis.

Tenho uma ideia para criar outro livro infantil, que será diferente de «O Homem Corvo» – mais alienado, com maior propensão para o antilogismo e para o grotesco –, mas ainda não encontrei um estilo de ilustração adequado a essa história.

Como se pode ver pela sua incursão no livro infantil, nos álbuns de spoken word, nos romances, contos, ensaios e livros de BD, não tem qualquer problema em experimentar diferentes géneros. Ou melhor dizendo, linguagens. Imagino que não tenha problemas em, um dia, escrever um guião duma curta-metragem ou de um filme, se a ideia lhe surgir com esse formato, mas como reagiria a uma proposta de adaptar um conto ou um romance seu para uma curta ou um filme? E qual seria o seu envolvimento num eventual projecto?

Sei como se escreve um argumento de cinema e já escrevi argumentos para projectos de curtas-metragens que nunca se concretizaram, mas não foi algo que eu gostei de fazer. Gosto de cinema, enquanto espectador: enquanto criador, não gosto dessa linguagem e não tenho nenhum interesse em ver obras minhas adaptadas a ela. Se alguém quiser fazer um filme a partir de algum dos meus livros, tudo bem, faça-o, mas se isso não acontecer não me irei aborrecer. O que se passa é que o mundo pictórico não me magnetiza: prefiro palavras. Isto poderá parecer estranho, porque escrevo banda desenhada – e já desenhei bandas desenhadas –, mas, para mim, a banda desenhada é uma linguagem narrativa, não é pictórica. A ilustração, a pintura são pictóricas. Em oposição, a banda desenhada é literária. Todas as diferentes linguagens com que vou desenvolvendo as minhas obras são literárias.

A liberdade que eu sinto em ser capaz de trabalhar em linguagens literárias diferentes é embriagante e aquilo que, constantemente, aprendo numa, acaba sempre por ser útil em outra. Neste momento, três das minhas obras mais-queridas, «Palmas Para o Esquilo», um livro de banda desenhada, «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», um disco de spoken word, e «Batalha», um romance, representam, para mim, o antídoto ideal para aquilo que Baldassare Castiglione cunhou com o nome de sprezzatura: o ar de desprendimento que um artista dá diante da complexidade que deu criar a obra. Ou seja: a maioria do público acha que é fácil ser-se escritor, porque alguns, para efeito de achegamento comercial aos leitores, dão a impressão propositada de que escrever é divertido e simples, quando, na verdade, é árduo e arriscado. Escrevo profissionalmente há catorze anos e só passado este período é que dei por mim a escrever textos com os quais me sinto totalmente identificado, como os de «Palmas Para o Esquilo», «Os Anormais» e «Batalha», obras que qualifico como sendo as minhas melhores. O meu gosto literário inclina-se para o pirotécnico, para o estilo que os gregos chamaram de auxesis e os romanos de amplificatio: gosto de palavras sesquipedálicas, gosto de inventar palavras – todo o léxico ocidental foi inventado por escritores, para começar. Essa é a tradição de que faço parte. Não me insiro na tradição do entretenimento.

À vista disto, só posso sentir desconsideração por quem trata com leviandade a arte da escrita, menosprezando a importância das palavras e escrevinhando aquilo que eu apelido de filmes disfarçados de livros. Na verdade, não os considero, de todo, escritores. Para mim, ser-se escritor é ser-se erudito, é ser-se alguém para quem o conhecimento e as palavras são as coisas mais importantes do mundo. Pense-se em escritores como Robert Burton, Cervantes, Nabokov, Laurence Sterne, William Gass, Alexander Theroux, entre outros. A literatura anda há demasiado tempo demasiado perto da indústria do entretenimento e precisa aproximar-se, novamente, do conhecimento e das palavras. Precisamos de recuperar a tradição do romance macrocéfalo, enciclopédico. Precisamos de mais macroficções e de menos microficções.

Esta versatilidade de formatos permite-lhe ter uma abrangência fora do vulgar, em termos de público, mas a sua escrita e o tipo de histórias/ensaios que escreve são claramente dirigidos a um público muito específico. Mas também tem uma posição muito forte quanto ao estado da Cultura na sociedade de hoje. Não acha que obras mais acessíveis – não necessariamente dumbed down, atenção – seriam úteis para atrair mais pessoas e, de certa forma, educá-las?

Não acho que a arte tenha de educar ninguém. Pelo contrário: acho que a arte tem de deseducar toda a gente.

Tenho absoluta consciência que a minha obra não é para todos, mas seria incapaz de tornar-me um executante e fazer algo mais comercial, que reunisse com rapidez superior um maior número de leitores. Junte-se um grupo heterogéneo de pessoas numa sala e tente-se encontrar um consenso entre elas: esse consenso terá de ser muito simples, porque, em virtude da multiplicidade de gostos e de opiniões manifestados, apenas uma percentagem reduzidíssima de referências será partilhável. Ao criar-se uma obra com base nessas referências ela será, certamente, gostável pelo grupo inteiro, mas, infelizmente, também será pobre em conteúdo, por culpa da redução de opções que lhe está na origem. Ou seja: as obras mais populares costumam ser, em regra, muito simples. Não estou a imprimir sobre estas obras nenhuma avaliação quanto à sua qualidade, apenas quanto à sua popularidade. No meu caso, as minhas obras contêm sempre um grau elevado de complexidade que advém do facto de eu ser um indivíduo incapaz de fazer coisas simples.

Não estou a ser airoso, estou a ser o mais franco possível. Tenho vocação para complexificar as coisas e criar obras polissémicas que são ariscas a leituras e leitores impacientes. Aliás, os leitores que se aproximarem da minha obra em busca de se entreter e passar um bom bocado farão melhor se pensarem duas vezes e irem procurar outras coisas. Entreter não é comigo, como diria o Léon Bloy: «o autor nunca prometeu divertir ninguém – prometeu até o contrário e cumpriu fielmente a sua palavra». A minha substância não é a de simplificar. Em consequência, tive de aprender a aceitar a realidade de que aquilo que escrevo será sempre para leitores que pensem da mesma maneira que eu; ou, no mínimo, para leitores que gostem de ler sobre os temas que compõem o meu universo autoral, que gostem de conhecimento e que gostem de palavras.

