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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Matar é Fácil


Autora: Agatha Christie
Tradutor: Carlos Afonso Lobo


Opinião: Livro interessante, embora sem Poirot nem Miss Marple. Prefiro, de longe, as histórias que envolvam essas personagens, mas tenho confiança suficiente nesta autora para ler o que quer que seja que tenha o nome dela por baixo.

O investigador principal desta história é que deixa um pouco a deixar. Luke Fitzwilliam, reformado, parece-me apenas relativamente competente, mais interessado em enamorar-se da rapariga de quem está a fingir ser primo (pormenores) do que outra coisa. De resto, todas as pessoas da localidade onde os crimes acontecem são super estranhas e potenciais assassinos, o que é peculiar. Normalmente Agatha Christie consegue fazer cair suspeitas sobre praticamente todas as personagens existentes, mas não me lembro de lhe ler uma história com tantas personagens esquisitóides.

Desde um vendedor de antiguidades que se mete em rituais de magia negra, a um militar reformado que gosta mais dos seus três cães do que de outra coisa coisa/pessoa qualquer, passando por toda uma série de personagens inacreditavelmente, e citando a malta da Rádio Comercial, chalupas!

O principal suspeito, tão suspeito que até convence o investigadorzeco, é uma pessoa execrável, tão cheia de si mesma que dói. E depois, plot twist... Digamos que é óbvio, o que acontece.

Essa reviravolta topou-se um bocadinho antes do fim, é certo, mas a coisa até está bem construída. Só tenho pena que o amor entre Bridget e Luke seja tão forte e tão repentino, e que não haja um verdadeiro seguimento do resto das personagens, todas elas estranhas, mas interessante. Estão em foco enquanto são suspeitos, ou enquanto é preciso fazer-lhes perguntas, mas depois desaparecem de cena e nunca mais voltam nem se sabe nada deles.

No fim fica uma história que entretém, com uma resolução satisfatória, mas que tem pouco de história de detectives. A personagem principal, que está a investigar o caso, não descobre lá muita coisa. Limita-se a andar ao sabor das descobertas que vão sendo feitas de uma forma geral, e nem sequer faz nada de particularmente relevante, para além de roubar uma noiva e de chamar as autoridades a sério, quando o caso se complica.

Mas Agatha Christie é sempre agradável de ler, e nesse ponto o livro não fica muito atrás do que seria de esperar.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Os Crimes do ABC


Autora: Agatha Christie
Tradutora: Teresa Curvelo


Opinião: Excepcional. Eu sei que se torna repetitivo falar de Agatha Christie, já que os adjectivos raramente são diferentes: andam sempre à base de fantástico, impressionante e outras coisas que tais. Até se torna injusto para outros autores, mas a culpa é deles. Tivessem a capacidade que esta senhora tinha de contar uma história e não tinham razão de queixa.

Mas sim, também é verdade que não se pode medir a qualidade de Agatha Christie na mesma escala que se usa para os comuns mortais. Vou-vos falar desta história, em vez disso.

A verdade é que já há uns tempos que não lia algo da autora, e já há muito tempo que um livro não me deixava tão satisfeito com cada virar de página. Um assassino misterioso que mata por ordem alfabética e que envia cartas estranhas directamente a Poirot, a anunciar os próprios crimes? Isto é esperto de maneiras que vocês nem imaginam!

Os Crimes do ABC também é o primeiro livro da dupla Poirot e Hastings que me lembro de ver a misturar as passagens do ponto de vista de Hastings e passagens na terceira pessoa, de um ponto de vista impessoal e desligado de todas as personagens principais habituais. E funciona estranhamente bem.

Poirot parece estar mais à nora do que o habitual, especialmente por algo que ele chega mesmo a dizer: este crime não é o habitual crime pessoal, mas sim uma estranha série de crimes altamente impessoais. Ou pelo menos assim parece! Foge ao tipo de coisas que Poirot e Hastings estão habituados a resolver, assim como foge ao tipo de coisas que Agatha Christie costumava escrever!

A resolução final tem alguns pormenores um bocadinho estranhos, mas nada demasiado fora do normal, e tem uma conclusão que funciona. Não podia pedir mais. Foi mais do que suficiente para me deixar satisfeito com a qualidade habitual de Agatha Christie e uma história que me cativou ainda mais do que o costume!

sábado, 15 de agosto de 2015

Presenças tangenciais

Ah, piadas matemáticas, são sempre tão... derivativas.

Há coisas na Literatura que me fascinam. Não falo apenas de uma escrita particularmente bonita, como a de Mia Couto, ou de histórias particularmente cativantes, como as Stephen King, nem sequer de livros tão próximos da perfeição que até metem medo, como muita coisa de Saramago, muita BD de Neil Gaiman e Alan Moore e O Conde de Monte Cristo. Falo de pormenores, muitas vezes técnicos, que me deixam rendido.

Por exemplo, quem ler histórias minhas rapidamente se apercebe de que gosto de narradores peculiares. É algo complicado de manipular, de um ponto de vista puramente técnico, mas que pode ter efeitos espectaculares.

Algo que cai nesta categoria é algo a que chamo presenças tangenciais. O nome é bastante auto-explicativo, mas estou a falar de personagens que são importantes, muitas vezes até fulcrais, para a história, mas que aparecem muito, ou muito de raspão. Tangencialmente.

Também não é fácil, em termos técnicos, e torna-se particularmente difícil de conseguir em termos narrativos. Como raio contar uma história em que uma personagem importante mal aparece?

Leia um dos vários livros em que isso acontece, para perceber. Que tal O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, que tem ao mesmo tempo um narrador interessante e um Poirot que mal aparece que mas que resolve o mistério (a autora deve ter escrito este livro a pensar em mim)? Todo o livro se lê como uma história normal de Poirot mas com o ponto de vista retirado a Poirot e ao seu fiel companheiro, Hastings, e entregue a uma das personagens secundárias.

