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sábado, 25 de abril de 2015

Estantes Emprestadas [16] - Universos Partilhados


O Joel é um tipo fantástico. É mais um amigo/colega da Oficina de Escrita que recruto para esta rubrica, e mais um que de certeza me vai responder de forma espectacular. Dono de um humor peculiar, mas fantástico, e de uma imaginação sem limites, podem segui-lo principalmente pelo seu site e restantes links que por lá encontrarem. Acreditem que vale a pena. Já o entrevistei, já lhe li algumas coisas mais pequenas, e outras assim a dar para o maiorzito, além de todos os contos que submeteu para a Oficina, e sou fã. Vocês preparem-se!


Tenho um fraquinho por Universos partilhados. Nem vale a pena tentar esconder. Há qualquer coisa no conceito de algo maior onde todas as histórias cabem, que me fascina. Aquela sensação de continuidade ao longo de vários livros independentes, ou que atravessa vários episódios de várias séries diferentes... É qualquer coisa.

Já tentei muitas vezes tentar perceber o porquê, e ainda não tenho a certeza. Mas em parte só pode estar relacionado com a forma como esses Universos me deixam mergulhar mais completamente nas histórias. Mais que não seja porque o autor teve que pensar em muito mais do que apenas aquele livro e aquela história, tornando-a assim mais coerente e mais forte.

Por outro lado tem a ver com fascínio puro. É quase como uma mitologia. Uma história muito maior do que aquela que estiver a ler naquela momento, e que de certa maneira tem influência em tudo. Já para não falar dos pormenores que vão surgindo aqui e ali, por vezes de tal forma subtis que passam completamente ao lado até sabermos da história toda.

E nessa altura, tudo faz sentido. Pode ser uma explicação dada pelo autor numa entrevista, ou uma situação demasiado óbvia noutro livro, mas dá-se aquele click e todo um novo mundo universo se abre diante de nós!

Querem um exemplo simples e porreiro? A Middle-Earth de Tolkien. Não exemplos muito melhores de um enorme Universo dentro do qual o autor inseriu (quase) todas as suas histórias. Funciona? E de que maneira! Tolkien é um caso particular, que o mundo que ele criou é particularmente detalhado e ele foi particularmente meticuloso nos seus livros, mas não deixa de ser representativo por causa disso.

Aqui está um bom exemplo de um autor que cria um universo e depois escreve histórias sobre o que se passa nesse mundo. Adopta diferentes (mais ou menos, vá) pontos de vista, aborda diferentes (mais ou menos, vá) histórias e consegue realmente construir toda uma mitologia, digamos, funcional.

Outro caso completamente diferente é o de Stephen King, que não só é um dos meus autores favoritos, como foi um dos primeiros de cujo Universo partilhado me apercebi. Isso acontece porque ainda não li nada de Dark Tower, saga na qual já me prometeram existir todas as ligações/explicações e mais algumas; e também porque King o faz de forma extremamente subtil. Pelo menos nos livros que li.

Para começar, nem todos os livros precisam de estar inseridos nesse Universo. Depois a forma como o faz é com a introdução das mesmas personagens uma e outra vez em vários livros diferentes, muitas vezes sem qualquer relevância para o enredo. Ou então um vilão que nunca é bem explicado num livro mas que faz todo o sentido para quem tiver lido o segundo.

Mas isto não fica por aqui, que continua a existir muita gente a insistir neste fenómeno, que é de facto extraordinário. E difícil de cumprir. Mas há mais um autor que faz isto muito bem (acho eu, que ainda não lhe li assim tanto quanto isso): Brandon Sanderson. Este tipo sim, é subtil. Uns nomes largados aqui, uns nomes largados acolá, países e cidades e raças estranhas, sempre no tom simples, calmo e divertido que usa sempre.

Quando descobri, depois de ler a trilogia Mistborn, que todos os seus livros estavam de alguma forma relacionados uns com os outros. Não imaginam a minha excitação!

Fora da literatura também há coisas interessantes, embora alguns casos tenham que ser abordados com uma mente aberta, pois não são bem Universos partilhados, ainda que o sejam. Como por exemplo, Doctor Who, que eu consigo sempre, de alguma forma, usar para explicar ou falar sobre alguma coisa. É incrível. Mas bem, Doctor Who, a série?