Se a maioria do público não tem vontade ou capacidade de ler obras complexas, isso será um problema que não me diz respeito, assim como acho que não deva ser problema de nenhum autor. O público gosta de ser crítico e de exigir melhores escritores e melhores livros, mesmo que a sua concepção de “melhor” seja discutível, por isso não vejo por que razão é que os escritores não devam exigir leitores melhores: leitores corajosos que, de facto, gostem de ler bons livros. Eventualmente, cada indivíduo procurará obras que o seu gosto e as suas limitações lhe permitam apreciar, por isso sinto-me satisfeito por saber que os meus leitores são pessoas inteligentes, originais e com disponibilidade para aprender.

Continuando na mesma linha, já disse em várias ocasiões que não gosta de feiras de livros nem de bibliotecas. Porquê?

Não aprecio feiras do livro, é verdade, mas entenda-se que o meu ponto de vista é persuadido pelo facto de ser autor. Na verdade, compro dezenas de livros cada vez que vou a uma feira do livro, logo do ponto de vista comercial sou um magnífico cliente.

No entanto, nunca disse que não gosto de bibliotecas: simplesmente, disse que não sou fã de ir a uma biblioteca para ler ou consultar livros, porque prefiro comprá-los e tê-los. Só vou a uma biblioteca consultar um livro se não conseguir comprá-lo nos alfarrabistas ou pela Internet. Para mim, os livros são ferramentas e, assim sendo, preciso de tê-los à mão, preciso que o conhecimento esteja imediatamente acessível. Tento evitar no máximo das minhas capacidades interromper o meu estudo ou a minha escrita durante umas horas ou uns dias só porque me falta um material bibliográfico de consulta em especial: se o tiver em casa não preciso de interromper coisa nenhuma, basta-me ir às estantes. Construo um espaço mental para os livros com base na minha biblioteca pessoal e preciso de ter, em todos os momentos, essa relação de proximidade com eles. Logo, observo as bibliotecas como uma espécie de “disco externo”, que ligo de vez em quando. Mais uma vez, sublinho que o modo como eu olho e vivo este mundo é muito diferente do modo como um leitor o olhará e viverá. O modo como eu lido com os livros será outro, também.

Há pouco falei no conceito renascentista de sprezzatura e, em paralelo, vale a pena recordar que, também para efeito de aproximação comercial ao público, muitos artistas dão uma imagem propositada de que são parecidos com o público, o que não pode estar mais longe da verdade: se os artistas fossem parecidos com o público, eles seriam público. E não são. O público precisa de entender que os artistas não são pessoas normais. Os artistas vêem as coisas de um modo diferente e pensam de modo diferente. É por essa razão que são artistas e são capazes de criar arte.

Também já mencionou algumas vezes que cada vez lê menos ficção. Não será contraditório que um autor que escreve ficção leia pouca ficção?

Não sei se será contraditório, mas sei que é muitíssimo comum: existem inúmeros escritores que não lêem ficção, pelos mais diversos motivos. Alguns até por snobismo – que não deixa de ser um motivo legítimo, note-se. No meu caso, para ser brutalmente sincero, não tenho tempo, nem motivação, para ler histórias, porque, na maioria das vezes, isso é-me desconfortável: a ficção é demasiado cristalina para mim, demasiado atingível. Assim, no que concerne à ficção, somente vou comprando os novos livros escritos por autores que eu admiro e todos os clássicos que, até hoje, ainda não tive oportunidade de ler.

Mesmo lendo pouca ficção, vai acompanhando o que se faz em Portugal?

Essa pergunta fará mais sentido para um leitor. Os leitores é que acompanham as novidades, os novos autores, os novos livros. Isso é um comportamento de fã. Eu não sou um fã, mas um autor. Não acompanho nada: escrevo e os meus livros são publicados. É tão simples quanto isso.

Falando da sua BD, demonstra sempre uma grande admiração pelo traço do Pedro Serpa, com quem já participou em duas BD (O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambas da Kingpin). Acha que a simplicidade e a clareza do traço dele são o contraste ideal para a sua escrita complexa?

Admiro o Pedro Serpa pela qualidade do seu desenho, que considero um dos melhores da nossa actualidade, e pelo facto de ele ser temerário e não resmungar quando lhe peço para desenhar um dragão deitado em centenas de caveiras, todas diferentes. Mas gosto de trabalhar com ele no mesmo feitio que gosto de trabalhar com outros desenhadores que compreendem os meus métodos.

