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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Scott Pilgrim no seu melhor (Scott Pilgrim #6)


Autor: Bryan Lee O'Malley
Tradutor: Renato Carreira


Opinião: Uma boa forma de encerrar a saga! Um livro maior do que os outros cinco, em que tudo descamba da melhor forma possível. A personagem de Scott continua a irritar-me, foi um choninhas até ao fim, de sorte em sorte, sempre completamente incapaz de fazer o que quer que fosse. Deram-lhe tudo e fizeram tudo por ele. Enfim.

Mas a melhor personagem revelou-se a Kim, que brilha a todos os níveis possíveis neste volume. É a demonstração final de que o Scott Pilgrim é o protagonista porque sim, já que Kim é uma personagem infinitamente mais interessante.

No entanto é de louvar que depois dos últimos livros me terem desiludido ligeiramente, este eleva novamente a fasquia, e até nem me chateava se a saga continuasse. O humor continua parvo, e o surrealismo continua aparentemente aleatório, como bom surrealismo que é, mas a caracterização das personagens ganha um novo fôlego. Esse facto é impressionante por si só, já que muitas delas tinham perdido grande parte do interesse.

Scott Pilgrim no seu melhor é assim uma boa forma de terminar a saga, e que de certa forma consegue compensar a menor qualidade de alguns dos livros ali pelo meio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Scott Pilgrim e a Tristeza Infinita (Scott Pilgrim #3)


Autor: Brian Lee O'Malley
Tradutor: Renato Carreira


Opinião: Scott continua a ser um ignóbil que não compreendo que seja o protagonista. Mas suponho que as suas fraquezas apenas lhe dêem uma camada de realismo, enquanto personagem.

Por outro lado, o 3º ex-namorado maléfico da Ramona é Todd, baixista na mesma banda em que a ex-namorada de Scott, Envy, é vocalista. E é vegan. O que quer dizer que tem super poderes psíquicos. Que lhe são retirados pela polícia vegan depois de ele comer um gelato, que tem leite e ovos.

Há que adorar isto. No entanto é mais um combate que o Scott ganha por ser um tipo sortudo e mais nada. Mas nota-se a qualidade a aumentar, com as histórias cada vez mais reais e cada vez mais fortes, e desenvolvimento real das personagens!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim #2)


Autor: Brian Lee O'Malley
Tradutor: Renato Carreira


Opinião: Continua divertido, exagerado e meta, mas sofre ligeiramente de ser mais do mesmo. As personagens não evoluem grande coisa, e tudo acontece simplesmente porque sim, de forma aparentemente aleatória, incluindo as decisões e acções das personagens.

Desenvolvem-se algumas histórias secundárias deveras interessantes, para compensar. Adensam-se as relações amorosas, com praticamente toda a gente a já ter sido namorada/namorado de toda a gente.

E os namorados maléficos continuam a aparecer. Scott continua a vencer na vida ao ser ao mesmo tempo um tipo sortudo, estranhamente competente, e uma enorme besta no que toca a raparigas: começa a namorar com Knives, apaixona-se por Ramona, namora as duas ao mesmo tempo, acaba com a primeira e depois deixa-se afectar, e de que maneira, pela ex-namorada Envy Adams. Ridículo. Se fosse eu, batia-lhe.

Aliás, a personagem de Scott é o chamado panhonha, um tipo inútil e ligeiramente morto por dentro, incapaz de fazer alguma coisa para além de se queixar, mas tem todas as raparigas atrás dele. E consegue sempre o que quer. Isto faz dele uma personagem no mínimo peculiar, com a qual é difícil de simpatizar.

Mas há pormenores interessantes que prometem, portanto apesar de ter sido uma pequena desilusão, tenho alguma confiança no que vai sair daqui. A ver vamos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Scott Pilgrim na Boa Vida (Scott Pilgrim #1)


Autor: Brian Lee O'Malley
Tradutor: Renato Carreira


Opinião: Divertido até ao tutano, exagerado e bueda meta. É assim o primeiro volume. A história de Scott Pilgrim, um rapaz estranho que só quer é ter uma vida calma. Vive com um amigo gay, dormem na mesma cama, mas não se envolvem. Scott começa a namorar com Knives Chau, uma rapariga de 17 anos que se torna rapidamente a maior fã da sua banda, os Sex Bob Ombs, juntamente com o vocalista (que deve ter um nome mas não é uma personagem particularmente memorável) e Kim, a baterista mais badass de sempre.

Mas tudo muda quando Scott começa a sonhar com Ramona Flowers, uma misteriosa rapariga com vários ex-namorados maléficos.

