domingo, 8 de julho de 2012

A Conspiração dos Antepassados

Título: A Conspiração dos Antepassados
Autor: David Soares

Sinopse: Fernando Pessoa é convidado por Aleister Crowley, o famoso mágico inglês, a entrar numa aventura cheia de mistério para descobrir esse segredo que, afinal, talvez tenha a ver com D. Sebastião, e a verdadeira razão porque os portugueses foram derrotados em Alcácer-Quibir.
Do exotismo da Tunísia às ruelas húmidas de Londres, das mandíbulas da Boca do Inferno ao coração da Quinta da Regaleira, A Conspiração dos Antepassados é uma viagem inesquecível. Misturando verdade, lenda e magia, David Soares apresenta-nos algo nunca visto na literatura portuguesa: um romance cuja meticulosa pesquisa vai agradar aos estudiosos de Fernando Pessoa, e cuja energia vai encantar os fãs de uma grande aventura.

Opinião: Quem diria que eu, com toda a minha falta de apreço por Pessoa, iria um dia ler um livro sobre ele, de livre e espontânea vontade. A verdade é que acho que Pessoa, o homem e o escritor, foi uma figura interessante. São os escritos dele(s), nomeadamente a poesia, que não me convence.

Se bem que isso é completamente irrelevante para o caso. Aquilo que interessa é aquilo que vou tentar explicar a seguir: o quão bons são este livro e este escritor, uma tarefa que vai ser complicada. Primeiro porque estou tão fascinado com a obra, a escrita, a caracterização das personagens e a pesquisa exaustiva levada por David Soares, que corro o risco de parecer um fã demasiado excitado. E segundo porque não é uma obra para toda a gente, nem para todos os estômagos.

Não pretendo que as minhas opiniões sejam estritamente objectivas, ou deixariam de ser opiniões, mas também gosto de tentar evitar que caiam no completo subjectivismo. Não deixa de ser uma avaliação do livro, não é verdade?

Pois bem, tentemos. Para começar, é menos macabro e gráfico que o outro livro que li de Soares, Os Ossos do Arco-Íris, mas não deixa de o ser, de forma alguma. Aliás, eu não aconselho este livro de ânimo leve a qualquer pessoa. O capítulo que segue Aleister Crowley é particularmente explícito e todo o livro pode rapidamente ser classificado como "excessivamente gráfico" e "desnecessariamente violento". A certa altura há um ritual de iniciação que até à minha mente retorcida, habituada a ler e a ver de tudo, fez impressão. Bastante impressão.

Mas isto não é um livrinho cor-de-rosa, com uma bonita história de amor em que tudo acaba bem. Isto é literatura de horror no seu melhor, definitivamente o expoente máximo em Portugal, e capaz de rivalizar com grandes nomes a nível mundial. Na realidade, talvez o melhor seja categorizar este livro como dentro do género do fantástico. Como diz António Macedo no excelente prefácio, é um bocado impossível arranjar uma caixa em que este livro (e este autor) se encaixe, mas o fantástico talvez seja a melhor e mais compreensível aproximação, sem entrar em grandes detalhes de subgéneros de subgéneros.

Entre o cinzento dia-a-dia de Pessoa, com as suas depressões e angústias, e os rituais diários de magia sexual de Crowley, a diferença não podia ser maior. Homens diferentes em quase tudo, Fernando Pessoa, o poeta das mil faces, e Aleister Crowley, a Besta 666, encontram-se ligados por uma inteligência acima da média, incompreendida, e por uma forte sensibilidade a assuntos místicos e ao ocultismo. Ambos personagens centrais deste livro, estão igualmente bem caracterizados, assim como todas as personagens e todos os locais, o que revela a extensa e exaustiva pesquisa levada a cabo pelo escritor, que ainda escreveu, no fim, umas notas/comentários a cada capítulo e incluiu uma bibliografia.

