quarta-feira, 22 de julho de 2015

Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar


Autora: Alison Bechdel
Tradutor: Nuno Sousa Tavares


Opinião: Um livro lento. Um título peculiar. Um enredo cativante e de certa forma tão absurdo que só pode ser real. Fun Home torna-se rapidamente numa exploração da homossexualidade e, mais importante do que isso, de como toda a gente lida com isso.

Do pai que esconde, à mãe que ignora, do irmão que não quer saber, à irmã que sente. Tragicomédia é realmente a melhor forma de descrever o que este livro conta. Autobiográfico e marcante, com uma arte competente (ainda que incapaz de fazer grandes expressões faciais para além de enfado profundo, talvez propositadamente) e uma narrativa fluida e bem construída.

Aquilo que mais me fascinou foi o timing de cada acontecimento, e a forma como as personagens estão construídas e parecem tão reais. O facto de serem representações na folha de pessoas reais, que a autora conheceu toda a vida, deve ajudar, mas mesmo assim é preciso ter muito jeito para isto!

A personagem que mais gostei de acompanhar foi o pai, com os seus segredos mais ou menos óbvios e os seus tiques, particularidades e idiossincrasias várias, que fizeram dele uma personagem complexa, fácil de compreender em certas alturas, e muito difícil de perceber noutras.

Não posso deixar de aconselhar esta leitura, a qualquer pessoa, embora tenha sentido falta de alguma coisa. Eu sei que é uma autobiografia, e o objectivo não era inventar, mas acho que bastava uma mudança de foco, de vez em quando. A autora fala várias vezes de algumas coisas que mereciam um enorme destaque, ou mostra situações relevantes, e nem umas nem outras têm mais do que um papel secundário em toda a história.

Só que lá está, novamente, eu compreendo. A vida também não faz pausa para vermos melhor as coisas, e o livro transmite bem essa experiência. Não conta aquilo que gostávamos mais de ver, mas sim aquilo que aconteceu, como aconteceu, e por aí faz sentido e dá-lhe pontos. Por outro, preferia que tivesse sido ligeiramente aldrabado.

De qualquer forma, é um bom livro, com isso nunca me deixei enganar.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O Baile


Argumento: Nuno Duarte
Arte: Joana Afonso


Opinião: As expectativas sempre foram boas. Boa(s) capa(s), um argumento de Nuno Duarte, argumentista de A Fórmula da Felicidade, e desenhos de Joana Afonso, uma das artistas que mais me tem fascinado nos últimos tempos. A história promete ser sobre zombies e a PIDE. Venha ela!

A primeira coisa a confirmar-se é que a arte é de facto fenomenal. Um traço meio de cartoon, muito expressivo, ligeiramente exagerado e, acima de tudo eficaz. As personagens transmitem emoções e sensações com a cara e a linguagem corporal, com facilidade, e os cenários em pano de fundo funcionam muito bem.

O argumento não é a ideia mais original e bem pensada de sempre, mas está sem dúvida bem escrito. Algo de que gostei muito foi que apesar do protagonista ser exactamente um agente da PIDE, a história foca-se pouco nisso, ou na ditadura, que não passa nunca de simples pano de fundo, contexto histórico. O que é interessante são os zombies na pequena vila piscatória (um sítio irónico para uma história tão lovecraftiana), e é isso que ocupa a maior parte do tempo de antena.

Enquanto livro, o maior defeito, para mim, é mesmo o facto de ser tão pequeno. Esta história podia ter durado mais, podia ter contado mais coisas. Não que esteja mau como está, porque não está, mas mesmo assim pareceu-me apressado, embora tenha que fazer a ressalva que isso pode ter sido fruto da minha leitura rápida e não do próprio livro.

É que as personagens são sem dúvida boas, assim como a reviravolta, que me conseguiu surpreender, mas fica a faltar qualquer coisa. Mais conteúdo... Deixem-me explicar. A sensação com que fiquei foi a de que tudo o que li/vi era enredo. Ou seja, não houve tanto espaço para caracterização das personagens, dos espaços, do contexto, para criar empatia com o leitor. O Baile é uma história sempre a direito, o que não é necessariamente mau, e neste caso é apenas não tão bom quanto poderia ter sido.

