Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Moreiras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Moreiras. Mostrar todas as mensagens

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O poder dos palavrões

Falar de palavrões não é tarefa fácil. Por vários motivos, desde preconceitos de quem lê a, infelizmente, preconceitos entranhados no cérebro de quem escreve. No meu caso isso é completamente verdade. Não tenho qualquer problema em ler textos com palavrões, mas já escrevê-los... Quando escrevo uma história, por exemplo, tenho que fazer um esforço consciente para os incluir nos diálogos, porque é algo que me faz mesmo espécie.

Se bem que não é bem preconceito. Acho que são realmente palavras feias, e não gosto de escrever palavras feias. São óptimas para utilizar na oralidade, mas na escrita... Genuinamente falando, não gosto.

É por isso que vou escrever esta crónica sobre palavrões sem escrever um único palavrão. Ah!

Começo é por vos pedir para fazerem uma pausa nesta leitura, e seguirem para a crónica sobre palavrões que o Filipe Faria escreveu para o Morrighan. Muito bom. E explica perfeitamente o que se passa com os palavrões, porque é que os consideramos palavrões, e porque raio é que existe tanto pudor com eles.

Não é sobre isso que quero falar, no entanto. A aceitação, ou não, dos palavrões pelo público geral é algo complicado, mais que não seja porque o público geral tem as grilhetas do politicamente correcto, que não incluem, obviamente, quaisquer palavrões.

Eu quero apenas pôr mais um prego no caixão dos argumentos anti-palavrões dessas pessoas. O meu objectivo é explicar a utilidade e a eficácia dos palavrões. Para tal, vou recorrer à segunda crónica do Filipe Faria, no Morrighan, sobre palavrões, estes menos profanos e mais arcaicos. A defesa que o autor faz da utilização de termos ditos complicados, antigos e obscuros, é quase tão boa como a utilização que faz na sua escrita desses mesmos vocábulos.

É importante, neste texto, repararem em algo muito essencial. Há palavras portuguesas, muitas vezes arcaicas e praticamente caídas em completo desuso e esquecimento, que resumem uma frase inteira. Os exemplos que o autor dá são chanfalho e arandela, que substituem "espada de má qualidade" e "parte saliente da boca do castiçal", respectivamente. Quão genial é isto? Muito!

Reparem em como se trocam expressões compridas e desajeitas por uma única palavra, com um ar peculiar, que chama a atenção e claramente fica no ouvido, mais que não seja pela estranheza? Fantástico! Esta é boa parte da beleza da nossa língua, a capacidade que ela tem de ter uma palavra única para praticamente tudo o que se possa imaginar, algo que também é visível em A Demanda de D. Fuas Bragatela, de Paulo Moreiras.

Temos uma língua riquíssima, é verdade, e aproveitamo-la muito mal. E isto não é válido simplesmente para palavras antigas, complicadas e etc. Também é válido, e muito, para os palavrões. Os a sério.

Digam-me, existe algo mais perfeito para se dizer quando nos aleijamos, do que um belo de um palavrão? Ou na escrita, num diálogo entre pessoas normais, vamos fazer com que chamem "pega" a alguém, quando não é bem isso que se quer dizer? Há algo mais explicativo do que um belo de um palavrão?

Pois é. Faz sentido. E os leitores ficam mais do que esclarecidos. Mas há mais! Os palavrões ainda têm o dom de serem palavras muito fortes e marcantes, de tal forma que podem mudar completamente o tom de um texto. Mais que não seja obrigam o leitor a parar e a dar conta daquilo que está a ler. Porque o palavrão a isso obriga, é algo chamativo, até chocante (para os padrões politicamente correctos de hoje) e que nos faz pensar duas vezes.

Ou seja, os palavrões podem fazer a diferença num texto, desde que bem utilizados. Porque uma coisa é dar realismo a uma conversa, outra é encher um texto de palavrões porque isso é avant-garde, ou o raio que o parta. Palavrão pelo palavrão faz tanto sentido como incluir sexo só porque sim, ou ter uma personagem de uma minoria só porque tem de ser, ou algo parecido. Tem que fazer sentido. Não pode exagerar sem um motivo (muito) válido. E não pode perturbar a escrita, antes pelo contrário: tem que fazer parte, e ser tão natural como o resto que está à volta.

Só que isso é complicado de fazer, e uma boa parte na nova vaga de escritores portugueses, por exemplo, cai no erro do avant-garde-ismo baratucho. O que é mau, não só para a literatura portuguesa, como para os palavrões, palavras tão dignas como quaisquer outras. Um bocado feias, mas dignas.