A história dos dois une-se graças a uma demanda de Crowley, durante a qual tropeça no mito sebastianista. E qual a melhor ajuda, nesse campo, do que o poeta que tantos versos ocupou com as histórias do Rei Encoberto? A demanda toma caminhos inesperados, deixando Pessoa de boca aberta, exactamente a mesma reacção que eu tive. A trama é complexa, mas David Soares cria-a e desenvolve-a de forma brilhante, não deixando absolutamente nada ao acaso e revelando uma atenção quase doentia, no melhor sentido possível, ao detalhe, o que ajuda a dar uma ideia de realismo à história, mesmo nas partes mais estranhas.

Bem, não me vou alongar mais. Já devem ter percebido todo o meu fascínio pelo livro e pelo escritor que, acreditem, ganhou lugar cativo entre os meus escritores favoritos. Este livro é negro e angustiante, a escrita é trabalhada, detalhada e bastante gráfica, e nunca me vou cansar de dizer o quão bem caracterizadas estão as personagens. Não é uma obra para todos os gostos, e muito menos para todos os estômagos, como já disse, mas é, sem sombra de dúvida, um romance de excelência.

sábado, 7 de julho de 2012

As Mil Faces da Beleza Geométrica

Título: As Mil Faces da Beleza Geométrica
Autor: Claudi Alsina

Sinopse: No mundo dos corpos geométricos há um grupo de figuras que se destaca pelo seu particular glamour: os poliedros. Vivem entre nós e proporcionam-nos formas geométricas de grande beleza, mas também soluções funcionais extremamente úteis. Desde sempre interessaram aos geómetras mas também a cristalógrafos e arquitectos, pintores e escultores, a fabricantes de caixas e joalheiros... Vê-los é admirá-los.

Opinião: Para aqueles que acompanham o blog com regularidade, se ainda não repararam na minha paixão pela matemática, é porque andam aqui só a ver as imagens. Ainda por cima tendo em conta que já publiquei 20 e qualquer coisa opiniões de livros de matemática.

Esta pequena introdução para dizer, caso ainda não tivessem lá chegado, que aqui está mais um. Desta vez sobre um cantinho bastante interessante da geometria: os poliedros, que são, explicado de forma simples, sólidos geométricos constituídos unicamente por polígonos.

Este livro mostra como estas construções matemáticas nos rodeiam em todo o lado, seja na Natureza seja no que é fabricado por e para o Homem. As formas naturais podem ser aproximadas por poliedros, de forma mais ou menos grosseira; as casas, as caixas, enfim, praticamente todas as construções relativamente regulares da Humanidade são poliedros.

Se alguém duvida da beleza e da utilidade da matemática enquanto um todo, na vida e no dia-a-dia, aconselho vivamente a leitura deste livro, bem como de todos os outros da colecção.

Como sempre, um bocadinho de história (já referi que a história da matemática é absolutamente fascinante?), para situar o leitor, e um grande pedaço de praticamente tudo o que existe sobre o assunto em causa, neste caso os poliedros, desde as suas propriedades puramente matemáticas até às suas utilidades e utilizações práticas no mundo real. Deveras interessante.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

História do Mundo em Nove Guitarras

Título: História do Mundo em Nove Guitarras
Autor: Erik Orsenna
Tradutor: Telma Costa

Opinião: Um livro pequeno, este. Moderadamente interessante, também. Mas enfim, nada de especial.

Isto até que prometia, tem um título interessante, apesar de ser um autor que me é desconhecido. Quer dizer, em condições normais não teria olhado para ele duas vezes, acho, mas enfim, custava 1 euro. Olhei com mais atenção e descobri que metia Eric Clapton, Jimi Hendrix, Paganini, os Beatles e mais umas poucas figuras interessantes...

Uma vez comprado, leu-se rápido. 1 horita, pouco mais. E pronto, não me deixou grande impressão. A escrita não é má, mas não é nada por aí além. A história é interessante, e é talvez a melhor parte do livro, ainda que seja um pouco estranha.