Errado. Doctor Who, a série, o filme, os livros, as bandas-desenhadas, os jogos, etc, ok? A grande diferença é qual a abrangência da partilha. Tolkien partilhava o seu Universo pelas várias histórias que escrevia; Doctor Who, por outro lado, partilha a sua história por uma série de meios, desde a série original até às bandas-desenhadas que ainda não saíram, existe de tudo um pouco!

E não nos podemos esquecer dos grandes Universos dos pesos pesados das BD's americanas: Marvel e DC. É fácil de esquecer que sejam realmente Universos partilhados, mas são, e dos bons! Bem, pelo menos dos mais completos, ainda que também dos mais incongruentes.

O mais incrível ainda consegue ser o que se faz por cá. Milagre, não? Um bocado. Mas a Imaginauta esforça-se, em parte, exactamente para contrariar esse preconceito: histórias são boas, ficção especulativa é boa, universos partilhados são bons. Deixai-os andar!

Tudo isto para vos mostrar que estes Universos andam por aí, muitas vezes escondidos nos detalhes, de tal forma que até passam despercebidos. E também que valem a pena. De certa forma, este tipo de Universos, depois de descobertos, quase que obrigam a um certo investimento da parte dos leitores, que começam a sentir que fazem parte. Pelo menos é o que me acontece a mim.

E além disso, esses Universos partilhados servem como base para muita coisa, e acabam, de vez em quando, por sustentar completamente várias histórias. Ou então dão uma nova profundidade a determinado livro. Como por exemplo, ao Hobbit, que é porreiro por si só, mas que quando lido sabendo tudo o que sabemos sobre a Middle Earth se torna muito melhor.

Mas ainda falta falar de uma coisa: os Universos partilhados que não o são realmente. Ou se preferirem, os Universos partilhados que são feitos à força pelos fãs. Aquelas ligações estranhas que se fazem entre as coisas, seja por coincidência seja por vontade deliberada de alguém. Já vos aconteceu? E a ti Joel?

Por favor digam de vossa justiça, e fiquem à espera da resposta do Joel, que será de certeza bastante interessante!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Mais fácil do que uma crónica [3]


Ora bem, vamos lá falar um bocadinho. Estou sem tempo para escrever grande coisa (época de exames do IST é a melhor de sempre /fimdeironia), portanto ficam com um texto destes, simples e que dá pouco trabalho e que ainda assim consegue ser minimamente interessante. Próximo Sábado prometo uma crónica a sério!

Por agora vejam bem essa imagem. Não vos está a fazer impressão? Não querem esses livros todos, nessas edições? É que nem interessa que livros são! Estas edições da Folio Society são das edições mais bonitas que já vi, e a minha vontade é fazer colecção, mas são edições caras como o caraças!

Duas coisas que já estão atrasadas: vão até ao blog do Joel G. Gomes, meu colega da Oficina de Escrita e autor de livros fixes que eu até já entrevistei, e passem a acompanhar a nova rubrica dele, em que faz entrevistas peculiares a vários autores; depois podem ir ver o vencedor do Prémio Bang!, que é (como seria de esperar em termos estatísticos) brasileiro. Os meus parabéns, e agora fico à espera que apareça o livro!

Sem saírem do site da Bang!, podem espreitar esta retrospectiva de 2014 sobre o Fantástico, pela mão do João Campos, outro colega da Oficina de Escrita que é sempre interessante de acompanhar.

Em termos de notícias há duas que merecem destaque. Ou pelo menos apanhei duas que merecem claramente destaque. A primeira é a de que a Porto Editora engoliu a Livros do Brasil, qual LeYa dos pequeninos, e vai relançar alguns dos seus livros. Infelizmente, nada de Fantástico, o que significa que podem tirar o cavalinho da chuva se estavam à espera de Argonautas. Mas eles que se lembrem de continuar a colecção... A LeYa até chora.

A segunda notícia é uma muito interessante, vinda do outro lado no Atlântico: a McDonalds dos EUA vai passar a dar livros como brinde dos Happy Meal. Fixe? Mais ou menos. Interessante? Definitivamente!