É espectacular, e embora o ponto forte do livro seja o narrador e a revelação final (pois é, ainda por cima tem um plot twist de fazer corar muitos plots twists, obrigado Agatha Christie), esta presença tangencial de Poirot é importante para que o livro funcione.

O mesmo se podia de muitas das histórias da saga Sandman, de Neil Gaiman, em que Morpheus e Death, que me lembre, aparecem em várias histórias como personagens meramente tangenciais, completamente de raspão, mas acabam por ter um impacto enorme, como não podia deixar de ser. O segredo aqui é a arte de contar histórias de Gaiman, mas isso redundou nessas presenças tangenciais de duas das personagens mais importantes desse universo

De uma forma menos óbvia, podemos falar do que se passa em O Conde de Monte Cristo, livro imenso no qual o Conde de Monte Cristo do título é uma personagem tangencial durante muito tempo. A história do livro é a sua vingança, a sua vida é a motivação de tudo o que acontece, e todos os acontecimentos narrados são de alguma forma relevantes para ele ou por sua causa. E no entanto passamos longas páginas sem ter notícias dele, e quando aparece, muitas vezes disfarçado e com um nome e título diferentes, tem um papel secundário para a acção. Aqui foi novamente a mestria de Dumas que possibilitou esta presença tangencial, mas não deixa de ser impressionante a forma como o fez.

Mas querem dois exemplos a sério de personagens que praticamente não aparecem mas que são as mais importantes no meio daquilo tudo? Comecemos pelo Comediante de Watchmen, então, que morre nas primeiras páginas mas que tem um grande impacto em tudo o que se segue. Foi das coisas que mais me intrigou, quando li o livro, esta capacidade de não estar lá mas influenciar tudo, e é preciso abençoar Alan Moore pela capacidade que teve de fazer isto tão bem feita na brilhante desconstrução dos super-heróis que é esse livro.

O outro exemplo é parecido, mas ainda mais extremo: em Lágrima, o mais recente livro do meu primo André, há uma personagem tão tangencial que nunca chega a aparecer no livro. Os protagonistas são o pai e a mãe dessa personagem, um miúdo que morre antes dos acontecimentos narrados no livro. Mesmo assim, esse miúdo, ou mais propriamente, a sua morte, é o tema principal do livro em redor do qual tudo se desenvolve.

Também em leituras mais recentes, há uma personagem que me cativou e que teve o azar de cair numa série de livros que achei menos bem conseguidos, por um motivo ou por outro: Gued, o Gavião do Ciclo de Terramar, de Ursula K. Le Guin. Extraordinária feiticeiro, faz uma série de coisas para lá da compreensão humana e no fim mantém-se humilde e sábio como ninguém. O primeiro livro é do seu ponto de vista, e é claramente um protagonista muito presente, assim como no terceiro livro, mas a sua presença no segundo e no quarto livro é, durante muitas páginas, tangencial. E isso só faz dele mais interessante, pois adiciona mistério a uma personagem que podia ter sido muito banal.

Mas por falar em mistério, sabem onde é que estas presenças tangenciais caem muito bem? No género do terror e em vilões de uma forma geral. Veja-se quase tudo o que Lovecraft escreveu: o medo e as sensações de horror são transmitidas não pela presença, mas pela ausência. Como o próprio Lovecraft afirma, o medo mais antigo é o do desconhecido. É por isso que nos seus escritos são as sombras que dominam, e também aquilo que se consegue ver, mas não apreender.

Aliás, muito do horror é feito exactamente assim, através do desconhecido e muitas vezes através de personagens tangenciais. Como acontecem com Misery, de Stephen King, em que o protagonista ocupa sozinho uns 80% do livro, enquanto a sua enfermeira psicótica, a impulsionadora de tudo o que acontece, aparece de vez em quando, e quase sempre de raspão. Dá-lhe um ar mais instável e não nos deixa confiar naquilo que vemos: como é que podemos ficar a conhecer uma pessoa a vê-la durante cinco minutos de cada vez?

Tenho a certeza de que existem muitos mais exemplos, mas estes são só os que me lembro claramente, de olhar para a lista de livros que já li. Acho interessante, e é algo que ainda tenho que fazer com sucesso numa das minhas histórias, mas agora que já vos apresentei o conceito e alguns exemplos, lembra-se de mais algum caso? Seja para me relembrar, ou para me dar a conhecer, agradeço!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Morte nas Nuvens


Autora: Agatha Christie
Tradutora: Luísa Feijó


Opinião: O típico caso de quarto fechado. Numa viagem de avião - em que Poirot, obviamente, participa - uma mulher é misteriosamente morta. O culpado tem de estar entre os presentes no compartimento, mas ninguém viu nada nem sabe de nada, apesar da morte ter ocorrido via zarabatana.

Eu juro que não sei como é que demoram tanto tempo a perceber que não foi com a zarabatana. Mas praticamente até ao fim é isso que acham. O quê? Spoiler? BOOHOOO, não me venham com tretas, ninguém acredita que se possa matar alguém, num avião cheio de gente, com uma zarabatana.

A única coisa menos discreta era uma betoneira.

Mas pronto, estes mistérios da vida lá acontecem, e se acham que a presença de Poirot significa que o crime ficou resolvido logo à partida, estão enganados. O nosso querido detective tem um estomac deveras fraco, portanto passa a viagem toda encolhido nas suas peles, a dormitar e a sofrer.

E é claro que depois toda a gente está relacionada, naquele avião. A investigação é a típica: Poirot sabe sempre mais do que toda a gente, apenas com as pistas que também são apresentadas a quem lê, e nunca revela nada até ao último instante.