Os meus livros de banda desenhada são imaginados, escritos, planificados e esboçados por mim antes dos desenhadores serem convidados a concretizar a minha visão. No meu caso, as parcerias surgem somente da minha necessidade de ter desenhadores que dêem corpo às minhas visões, não preciso de ninguém para criar uma história a meias. Quando entrego as histórias aos desenhadores para serem desenhadas elas já estão fechadas e planificadas. É óbvio que os desenhadores têm liberdade para criar; em especial, na caracterização de personagens e de ambientes, desde que as suas escolhas gráficas não se intrometam na montagem das sequências e dos planos, porque, como penso nos livros como um todo, uma ténue mudança de plano ou de sequência numa parte, não fará sentido narrativo com outras partes que surjam adiante. É por isso que peço aos desenhadores para seguirem escrupulosamente as minhas planificações. O que não invalida que eles tenham boas ideias que sejam aplicadas: o Pedro Serpa, por exemplo, em «Palmas Para o Esquilo» decidiu que nenhuma personagem deveria ter sombra, excepto as que defini no argumento como sendo essenciais para a história. Foi uma excelente ideia, que fez todo o sentido no livro em questão, tornando-o mais misterioso – o leitor até pode não se aperceber imediatamente desse pormenor, mas ele irá criar uma sensação perturbante na leitura. O André Coelho, em «Sepulturas dos Pais», livro que iremos publicar este ano pela Kingpin Books, também teve boas ideias para a construção gráfica de ambientes que tornaram o resultado final ainda mais perturbador. Esse tipo de sinergias e de troca de boas ideias é que, para mim, são as verdadeiras colaborações. No fundo, quando toda a gente envolvida no projecto é profissional e segura em relação às suas qualidades o resultado final só pode ser bom. Infelizmente, já tive de cancelar colaborações com alguns artistas que apenas queriam inventar as suas histórias a partir das minhas ideias, porque, convenhamos, criar algo a partir de uma história já escrita e planificada é muito mais fácil que imaginar uma a partir do zero. Não tolero esse tipo de parasitismo e falta de talento.

Aquilo que a maioria do público não se apercebe é que quem deseja escrever não escolhe, à partida, a banda desenhada, que é uma linguagem abordada, em primeira instância, por quem quer desenhar. Todavia, querer desenhar é muito diferente de fazer banda desenhada, que é uma linguagem narrativa. A maioria dos desenhadores não quer transmitir ideia nenhuma: somente quer mostrar que desenha bem – é por isso que quase todos os livros de banda desenhada criados, em exclusivo, por desenhadores são maus de um ponto de vista literário. Em essência, nesses livros cada vinheta transforma-se numa tela para mostrar virtuosismo gráfico, em vez de consistir parte de uma sequência harmoniosa, pensada para integrar-se num todo. De facto, são livros muito mal sequenciados. São raros os artistas que têm boas competências narrativas e existem muitos desenhadores que só estão interessados em colaborar com um escritor se este se limitar a dar umas ideias para esses, depois, desenharem o que quiserem.

Ora, eu não poderia trabalhar de forma mais diferente, porque não sou um simples argumentista: sou um autor, o que, à luz do que disse anteriormente, significa que tenho um universo autoral próprio, estruturado numa obra que já conta com quase vinte livros, de banda desenhada e prosa. Daí que quando convido um desenhador para dar corpo à minha visão, ele é que tem de adaptar-se ao meu universo e não o contrário.

Além da escrita, outra marca distintiva da sua obra são os temas, frequentemente macabros e sempre pesados, ou tratados de forma pesada. Não há lugar para ligeirezas, no tema ou na linguagem. Claramente são temas que de certa forma o preocupam, mas disseram-me uma vez algo muito interessante e que espero ainda me lembrar como deve ser: numa entrevista que nunca consegui encontrar, o David disse que ficava obcecado com um tema, escrevia três coisas sobre o assunto, para o encerrar, e avançava. É de facto assim?

Essa é uma leitura incorrecta de algo que eu disse algumas vezes e que é o seguinte: a minha obra vai sendo criada através de fases diferentes. O que acontece é que eu observo os meus temas de um determinado ponto de vista autoral e essa observação pode demorar-se por dois, três livros, quatro livros, nunca sei quanto tempo vai durar. Em seguida, esgoto esse ponto de vista – temporariamente ou em definitivo – e encontro um novo. Imagine-se que os meus temas são um modelo e eu vou desenhando à volta desse modelo, de acordo com diversos pontos de vista: o modelo é sempre o mesmo, os pontos de vista é que vão mudando. São assim, os meus livros: são observações, interrogações que eu faço aos temas que me deslumbram e que me inquietam.

Essas várias fases diferenciam-se por tónicas, certas insistências semânticas ou técnicas, pendores, dimensões. Pode acontecer que, em determinado momento, me encontre mais preocupado com um ponto de vista alegórico, por exemplo, em oposição a um ponto de vista realista. Os meus romances «A Conspiração dos Antepassados» e «O Evangelho do Enforcado» têm um pendor mais realista que «Batalha» ou «Lisboa Triunfante». Este vai mais ao encontro da autenticidade, sem querer, de facto, ser realista, embora, na minha cabeça, pertença ao mesmo ponto de vista que «A Conspiração dos Antepassados» e «O Evangelho do Enforcado». Bandas desenhadas como «Mucha», «O Pequeno Deus Cego» e até «Palmas Para o Esquilo» são mais alegóricas que bandas desenhadas como «Mr. Burroughs» ou «Sammahel», que estão mais preocupadas em explorar os mecanismos da criação artística. «A Última Grande Sala de Cinema», «Os Anormais» e «Palmas Para o Esquilo» são uma variante de uma preocupação autoral minha que eu apelido de Teoria do Todo: são visões que partem do microcosmos para o macrocosmos, obras em que eu começo por falar sobre assuntos muito próximos de nós para, num ápice, estar a discorrer sobre física, cosmologia, história e a interligar esses elementos num todo coerente e fluido. No primeiro caso, o ponto de partida é o cinema; no segundo, a deformidade; no terceiro, é a loucura. «Batalha» é, sobretudo, um romance sobre linguagem, sobre palavras. Cada livro tem preocupações distintas e observa os meus temas de um ponto de vista diferente.

E qual é exactamente a sua relação com a religião e o oculto? Afinal, é ateu, mas não me parece que tome uma posição excessivamente crítica. Também ainda não li o Batalha, confesso, portanto esta questão já pode estar respondida, mas tanto em A Conspiração dos Antepassados como em O Evangelho do Enforcado (os três livros são da Saída de Emergência), há uma identificação, ou pelo menos ligação, entre a arte e a religião. Porquê?