Mudando de assunto, aproveitem para espreitar o site do Imaginauta, para ficarem a saber tudo sobre o novo concurso, desta vez para criar um RPG, mais uma iniciativa fantástica deste grupo, que soma e segue!

(talvez tente participar, mas não prometo nada)

Por fim, lembram-se deste livro?


Foi ontem que falei dele, portanto espero bem que sim. É só para dizer que me foi oferecido pela minha namorada, e acho que nunca recebi um livro tão bom na minha vida. Isto dá vontade de folhear. E de reler. É uma autêntica orgia de referências literárias, de Wells a Borges, passando por Calvino, Verne, Stevenson, Stoker, Shelley e sei lá mais o quê! Fascinante, simplesmente fascinante...

E pronto, por hoje é tudo. Eventualmente há mais.

sábado, 1 de novembro de 2014

Entrevista a Joel G. Gomes

O Joel é um bocadinho maluco, no melhor dos sentidos possíveis. Tem milhentas facetas/profissões relacionadas com a escrita, e parece incapaz de estar sem fazer alguma coisa.

Escreve isto, escreve aquilo, prepara lançamento, faz um vídeo-convite, auto-promove-se, arranja tempo para comparecer (de vez em quando!) à Oficina de Escrita de que também faço parte, e sei lá mais o quê!


Recentemente, e a pedido dele, li-lhe o Um Cappuccino Vermelho e o A Imagem, livros que fazem parte de um todo maior mas que se conseguem ler de forma independente, e que são bons. Especialmente o segundo.

Depois da leitura terminada, convidei-o para uma entrevista por e-mail, e o resultado está à vista: muito interessante. Divirtam-se e acompanhem as próximas obras deste (ia dizer jovem, mas jovem sou eu, não tu!) autor que ainda tem muito para contar!


Depois de ter lido Um Cappucino Vermelho e A Imagem em (relativamente) pouco tempo, gostava de começar pela pergunta mais óbvia: que tipo de obsessão tens tu com café?

Há uma ligeira imprecisão na tua pergunta. É verdade que em Um Cappuccino Vermelho o café está bem presente, mas em A Imagem, eu diria que a bebida mais predominante é o chá. Quanto à questão da obsessão, a resposta é não tenho. Diariamente tomo café ao pequeno-almoço e depois de almoço, porém, ao contrário de um dos meus personagens, sou capaz de passar um dia inteiro sem tomar um único café.

Para um começo mais sério, sei que escreves de tudo um pouco, incluindo guiões de curtas-metragens, mas como é que evoluíste até escritor independente?

Nunca estive dependente de ninguém para escrever (às vezes posso depender de outras pessoas para concretizar certos projectos, nomeadamente guiões), mas no caso de contos ou romances, dependo essencialmente de gerir bem o meu tempo e de disciplinar-me. A independência provém sobretudo da não necessidade de interrupção para ir trabalhar todos os dias. Nesse sentido, como a escrita, infelizmente, ainda não me paga as contas, não sou independente.

Algo que me desperta curiosidade são os teus esforços hercúleos de auto-divulgação. Parece que estás em todo o lado, sempre a promover qualquer coisa. Como é que conjugas isso com a tua escrita (e sanidade mental)?

Eu não tenho uma editora, estou a publicar por conta própria (e não a pagar para me publicarem – completamente diferente), a gastar dinheiro do meu bolso. Não tenho grandes dificuldades em conjugar as duas coisas, mas se tivesse, que hipótese teria senão tentar encontrar uma solução? Muitos autores descuram a promoção em detrimento da escrita. Não estão errados. Não vale a pena promoverem os seus trabalhos se estes não forem bons. O que eu quero dizer é que ter trabalhos bons não chega: é preciso saber fazer chegar essa informação aos leitores. Tenho algumas noções de marketing, adquiridas tanto em ambiente escolar como por outros meios, o que me ajuda. Procuro ler muito sobre marketing, blogging, self-publishing; oiço podcasts sobre o tema. No fundo, é apenas outra forma de criação.

E que tipo de feedback tens obtido?

De Um Cappuccino Vermelho as críticas foram, em geral, boas. Como já o publiquei há dois anos, hoje em dia não é tão falado como era antes. De vez em quando ainda recebo uma crítica ou outra, particularmente do Brasil. Sobre A Imagem, como só foi publicado há poucos dias ainda não tive muitas opiniões, mas as poucas que recebi têm sido positivas.

