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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Sombra sobre Lisboa [3/3]


Autores: Rogério Ribeiro, Safaa Dib, Luís Filipe Silva, João Henrique Pinto, David Soares, João Seixas, António de Macedo, Rhys Hughes, José Manuel Lopes, Fernando Ribeiro, Yves Robert, Vasco Curado, João Ventura, João Barreiros
Tradutor: João Henrique Pinto (para o conto do Rhys Hughes)


Opinião: Depois disto e disto, termino aqui a minha opinião sobre este livro. Os cinco contos de que ainda não falei são encabeçados por Mastodon, de Fernando Ribeiro, que conta com uma escrita fantástica. O tom é mais íntimo do que narrativo, o que acaba por funcionar muito bem para o tipo de história, que à semelhança da anterior, de José Manuel Lopes, tem todo o ambiente de Lovecraft sem ser propriamente de terror.

Acerta em cheio no imaginário, mas escreve um conto... bonito. Quase poético. Muito diferente daquilo que Lovecraft costumava escrever, mas bastante fiel ao seu estilo. Agradou-me bastante, tudo isto!

O conto seguinte é A ameaça rastejante, de Yves Robert. A minha opinião não está propriamente formada, porque é tudo muito meh. A escrita é mediana, a história é mediana - com alguns momentos a deixarem muito a desejar - e o fim também é mediano. Fica a faltar caracterização das personagens e enfim, mais qualquer coisa!

Em A Hora, Vasco Curado conta uma história interessante, mas que não fica na memória. A escrita é boa, talvez das melhores desta antologia, e a história é interessante, mas não propriamente marcante.

Já em Num túnel em Lisboa, João Ventura desenvolve uma narrativa peculiar e interessante, com um bom ritmo e descrições arrepiantes dos subterrâneos lisboetas. A interrupção das obras no metro da Baixa faz todo o sentido, quando vista por esta luz, e a forma como o conta é realmente boa. Ventura tem uma escrita distintiva, embora seja muito fluido em termos de estrutura, e isso nota-se aqui, adaptando-se quase na perfeição ao estilo de Lovecraft, sem nunca perder as características marcantes da sua escrita!

Por fim, e para terminar em grande, Por detrás da luz, de João Barreiros, sem dúvida o conto de que mais gostei nesta antologia, não só pela sua qualidade intrínseca, mas porque consegue juntar escrever um conto lovecraftiano de FC. É qualquer coisa!

Os detalhes que compõem o mundo de forma quase sup-reptícia são fantásticos como sempre, e antes de dar por ela já estou completamente imerso no universo do conto. A escrita mordaz e ríspida de Barreiros agrada-me bastante, e já há uns tempos que não lia nada dele, portanto isto soube-me bem.

Acho que talvez se tenha arrastado um pouco, mas consigo imaginar o autor a entusiasmar-se enquanto escreve, sempre com vontade de enfiar mais duas ou três ideias e conceitos numa narrativa já repleta de tudo e mais alguma coisa.

Há horror, há FC da dura, há amor, há traição, há um excelente desenvolvimento de personagens, há uma excelente trama, descrições fantásticas e um ritmo absolutamente frenético!

É uma boa forma de terminar. A antologia é um livro forte, com algumas falhas mais previsíveis do que outras, e que é, acima de tudo, coerente, o que só por si já é de louvar, e de que maneira! Confesso que foi uma leitura penosa, mas ninguém me mandou ler estas páginas todas sobre a mesma coisa. Torna-se repetitivo, e só o meu amor à camisola é que me manteve de livro aberto... Mas no fim foi uma muito boa leitura, e uma que aconselho, sem sombra de dúvida.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Na Sombra das Palavras


Autores: Ângelo Teodoro, João Ventura, Mário Seabra, Fábio Ventura, David Camarinha

Opinião: Fiquei muito desagradado com esta primeira obra a sair do forno da Editorial Divergência. A edição está porreira, com um grafismo agradável e esses pormenores técnicos todos. As ilustrações antes de cada conto estão um mimo, e as biografias dos autores estão curtas e directas, como devem ser. Já a qualidade dos contos...

Tenho um problema de formato, logo à partida. Estes contos foram os escolhidos de entre as participações num concurso de contos de Thriller Fantástico. E se um eu apenas consigo considerar como levemente Fantástico, nenhum deles se enquadra no género de Thriller, na minha opinião.

Antes de continuar, e a favor da imparcialidade, quero referir que eu participei neste concurso com um conto, e obviamente não fui escolhido. Mas não escrevo esta opinião de forma rancorosa ou como vingança, porque eu não acho propriamente que o meu conto seja melhor que qualquer um destes. Acho que se pode classificar mais como Thriller do que qualquer um destes, mas isso não é relevante para o caso. Asseguro apenas que a minha opinião seria a mesma caso tivesse sido aceite ou caso não tivesse concorrido.