Não me estou a queixar: já sei, quando pego em Agatha Christie, que a história vai ser algo assim. Raramente é algo muuuuito diferente. O que é impressionante nos livros dela, como neste, é a forma como ela me prende à leitura, apesar de eu saber isto tudo.

Eu consigo, literalmente, estar a ler e dizer "isto depois é importante. isto é só para enganar. agora falta o par romântico secreto. ai essa personagem usa boxers às bolinhas? então vai ser familiar do criminoso.", porque enfim, há coisas que acontecem sempre e que são extremamente óbvias.

A resposta ao mistério, por outro lado, não costuma ser óbvia. Aqui é assim-assim, mas normalmente a revelação é um momento climático pelo qual vale a pena esperar. É essa a magia de Agatha Christie. Essa, e o facto de conseguir garantir que daqui a uns tempos volto a pegar noutro livro dela!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Crime no Vicariato


Autora: Agatha Christie
Tradutor: Carlos Lobo


Opinião: É impressionante como esta autora nunca deixa de me surpreender. Sempre que pego num livro de Agatha Christie, já sei que vou gostar, e este não foi excepção, mas há sempre qualquer coisa que me deixa ligeiramente boquiaberto.

Os casos mais gritantes são As Dez Figuras Negras, com um desenrolar fantástico e um fim para lá de soberbo, e O Assassinato de Roger Ackroyd com o seu narrador peculiar e um final novamente para lá de soberbo.

Este Crime no Vicariato seguiu pelo mesmo caminho. O narrador e a presença tangencial de Miss Marple são análogos ao narrador e à presença tangencial de Poirot em O Assassinato de Roger Ackroyd. Por momentos pensei que fosse pelo mesmo caminho, mas fiquei bastante satisfeito por ter um narrador assim, divertido, peculiar e extremamente cativante.

Aliás, acho que nunca li um narrador parecido em mais lado nenhum, o que é dizer muito! Agatha Christie já deve ser das autoras a nível mundial de quem se fala melhor, mas se ainda existir alguma alminha que duvide das suas capacidades, estes livros são uma prova fortíssima da sua qualidade.

O cenário é o do costume: pessoa morre em circunstâncias misteriosas e toda a gente nas redondezas parece ter tido motivo e oportunidade para o fazer. As personagens são extremamente realistas - e britânicas - e o enredo é intenso. Pelo menos a mim, deixou-me preso do início ao fim.

Já o final não é propriamente o do costume, e por causa disso foi bastante satisfatório, levando o livro, de certa forma, para muito perto do panteão dos outros dois livros que mencionei ali em cima.

Este narrador de que tanto falo é o próprio vigário, um homem interessante e relativamente blasfemo, para um homem da Igreja. A sua mulher (nada de estranho, eles podem fazer isso por aqueles lados) oscila entre irritante e ternurenta, mas nunca se torna aborrecida, e embora algumas personagens caiam um bocadinho de nada no exagero, não deixam de ser bastante realistas.

Tudo isto para dizer que gostei muito desta leitura e que a aconselho vivamente, especialmente se forem fãs da autora!

P.S.: um dia destes escrevo qualquer coisa sobre presenças tangenciais em livros...

sábado, 27 de setembro de 2014

Personagens favoritas


Tendo em conta o número reduzido de comentadores e comentários que este blog tem, basta alguém comentar mais do que uma vez e eu fico a conhecer essa pessoa. E a considerá-la, pelo menos, uma pessoa conhecida.

Alguns, no entanto, são bastante reincidentes. Por esses, poucos, tenho uma grande estima. Ainda para mais quando todas as suas intervenções são relevantes e interessantes, como é o caso do Francisco Fernandes (aka asesereis).

Esta conversa, para além de agradecer a sua contribuição para as discussões aqui no blog, é só para introduzir uma sugestão que o Francisco fez e que vou seguir (mais ou menos): personagens favoritas.

É complicado falar de favoritos, sejam livros, sejam autores, quando somos completamente viciados em literatura, mas no fim fica fácil. Se tiver sido um livro que nos marcou o suficiente para ser o nosso favorito, não nos vamos esquecer. E o mesmo para autores. Mas personagens favoritas? Personagens há muitas!

No meu caso, assim de repente, basta lembrar-me de Tolkien e de Stephen King, e já fico, literalmente, com um manancial de centenas de personagens disponíveis. E se ficar a saber os nomes dos cerca de cem livros que leio por ano já é abusar da minha memória, nem sequer pensem em ficar a saber os nomes de todas as personagens.

Mas no entanto há algumas que ficam. Outras cujo nome já não sei, mas que conheço perfeitamente. Quer queiramos quer não, é como os livros e os autores - só que a uma escala maior.

E com as personagens até é possível acontecerem coisas bastante curiosas... Como por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é o Glotka, o torturador desfigurado e manipulador da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, que achei apenas mediana. Mas o meu livro favorito deste autor, Best Served Cold, também tem uma personagem que aprecio, embora bastante níveis abaixo de Glotka: Friendly, o tipo frio e obcecado com a matemática, cujo ponto de vista originou alguns dos capítulos mais interessantes que já li.

O "pior" é quando começo a desbobinar os nomes de que me vou lembrando, e o resultado é uma lista recheada de vilões. Seltor, Joker, Pennywise, a enfermeira psicopata que depois é interpretada por Kathy Bates... Podia ficar aqui o dia todo.

Por outro lado, como raio é que faço uma lista destas sem dar destaque a meia dúzia de personagens de Tolkien? Ou de Alan Moore? Ou de Neil Gaiman? Ou do George R.R. Martin? Ou da Rowling? Ou das outras centenas de autores?