Falando nisso, como é que correu o lançamento de A Imagem?

Correu bem. A casa esteve composta. Não encheu como eu gostaria, mas não esteve mal. Comecei agora a contactar bibliotecas para fazer apresentações. Vamos ver como corre. Já tive algumas respostas positivas. É só questão de agendar. Em 2014 já não deve haver grande coisa, porque o calendário de programação já fechou, mas 2015 ainda está aberto.

Deixa-me aproveitar para falarmos como deve ser dos teus livros. Primeira coisa: levas pontos pelo carácter meta de ambos. Segunda coisa: como é que fazes para não te perderes nos enredos? Ambos dão voltas atrás de voltas, mais A Imagem que o outro, e são tudo menos lineares...

Não me posso dar ao luxo de me perder. Bem ou mal, tenho de arranjar uma maneira de manter os enredos todos em mente. Confesso que eu próprio me perderia se não fizesse esquemas e mais esquemas. Desconstruíndo um pouco o processo, para mim funciona assim: há um enredo principal, geralmente conduzido por um ou dois personagens, e depois há os sub-enredos relativos a cada um dos outros personagens. Não há nada de inovador aqui. Limito-me a traçar linhas na folha e a interseccioná-las, sabendo que não há causas sem efeitos, nem efeitos sem causas.
Quanto à questão do carácter meta, eu cresci com as revistas da Marvel e da DC, nas quais cada herói (ou equipa) faz parte de um universo comum. As aventuras de cada um, mesmo quando isoladas, surtem consequências nas aventuras de outros. Ainda antes de começar a escrever Um Cappuccino Vermelho já pensava em ter personagens a circular de história para história. Aliás, quando inseri o Ricardo em A Imagem não era minha intenção que ele viesse a ter um papel tão activo. Nem ele, nem o João, nem o Luís. Nem sequer era para haver um Alexandre. As coisas acontecem.

Já reparaste que tens relativamente poucas personagens femininas?

É verdade que em Um Cappuccino Vermelho há só uma. Em A Imagem está um pouco mais equilibrado, mas ainda assim a balança pende mais para o lado masculino. No entanto, posso adiantar que os próximos dois volumes, A Voz e O Quarto Vazio, irão ambos ter como foco principal duas personagens femininas, uma já conhecida, outra ainda não (embora faça um breve cameo em A Imagem).

Acho que é seguro dizer que a tua experiência enquanto guionista te ajudou a escrever estes livros, pois tens passagens muito cinematográficas, mas gostava de saber como é que “visualizas” uma história. Como é que elas te surgem? Como imagens de um filme que depois descreves, ou de forma mais abstracta e racional, e tens que fazer um esforço para lhes dar aquele carácter tão visual?

Nenhuma história se escreve à primeira. As minhas primeiras versões são quase sempre só esqueleto (às vezes incompleto), depois dou-lhe órgãos internos, carne e um trapinho ou outro para cobrir as vergonhas. A cada vez que se pega no manuscrito acrescenta-se alguma coisa, retira-se outra. Não há nenhum esforço envolvido senão o de tentativa e erro.

Consegues identificar-te com alguma das tuas personagens, ou são todas criações completamente independentes e sobre as quais tens total controlo?

Há sempre qualquer coisa do autor que perpassa para as personagens que cria. É inevitável. Quanto ao controlo, digamos que se o tivesse, a história do João Martins e do Ricardo Neves teria sido completamente diferente. Talvez nem houvesse A Imagem.

Duas das principais (e melhores) características da tua escrita, é o humor peculiar, de que muito gosto, e uma vincada “portugalidade”, algo relativamente raro em autores portugueses mais recentes. São duas marcas que tentas activamente pôr num texto, ou são coisas que simplesmente passam?

É a minha forma natural de ser. Estou constantemente a fazer apartes parvos, a fazer piadas com tudo e mais alguma coisa. Há uma sequência em A Imagem na qual o protagonista, Lucas, é visitado por um fulano que diz estar ali para o ajudar, mas tudo o que faz é ficar sentado no sofá. Mais tarde, durante uma discussão com outro personagem sobre como libertar alguém que está preso, o mesmo fulano queixa-se por ter tão pouco que fazer. Ao que Lucas responde: “Deve haver um sofá algures onde se sentar”. Admito que alguns trechos só possam ser percebidos na sua plenitude por quem me conhece (às vezes nem isso), mas não consigo evitá-los.