O primeiro conto, O Livreiro, de Fábio Ventura, talvez ainda seja aquele de que gostei mais. Mas a história, apesar de ligeiramente bueda meta não me deixou satisfeito. Confuso e demasiado curto, o conto peca por ser demasiado simplista. Isto porque a ideia é boa, uma misteriosa mulher feita de papel, o encontro dessa mulher com um livreiro e as consequências desse encontro, mas ficou a faltar qualquer coisa.

Depois vem A Lista de Deus, de João Ventura, um autor de que gosto mas que aqui não me agradou. É este conto que considera apenas como vagamente Fantástico. Apocalíptico, mas com uma escrita demasiado formal e aos solavancos, são os pormenores que estragam tudo. Como por exemplo haver um especialista em línguas que traduz uma placa de uma língua morte super antiga, gravada numa placa super antiga, on the fly. Eu não sou especialista nenhum, mas isso não é bem assim que funciona, parece-me.

O Panóptico, de David Camarinha, volta a pegar no estilo ligeiramente bueda meta, mas com uma abordagem mais pausada e metafórica. E que não encaixa minimamente no Thriller. O conto até nem corre mal, mas o final é mau e deixou-me com vontade de pegar no autor, voltar a sentá-lo à secretária e obrigá-lo a escrever um final decente para aquilo.

Em O Labirinto de Papel, de Ângelo Teodoro, o que encontrei foi uma premissa interessante, com uma escrita que não é nada má (embora um tanto ou quanto enamorada de si própria), mas um desenvolvimento mediano. A escrita ficou demasiado pesada para a história tão ligeira!

Por fim, Tabula Rasa, de Mário Seabra/Coelho (a antologia nunca se decide) é uma história confusa e que não me conseguiu cativar minimamente. A escrita deve ter sido a melhor dos cinco contos, mas o enredo é confuso e a melhor parte fica por contar.

Como podem ver, tenho uma apreciação negativa da antologia. Algumas das premissas eram boas, e a escrita no geral não é nada desagradável, mas a concretização em si... Podia ter ficado muito melhor! Acho que o mais marcante, para mim, é o tiro ao lado no género dos contos, mas pronto.

Pelo menos fiquei satisfeito com a edição e seriedade com que a equipa levou o projecto. Acho que é uma editora com muito potencial para crescer, e que irei acompanhar com atenção, inclusivamente participando regularmente nos concursos, a ver se me alguma vez me calha a mim. Por agora, no entanto, vou ter que torcer o nariz à qualidade do conteúdo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Brinca Comigo!

Título: Brinca Comigo!
Autores: David Soares, João Barreiros, João Ventura, Luís Filipe Silva

Sinopse: Divirta-se, viaje e surpreenda-se com estas estórias fantásticas, forjadas na imaginação de quatro dos mais conceituados e inventivos escritores do género em Portugal, e que tiveram como ponto de partida aquele que é talvez o mais fascinante de todos os objectos: o Brinquedo. Ou haja quem nunca tenha experimentado os mundos maravilhosos que irresistivelmente se nos abrem a seus pés!

Opinião: É sempre agradável encontrar um livro à venda que já se pensava impossível de encontrar. Foi o que aconteceu com esta (abençoada feira do livro da estação de metro do Oriente) pequena colectânea de 4 contos, que inclui 2 dos meus escritores favoritos: João Barreiros e David Soares.

Não quero desprezar os outros dois autores, atenção. Só que de João Ventura não conheço quase nada, e apenas recentemente tive noção de quem era o Luís Filipe Silva, co-autor do Terrarium, que ainda tenho que encontrar, juntamente com o João Barreiros, e de outras histórias de ficção científica, editor de antologias e tradutor, além de outras actividades dentro da literatura, especialmente da ficção científica.

Interessante, mas quer dizer, João Barreiros! David Soares! Alguém que acompanhe as minhas opiniões deve ter noção do fascínio que tenho por estes 2 escritores. Mas vou tentar não descair muito para o lado de fã excitadinho.

Ora bem, o primeiro conto é precisamente Brinca Comigo!, que dá o título à antologia. É um conto interessante que eu já tinha lido em Se Acordar antes de Morrer, sobre um futuro distópico em que os brinquedos se agregaram numa Horda em busca de um alvo final. O ambiente é negro, a história é negra e as personagens são brinquedos... Foi para mim o melhor conto destes 4, digam lá que não estão interessados?

Passando a David Soares, o que é que acham que se pode esperar de Um erro do Sol? Definitivamente o conto mais estranho, sangrento e perturbador. Este homem escreve Horror com H bem grande. Tudo começa de forma muito inofensiva, com um brinquedo estranho, e descamba de forma bastante.... à là Soares, ainda que ligeiramente previsível. Se isso significa que este conto classifica este livro como "de certeza não aconselhado para estômagos fracos"? Completamente.