E o Sherlock Holmes? E o Poirot? Impossível! Impossível!

A minha resposta ao teu desafio é esta, Francisco: provavelmente, se me perguntares qual é a minha personagem favorita, digo-te sempre o Seltor, mas se todos os dias me pedires uma lista de cinco personagens favoritas, o mais provável é eu dar-te uma lista diferente de cada vez.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Peril at End House


Autora: Agatha Christie

Adaptação: Didier Quella-Cuyot
Ilustrações: Thierry Jollet

Opinião: Se ler Agatha Christie é sempre uma bela duma experiência, porque não experimentar as adaptações a BD? Esta foi encontrada casualmente ao desbarato na FNAC, e nem sabia que existia.

A primeira impressão é que a adaptação está bem feita. A história já é boa, pois foi imaginada e escrita por Agatha Christie, portanto não havia muito por onde falhar, desde que não se inventasse muito. E Quella-Cuyot não se perde, mantendo-se fiel à autora e ao seu estilo, sem cair no erro da caricatura ou da interpretação pessoal.

Sim, as personagens soam um bocado artificiais, os acontecimentos precipitam-se um pouco, e o Poirot consegue fazer as suas deduções de forma demasiado disfarçado durante toda a história, mas isto são tudo pormenores que fazem parte do encanto da autora, nomeadamente o facto dela ter conseguido quase sempre contornar essas "falhas" incorporando-as no seu estilo ou construindo uma narrativa tão forte e envolvente que atira o resto para a categoria de "pormenores irrelevantes".

Nesta adaptação isso não funciona tão bem, pois não são exactamente as palavras da autora que estamos a ler. Perde-se um bocado o efeitio, se preferirem, apesar do bom trabalho de Quella-Cuyot.

Mas o que funcionou pior foi outra coisa. Começo por apresentar David Suchet no seu papel de Poirot, provavelmente o mais famoso e a definitiva representação do mais famoso detective francês belga.

Fonte
O desgraçado do actor não é particularmente deformado, mas olhem para aquela foto. Ele tem a cabeça de ovo que Agatha Christie diz nos seus livros que o Poirot tem. Não vou ficar aqui a desbobinar todas as formas como Suchet é um Poirot perfeito, mas é inegável que é bastante semelhante à ideia que toda a gente tem do detective.

Não é que o aspecto físico de Poirot seja particularmente relevante para as histórias, mas é um traço distintivo e é parte do que faz o Poirot o Poirot. Nada que seja imutável, entenda-se, que eu uma vez vi um filme que tinha uma versão aloirada (ia tendo um ataque cardíaco), mas funciona melhor quando o resultado é bastante parecido com a visão original que a autora transmite nos seus livros.

Pois bem, apresento-vos agora o Poirot deste livro.


Reparem na banalidade. Na cabeça completamente normal. No leve ar de galã de Hollywood dos anos 60. Não, não e não! Esta personagem é descrita em todos os livros basicamente como um homem um pouco estranho, e não só por estar constantemente a falar das suas "célulazinhas cinzentas". Esta sua representação, para mim, cai completamente ao lado.

Mas tirando esse pormenor, que não é tão insignificante quanto isso, gostei desta leitura, que passou demasiado depressa. Fiquei seriamente espantado com a rapidez com que se consegue ler este livro. Os policiais desta autora raramente são leitura que se aguente mais do que três ou quatro dias nas minhas mãos, mas esta BD lê-se em coisa de meia hora.

E a história percebe-se. É de louvar. Tirando isso, a história em si é o costume: acontecimentos estranhos, assassínios curiosos, esquemas estranhos e rebuscados, deduções brilhantes que nos fazem sentir burros, e uma série de coincidências que atraem invariavelmente o detective para o centro da trama.

Assim, sem ser nada de extraordinário, aconselho este livro, que permite ter um vislumbre da rainha do crime num formato completamente diferente do habitual de forma bastante satisfatória.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A Pocket Full of Rye

Título: A Pocket Full of Rye
Autora: Agatha Christie


Opinião: Este pequeno livro, comprado com um mega desconto qualquer que o deixou a menos de três euros, pareceu ser a obra ideal para desanuviar um pouco. Em época de exames não me apetece propriamente ler o Guerra e Paz, ou algo parecido, e acho sempre os livros de Agatha Christie tão agradáveis e leves, que pronto.

Como se pode ver ali, em vez de Poirot contamos com Miss Marple, que também é fixe. É uma personagem curiosa, obviamente, uma típica senhora inglesa que transmite uma certa sensação de frieza, principalmente de raciocínio, que me espanta sempre.

E esta história tem uma das particularidades que eu mais aprecio nas histórias da rainha dos policiais: a sua personagem, a Miss Marple, pouco aparece. A sério, só surge a meio do livro, em não mais do que três ou quatro capítulos a partir, e é só.

Já nos dois melhores livros que li de Agatha Christie, As Dez Figuras Negras, e O Assassinato de Roger Ackroyd, se passa o mesmo. Aliás, no primeiro nem sequer aparece o Poirot! Mas é algo que a autora costuma fazer, dá muita informação e muita história antes de começarem a acontecer os crimes, permitindo uma maior envolvência na trama. Sempre achei isso fenomenal, especialmente tendo em conta a mestria com que Agatha Christie o faz.

É que mesmo com este "atraso" na resolução do mistério, os seus detectives conseguem criar um impacto enorme. A Pocket Full of Rye não é excepção, com Miss Marple a resolver o mistério de forma peculiar e muito astuta, baseada apenas em alguns dedos de conversa, maioritariamente com as mulheres, e fazendo a ligação com uma rima infantil.