Eu sei que A Imagem já não era propriamente uma sequela de Um Cappuccino Vermelho, mas desta vez não me parece que tenhas deixado muito espaço para uma continuação, e no entanto já prometeste mais dois livros. O que é que se pode esperar deles? E de outros projectos futuros, já agora!

O próximo volume irá chamar-se A Voz. Quem se der ao trabalho de visitar o meu site e clicar onde diz PROJECTOS FUTUROS encontrará lá uma breve descrição da história que irei contar nesse livro. Será a história de uma mulher que ainda está a tentar lidar com a morte do marido, ocorrida cerca de um ano antes. O marido era locutor de rádio, fazia um programa nas madrugadas e deixou várias cassetes com programas seus gravados. Como forma de o manter vivo, ela passa o tempo a ouvir essas cassetes. Até que há uma noite em que ela o ouve dizer qualquer coisa que a leva a crer que ele sabia exactamente quando e como iria morrer. Como é que isto depois se encontra com o universo de Um Cappuccino Vermelho e de A Imagem é algo que ainda não posso revelar.
O quarto e último volume intitular-se-á O Quarto Vazio e será uma história sobre as contrariedades da natureza humana. Houve algumas pontas que deixei soltas nos dois trabalhos anteriores (algumas de propósito, outras não) que espero deixar devidamente aparadas neste último trabalho.
Quanto a outros projectos, estou a trabalhar em várias prequelas, todas elas para o mesmo projecto, que será uma sequência de pequenas novelas em formato episódico, tipo série. 

Para terminar, gostava que dissesses algumas palavras sobre o actual panorama literário português. Há quem diga que estamos ligeiramente estagnados, com autores já estabelecidos que simplesmente não evoluem, e outros emergentes muito direccionados para nichos, especialmente na área do Fantástico, em que parece que ninguém se esforça muito para atingir mais do que um grupo específico de pessoas. No entanto começa a aparecer alguma mudança, com obras de qualidade a surgirem com mais frequência e uma cada vez maior abertura a outros públicos. Tu vais claramente nesta direcção, com obras dentro do Fantástico e um esforço em atingir um público abrangente, mas o que é que achas?

Eu acho que uma coisa não deve excluir a outra. Lá porque um género é mais de nicho do que outros, isso não é razão para só escrever para meia dúzia de pessoas. Eu gosto de escrever dentro do género do fantástico, mas não me obrigo a escrever só nesse género. É conforme a história que quiser contar. Repetindo o que já disse em cima, sou eu que estou a pagar pelas minhas edições. Se eu escolho escrever assim e pagar por isso, então tenho de procurar chegar ao maior número possível de leitores. Caso contrário, mais vale abrir a janela e deixar as notas voarem.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Imagem (Intersecção #2)


Autor: Joel G. Gomes


Opinião: O Joel, meu colega da Oficina de Escrita da Trëma, deu-me o ebook deste seu livro para que eu o lesse antes do lançamento, que é amanhã. E tenho que começar esta opinião por admirar o trabalho dele: é dos autores portugueses com a melhor auto-promoção que já vi!

A capa do primeiro livro era boa, a deste é fantástica. O convite para o lançamento chegou-me pelo correio, sob a forma de um CD com um vídeo, e digo-vos que foi o convite mais original que já recebi! Resumindo, o homem sabe o que faz.

Outra parte que me tem interessado no seu trabalho são os meandros (bueda) meta de tudo o que escreve. Lembram-se de João e Ricardo, os protagonistas autores do primeiro livro? Eles regressam neste, e tanto um, como o outro, têm um perfil no Facebook. E se forem aqui, e aqui, podem ver o Joel a entrevistar as suas personagens.

Não podia pedir mais, eu!

Mas depois o desgraçado ainda tem a lata de escrever um bom livro. A primeira comparação essencial é o Um Cappuccino Vermelho: tenho que dizer que esse é um livro amador, e este um profissional. A escrita, o enredo, as personagens, tudo melhora, tudo tem um ar extremamente... publicável. Bem, menos a confusão, mas de resto... Impecável.