Começa com Eric Clapton, no meio de África, a encontrar-se com um arqueólogo que procura as origens do Homem. Uns diálogos meio metafísicos depois, Clapton dorme e sonha com uma série de episódios passados em diferentes épocas, todos relacionados com a guitarra. Não digo que tenha sido uma má história, mas talvez uma má-execução. Fiquei com a sensação que a leitura teria sido muito mais interessante se o livro fosse maior e cada episódios tivesse mais algumas páginas, ou houvessem mais episódios.

Talvez assim se tornasse num livro seriamente interessante. Infelizmente, o autor optou por dedicar pouco tempo e pouco latim a cada parte, escrevendo aquilo que, na minha opinião, acabou por ser uma história algo confusa e aleatória.

Mas pronto, não se pode ter tudo. Não deixa de ser um livro que proporciona uma horita e pouco não-aborrecida. Suponho que talvez tenha mais interesse para quem goste mais de guitarras e instrumentos de cordas do que eu. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Morte de Lorde Edgware

Título: A Morte de Lorde Edgware
Autor: Agatha Christie
Tradutor: Tânia Ganho

Sinopse: A famosa actriz Carlotta Adams pede a Poirot que a ajude a obter o divórcio do marido, Lorde Edgware. O pedido é afinal desnecessário dado que, poucos dias depois, Lorde Edgware é assassinado com um canivete espetado na nuca. Novas mortes dificultam a investigação.

Opinião: Lido num par de dias, para não variar, "A Morte de Lorde Edgware" é mais um excelente livro de Agatha Christie, a Rainha indiscutível dos policiais.

Poirot é sem sombra de dúvida um dos detectives mais geniais que a literatura já viu, bem como uma das suas personagens mais interessantes.

É sempre com curiosidade que leio um livro em que apareça este brilhante detective belga. O simples acompanhar dos seus métodos e dos seus raciocínios ao longo de todo o livro, até chegar ao culpado... É absolutamente espectacular!

E como não podia deixar de ser, o livro não é única e exclusivamente sobre o Poirot, embora já fosse interessante o suficiente, se assim fosse. O enredo é também extremamente interessante, cheio de voltas e reviravoltas, a acusação a apontar numa direcção, e de repente noutra, nunca deixando que quem lê se situe e forme uma decisão definitiva, pois quando o pensa ter feito, aparece alguma coisa que iliba alguém, ou que incrimina alguém...

Enfim, nunca é uma aposta muita segura, qualquer que ela seja. Eu pessoalmente, enquanto lia esta história, mudei de opinião de espaço de 10 ou 15 páginas.

Mas bem, já não sei muito bem o que dizer, que em tanto livro lido, acabo sempre por dizer a mesma coisa... História espectacular, Poirot genial, o costume. Portanto, resumindo, mais um óptimo livro e um excelente policial!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Que as citações nos caiam em cima [16]

Como não podia deixar de ser, vim aqui deixar esta citação, uma das mais belas que já vi, e que acho que se aplica a basicamente tudo, como disse na opinião ao livro.

"O caos é uma ordem por decifrar."
José Saramago, "O Homem Duplicado"

O Homem Duplicado

Título: O Homem Duplicado
Autor: José Saramago

Sinopse: Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, vive só, num bairro da cidade sem nome, só com a sua solidão. Um dia aluga um velho filme para ver em casa como repouso do cansaço que lhe deu a correcção dos trabalhos dos alunos. E acontece algo que lhe modificará a vida de solitário e pacato cidadão - um dos actores secundários do filme é exactamente igual a si próprio, é o seu duplo. Inquieto com a possibilidade de existir, eventualmente perto de si, na sua cidade, um outro que é ele próprio, lança-se numa investigação para encontrar esse outro, provocar um encontro, medir-se com ele. Com base neste ponto de partida, com uma intriga complexa conduzida com mão de mestre, José Saramago oferece-nos, com O Homem Duplicado, um dos seus mais belos romances.

Opinião: Saramago é daqueles escritores que acho que nunca me vai decepcionar, leia eu o que leia. Ainda só lhe li 4 obras, é certo, mas cada uma mais genial que a outra, nem sei bem por onde começar quando me perguntam de qual gostei mais.