Impressionante e moderadamente interessante, ainda assim o livro ficou aquém. O mistério era muito, e as personagens interessantes, mas o desenvolvimento foi bastante mediano. O verdadeiro culpado foi (mais ou menos) surpreendente, mas disso até nem me queixo. Acho é que o livro é demasiado pequeno, e com a autora a ter enredo antes do trabalho de detective, não lhe fazia mal nenhum ter mais umas poucas páginas a expandir a história.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Morte de Lorde Edgware

Título: A Morte de Lorde Edgware
Autor: Agatha Christie
Tradutor: Tânia Ganho

Sinopse: A famosa actriz Carlotta Adams pede a Poirot que a ajude a obter o divórcio do marido, Lorde Edgware. O pedido é afinal desnecessário dado que, poucos dias depois, Lorde Edgware é assassinado com um canivete espetado na nuca. Novas mortes dificultam a investigação.

Opinião: Lido num par de dias, para não variar, "A Morte de Lorde Edgware" é mais um excelente livro de Agatha Christie, a Rainha indiscutível dos policiais.

Poirot é sem sombra de dúvida um dos detectives mais geniais que a literatura já viu, bem como uma das suas personagens mais interessantes.

É sempre com curiosidade que leio um livro em que apareça este brilhante detective belga. O simples acompanhar dos seus métodos e dos seus raciocínios ao longo de todo o livro, até chegar ao culpado... É absolutamente espectacular!

E como não podia deixar de ser, o livro não é única e exclusivamente sobre o Poirot, embora já fosse interessante o suficiente, se assim fosse. O enredo é também extremamente interessante, cheio de voltas e reviravoltas, a acusação a apontar numa direcção, e de repente noutra, nunca deixando que quem lê se situe e forme uma decisão definitiva, pois quando o pensa ter feito, aparece alguma coisa que iliba alguém, ou que incrimina alguém...

Enfim, nunca é uma aposta muita segura, qualquer que ela seja. Eu pessoalmente, enquanto lia esta história, mudei de opinião de espaço de 10 ou 15 páginas.

Mas bem, já não sei muito bem o que dizer, que em tanto livro lido, acabo sempre por dizer a mesma coisa... História espectacular, Poirot genial, o costume. Portanto, resumindo, mais um óptimo livro e um excelente policial!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Anúncio de um Crime

Título: Anúncio de um Crime
Autor: Agatha Christie
Tradutor: Carlos Afonso Lobo

Sinopse: "Anuncia-se um crime que terá lugar sexta-feira, 29 de Outubro, em Little Paddocks, às 18.30" é um enigmático anúncio publicado no jornal local de Chipping Cleghorn. A pacata aldeia fica em polvorosa e não é par menos. A proprietária de Little Paddocks, Letitia Blacklock, decide entrar na brincadeira e recebe os convidados. As luzes apagam-se e, quando voltam a acender-se, o "assassino secreto" actuou e o corpo da vítima jaz ensanguentado no chão. Mas este jogo mortífero conta com um jogador à altura: Miss Jane Marple.

Opinião: Caso haja alguém que torça o nariz aos livros da Agatha Christie que não têm o Poirot, só por não terem o Poirot, este é um dos livros cuja leitura eu aconselho vivamente. É claro que é muito complicado vencer o "As Dez Figuras Negras", uma obra para lá de genial, mas este "Anúncio de um Crime", com a Miss Marple, também é bastante engenhoso e uma leitura muito agradável, tirando um ou dois pequenos pormenores.

Tudo começa quando aparece um anúncio no jornal a avisar que irá ocorrer um crime em Little Paddocks, a casa de Letitia Blacklock. É óbvio que na localidade pequena e quase familiar que é Chipping Cleghorn, onde toda a gente conhece toda a gente, os vizinhos aparecem em peso em Little Paddocks, alguns a pensar que seria algum tipo de jogo, outros a pensar que era uma brincadeira de mau gosto, e outros ainda genuinamente preocupados, ainda que de forma disfarçada. Mas depois acontece o impensável e dá-se de facto um crime... Levantam-se as suspeitas e inicia-se a investigação.

E é aqui que aparece um pormenor que não me agradou. Um dos polícias fala de Miss Marple aos seus colegas, porque já a tinha conhecido e trabalhado com ela em outros casos, e pouco depois não é que uma das habitantes de Chipping Cleghorn, que tem uma qualquer relação familiar com ela, a convida para passar uns dias por lá? É assim que aparentemente do nada Miss Marple tem um pretexto para se meter na investigação (e resolver o caso).

Tirando isso, Miss Marple fascinou-me, apesar do protagonismo relativamente reduzido. Ela parece apenas uma velhinha que gosta de andar na cusquice e de falar de medicamentos e doenças e dos casamentos destes e daqueles, e na realidade... é basicamente apenas isso! Uma velhinha como outra qualquer, com os tiques de qualquer velhinha, e apenas com uma particularidade, o seu instinto apurado e raciocínio claro e eficiente que a levam a ser uma grande ajuda na resolução de crimes e deste em particular.

Ou seja, mais um excelente livro de Agatha Christie, como não podia deixar de ser. Fica a curiosidade para com Miss Marple e a pena de não ter aquela edição maravilhosa que tenho na imagem.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Segredo de Chimneys


Título: O Segredo de Chimneys

Autor: Agatha Christie
Tradutor: Isabel Alves

Sinopse: Anthony Cade, que trabalha como guia turístico na África do Sul, recebe de um bom amigo uma estranha missão que o faz regressar a Inglaterra. À chegada, é envolvido numa teia de assassinatos, chantagem e traição, relacionados com as lutas e políticas internas da Herzoslováquia, e numa romântica e misteriosa história de amor. Tudo isto complica a vida de Anthony... mas quem é, na realidade, Anthony Cade?