Resumindo, é um bom livro, que precisava de uns retoques e de mais páginas, com um argumento bom e uma arte muito boa, e que merece, sem dúvida, ser lido, especialmente por quem diz que autores portugueses não escrevem/desenham nada de jeito.

sábado, 18 de julho de 2015

Como vão as Lusofonices?

Da minha perspectiva vão bem e recomendam-se. Faz amanhã um ano que comecei esta Temporada Temática, e já li 27 livros de autores lusófonos (4 ainda por publicar por aqui), o que perfaz um bocadinho mais de uma quarta parte da minha média de leituras por ano.

Um feito impressionante só por si, ter-me conseguido dedicar a esse nível. Ainda por cima não me fiquei pelos livros: falei de pelo menos um filme e incluí várias crónicas na lista, além de entrevistas, lançamentos de livros, declarações de guerra (Chagas Freitas, 'tou-te a ver!) e citações. Posso dizer, sem pudor, que estou orgulhoso do meu trabalho!

Alguns textos ficaram mais ranhosos do que outro, mas acho que ainda escrevi alguns que sim senhor, ficarão para a minha história pessoal, aqui o blog.

O que é que aprendi até agora? Para começar, que isto era suposto durar, dois, talvez três anos, mas acho que vai ser para demorar mais. Estou com vontade de definir um limite, digamos, 100 livros. Só para ter um final para a temporada.

Aprendi também que se as pessoas acham que autores lusófonos significa autores portugueses e brasileiros, andam a perder muita coisa. Depois de ler um livro do Agualusa, convenci-me definitivamente que literatura luso-africana é coisa para mim.

Escritas até agora fascinantes, com livros que além de contarem boas histórias, são bonitos. Tudo naquelas narrativas (Mia Couto e José Eduardo Agualusa) transpira, ao mesmo tempo, os países africanos que decidem apresentar, o português da língua, e uma capacidade hipnotizante de contar histórias. Mais no caso de Mia Couto no que de Agualusa, m as ainda li poucos livros de cada um para me pronunciar completamente quanto a este assunto, mas epah, por agora, contem comigo.!

A coisa mais importante que aprendi, no entanto, é que existe muita coisa. De todos os géneros possíveis e imaginários! Qualidade, enfim, é mais subjectivo, mas a mim parece-me que temos muita coisa e muita coisa boa. Eu pelo menos ando a descobrir com cada coisa, algumas já bem antigas, que se usaram sabe-se lá porquê.

Isto é de tal forma verdade que já me sinto assoberbado. De cada vez que vou à prateleira das Lusofonices, ela prece ter mais livros. Torna-se ridículo. Para lá de ridículo!

É desencorajador, mas por outro lado, olho para lá e caço várias coisas que me abrem o apetite e me pedem para mergulhar o mais rapidamente possível. É fantástico.

Por agora não se preocupem, que tenho mais quatro opiniões prontas a serem escritas, e vários livros aptos a fazerem parte da Lusofonices. Acho é que até ao próximo Julho sou bem capaz de ler mais do que os 27 livros que li entretanto. A ver vamos!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Insólito


Autor: Loustal


Opinião: Um livro curto e engraçado. Está tudo dito. Gostei de ler, mas nada por aí além. a verdade é que isto é uma leitura que assenta muito melhor à minha namorada (que me emprestou o livro), do que a mim.

O humor entre o nonsense e o levemente mórbido, é um tipo de humor que ela aprecia bastante, especialmente quando bem feito, como está neste livro. Mas não é um tipo de humor que me fascine. Nonsense por nosense, venha o humor britânico.

No entanto bastam lerem a sinopse para perceberem que este não é um livro normal, com histórias normais. Todas elas têm algum pingo de impossibilidade que as tornam bem mais interessantes do que aquilo que são realmente, porque a arte está boa.

Essa sim, assenta que nem uma luva neste livro. E nem sequer é nada de especial, mas está estranhamente (ou não) adequada à coisa, o que é simplesmente fascinante.

