quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Doctor Who [T8]


A oitava temporada da série é a segunda com Jon Pertwee no papel de Doctor, já completamente entregue à personagem. A naturalidade com que a encarna é extraordinária, e não envergonha a crueza da representação de William Hartnell, nem a versatilidade da representação de Patrick Troughton.

Ao mesmo tempo, esta temporada é importante para a série por várias razões: introduz o Master, introduz Jo Grant como nova companion, revela muito sobre o Doctor e volta a pô-lo a bordo da Tardis, e tem algumas das histórias mais espectaculares da série, largamente vistas como excelentes pelos fãs: logo a primeira, Terror of the Autons, e a última em particular, The Daemons.

Eu achei que todas as histórias estiveram bastante acima da média, o que não é fácil nesta série. Acho que a redução de número de histórias por temporada, na transição de Troughton para Pertwee, foi uma boa jogada, que permitiu ter temporadas mais equilibradas e menos cansativas.

A primeira história, como já disse, é Terror of the Autons, que reintroduz os icónicos Autons, vilões que regressariam para atormentar o Ninth Doctor de Christopher Eccleston, no primeiro episódio da nova série. E logo ao início, o primeiro defeito, que muito me chateou: a companion da sétima temporada, Liz Shaw, por muito instável que fosse enquanto personagem, simplesmente desapareceu de cena, para ser substituída por Jo Grant, e ainda por cima com uma desculpa ligeiramente idiota (ainda que ligeiramente legítima).


É uma pena que uma personagem tenha sido assim tratada, mas Doctor Who tem um longo historial de tratar mal alguns actores, por um motivo ou por outro. O outro problema aqui foi que a nova companion era muito fraquita. Uma personagem irritante, vagamente interessante, mas que ficava em apuras praticamente uma vez por episódio, sem acrescentar absolutamente nada à acção, nem ao enredo.

Ao mesmo tempo, esta é a primeira história em que o Master aparece, interpretado pelo incrível Roger Delgado, e não tem direito a uma introdução decente. Gostava de ter visto algo mais calmo, que desse tempo para nos habituarmos à personagem, antes de estar a confrontar o Doctor. É que Delgado tem uma representação muito intensa, e o Master tem realmente um ar pérfido e carismático, mas parece que foi enfiado à pressão na história.

Os episódios, no entanto, desenrolam-se bem. Estão bem feitos e têm um bom argumento, o que também não era tão fácil quanto isso, nos primórdios da série. Gostei particularmente de ver Pertwee e Delgado a interagir, ambos excelentes actores com excelentes personagens, e a demonstrarem um fantástico funcionamento conjunto.

Nos momentos finais, o Doctor troca uma peça da Tardis do Master pelo equivalente da sua própria Tardis, que está avariada, e lança assim o primeiro arco narrativo a sério do programa. De tal forma que o Master volta a aparecer em todas as histórias desta temporada!


Mas antes disso, vamos à segunda história, The Mind of Evil, que tem uma boa premissa: uma prisão usa uma máquina que extrai o Mal dos criminosos, com o intuito de os reabilitar. Os resultados não são muito bons, já que a única coisa que conseguem é que algumas pessoas morram, literalmente, de medo. O que também é uma boa ideia e uma boa utilização do conceito desta história.

E é aqui que se descobre algo muito interessante sobre o Doctor, que quando confrontado com a máquina que confronta as pessoas com os seus piores medos, vê fogo. Não sei de nenhuma razão em particular para isto, e tenho esperanças que o assunto ainda seja abordado, mas é interessante! O Doctor, que já viu, viveu, e enfrentou tanta coisa, tem medo de fogo. Pode até ter sido uma escolha pouco pensada e semi-aleatória da produção, mas funciona perfeitamente que o homem que tantas adversidades já venceu, muitas vezes apenas com o seu intelecto, fique aterrorizado com uma força imprevisível e irracional como o fogo.

No meio desta história, que também está muito bem conseguida, o mais interessante acabam por ser os encontros entre o Master e o Doctor. Outra vez. A relação dos dois é realmente muito estranha, entre o companheirismo de irmãos e a rivalidade de inimigos mortais. Um bocado inversa à relação que o Doctor tem com o Brigadier, que é uma das mais estranhas que já vi em ficção.

Na história seguinte, The Claws of Axos, aparecem uns aliens perturbadores, o Doctor revela a sua pouca paciência para aturar soldados, e a Jo torna-se mais interessante ao revelar a sua pouca paciência para aturar machismos. E o Master, sempre incrível, até colabora com o Doctor, sem que nenhum dos dois revele as suas verdadeiras intenções ao fim!


Muito bom mas, na minha opinião, é uma história que fica na sombra de A Colony in Space, que é bem melhor. Cá temos o Doctor novamente a viajar na sua Tardis, ainda que seja como pau mandado dos Time Lords. E cá temos uma história bem construída, bem explorada e bem conseguida. Todos os actores envolvidos fizeram uma excelente trabalho a demonstrar a luta inglória de uma colónia terrestre contra uma agressiva empresa de extracção de minério.

Não há cá acordos, nem nada que se pareça. Até tentam, mas redundam sempre na mesma coisa: porrada, traições e esquemas para mostrar quem é que manda. E como se isto não bastasse, existe ainda uma raça alien com uma história muito mais interessante do que parecia à primeira vista, e com um papel surpreendente no desenrolar da acção.

O final, esse, é impressionante a todos os níveis, e para todas as partes envolvidas. Gostei bastante destes episódios!

Ainda assim, foi a história final que me arrebatou completamente. The Daemons, considerada há décadas como uma das melhores histórias que Doctor Who já viu. Não discordo. Tem o melhor Roger Delgado até ao momento, e um argumento tão bem escrito que envergonha o resto da temporada. A luta aqui é mais ideológica do que outra coisa: ciência contra magia. De um lado o Doctor, céptico até às últimas, do outro quase toda a gente, levados por superstições e supostas manifestações sobrenaturais.


A parte interessante é ver o Master a conduzir rituais místicos. A minha primeira reacção foi “mas que raio”, a segunda foi “oh, wow, então é isso”, e quando os demónios, perdão, os daemons começaram a aparecer, a minha reacção foi “é melhor que me expliquem isto!, mas não agora, que quero ver o que vai acontecer”. Não estou a brincar. Finalmente uma história sem falhas, que nos conduz de um episódio para o outro sem perder o interesse e que tem uma explicação muito clarkiana. Aliás, o episódio final está recheado de momentos incríveis, e termina com o Doctor, sempre sábio, a dizer que “There's magic in the world after all!”, num óptimo contexto.

Tudo junto, isto faz desta temporada a melhor até agora, ainda que não com o melhor Doctor (William Hartnell continua imbatível, se querem que vos diga). Importante é ver onde é que isto vai dar, e como é que vai ser a próxima temporada, que também tem vários episódios famosos. Por agora estou mais do que satisfeito!

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