Só que as coisas ficam muito rapidamente muito estranhas com a Ramona a dizer, do nada, que ela lhe aparece em sonhos porque há uma autoestrada subespacial que passa pela cabeça dele. Foi assim que percebi que não estava apenas a ler uma BD, mas uma BD hiperactiva.

Com a vantagem de também ser bueda meta, graças a uma discreta self-awareness das personagens de que estão dentro de um livro.

Infelizmente, no meio disto tudo, o autor até tem um mundo (relativamente) consistente e convincente, só que decide que, do nada, o Scott é o melhor lutador das redondezas, depois de se demonstrar completamente inepto a praticamente tudo. Soa estranho.

Enfim, tirando essas coisas, é um livro porreiro, com um storytelling muito ao meu estilo, e um humor delicioso. Depois de ler este livro fiquei com a ideia de que os seguintes iam precisar de uma pequena volta na estrutura e na forma de contar as coisas, para não cometerem os mesmos erros que este volume.

Mas a esperança ficou, pois Scott Pilgrim na Boa Vida é um bom começo de saga.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Voz do Fogo


Autor: Alan Moore
Tradutor: David Soares


Opinião: A minha curiosidade para este livro era mais que muita. Um romance escrito por um dos autores de BD que mais admiro? Venha ele! A edição é espectacular, portanto ainda antes de o abrir eu já sabia que ia ter prazer nesta leitura.

Assim foi. Separado em doze capítulos, nem sempre relacionados entre si de forma muito óbvia, este livro tece uma autêntica tapeçaria de símbolos, personagens e situações que guiam o leitor por uma pelos retalhos de uma história. O resultado final é estranhamente coeso e uniforme.

É claro que a tradução deste livro só podia ter ficado a cargo de uma pessoa: David Soares. Aqui, e podem discordar de mim à vontade, mas tenho de dizer que escolheram o homem perfeito. A sua mistura de conhecimento erudito, obsessão com os pormenores e vasta capacidade de contextualizar o que quer que seja, foi a mistura perfeita para navegar por entre o labirinto simbólico que Moore traçou ao longo dos tempos.

Toda a acção se passa em Northampton, ou nas imediações, desde 4000 a.C. a 1995. É, na sua maioria, completamente indescritível. Acontece tanta coisa nestas doze histórias, todas elas tão diferentes entre si (e ainda assim tão parecidas!), que era loucura tentar descrevê-las uma a uma.

O livro começa logo com um primeiro capítulo extenso, com um narrador primitivo que nos obriga a ler dezenas de páginas de "Eu estar caminhar de lá, querer chegar lá atrás de agora de Sol sair". Não é o mais fácil dos começos, mas está tão bem feito que não chateia. Custo um pouco a ler, mas vale a pena, pois é um dos capítulos mais fascinantes do livro.

A certa altura há um capítulo cujo narrador é uma cabeça decepada pendurada algures. Outro em que é do ponto de vista de uma rapariga enforcada. E outro do ponto de vista de metade de um casal de bruxas lésbicas que invocam diabretes para andarem a causar desgraças.

Dizer que é um livro esquizofrénico é ser simpático. Todos os narradores são radicalmente diferentes, não só a personagem em si, mas a forma como narram. Vários (se não todos) são loucos. Clinicamente loucos, sem sombra de dúvida, e isso nota-se principalmente mais perto do fim do livro. Ah, e como já disse, alguns dos narradores estão mortos.

Interessante? Obviamente! As constantes menções a fogo, enormes cães pretos e possivelmente demoníacos, os Shagfoals, assim como a feiticeiros e feitiçarias afins, mais uma série de outros símbolos que se repetem de forma mais ou meno regular em cada capítulo, são aquilo que une tudo o que se passa. E a parte mais estranha do livro todo, é que isso funciona. Eu pelo menos cheguei ao final, sem ter a certeza de muito daquilo que tinha lido, mas com imagens mentais daquilo que o livro me tinha contado.

No fundo este livro é uma história sobre histórias. As notas do tradutor que aparecem no fim, e que ainda são umas vinte páginas, mesmo ao estilo de David Soares, caem muito bem, pois contextualizam e não forçam a nenhuma interpretação que não deva ser forçada. O livro, para mim, só ficou verdadeiramente lido depois de ler estas notas todas. E embora o livro não seja perfeito, é muito bom.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Cidade de Vidro


Argumento: Paul Auster
Adaptação: Paul Karasik e David Mazzucchelli
Tradução: Paula Caetano


Opinião: Nunca li nada de Paul Auster, portanto não conheço o livro Cidade de Vidro sem ser de nome. Mas o meu primo André emprestou-me esta adaptação, juntamente com outras três BDs que serão comentadas eventualmente.