Opinião: Os livros desta autora já são, quase por definição, mais retorcidos que a mente do Pessoa, mas este leva tudo a um nível muito mais alto. Em média, acho que a cada meia dúzia de páginas a história mudava por completo, tal era a reviravolta que se dava. Como tal, além do habitual avanço que algumas personagens desta autora costumam levar em relação a nós, leitores, no que toca à resolução do mistério, neste livro em particular esse avanço é gigantesco. Às tantas já nem se sabe exactamente qual é o mistério a desvendar.

Tudo começa quando Jimmy McGrath pede ajuda a um amigo, Anthony Cade, para que ele leve uma encomenda a Inglaterra. Anthony aceita a missão e ao chegar a solo inglês, vê-se completamente rodeado por uma autêntica "teia de assassinatos, chantagem e traição", como diz a sinopse. Vários mortos, cartas incriminatórias e pessoas disfarçadas aos montes.

É óbvio que sendo a autora quem é, eu já estava sempre de pé atrás com os desenvolvimentos e afins que se sucediam. Desconfiava sempre de todas as descobertas e nunca me afeiçoava muito a ninguém. No entanto, e apesar do final ser um mistério dos grandes, confesso que houve pelo menos uma parte da qual desconfiei desde relativamente cedo, parte essa que não vou revelar, como é de esperar.

Só posso dizer mais que gostei muito do livro, um dos melhores que já li desta autora, e que foi útil, como sempre, para desanuviar e descansar as vistas. É algo que não consigo perceber muito bem, mas os livros de Agatha Christie lêem-se sempre num fôlego, aparentemente sem esforço praticamente nenhum! Uma grande, grande escritora, não haja dúvida...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Crime na Mesopotâmia

Título: Crime na Mesopotâmia
Autor: Agatha Christie
Tradutor: Arminda Pereira

Sinopse: Miss Amy Leatheran é uma enfermeira contratada para cuidar de Mrs. Leidner, esposa de um famoso arqueólogo, que sofre de "manias" que lhe provocam alucinações e o temor constante de ser assassinada. A enfermeira vai para a Mesopotâmia e toma conta da sua doente num acampamento no meio do deserto iraquiano, onde o marido chefia um grupo de arqueólogos. As fantasias da doente são cada vez maiores, mas ninguém a leva a sério, até que um dia aparece morta no quarto.

Opinião: Não há como resistir às histórias criadas por Agatha Christie. Principalmente às protagonizadas por Poirot, embora tenha que admitir a minha parcialidade neste assunto, uma vez que tenho quase a certeza de que 99% dos livros que já li desta autora se centravam na figura do pequeno detective belga com cabeça de ovo.

Em Crime na Mesopotâmia acabei por encontrar mais do mesmo, no melhor dos sentidos. Uma longa introdução à acção, que revela pistas e baralha quem lê; um crime misterioso resolvido de forma engenhosa por Poirot, ao dar uso às suas celulazinhas cinzentas; e é claro, como não podia faltar, toda uma trama digna de figurar em qualquer revista cor-de-rosa.

A forma como o crime é cometido é deveres engenhosa, a pessoa que o comete é, à falta de melhor descrição, obviamente inesperada, ou, se preferirem, inesperadamente óbvia. É daquelas situações em que encontramos uma situação muito típica, ainda que com pormenores intrigantes, que nos leva a pensar "só pode ser esta personagem, é sempre!", mas que volta e meia nos confunde, fazendo-nos acusar todas as personagens que encontrarmos, ou não fosse essa a especialidade de Agatha Christie, para no fim chegarmos à conclusão de que era mesmo a nossa primeira escolha!

Relativamente à história em si, apenas quero assinalar a originalidade da autora em arranjar quem a narre. Muitas das histórias são narradas por Hastings, mas esta é narrada por uma enfermeira que se encontra na cena do crime quase por acidente, e há até uma história em que a maior surpresa está directamente relacionada com o narrador... E é curioso a forma como o estilo de escrita, ou melhor, como a voz do narrador se altera de forma por vezes praticamente imperceptível, mas adaptando-se convenientemente à personagem que narra.

Por fim, quero só dizer que fiquei muito contente, pois aproximadamente a meio do livro cheguei à conclusão do que tinha acontecido! Quer dizer, mais ou menos, a priori posso afirmar que descobri uma quarta parte do mistério... Mas é claro que falhei redondamente nas outras três quartas partes, embora mesmo no final tenha conseguido perceber tudo antes de Poirot o explicar. No final de tudo, fiquei a gostar imenso do livro, provavelmente por ter sido o primeiro em que consegui descortinar alguma coisa de jeito antes do final... mas não digam nada a ninguém.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Um Crime no Expresso do Oriente

Título: Um Crime no Expresso do Oriente
Autor: Agatha Christie
Tradutor: Alberto Gomes

Sinopse: Em pleno Inverno, Poirot encontra-se em Istambul, decidido a tomar o Expresso do Oriente. Depois de uma noite mal passada, a sua tranquilidade é perturbada quando uma tempestade de neve obriga o comboio a parar e aparecer o cadáver de um passageiro brutalmente apunhalado.

Opinião: Se tivesse que escolher um livro modelo do Poirot, seria este. Fiquei com a impressão que de todos os que já li (já foram uns poucos...) este é aquele mais típico, onde a personagem e os seus métodos de dedução têm o maior destaque, tão curiosas são as circunstâncias.

Vejamos: presos num comboio, no meio de um nevão, sem mais nenhum meio de investigação que não fossem as célulazinhas cinzentas. Poirot só pode observar a cena do crime, interrogar cuidadosamente cada passageiro, sem ter maneira de confirmar qualquer das histórias a 100%, e pensar. E faz isso mesmo. Através de um processo metódico e muito organizado, Poirot avança na investigação, dedução a dedução, até chegar à solução do crime, por mais inverosímil que esta pareça!