Ou seja: aconselho, sim, mas de espírito aberto. Se forem à espera de encontrar uma história com um fio condutor muito óbvio, vão ler qualquer coisa que esteja na moda. Isto são histórias curtas que ocasionalmente não fazem uma pinga de sentido. O que por um lado é bom, mas por outro... Enfim.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Rugas


Autor: Paco Roca
Tradutora: Joana Neves


Opinião: Já há muito tempo que eu sabia da existência deste livro, mas nunca me tinha chamado particularmente a atenção. Aqui confesso-me uma vítima da publicidade: a deste livro foi muito fraca, com pouca ou nenhuma divulgação, e eu, inconscientemente, nunca lhe prestei muita atenção.

Agora que o li só posso agradecer ao meu primo (que lançou um livro há pouco tempo) pelo empréstimo. Rugas revelou-se uma leitura rápida, mas pesada, e sem dúvida uma das melhores deste ano, e de sempre!

Não, não estou a exagerar. Esta história sobre um velhote com Alzheimer, que se torna na história do amigo que faz no lar de idosos, é um dos mais tocantes e excepcionais retratos da doença que já vi. E não só da doença como da solidão e da terceira idade em geral.

É um livro triste, claro que sim, mas tem os seus momentos de alegria. E está recheado de momentos incríveis, ao nível do retratado na capa: a melhor forma possível de explicar a alguém o que é viver com uma memória que se desvanece a todos os momentos.

O grande triunfo de Roca não é o facto de conseguir explicar como é que a doença funciona e progride, mas sim como é que esta afecta as pessoas, não só quem dela sofre, como todos à sua volta. E quem diz Alzheimer diz qualquer uma das maleitas dos vários idosos do lar. Enfim, da velhice em geral.

Sabem qual é o maior efeito? É que depois de uma fase inicial em que a pessoa está demasiado consciente daquilo que lhe está a acontecer... há uma fase em que fica feliz. Perde as memórias de uma vida, mas ganha a leveza da juventude. Com as lembranças vai-se a idade.

É por isso que o protagonista, doente, se torna numa personagem cada vez mais alegre, com aquele sorriso benevolente e ignorante cada vez maior. Os momentos de lucidez escasseiam e encurtam, mas ele eventualmente já não quer saber.

Sobram os outros velhos do lar, todos eles dignos de terem o seu momento de antena, desde a avozinha que vai "roubando" pacotes de molhos e açúcar e todas estas pequenas coisas a que consegue deitar a mão, para um propósito algo inesperado, até, e este sim é importante, ao velho resmungão que dedica os seus dias a roubar uns míseros euros aos outros velhos.

Só saberão a importância de lerem. E vale bem a pena lerem até ao fim, não se enganem. A arte, ainda por cima, facilita, ao ser simples, mas eficaz, com alguns pormenores que acertam em cheio no alvo e fazem deste livro, sem dúvida, algo excepcional.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

The Bhagavad Gita


Tradutor: Juan Mascaró


Opinião: Na minha incessante busca por epopeias, deparei-me com esta, indiana e difícil de arranjar. Sem dúvida uma das mais antigas de sempre, intrigou-me desde o início por ser tão diferente daquilo a que estou habituado. Aficcionado por mitologia como sou, sei qualquer coisa sobre deuses e afins indianos, mas raramente me deparei com eles na literatura.

Este livro parecia ser o ideal para colmatar essa falha. Felizmente tenho uma namorada que me compreende e que me arranjou o livro, ainda por cima numa edição espectacular, de capa dura, igual à imagem lá em cima, encadernada a tecido, com zero notas de rodapé e uma introdução compreensiva.

A epopeia em si, infelizmente, deixa algo a desejar. Acho que gostei mais de ler a introdução. Acabei por gostar do livro todo, mas a epopeia propriamente dita é um livro religioso escrito em verso épico, que de certeza perde muito na tradução (sânscrito não é das coisas mais óbvias, de certeza), como tudo o que é escrito em verso, mais do que qualquer outro tipo de texto.