Começa logo bem, embora tenha algumas gralhas, problema que se verifica ao longo de todo o livro, e que se intensifica perto do final. Ignorei ao máximo, tendo em conta que a versão nas minhas mãos é uma espécie de versão beta, mas incomodaram um pouco, por vezes.

Nada que estrague os pontos fortes do Joel, a caracterização inicial das personagens, sempre fantástica, e a forma como consegue manter o leitor preso ao que lê. De tal forma que a quantidade de personagens/pontos de vista na narrativa podia muito facilmente estragar todo o livro, mas não o faz, antes pelo contrário.

É verdade que ainda se estão a apresentar personagens depois de se lerem algumas páginas, o que dá a ideia de existir uma parte introdutória gigante, mas tudo acaba por funcionar da melhor maneira. Tantas personagens e tantos nomes torna-se bastante confuso ao início, mas estão todas tão distintas e bem caracterizadas que não é complicado ultrapassar esse problema.

A partir de certa altura, a história de um grupo de pessoas com poderes estranhos começa a acelerar, até chegar a um ritmo quase insuportável, mas bem balançado, em termos de revelações importantes e/ou chocantes, o que acaba por ser bom, mas perde o efeito por esmorecer rapidamente.

Há algumas falhas, como é óbvio, mas nada muito gritante. Só coisas como uma tipa receber uma pasta cheia de imagens que depois percebe serem frames de um vídeo, que junta num programa edição para o conseguir ver. O problema é que isso é descrito como uma pasta cheia de imagens a preto, e só depois de fazer o vídeo é que se percebe o que se está a passar... Só que o vídeo tem montes de cores e coisas a acontecer, que seriam facilmente identificáveis nos frames! Ou então, já depois do grande clímax, uma personagem nem ter dinheiro para uma bica, e depois acenar com uma nota de cinquenta a um taxista.

Enfim, detalhes. Detalhes que me distraíram da leitura, mas ainda assim detalhes. O maior problema são os poderes que as personagens têm praticamente não terem regras. Pelo menos regras que sejam conhecidas por quem lê. E as personagens ainda assim, sem saberem o que andam a fazer, conseguem sacar, sabe-se lá de que profundo e negro poço de conhecimento escondido, teorias profundas e complicadas sobre esses mesmos poderes.

Isto leva a que cheguem a conclusões mais depressa do que deveriam, ou que tudo eventualmente se resolva com um poder qualquer, ou que existam momentos bizarros como uma personagem saber exactamente o que vai acontecer quando duas outras personagens usarem os seus poderes em conjunto. Passam metade do livro espantadíssimos com aquilo que descobrem ser capazes de fazer, e na outra metade são especialistas? Desculpa lá Joel, mas não me convenceste.

De resto, e tirando as explicações confusas para o enredo confuso, gostei bastante desta leitura. Tem um enredo confuso interessante e muito confuso complexo, e personagens fenomenais. Sim, nunca se percebe muito bem que esquemas é que todos andam a planear, mas não deixa de ser interessante por isso, não é? Bom trabalho Joel!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um Cappuccino Vermelho (Intersecção #1)


Autor: Joel G. Gomes

Sinopse

Opinião: Vou começar por dizer que conheço pessoalmente o Joel. Fomos colegas na Oficina de Escrita de Trëma, e embora ele tenha andado relativamente ausente desde o primeiro ano (o único "oficial"), mantivemos mais ou menos o contacto, mais que não seja pelo Facebook.

A leitura deste livro surge da proximidade do lançamento do seu próximo livro, A Imagem, sequela deste que não é bem uma sequela - a 25 de Outubro na Biblioteca Municipal da Moita, em Setúbal - em que ele cedeu o livro a vários bloggers, para leitura até esse dia.

Com jeitinho, e fica aqui desde já o meu agradecimento, o Joel também me cedeu este livro, com promessa de ter as duas opiniões até ao lançamento. Aceitei e ainda aproveitei para integrar estas leituras na minha Temporada Temática mais megalómana de sempre: Lusofonices.