Não vejo essa ligação apontada entre a arte e a religião e tenho alguma dificuldade em ver onde é que ela poderá existir, mas estou aberto a essa possibilidade. A minha relação com a religião e com o oculto é baseada no puro interesse histórico. Sou um estudante desses temas e gosto de escrever sobre eles, mas não acredito em nenhuma manifestação do sobrenatural, seja de ordem religiosa ou mágica. Aliás, a magia é, ela própria, uma crença. Com efeito, sou ateu, nem sequer sou agnóstico. Para a maioria das pessoas é provável que a dimensão humana não seja suficiente, mas para mim é. Todavia, reconheço que a espécie humana é a da transcendência: precisamos dela e é por essa razão que inventámos a arte, a ciência e a religião. O problema é que a ciência é demasiado complexa para ser acompanhada pela maioria das pessoas e, por culpa disso, não as faz sonhar. Por outro lado, as religiões e o oculto são sistemas muito simples, estruturados em conceitos basilares fáceis de perfilhar e interpretar. Não deixa de ser irónico que as leis da magia sejam em número idêntico às quatro forças físicas: são a lei da similitude, a lei da contrariedade, a lei do contágio e a lei da contiguidade. Com estas quatro leis, formuladas desde os tempos clássicos, gregos e romanos, estrutura-se, praticamente, todo o edifício do ocultismo ocidental. A maioria dos indivíduos precisa de ideias previsíveis e de um sistema previsível, porque o mundo e o universo são altamente imprevisíveis, embora não pareçam. A ciência é um sistema que, volta e meia, é revisto, quando surgem novas descobertas que tornam obsoleto ou incompleto o conhecimento anteriormente adquirido. Esse labor de revisão é anátema para qualquer religião revelada, porque uma religião revelada ergue-se sobre verdades imutáveis. A autoridade das religiões reveladas consiste na sua imutabilidade e essa qualidade é que conforta os seguidores.

Posto isto, acho que a separação de magistérios, chamemos-lhe isso, entre ciência e ocultismo, nem sempre foi clara e linear. No campo da medicina, por exemplo, somente a partir da aceitação da teoria dos germes é que as práticas médicas se foram, gradualmente, desenvolvendo numa esfera apartada das crenças mágicas e ocultistas. Nos séculos XVII e XVIII não existia grande diferença entre a medicina e a magia. O ocultismo ocidental contemporâneo é uma herança do revivalismo ocultista europeu da segunda metade do século XIX, que foi um movimento contracultural anticientífico. Na verdade, a partir desse período é normal encontrar-se ocultistas que rejeitam, liminarmente, a ciência e cientistas que repudiam, veementemente, o oculto, mas nos séculos anteriores ambos os sistemas estavam mais próximos e era comum encontrar-se cientistas-ocultistas e ocultistas-cientistas. A fronteira entre o ocultista e o cientista era mais delgada, ambos partilhavam mais travejamentos.

Até agora, todas as histórias que li suas me pareceram fechadas, com um princípio, um meio e um fim, sem pontas soltas relevantes. Considera que é assim, ou acha que há espaço em algum trabalho para algum tipo de regresso?

Não tenho ideias de regressar a nenhum dos meus livros para criar uma sequela, uma prequela, um remake ou um reboot. Como disse, cada livro é uma observação pensada num determinado momento e, sendo assim, não faz sentido refazer uma observação: faz sentido fazer observações novas, com novos pontos de vista.

Aligeirando a conversa, o que é que pode dizer sobre Sepultura dos Pais, que já tem lançamento anunciado para Outubro? Pelas imagens que já divulgou, parece-me mais próximo de Cidade-Túmulo e A Última Grande Sala de Cinema (ambos da Círculo de Abuso), pelo menos em termos visuais.

«Sepulturas dos Pais» é um livro sobre o fracasso. É muito duro, mas encerra na perfeição uma das minhas obsessões autorais: a de que entre o lixo mais sórdido se encontram as flores mais maravilhosas. Gosto de trabalhar esses conceitos antagónicos e de perceber até que ponto se podem aproximar sem se anularem. Basicamente, é agarrar na miséria para descobrir magia e agarrar na magia para descobrir miséria. Muitas vezes, basta somente mudar a fonte ou o grau de iluminação para que uma se transforme na outra. O desenho do André Coelho é perfeito para esta história e transmite uma força e uma negrura que, espero, impressionarão os leitores. De um ponto de vista da técnica do desenho, o André faz coisas espantosas com o preto-e-branco: as texturas que criou para «Sepulturas dos Pais» são de uma organicidade como raras vezes tenho visto. Gosto muito de trabalhar com o André, com quem já colaborei num dos capítulos de «É de Noite Que Faço as Perguntas» e recomendo vivamente o seu livro «Terminal Tower», feito em colaboração com Manuel João Neto.

E para terminar, que perspectivas há de outros trabalhos futuros?

Estou a trabalhar, alternadamente, num romance, num livro de não-ficção e num livro de banda desenhada. O romance seguirá a fase iniciada com «Batalha», mas numa toada muito mais niilista. O livro de não-ficção é um trabalho de longa-duração sobre um tema que eu conheço muito bem e sobre o qual irei apresentar algumas visões heteróclitas sobre temas que muita gente pensa estarem esclarecidos. A banda desenhada intitula-se «O Poema Morre» e consiste numa história negríssima e duríssima sobre guerra.

sábado, 5 de julho de 2014

O que o Filipe Faria sempre quis saber

Ele que me desculpe por usar uma foto dele tão novo...
Depois de uma conversa na Feira do Livro deste ano com um dos meus autores favoritos, Filipe Faria, tive a oportunidade de trocar uns e-mails com ele, para lhe enviar as minhas opiniões e crónicas do mega empreendimento que foi ler As Crónicas de Allaryia de uma assentada.

Aquele que é, realço, o autor de uma das sagas literárias pela qual tenho mais afeição, mostrou bastante interesse e entusiasmo, e respondeu com muita simpatia, que também distribuiu em abundância durante a nossa conversa. É definitivamente um autor que tenciono voltar a encontrar em futuras edições da Feira (ainda tenho seis livros para ele assinar...).