Poirot observou, interrogou e deduziu. Já para não falar que, como quase sempre, parece ter chegado à solução do crime muito antes de a revelar, o que só mostra o seu método de forma mais acentuada. O detective belga chegou à solução, mas só depois de provar todos os pontos da sua teoria é que a revela como sendo de facto a solução.

Foi uma leitura fascinante, embora eu já conhecesse a história e soubesse o final de antemão, bem como alguns pormenores. Foi também uma leitura rápida, para não variar, com os livros desta escritora, sempre tão bem delineados e viciantes, sem falhas. Fica definitivamente aconselhado, como não podia deixar de ser, bem como o filme que se baseia nesta obra, que espero rever um dia destes, para poder deixar a minha opinião por aqui.

sábado, 18 de dezembro de 2010

As Investigações de Poirot

Pela milésima vez, lá voltei a repousar a mente num livro da rainha do suspense, desta vez um livro de contos, todos eles com Poirot como personagem principal, como não podia deixar de ser.

Também presente, temos Hastings, o narrador e o fiel companheiro de Poirot, que começo a reparar ser um Watson (companheiro do Sherlock Holmes) mas muito mais revoltado e muito menos sagaz. Talvez, em parte, por causa do gozo tremendo que o pequeno detective belga tem quando faz pouco dele.

Voltei a ter a sensação, nalguns dos contos, que Poirot sabe tudo desde o início, e vai revelando as informações aos poucos. Os seus métodos são absolutamente geniais, o que muitas vezes irrita o pobre Hastings, que quando pensa que o seu amigo vai falhar, revelando que não é assim tão inteligente, vê Poirot a dar a volta a situação das maneiras mais inimagináveis possíveis, provando que é assim tão inteligente.

A escrita sempre fluida de Agatha Christie permite que a leitura seja rápida, sem grandes demoras, ao mesmo tempo que se apanham todos os pormenores. A inteligência desta escritora devia ser qualquer de espectacular. Conseguir escrever histórias que muitas vezes têm enredos com montes de reviravoltas, que precisam de ser planeadas ao pormenor mesmo antes de se começar a escrever, com esta clareza e este ar natural e fluido... É obra.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Misterioso Caso de Styles

Não sei é por ter ali uma data deles, com uma encadernação bem apetitosa (nada a ver com o livro da imagem!), ou se é por causa do Poirot, ou se gosto mesmo assim tanto dos livros desta autora, mas a verdade é que não lhes resisto. Quando dou por mim, estou a pegar num.

Não me estou a queixar, atenção. São sempre bons livros, que se lêem depressa, de tão emocionantes. E este em particular, é capaz de ser aquele em que eu mais notei a forma magistral como a autora consegue sempre que o leitor seja gozado.

Porque foi isso que eu fui: gozado. À força toda. Até me senti mal, quando acabei de ler o livro. Chegar ao fim, descobrir quem foi o/a culpado/a, e perceber como tinha sido levado de suspeito em suspeito, acreditando, de cada vez, que aquela personagem é que tinha de ser o assassino, sem NUNCA acertar uma única vez, duvidando desde o início que a culpa pudesse cair em cima e quem caiu...

O enredo em si, como sempre, não tem nada de extraordinariamente intricado, nem nada que se pareça. Tem montes de reviravoltas, algumas previsíveis, outras completamente inesperadas, e praticamente todas com um ponto em comum: Poirot. O pequeno detective belga com cabeça em forma de ovo parece saber sempre tudo o que se passa, tudo o que todos pensam, tudo o que aconteceu, e tudo o que ainda está para acontecer. É fascinante.

A história é contada na primeira pessoa, por Hastings, o companheiro de Poirot, em muitas histórias, que é convidado a passar o seu tempo de licença (acabou de regressar da guerra) em Styles, a casa de um amigo de longa data. O amigo é John Cavendish, uma pessoa não muito dada à imaginação, que é casado com Mary Cavendish, uma mulher orgulhosa, e com uma presença imponente. Já o irmão de John, Lawrence Cavendish, é um pouco mais "apagado". Não podia deixar de mencionar a Mrs. Inglethorp, a velha dona da mansão, casada com Alfred Inglethorp, vários anos mais novo, e de quem ninguém parece gostar. E claro, a metódica e eficiente Miss Howard, que trabalha para Mrs. Inglethorp.

Tudo parece correr relativamente bem, até ao dia em que se dá o crime. Com vários pormenores estranhos envolvidos, Poirot é chamado a ajudar, e usa as suas "celulazinhas cinzentas", expressão que sempre gostei, para descobrir o que é que acontece. A forma como o faz, apesar de ser absolutamente fascinante, não me agrada tanto como a maneira holmesiana, entenda-se, do Sherlock Holmes. Nunca confiei muito na psicologia usada por Poirot, preferindo as provas empíricas e deduções racionais de Sherlock Holmes.

Mas é, sem dúvida, um bom livro, com a escrita maravilhosamente fluida de Agatha Christie, a sua habilidade de brincar com o leitor, e a personagem sempre interessante de Hercule Poirot.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sangue na Piscina

Agatha Christie. A autora ideal para desanuviar, depois de alguma grande leitura, seja ela a de um autêntico calhamaço, ou a de uma saga memorável.

E resulta sempre, este "Sangue na piscina" não é excepção. É mais um livro extremamente típico desta autora, com o detective belga mais adorado de sempre, Hercule Poirot. Com a particularidade de neste livro ter aparecido uma personagem que me encheu mais as medidas do que Poirot.