E se até agora essa minha confusão pessoal já existia, só com 3 livros lidos, este "O Homem Duplicado" vem complicar ainda mais a coisa. Uma história soberba, personagens soberbas, um livro soberbo.

Acho que comprei escolhi comprar este livro, entre vários dele que tinha à escolha, por causa da citação que vem na contracapa:

"O caos é um ordem por decifrar."

Citação que vi pela primeira vez no documentário "José e Pilar", e que idolatrei de imediato, por ser uma frase tão simples e tão paradoxal, por conter nela não uma explicação, mas talvez um apaziguamento no que toca a tentar entender o que quer que seja, desde o acaso do dia-a-dia e das relações interpessoais até à matemática e à física. Genial, sem dúvida.

Pois bem, livro comprado, já nem sequer me lembro quando, e lido algum tempo depois. Não demorei mais do que 3 dias a devorar as 318 páginas da escrita compacta, ainda que não propriamente densa, daquele que é para mim, e para muitos, o melhor escritor português até à data.

Cada vez mais compreendo aquela história de "ou se ama ou se odeia", quando se fala de José, o homem e de Saramago, o escritor, mas quer se queira quer não, a forma como escreve e como expressa as suas ideias é bastante original, quebrou e continua a quebrar barreiras e, além disso, permitam-me aqui a subjectividade, é absolutamente genial. A torrente quase contínua de palavras, aqui aplicada à história de um homem que se vê duplicado noutro até ao mais ínfimo pormenor, é a forma perfeita de misturar uma narração bem feita e bastante pessoal com diálogos elaborados e interessantíssimos, tudo isto enquanto vai de facto contando uma história.

E não posso acabar de dizer que além de todos estes louvores que já fiz, ainda tenho que acrescentar que Saramago não descurava as personagens. A principal, Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, está excelentemente caracterizada, da mesma forma que o seu duplo e Maria da Paz, sua amante. A história em si é uma trama complexa, como o diz desde logo a sinopse, e é de facto guiada com mão de mestre, pelo escritor, que consegue introduzir temas como o desespero pelo contacto real com os outros, o medo da perda da individualidade, a resignação ou a rebelião ao destino e a inutilidade de uma coisa e outra...

Enfim, acho que basta dizer que o Nobel não ficou mal entregue a José Saramago.

domingo, 1 de julho de 2012

Terrortório

Título: Terrortório
Autor: Vários

Opinião: Esta colectânea de contos prometia, com nomes como Poe, Asimov, Kafka e Lovecraft, por exemplo, ainda que apresentasse ali pelo meio uns nomes portugueses, a maior parte deles completamente desconhecidos para mim.

Ainda por cima começa bem, com um conto de Poe, simples e obviamente bem escrito, mas a partir daí, tirando os grandes nomes e algumas (poucas) surpresas nacionais, pouco se aproveitava.

Para começar, nem todos os contos são propriamente de terror, com o de Asimov e Creach a tender para o humorístico, enquanto que o de Luísa Costa Gomes é apenas uma nódoa, completamente banal e sem ponta por onde se lhe pegue.

Tirando esses defeitos e essas falhas na construção deste elenco que, volto a frisar, tem nomes excelentes que produziram contos excelentes, como seria de esperar. Imagino que o objectivo fosse como que lançar este género com tão pouca visibilidade em Portugal, e aproveitando para mostrar que a produção nacional se recomenda.

Bem, aquilo que posso dizer é que ainda bem que a sobrevivência deste género por terras lusas não dependeu deste livrito, já relativamente antigo. Se assim fosse, acho que eu ia ter muito mais dificuldades em ler Stephen King, Lovecraft, Bram Stoker, bem como em assistir à crescente popularidade de autores como David Soares.

Se isto era uma mostra do talento nacional num campo relativamente renegado da literatura, falhou redondamente. Lá está, tem contos interessantes, mas falha no geral.

Ou seja, se o tiverem por causa, não perdem nada em ler, mas não se preocupem muito em andar à procura dele.