Este foi o primeiro dos quatro que li, porque tenho uma certa aversão a este tipo de adaptações e queria já despachar aquele que me parecia menos interessante. Pois bem, nunca devia ter duvidado do gosto literário do meu primo.

Esta adaptação de Cidade de Vidro é um livro notável, surrealista e simbólico, com uma qualidade excepcional. A "meta-viagem" do protagonista é confusa, mas interessante, a sua vida desde que se vê preso no enredo deste livro é cativante e encontra-se bem descrita (a vários níveis).

A história em si, que imagino que deva o seu mérito a Paul Auster, é bizarra e joga bem com vários temas e estilos diferentes. Sem hesitar misturar o que muito bem lhe apetece, a narrativa parece quase divertir-se com a forma como guia o leitor pelos caminhos mais tortuosos do entendimento.

Uma sensação brilhantemente transposta para os desenhos, que não aparentam ser nada de especial mas que explodem de vez em quando em fantásticos jogos de sombras e outros de significados e simbolismos capazes de orgulhar Jorge Luís Borges.

Muito, muito bom, é aquilo que eu posso dizer sobre isto. Não sei quão bem feita está a adaptação, em termos de adaptar o livro original, mas pelo menos é uma boa, aliás, excelente, BD! Tinha alguma curiosidade para ler alguma coisa de Paul Auster, e agora já sei definitivamente por onde começar.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Imagem (Intersecção #2)


Autor: Joel G. Gomes


Opinião: O Joel, meu colega da Oficina de Escrita da Trëma, deu-me o ebook deste seu livro para que eu o lesse antes do lançamento, que é amanhã. E tenho que começar esta opinião por admirar o trabalho dele: é dos autores portugueses com a melhor auto-promoção que já vi!

A capa do primeiro livro era boa, a deste é fantástica. O convite para o lançamento chegou-me pelo correio, sob a forma de um CD com um vídeo, e digo-vos que foi o convite mais original que já recebi! Resumindo, o homem sabe o que faz.

Outra parte que me tem interessado no seu trabalho são os meandros (bueda) meta de tudo o que escreve. Lembram-se de João e Ricardo, os protagonistas autores do primeiro livro? Eles regressam neste, e tanto um, como o outro, têm um perfil no Facebook. E se forem aqui, e aqui, podem ver o Joel a entrevistar as suas personagens.

Não podia pedir mais, eu!

Mas depois o desgraçado ainda tem a lata de escrever um bom livro. A primeira comparação essencial é o Um Cappuccino Vermelho: tenho que dizer que esse é um livro amador, e este um profissional. A escrita, o enredo, as personagens, tudo melhora, tudo tem um ar extremamente... publicável. Bem, menos a confusão, mas de resto... Impecável.

Começa logo bem, embora tenha algumas gralhas, problema que se verifica ao longo de todo o livro, e que se intensifica perto do final. Ignorei ao máximo, tendo em conta que a versão nas minhas mãos é uma espécie de versão beta, mas incomodaram um pouco, por vezes.

Nada que estrague os pontos fortes do Joel, a caracterização inicial das personagens, sempre fantástica, e a forma como consegue manter o leitor preso ao que lê. De tal forma que a quantidade de personagens/pontos de vista na narrativa podia muito facilmente estragar todo o livro, mas não o faz, antes pelo contrário.

É verdade que ainda se estão a apresentar personagens depois de se lerem algumas páginas, o que dá a ideia de existir uma parte introdutória gigante, mas tudo acaba por funcionar da melhor maneira. Tantas personagens e tantos nomes torna-se bastante confuso ao início, mas estão todas tão distintas e bem caracterizadas que não é complicado ultrapassar esse problema.

A partir de certa altura, a história de um grupo de pessoas com poderes estranhos começa a acelerar, até chegar a um ritmo quase insuportável, mas bem balançado, em termos de revelações importantes e/ou chocantes, o que acaba por ser bom, mas perde o efeito por esmorecer rapidamente.

Há algumas falhas, como é óbvio, mas nada muito gritante. Só coisas como uma tipa receber uma pasta cheia de imagens que depois percebe serem frames de um vídeo, que junta num programa edição para o conseguir ver. O problema é que isso é descrito como uma pasta cheia de imagens a preto, e só depois de fazer o vídeo é que se percebe o que se está a passar... Só que o vídeo tem montes de cores e coisas a acontecer, que seriam facilmente identificáveis nos frames! Ou então, já depois do grande clímax, uma personagem nem ter dinheiro para uma bica, e depois acenar com uma nota de cinquenta a um taxista.