Não tenham medo dos palavrões, é isso que eu quero dizer, nem na leitura nem na escrita. São úteis, são bastante expressivos e parte genuína da nossa língua, que ainda por cima até é relativamente inventiva e original no que a palavrões diz respeito, principalmente no que toca a chamar nomes a alguém. Só não abusem!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Demanda de D. Fuas Bragatela

Título: A Demanda de D. Fuas Bragatela
Autor: Paulo Moreiras

Sinopse: Nascido em Trancoso no dia em que D. Dinis dava os últimos suspiros, D. Fuas Bragatela estava destinado a ser alfaiate, mas nele outros sonhos fervilhavam. Saiu, por isso, de casa muito novo, serviu a vários amos (com quem nada aprendeu senão os rigores da vida) e, depois de muitas peripécias, acabou a combater na batalha do Salado, donde não trouxe honra nem glória, apenas uma fome dos diabos. Arribou seguidamente a Salamanca, fazendo-se passar por licenciado em Medicina, e regressou à pátria com o cheiro da peste colado às narinas. Mas foi então que descobriu a demanda da sua vida: um dos maiores tesouros da Cristandade.
Num romance que constitui um retrato notável do Portugal medieval - e no qual não faltam alcoviteiras que fabricam hímenes, clérigos que vendem pedaços de céu, meirinhos corruptos, estalajadeiros manhosos, donzelas a transbordar de carnes e rapagões esfomeados -, Paulo Moreiras oferece-nos as irresistíveis aventuras de uma personagem quixotesca, na qual existe um pouco de todos nós, portuguesinhos à beira-mar plantados.

Opinião: A história de como decidi comprar este livro não é muito grande, e é de certeza uma história de 99% dos leitores vão achar familiar. Passou-se da seguinte forma: vi o livro, não reconheci o título, mas achei-lhe piada, não reconheci o autor e achei que tinha uma capa espectacular e, por isso, comprei-o. Fim.

Pois é, isto às vezes acontece. O livro até nem é propriamente recente, e a capa que tanta atenção me chamou é um quadro de Pieter Bruegel, o Velho, o primeiro de uma família de pintores flamengos. Esta edição é que é recente, uma espécie de edição comemorativa dos 10 anos do lançamento do livro.

Mas pronto, a moral da história é que bastou uma capa porreira e um título engraçado para eu ficar com uma vontade imensa de comprar e ler o livro. Como disse, de certeza que a maior parte das pessoas que tenha a leitura como costume vai perceber isto.

Adiante, que estou a escrever muito e a dizer pouco. Este livro é escrito na primeira pessoa, pela voz de Fuas Bragatela, que veio a ser Dom, sem saber bem como. D. Fuas decidiu escrever as suas memórias, para que o seu filho soubesse quem ele era e como tinha vivido. Estas memórias estão cheias de peripécias, situações hilariantes e personagens memoráveis.

No entanto, e apesar da narrativa em si ser simplesmente genial e hilariante, a melhor parte deste livro é a escrita. O autor usa uma linguagem que parece mesmo saída de um Portugal medieval, cheia de arcaísmos e palavras... não direi estranhas, mas curiosas. Entre canadas de vinho, gorgomilo, gusano, velhos barbaçanas e outras coisas que tais, a única reacção possível foi ficar deliciado.

Eu que tanto aprecio a língua portuguesa, especialmente quando mete palavras curiosas e expressões engraçadas, tive praticamente 300 páginas de um português divinal, de tom medieval, recheado de expressões e palavras antigas e caídas em desuso... A minha opinião final é que vale a pena ler este livro, nem que seja pela escrita e pela linguagem utilizada.

No que toca a mensagens mais profundas, a sinopse tem razão, D. Fuas é não só português, como Portugal. Aquele espírito de quem quer ir mais longe, mas da forma mais rápida possível, com tanto desenrascanço envolvido e misturado ora com doses brutais de azar ora com quantidades descomunais de sorte... O indivíduo português, de uma forma geral, é assim, um D. Fuas do século XXI. Quer tudo, sem fazer nada, tem sempre esperança que cheguem dias melhores, e vai vivendo, dia após dias, na base do desenrascanço, umas vezes propositado, outras vezes inevitável... No fim disto tudo, espero ter deixado a ideia de que é um óptimo livro que merece ser lido!