Mas para descansar um pouco, aparece A Boneca, de João Ventura, o conto que achei mais fraquinho. É interessante e a escrita não é má, mas pareceu-me ligeiramente banal e confuso. Uma história de voodoo ao longo de um período de tempo bastante alargado, e que serve como motor de uma (não tão) ligeira crítica social e isso tudo, mas enfim. Nada de especial.

Por fim, Não é o que ignoras o motivo da tua queda mas o que pensas saber, de Luís Filipe Silva, foi das coisas mais curiosas que li nos últimos tempos. A história base não é propriamente nova, uma invasão de extraterrestres, a forma como se lida com isso é que me pareceu bastante diferente do habitual. Estes extraterrestres são muito sossegados, muito calminhos, mas completamente implacáveis e imparáveis. E é óbvio que são vencidos, de forma bastante curiosa. Ou não.

Resumindo, apesar de ser um livro pequeno, Brinca Comigo! é uma leitura bastante interessante, que tirando o conto do João Ventura, tem apenas contos de muita, muita, muita qualidade, de escritores com muita, muita, muita qualidade, que raramente desiludem ou que prometem muito: João Barreiros, David Soares e Luís Filipe Silva. Não é, no entanto, um livro que seja lá muito aconselhado a toda a gente... Tem David Soares, e é sempre preciso algum estômago para digerir algo que ele escreva, não é verdade? Considerem-se avisados.

P.S.: Este livro deve ter a capa mais perturbadora de sempre.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Vollüspa (Parte 1 de 2)

Título: Vollüspa
Autor: Vários

Opinião: Vamos lá começar a falar dos contos. Da capa não falo mais, apesar de ser, repito, uma das capas mais espectaculares que já vi. Mas bem, adiante.

A Vollüspa está divida em 3 partes, por géneros. Primeiro vem a Ficção Científica, o Terror e por fim a Fantasia.

A iniciar a primeira secção, aparece o conto de Afonso Cruz, O Pequeno Guia do Céu, de Tristan de Sapincourt, um pequeno conto delicioso, que me despertou o interesse para este autor. As constantes referências a personalidades famosas e a eventos importantes da história da Humanidade deixaram-me com água na boca, bem como a pequena narrativa, que termina numa crítica à visão excessivamente científica, e que apela, bem como todo o conto, à visão fantasiosa das nossas mentes.

De seguida vem Natal®, de Carlos Silva, uma história que satiriza um hipotético Natal futuro, provavelmente não tão distante da realidade como todos gostaríamos que estivesse. O Natal apresentado é artificial, de uma ponta à outra, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E quando a coisa começa a correr mal... Bem, a solução até é fácil!

Depois, Eternidade, de João Ventura, que me agradou bastante. É a história de uma Presença, de certa forma eterna, tanto a história como a Presença, que guarda algo que pode mudar o futuro da Humanidade, e da forma como ela evita que isso venha a acontecer, de forma algo fria e desligada, de acordo com a presença da Presença narradora, passe a repetição. Lembro-me que ao acabar este conto, pensei que já tinha valido a pena ler isto. E mais não digo.

Agora vem A Queda de Roma, antes da Telenovela, de Luís Filipe Silva, mais uma sátira bastante óbvia, ainda que talvez seja, de certa forma, algo subtil. Eu sei que isto parece parvo, e possivelmente algo pretensioso, mas acreditem, depois do primeiro impacto há toda uma série de impactos mais subliminares, vá, que dão uma nova dimensão a este conto.

O quinto conto é Génesis - Apocalipse, de Roberto Mendes, o organizador deste volume, conto em que o autor, como o próprio o diz, homenageia dois grandes da ficção científica, Isaac Asimov e Robert Silverberg, nomeadamente o livro que os dois escreveram juntos, The Positronic Man. Aquilo que o Robert fez foi ir além daquilo que leu, na juventude, pensar e imaginar para além das fronteiras de um livro que só por si já merece todo o respeito, e criou esta pequena história em que evoca essas suas memórias (mais uma vez, como o próprio refere, na nota de editor), de forma interessante e bem escrita.

Já e entrar na secção de Terror, mais curta que as outras duas, o conto inicial não me agradou por aí além. É O Acorde das Almas, de Carina Portugal, e que apesar da boa escrita, não me conseguiu prender por aí além, talvez por não ser o tipo de terror que mais me agrada.

Depois aparece Enquanto Dormias, de Nuno Gonçalo Poças, que é exactamente um dos tipos de terror que mais aprecio: perturbador, algo bizarro e brutalmente directo. Uma história que gostei de ler, com muita loucura envolvida (ou não?), com uma linha narrativa algo obscura e difusa. Tal como eu gosto.

E pronto, fica por aqui a primeira parte, até agora a crítica geral é favorável, diga-se de passagem. Falta só ver quando é que arranjo tempo para escrever a segunda metade!