Vamos lá então? Até agora, tudo o que li ao Joel foram os contos que ele enviou para a Oficina, que tem como um dos objectivos dar-nos espaço para experimentar. Ou seja, esses contos, tal como alguns que eu enviei, são francamente experimentais. Gostei da maior parte, de outros nem tanto, mas o que sempre apreciei foram as suas tendências para ser bueda meta, e o seu humor incisivo, muito português, mas com um timing quase britânico.

Felizmente tudo isso passou para o livro, que não é muito grande. Aliás, a parte meta da história é tão fantástica e à minha medida, que é bastante parecida com uma ideia que eu tive há uns tempos para uma história. Mas não me deixem adiantar!

O livro começa por seguir Ricardo, um tipo peculiar, assassino e... escritor. A primeira coisa que me saltou à mente foi "fixe", e a segunda foi "não faz sentido". Um assassino não quer publicidade, portanto porquê ser escritor? Um bocado à frente na história consigo arranjar uma explicação minimamente satisfatória, mas até lá ou me convenço que o objectivo é ficar hidden in plain sight, ou então a coisa não funciona.

O prólogo é misterioso, revela pouco mas sugere muito. O único defeito que lhe aponto é o uso da palavra "parceiro", que eu não consigo dissociar do uso inglês, com duas consequências: ou me parece que o autor foi incapaz de arranjar uma palavra melhor e então apropriou-se do vocabulário inglês, ou então, e foi isto que aconteceu, fico a pensar que os parceiros são um casal gay. Para que percebam melhor, no prólogo nunca aparece "trabalha com", mas sim "está com". Como em "está com aquele parceiro há x tempo". É um pormenor, e em parte culpa minha, mas pronto.

Antes de avançar queria já dizer uma coisa menos agradável e que é constante ao longo de todo o livro. Falta revisão. Vírgulas atrofiadas e algumas gralhas, apenas, mas é o suficiente para me desconcentrar.

Tirando isso, tenho que dizer que o primeiro capítulo tem um conceito interessante na forma como introduz o protagonista, através de uma descrição interrompida por breves momentos do quotidiano que são aproveitados para caracterizar Ricardo, o assassino-escritor. É pena que acabe por se arrastar um pouco, especialmente no início, com tanta conversa sobre café. Já percebi que o protagonista gosta de café, e que o título do livro tem capuccino, pára de me enfiar isso pelos olhos adentro, Joel!

Mas isso melhora no segundo capítulo, dando origem a algumas sequências muito interessantes. De notar, também, a atenção aos detalhes e a forma como eles ficam ligados, algo muito bem feito, especialmente porque é subtil.

O humor, esse é fantástico do princípio ao fim, algo negro, por vezes, como não podia deixar de ser! Só é pena que uma das personagens seja caracterizada como obesa, da primeira vez que aparece, e mais à frente se fale dos seus braços gordos, mas entretanto já se disse que é um tipo com um metro e setenta e dois e a pesar setenta quilos. Senti-me ofendido, que peso isso e tenho menos dez centímetros! E não, não sou obeso. Uma pessoa com essa altura e esse peso não é, definitivamente, obeso, nem nada que se pareça.

Avançando, também tive pena que a introdução de uma personagem interessante como Luís, o mentor e figura paternal de Ricardo, seja feita de forma tão desfasada com o resto do livro. Há uma clara quebra de ritmo, o que é desagradável, mas a evolução do enredo compensa.

A nova personagem, Laura, é que começa por não me agradar, soa demasiado a personagem e pouco a pessoa real, mas depois percebe-se que isso talvez seja propositado e... Bem, não interessante, digamos que foi por esta altura que tudo começou a ficar mesmo, mesmo, muito meta, e consequentemente muito, muito, mais interessante.

É que embora a história demore a arrancar (o que é perigoso num livro pequeno como este), estes meandros meta são muito bons! Há algumas passagens mais confusas, quando as realidades se misturam mais intensamente, mas tirando isso está muito bom!

E depois conseguiu ter um bom final. YAY! Um bocado abrupto, é certo, mas bom. Assim, no geral, é um livro que fica a meio caminho entre o razoável e o bom, e a penalização principal vai para a inconsistência no ritmo e no tom. As diferenças podiam existir, mas com transições diferentes. Agora é esperar pela leitura do próximo!