O pouco de história que há é uma conversa entre Arjuna, um herói, e Krishna, o deus supremo do hinduísmo durante uma batalha, com o primeiro a ter dúvidas, e o segundo a responder a essas dúvidas e muito mais.

No fim, e embora os ideais hindus sejam interessantes, este livro lê-se como um martelo a tentar enfiá-los dentro da nossa cabeça. Há ali muita coisa que até valia a pena conhecer melhor, mas também há ali muita coisa que está muito, mas muito fora do contexto, o que dificulta muito a compreensão.

E o tradutor, que escreveu a introdução, não tem razão numa coisa: por muito que ele tenha tentado, a musicalidade desapareceu completamente dos versos. Tenho a certeza que fez o seu melhor, e que esta tradução é de facto excelente, mas deve ser impossível manter a qualidade original quando a tradução é entre duas línguas mais comuns e parecidas entre si, quanto mais quando uma delas é sânscrito.

Isto para dizer que foi uma boa leitura, mas que ficou aquém, por motivos difíceis de combater, a tradução e o conteúdo. Para aquilo que é... está muito bom. Para mim... está razoável, mas não me ficará na memória como uma obra muito relevante.

domingo, 12 de julho de 2015

Lançamento de "Lágrima", de André Pereira


Depois de pequenas estórias de muitas vidas, chegou a altura do meu primo, André Pereira, lançar o seu primeiro romance. É um orgulho, e já está na pilha para ser a próxima leitura, como é óbvio, que ainda por cima tive direito a versão autografada e tudo.

O lançamento foi na Sexta, dia 10, em Lisboa, na Livraria Desassossego, e Sábado, dia 11, em Leiria, na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira. Lá estive dia 10, para colmatar ter falhado o lançamento do primeiro livro, e a coisa correu bem.

Antes de continuar, no entanto, e para efeitos de aviso, gostava de dizer que vou deixar de lado os meus problemas com a Chiado. Não, não me agrada fazer publicidade a esta... "editora", mas ainda me agrada menos não fazer publicidade ao livro do meu primo, que eu sei que escreve bem e merecia isto já há muito tempo.

Continuemos.

Daquilo que fiquei a saber sobre o livro, a coisa promete e promete muito. Basta ler o primeiro parágrafo, transcrito na imagem ali em cima, para perceber o calibre do que aí vem. Como foi dito na apresentação, é uma autêntica entrada à leão águia!

Já agora, a apresentação esteve a cabo de Nuno Costa Santos, um criativo da mesma raça do André e que foi seu colega no Rádio Clube Português. Correu bem, mas falou demasiado, na minha opinião. Não é fácil apresentar um livro, como é óbvio, especialmente para um público que ainda não o conhece, mas enfim, tenham em atenção que eu é que não gosto do estilo da apresentação, que tirando isso foi muito boa e sem grandes falhas a apontar.

E o que fica do livro? Que é ao mesmo tempo triste e feliz, e que não é de forma óbvia. É mais feliz a mãe que chora a morte do filho, do que o pai que ri. Tenho a certeza que lá pelo meio há pontadas de humor, ocasionalmente negro como uma mancha de tinta daquelas desagradáveis que teima em não sair, mas sempre bom. Homem dos milhentos ofícios, se há um que lhe é transversal, é o de humorista.

O que, aliás, se notou durante a apresentação, que foi tal e qual como eu estava à espera: emocionada, nervosa, extremamente satisfeita, orgulhosa, engraçada e cautelosa, que se há coisa que não me parece que ele faça, é dar passos maior do que as pernas. Tem noção da sua posição enquanto escritor estreante e sabe para onde quer ir, o que por agora é vender o máximo possível do seu primeiro livro.

Eu estou curioso, quero de certeza ler isto e não tenho dúvidas de que será uma leitura rápida. Estejam atentos, que a opinião há-de aparecer aqui algures.

E para o André, desejava-lhe boa sorte, mas isso é para quem não é bom naquilo que faz, portanto, parabéns e continua assim. Um dia espero ser eu a fazer como tu (sem ser na Chiado, desculpem, não resisti), e por agora fico satisfeito em apresentar o próximo livro!