Mas fiz-lhe uma pequena maldade. Uma proposta no mínimo estapafúrdia. Aproveitei-me da boa vontade e da simpatia deste escritor para lhe roubar uma "entrevista" (já explico as aspas). Na troca de e-mails que já referi, consegui suprimir a histeria de estar a falar com a pessoa que criou o melhor vilão que conheço - TEAM SELTOR!!! - e pedi para lhe fazer uma entrevista para publicar aqui no blog. Bem, pedi-lhe para me fazer uma entrevista. Pormenores. O que interessa é que ele acedeu.

O que vão ler a seguir é o resultado. Decidi inverter os papéis e pôr o autor, normalmente o entrevistado, a fazer perguntas ao blogger/fã, normalmente o entrevistador. A ideia era tornar isto mais interessante, quer dizer, qualquer macaco faz uma entrevista a um autor, mas quantas pessoas é que são entrevistadas por autores? Toma!

O Filipe Faria fez assim uma série de questões sobre As Crónicas, às quais respondi enquanto leitor, fã parcial, blogger crítico e gozão incurável. Divirtam-se!

Filipe Faria é autor de As Crónicas de Allaryia, uma saga de fantasia épica, e de Felizes Viveram uma Vez, uma saga de fantasia em construção sobre as personagens dos contos de fadas. Escreveu o seu primeiro livro, A Manopla de Karasthan, com o qual ganhou o prémio Branquinho da Fonseca atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo semanário Expresso. Já teve incursões pela tradução e pela BD, diz que tem um projecto no forno e continua a escrever de uma forma geral. Podem visitar o seu site oficial aqui.



- Pessoalmente, tenho a convicção de que, boa ou má, uma história triunfa ou claudica consoante a força das suas personagens e o elo que os leitores com elas estabelecem. Como é que me saí nesse capítulo?


Bem, não consigo responder a isto de forma imparcial. Desde a primeira vez que li A Manopla de Karasthan que criei uma ligação com algumas das personagens, como o Babaki e o Worick, por exemplo. Na segunda leitura da saga, há relativamente pouco tempo, notei uma certa empatia com praticamente todas as personagens principais (embora umas me irritassem mais do que outras, não é Lhiannah?), mesmo tendo noção dos defeitos de caracterização com que tinham sido criadas.

Estes defeitos de que falo têm a ver com todas as personagens serem estereótipos muito fortes: todas, ou quase todas, começam como nada mais nada menos do que reciclagens de raças de Tolkien e companhia, mas com nomes diferentes. É que era difícil terem começado mais... genéricas.

No entanto, com o passar dos livros, as personagens tomaram caminhos interessantes e surgiram até algumas que brilharam completamente: Kror, Seltor, Culpa, Tannath... Sim, eu sei, muitos vilões. Acho que foram realmente o ponto forte, em termos de personagens, e conseguiram carregar a saga às costas. Especialmente no caso de Seltor e de Tannath. Kror conseguiu tornar Aewyre interessante, quando este passou pela sua fase complexada, mas Tannath foi causa de surpresa atrás de surpresa, e Seltor... Bem, é o meu vilão favorito, isso diz tudo.


- Certa vez, um leitor disse-me que eu tinha "um gosto bastante saudável por um certo uso do erotismo", mas que o escrevia "com muita graça e moderação", enfatizando a parte da moderação. Com base na tua leitura das Crónicas, em que campo te situarias? 50 Sombras de Allaryia ou Jane Eyreth?

Nem um nem outro. Confesso que a minha reacção à generalidade das cenas mais sensuais da saga é a mesma que a minha reacção às cenas de sexo nos livros do Stephen King: mato-me a rir. E isto é injusto! Mas não consigo tirar da cabeça um Aewyre frustrado a gritar “Mas eu usei a tripa de porco!”, ou a frase mais romântica de sempre, um dos ex-líbris desta saga, “Vamos fazer um bebé.”

Falando mais a sério, não acho que essas cenas estejam exageradas, nem que sejam demasiado leves. Tirando alguns casos pontuais. Talvez dê para situar a saga na média das 50 Sombras de Allaryia e de Jane Eyreth. O que se passa muitas vezes é que acabam por aparecer de forma algo abrupta e, bem, awkward, principalmente no início. Felizmente é algo que, como tudo nesta saga, melhora consideravelmente com o passar dos livros.


- Qual a raça/povo de Allaryia que mais te fascinou ou que achaste mais bem concebida e desenvolvida? Porquê?

Pergunta complicada. A primeira coisa que me veio à cabeça foi “os humanos”. Sim, no meio de tanta coisa, comecei por pensar nos humanos. O Aewyre tem uma boa evolução, embora eu não seja fã da personagem, e acaba por ser uma representação bastante fiel do que é um ser humano. Desde a arrogância e impetuosidade da juventude até à sobriedade e gravidade auto-infligidas, tudo em Aewyre é o que de mais típico se pode ver numa pessoa comum, ainda que levado a extremos ou a interpretações diferentes do habitual.

O povo de Tanarch também tem a sua relevância e papel preponderante nos desenvolvimentos da segunda metade do livro, bem como os wolhynos mas não quero bloquear essa resposta.

Sinto-me tentado a apontar os drahregs, em grande parte graças ao Kror, uma personagem soberba, mas esta associação lembra-me imediatamente de um povo que teve algum destaque e me deixou sempre muito curioso: os Cho Tirr.

Aqueles tipos estranhos dos desertos de neve, montados nos seus cavalos robustos e pequenitos... Criaturinhas fascinantes. E acabam por ter um desenvolvimento muito forte, por contraste com o grupo de protagonistas e com os vilões. Ao situar um grupo reduzido de personagens “estrangeiras” no meio de um acampamento de Cho Tirr, o leitor é empurrado para uma situação de estranheza, em que é possível sentir-se desconfortável perante a familiaridade dos Cho Tirr, que nos é, enfim, estranha. Acho que levam a medalha, sim.