Essa personagem é Lady Angkatell. Uma mulher já nos seus 60's, completa e absolutamente aérea e fascinante. Dona de um raciocínio rápido e "leve", esta personagem consegue confundir todas as outras personagens, falando por metáforas, muitas vezes misturadas umas com as outras, e deitando cá para fora tudo aquilo que pensa, exactamente da forma que a pensa. São incríveis os saltos de raciocínio que esta personagem dá!

Mas bem, a história é interessante, como sempre. Suspeitei, ao longo do livro, de praticamente todas as personagens, como é costume, com esta autora, que tem o dom de desviar as atenções do verdadeiro criminoso, ao mesmo tempo que vai dando pistas sobre o que aconteceu realmente. E neste livro acontece exactamente isso, capítulo a capítulo aparecem provas que deixam mais do que claro quem é o criminoso. Só que cada nova prova leva a uma conclusão diferente da prova anterior, com todas a parecerem extremamente promissoras, e a não levarem a absolutamente nada.

Poirot, como sempre, é que domina a situação. Ainda que só apareça muito tardiamente na história, e tenha pouco destaque, continua a dar a sensação de que sabe tudo desde o início. Se bem que nota-se que o método de Poirot para resolver o crime não tem a relevância de habitualmente. Este é um livro muito mais focado nas personagens, e nas suas relações, bem como nas reacções ao crime, do que no crime propriamente dito.

Tudo isto, é claro, com a excelente escrita de Agatha Christie, a verdadeira big boss dos policiais à moda antiga.

sábado, 17 de julho de 2010

O Enigma do Sapato


Não é dos melhores livros que leio desta autora, podendo mesmo classificar-se como meramente razoável.

Mas não por causa da escrita, que continua simples e clara, focada em contar a história sem descrições supérfluas, e com a sua tendência para o humor inteligente.

E não é, de certeza, por Poirot, que é brilhante neste livro, como em todos os outros.

É mais por causa da história, do enredo em si, que embora no final pisque o olho ao seu habitual brilhantismo, não consegue, ao longo do livro, subir acima do ligeiramente interessante.

Não é que não tenha sido uma boa leitura, porque foi, aliás, foi exactamente aquilo que eu queria: uma leitura mais leve e mais... despreocupada, para como que "ressacar" da minha última leitura, mais pesada e exigente. Isso foi atingido na perfeição.

Agora enquanto policial, especialmente enquanto policial de Agatha Christie, com Poirot, falhou um bocado.

Não deixo, no entanto, de o aconselhar, com apenas algumas reticências, para não se desiludirem...

sábado, 8 de maio de 2010

Jogo Macabro


Esta é daquelas autoras que nunca me desilude. Já li vários livros dela, e gostei de todos! Alguns mais que outras, como é óbvio, mas gostei de todos, cada um à sua maneira.

E este não foi excepção. Bem ao estilo de Agatha Christie, com uma grande "introdução pré-crime", um crime de nos deixar perplexos, e um mistério mais do que misterioso.

Tudo começa quando uma famosa escritora de policiais, Ariadne Oliver planeia uma "Caça ao Assassino" para uma festa, a pedido dos anfitriões, como forma de a tornar mais interessante. Só que Mrs. Oliver tem um pressentimento de que algo está mal e, como tal, convida o seu amigo de longa data, Hercule Poirot, para estar presente e entregar os prémios. Qual não é a surpresa quando aparece um cadáver a sério, e Poirot tem que desvendar uma trama complexa de forma a descobrir o assassino.

Foi ao ler este livro que me apercebi de como Agatha Christie é uma escritora de policiais praticamente perfeita. "Constrói" a história até ao crime de forma eficiente e interessante, cria os mais variados cenários de crime, e descreve todo um processo de investigação da parte dos seus protagonistas (Poirot, neste caso), que nos deixa completamente maravilhados, tudo isto enquanto dá alguma profundidade a personagens sempre interessantes.

Uma autora obrigatória, seja qual for o livro.

domingo, 7 de março de 2010

Um Brinde à Morte


Sendo já o quarto livro desta autora que leio este ano, ainda não me fartei. Desta vez é uma história que conta com a participação do Coronel Race, embora este seja praticamente uma personagem secundária.

O enredo é algo misterioso. Durante um jantar, Rosemary Barton morre, envenenada com cianeto, depois de beber da sua taça de champanhe. Pensa-se em suicídio. Um ano depois, ainda com toda a gente mais ou menos abalada com esta situação, George Barton decide repetir o jantar, de forma a encontrar o assassino, pois está convencido que sabe quem ele é.

Só que, surpresa, durante o jantar, uma pessoa cai morta, depois de beber champanhe. Tinha sido envenenada com cianeto. Tal e qual como Rosemary um ano antes. Levantam-se suspeitas, investigam-se pessoas, tudo numa tentativa de descobrir o assassino.

Mas o livro propriamente dito, começa com a preparação dos vários intervenientes de ambos os jantares, para o dito jantar e, sempre fiel ao seu estilo, a autora faz com que toda a gente possa ser o criminoso. Todos têm motivo, todos têm oportunidade, todos agem de forma suspeita. Depois, claro, vai afastando as dúvidas de certas personagens, só para voltar a reincidir nelas as suspeitas, numa autêntica dança incriminatória, em que todos são acusados, sem que se descubra muita coisa.

No final, claro, uma reviravolta, e um criminoso que já não se estava à espera! Divertido e bem construído (embora, se me perguntarem, com defeitos gritantes nos diálogos... e algumas cenas menos bem conseguidas, que se tornam um pouco confusas), é um típico livro de Agatha Christie. Surpreendente, original, imaginativo, e com uma enorme capacidade de nos manter em suspense. Aconselhado, claro está.