- Combates nas Crónicas: "uau, parece um filme", ou "dasse, estava a ver que nunca mais acabava"?

O nível de detalhe é certamente cinematográfico, se pensarmos em sequências de acção como em 300, em câmara tão lenta que é possível contar o número de gotas de sangue que salpicam o ar. O que não é nem bom, nem mau... É estilo. Gostar ou não, já depende.


As primeiras cenas de luta da saga são exaustivas sem serem propriamente interessantes. Acontece por vezes haver um certo foco em pormenores, sem que a acção principal deixe de decorrer à mesma velocidade. É como se ao ver uma cena duma batalha, estivessemos focados na forma como a luz incide na espada do inimigo, e quando acabamos a nossa reflexão, já a batalha acabou.

Depois há as cenas mais épicas, como a batalha no final de Marés Negras, que achei bem trabalhadas e em que se manteve um bom equilíbrio entre os milhares e milhares de intervenientes e o grupo restrito de protagonistas.

Há ainda um terceiro caso, que tem basicamente só uma instância: a batalha entre Quenestil e Tannath, no vulcão, que muita gente diz que se arrasta demasiado. Eu não acho. Está detalhada, está longa, mas é uma parte tão importante da história, que faz todo o sentido.

- Palavreado das Crónicas: "é tão fixe aprender palavras novas", ou "ó para este, a armar-se aos cágados"?

Definitivamente a primeira opção. Nunca me vou esquecer do significado de "barbacã". Ou de "anátema". Mas eu sou suspeito, que adoro palavras esquisitas. Muitas que chatearam outros leitores, não me fizeram espécie porque já as conhecia, e outras deixaram-me fascinado. Por exemplo, foi a ler a saga que descobri a palavra “gavinhas” e uso-a frequentemente nos meus contos, com algum sucesso, que já tive várias pessoas a repararem na palavra e a gostarem!

- Se tivesses de escolher uma personagem que pudesses apagar em definitivo da história das Crónicas, qual seria? E porquê?

Acho que a Lhiannah. Nunca fui fã desta personagem, que começa como uma menina mimada com a mania que é rebelde, e que mesmo tendo uma evolução positiva não passou de irritante. É verdade que até gostei de a ver separada do grupo (ficou um pouco mais tolerável) mas muitas vezes o seu papel parecia ser o de servir de paixão para o Aewyre.

E é assim, a paciência tem limites. A sua participação envolveu mais do que uma vez reacções questionáveis e ridículas, de menina mimada e histérica, que fazem sentido para o tipo de personagem, mas que são absolutamente insuportáveis. E convenhamos, a Lhiannah é uma personagem que, bem analisadas as coisas, não faz tanta falta quanto isso à narrativa e cujo papel podia facilmente ter sido cumprido pelas outras.

- Por outro lado, qual a personagem que devia ter tido mais protagonismo e capítulos que os que teve?

O meu primeiro impulso foi “SELTOR!”, mas nunca na vida. Enquanto vilão ganha muito mais por aparecer pouco, bem doseado. Cria mistério e aumenta a creepiness em redor da sua personagem. Depois pensei logo “BABAKI!”, mas o final precoce desta pobre personagem peluda foi algo bom para a saga. Obrigou as personagens a crescerem e a consolidarem-se, deu-lhes um trauma real, partilhado com o leitor, o que as tornou mais vívidas e acrescentou gravidade à saga, marcando, para mim, um ponto de viragem: da série inconsequente e juvenil iniciada em A Manopla para a série negra, violenta e de temas pesados acabada em Oblívio.


Pensando no resto das personagens, uma que gostei bastante de acompanhar foi Kror, mas acho que até teve o protagonismo que merecia, com o arco narrativo da Essência da Lâmina e os seus alfanges fascinantes.

Talvez dar mais tempo de antena ao pai de Aewyre não fosse má ideia, que pareceu-me ser uma personagem interessante, mas a sua curta aparição também faz sentido e está bem como está. É uma pergunta complicada, esta. A verdade é que ao longo de sete livros com uma média de 400 páginas, complicado é haver uma personagem com protagonismo insuficiente: há espaço e tempo para toda a gente.

Mas ainda assim... Talvez... Sim, talvez Dilet, o fascinante bobo. E aquele thuragar sem nariz cujo nome não me lembro, e o tipo de boca cosida. Sim, acho que sim. Os arautos de Seltor (menos Tannath, que já foi muito bem utilizado) mereciam um pouco mais de destaque, não só pela importância que têm na história mas também pelas suas particularidades.

- Para terminar, onde se situaria cada companheiro, incluindo os falecidos, num Top 8 elaborado por ti?

Bem, esta pergunta também não é simples. Só há três lugares de que tenho a certeza: Worick em primeiro, Babaki em segundo e Lhiannah no fim. O Worick é uma personagem e pêras, pertencente a uma raça feita a partir do que de pior havia nos humanos, consegue demonstrar um carinho e uma preocupação extraordinária por Lhiannah, e as suas interacções com Taislin são simplesmente hilariantes. Tem uma evolução muito boa e demonstra-se sempre útil e relevante para a narrativa. Mais do que um soldado empedernido, um thuragar maldisposto, ou um companheiro rabugento, Worick revela-se uma figura paternal extremosa e ganha assim, facilmente, o primeiro lugar.

Babaki leva claramente o segundo lugar. O conflito entre a sua natureza amigável e pacífica e o seu legado shakarex é dos arcos narrativos secundários mais interessantes de toda a saga, apesar da sua curta duração. O contraste entre o Babaki que brinca com passarinhos e o Babaki máquina de matar é forte, muito forte, e dá uma grande densidade à personagem desde muito cedo, contrariamente ao resto do protagonistas.


Já Lhiannah não hesito em deixar para o fim. Como já referi é uma personagem irritante e que acho que não se perdia nada se saísse de todo das Crónicas.

Os restantes cinco lugares... Bem, acho que para terceiro atiro o Taislin. É das personagens com uma maior evolução e que adquire um papel cada vez mais relevante com o passar dos livros. No começo parece uma criança chata, no fim está uma personagem madura e importante. Além de que as constantes picardias com Worick proporcionam alguns dos momentos mais hilariantes de toda a saga.

Pensando bem no assunto, acho que consigo ver outro lugar relativamente fácil: o de Slayra, que fica para sétimo lugar. Tem uma evolução pobre e aos soluços, passando de desagradável a amorosa a cabra a novamente amorosa em passos descontínuos. Não é credível e é uma falha de caracterização numa personagem com tanto potencial.

Agora sim, os lugares complicados. Aewyre, Allumno e Quenestil. Não sou particular fã de nenhum dos três: o primeiro é demasiado herói bonitão, o segundo é demasiado sábio estereotipado, e o terceiro é demasiado ingénuo e moralmente rígido.

No entanto acho que Aewyre é quem evolui mais e melhor. As constantes desgraças que o atingem moldam-no muito fortemente, e rapidamente se torna num verdadeiro líder. A demanda da Essência da Lâmina também lhe dá uma vertente interessante, ao fazê-lo interagir com Kror e inclusivamente a ajudá-lo, tratando-o mais como um companheiro do que como um verdadeiro inimigo. O quarto lugar para este homem, se faz favor.

Entre Quenestil e Allumno, a escolha é complicada, mas vou pôr Quenestil em quinto e o Allumno em sexto, só por causa da evolução do eahan e da sua preponderância no final. O mago não é uma má personagem, mas cai facilmente no aborrecimento e ensombra demasiado a personagem de Zoryan, o seu mentor de alma aprisionada na gema que tem na testa.

Ou seja, bem vistas as coisas, fica assim: Worick, Babaki, Taislin, Aewyre, Quenestil, Allumno, Slayra e Lhiannah.

*PUB* E agora mesmo para terminar, porque é que ainda não começaste a ler o Felizes Viveram Uma Vez, e o que pensas fazer a respeito disso? *PUB*

Juro que ando com bastante curiosidade. Até porque da primeira vez que abri o Perraultimato, numa Feira do Livro, me deparei com uma personagem a esventrar outra. Melhor augúrio não podia ter. Mas entre dificuldades económicas que me obrigam a ser muito criterioso com o que compro e não compro, e uma lista de livros a ler maior do que a quantidade livros que vou conseguir ler na minha vida toda, esse tem passado.

Nesta Feira ia lançado para o comprar, mas só tinham a edição com a primeira capa, que não só não é a minha favorita, como iria destoar do resto da colecção, e isso não pode acontecer! Da próxima vez que tiver uma oportunidade, no entanto, não hesitarei.

P.S.: as ilustrações são da autoria do Samuel Santos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Entrevista no blog "Rute Canhoto"


Há uns dias fui contactado pela Rute Canhoto, autora de um blog e de alguns livros, para responder a alguns perguntas e assim dar uma pequena entrevista. O resultado está aqui. Obrigado Rute!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pseudo-entrevista: Catarina Coelho

E cá está a anunciada segunda pseudo-entrevista, desta vez feita à simpática Catarina Coelho, autora d'"A fantástica aventura dos anões da Luz - Em busca de Sulti" e de "John Lennon nunca morreu e outros contos fantásticos", do qual já sorteámos um exemplar, aqui no blog.

"Catarina Coelho nasceu em Lisboa, em 1984, e vive no Montijo. Desde sempre leitora compulsiva, revelou, logo em criança, um enorme gosto por livros e por contar histórias. Quando aprendeu a escrever, começou rapidamente a passar para o papel pequenas histórias, onde tentava dar vida e corpo às ideias e personagens que lhe povoavam a imaginação. Em 2002, iniciou a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de estudos Portugueses e Ingleses, na Universidade Nova de Lisboa, tendo sido, em grande parte, a sua paixão pela literatura o que a levou a escolher essa área de estudos. Aos vinte anos, escreveu A Fantástica Aventura dos Anões da Luz – Em Busca de Sulti. Para além do romance referido, é também autora de vários contos de fantasia destinados a um público infantil. Após concluir a licenciatura, começou a leccionar Inglês no 1º Ciclo do Ensino Básico, actividade que continua a exercer. Encontra-se actualmente a escrever um novo romance, o qual procura combinar o género de fantasia com o típico romance inglês do séc. XIX."

As perguntas são as mesmas da entrevista anterior, algo disparatadas e sem qualquer tipo de sequência lógica, portanto já sabem o que vos espera... Acho que está na altura de dar a palavra à entrevistada.

1. Se pudesses entrar na mente de um qualquer escritor, qual seria e porquê? 
R.: Essa é uma boa pergunta e a resposta não é simples, sobretudo porque me é muito difícil escolher apenas um escritor. A minha resposta tem de incluir pelo menos Charlotte Brontë, Juliet Marillier, Jane Austen e Daphne Du Maurier. Isto porque escreveram livros que me fascinaram imenso e parte de mim questiona-se como foram capazes de criar tais enredos e de escolher tão bem as palavras que usaram. Entrar nas suas mentes seria uma oportunidade única de tentar satisfazer a minha curiosidade!

2. Trocavas a tua vida para viveres as histórias que escreves?
R.: Esta resposta é capaz de não ser particularmente interessante, mas não. Há coisas na minha vida de que gosto demasiado para isso. Mas, se não tivesse de trocar a minha vida e pudesse visitar as minhas histórias e voltar, gostaria sem dúvida de ir até aos mundos que eu própria invento e conhecer algumas das personagens.

3. Quando escreves, qual é o teu maior medo?
R.: Penso que é não conseguir pôr em palavras (ou com as palavras certas) as situações e personagens que me povoam a cabeça. Do momento em que se imagina um mundo, com determinadas situações e personagens, à concretização disso no papel vai um grande passo.

4. Como é que te dás com a revisão dos teus próprios textos?
R.: Não costuma ser um processo complicado. Mudo pouco ou nada da história quando faço a revisão. As mudanças, no meu caso, vão acontecendo à medida que escrevo. Quanto a mudar palavras ou frases, isso faço, claro, mas, de um modo geral, as mudanças surgem-me naturalmente, como opções melhores que não vi à primeira. Só se torna menos fácil quando vejo que, numa determinada frase, há uma expressão de que gosto muito (e que, por isso, não quero modificar), mas que, no entanto, deve ser mudada, porque não fica muito bem com o que vem a seguir. Porém, mesmo nesses casos, é sempre possível encontrar soluções de compromisso.

5. Se alguém fizesse um filme baseado num livro teu, que personagem achas que serias capaz de encarnar?
R.: Não tenho jeito nenhum para representar, mas, tratando-se daquilo que escrevo, é sempre mais fácil imaginar-me a representar uma personagem. Creio que conseguiria encarnar a Stella, do conto “A Troca”, bem como a Elizabeth, do conto “Espelhos”, porque ambas, de diferentes formas, defendem causas que a mim também me dizem muito. Para além disso, sendo eu fã dos Beatles, seria igualmente capaz de encarnar o James, que é o protagonista do conto “John Lennon Nunca Morreu”, embora aí o argumentista tivesse provavelmente de transformar o James numa Jane ou algo do género! Isto em relação ao livro John Lennon Nunca Morreu e Outros Contos Fantásticos, acabado de publicar. Mas creio que também seria interessante encarnar a protagonista do romance que estou a escrever e que é passado em parte na Inglaterra do séc. XIX (época que me fascina), em parte num mundo fantástico. Mas, neste caso, receio que não me convenha muito dizer mais, já que o romance ainda está a ser escrito.

6. Qual o bocadinho de ti que mais deixas no que escreves?
R.: Vários sentimentos e sensações, do presente e do passado, positivos e negativos. Acho que isso é provavelmente o que mais deixo de mim no que escrevo.

7. Qual foi a decisão mais difícil que já tiveste que tomar relativamente a uma personagem?
R.: Esta pergunta fez-me lembrar uma personagem deste novo livro que agora foi publicado. Não vou nomear a personagem nem o conto, para não estragar a leitura a ninguém, mas lembro-me que foi bastante difícil decidir como é que essa personagem iria acabar, como/se iria resolver os conflitos que a atormentavam e que, ainda por cima, não estavam fora, mas dentro dela, o que, por vezes, é pior.

8. Quais são as tuas principais inspirações (sejam livros, autores, músicas, situações…)?
R.: Bem, são várias!... Estão preparados para uma lista? No que toca a autores, creio que as minhas grandes inspirações vêm dos seguintes escritores: Juliet Marillier, Charlotte Brontë (e as outras irmãs Brontë também), Tolkien, Daphne Du Maurier, Jane Austen e Alexandre Dumas (com o seu Os Três Mosqueteiros – as mensagens e ideais de justiça, amizade e lealdade nele presentes sempre foram uma inspiração para mim). A música também me inspira bastante. Antes de mais, tenho de referir os Beatles (e os membros deste grupo nas suas carreiras a solo, sobretudo Paul McCartney e John Lennon, embora também George Harrison), o que não espantará ninguém, dado o conto que dá o título a este novo livro. Mas não só. Também me inspiram bastante Loreena McKennitt (e outros cantores de inspiração celta ou semelhante, como Enya, por exemplo), Leonard Cohen, Bob Dylan, Elvis, os Queen e música clássica, sobretudo a de compositores como Tchaikovsky, Mozart, Strauss, ­­­Beethoven e Vivaldi. Há filmes e séries que também são fonte de inspiração para mim: as séries de época da BBC, como “Orgulho e preconceito”, “Jane Eyre” ou “North and South”, a série americana “Twilight Zone” (a original), os filmes de Alfred Hitchcock (“Vertigo”, “Marnie”, ”Os Pássaros” ou “Rebecca” – adaptação do clássico de Daphne Du Maurier - são apenas alguns exemplos), a série “Uma Casa na Pradaria”, os filmes da trilogia “O Senhor dos Anéis”, “O Clube dos Poetas Mortos” e alguns clássicos do terror. E também animação. Por muito que isto espante os leitores, sou apreciadora e defensora da boa animação. Há filmes e séries de animação que me inspiraram, como “A Bela Adormecida”, de Walt Disney, os filmes de Hayao Miyazaki e de outros realizadores do estúdio que ele fundou, os Estúdios Ghibli, e as séries “Os Três Mosqueteiros”/”Anime Sanjushi” e “Ana dos Cabelos Ruivos”.

9. Qual foi a coisa mais disparatada que já escreveste?
R.: Provavelmente, as coisas que escrevi na adolescência.

10. Quem é a primeira pessoa a ler os teus manuscritos?
R.: O meu namorado. Estamos juntos há nove anos e ele tem tido sempre paciência para ler o que escrevo. Agradeço-lhe por isso.

11. O que achas do Novo Acordo Ortográfico?
R.: Como diz Bartleby, uma personagem de Herman Melville, “I would prefer not to.”! Preferiria sem dúvida que as coisas tivessem sido deixadas como estavam. Para além de adorar a nossa língua e ter a sensação de que, com o novo Acordo Ortográfico, o Português se afasta demasiado daquilo que era até agora, não me parece que nós, os brasileiros e os outros falantes do Português tivéssemos assim tantos problemas em compreendermo-nos.