Enfim, detalhes. Detalhes que me distraíram da leitura, mas ainda assim detalhes. O maior problema são os poderes que as personagens têm praticamente não terem regras. Pelo menos regras que sejam conhecidas por quem lê. E as personagens ainda assim, sem saberem o que andam a fazer, conseguem sacar, sabe-se lá de que profundo e negro poço de conhecimento escondido, teorias profundas e complicadas sobre esses mesmos poderes.

Isto leva a que cheguem a conclusões mais depressa do que deveriam, ou que tudo eventualmente se resolva com um poder qualquer, ou que existam momentos bizarros como uma personagem saber exactamente o que vai acontecer quando duas outras personagens usarem os seus poderes em conjunto. Passam metade do livro espantadíssimos com aquilo que descobrem ser capazes de fazer, e na outra metade são especialistas? Desculpa lá Joel, mas não me convenceste.

De resto, e tirando as explicações confusas para o enredo confuso, gostei bastante desta leitura. Tem um enredo confuso interessante e muito confuso complexo, e personagens fenomenais. Sim, nunca se percebe muito bem que esquemas é que todos andam a planear, mas não deixa de ser interessante por isso, não é? Bom trabalho Joel!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um Cappuccino Vermelho (Intersecção #1)


Autor: Joel G. Gomes

Sinopse

Opinião: Vou começar por dizer que conheço pessoalmente o Joel. Fomos colegas na Oficina de Escrita de Trëma, e embora ele tenha andado relativamente ausente desde o primeiro ano (o único "oficial"), mantivemos mais ou menos o contacto, mais que não seja pelo Facebook.

A leitura deste livro surge da proximidade do lançamento do seu próximo livro, A Imagem, sequela deste que não é bem uma sequela - a 25 de Outubro na Biblioteca Municipal da Moita, em Setúbal - em que ele cedeu o livro a vários bloggers, para leitura até esse dia.

Com jeitinho, e fica aqui desde já o meu agradecimento, o Joel também me cedeu este livro, com promessa de ter as duas opiniões até ao lançamento. Aceitei e ainda aproveitei para integrar estas leituras na minha Temporada Temática mais megalómana de sempre: Lusofonices.

Vamos lá então? Até agora, tudo o que li ao Joel foram os contos que ele enviou para a Oficina, que tem como um dos objectivos dar-nos espaço para experimentar. Ou seja, esses contos, tal como alguns que eu enviei, são francamente experimentais. Gostei da maior parte, de outros nem tanto, mas o que sempre apreciei foram as suas tendências para ser bueda meta, e o seu humor incisivo, muito português, mas com um timing quase britânico.

Felizmente tudo isso passou para o livro, que não é muito grande. Aliás, a parte meta da história é tão fantástica e à minha medida, que é bastante parecida com uma ideia que eu tive há uns tempos para uma história. Mas não me deixem adiantar!

O livro começa por seguir Ricardo, um tipo peculiar, assassino e... escritor. A primeira coisa que me saltou à mente foi "fixe", e a segunda foi "não faz sentido". Um assassino não quer publicidade, portanto porquê ser escritor? Um bocado à frente na história consigo arranjar uma explicação minimamente satisfatória, mas até lá ou me convenço que o objectivo é ficar hidden in plain sight, ou então a coisa não funciona.

O prólogo é misterioso, revela pouco mas sugere muito. O único defeito que lhe aponto é o uso da palavra "parceiro", que eu não consigo dissociar do uso inglês, com duas consequências: ou me parece que o autor foi incapaz de arranjar uma palavra melhor e então apropriou-se do vocabulário inglês, ou então, e foi isto que aconteceu, fico a pensar que os parceiros são um casal gay. Para que percebam melhor, no prólogo nunca aparece "trabalha com", mas sim "está com". Como em "está com aquele parceiro há x tempo". É um pormenor, e em parte culpa minha, mas pronto.

Antes de avançar queria já dizer uma coisa menos agradável e que é constante ao longo de todo o livro. Falta revisão. Vírgulas atrofiadas e algumas gralhas, apenas, mas é o suficiente para me desconcentrar.

Tirando isso, tenho que dizer que o primeiro capítulo tem um conceito interessante na forma como introduz o protagonista, através de uma descrição interrompida por breves momentos do quotidiano que são aproveitados para caracterizar Ricardo, o assassino-escritor. É pena que acabe por se arrastar um pouco, especialmente no início, com tanta conversa sobre café. Já percebi que o protagonista gosta de café, e que o título do livro tem capuccino, pára de me enfiar isso pelos olhos adentro, Joel!

Mas isso melhora no segundo capítulo, dando origem a algumas sequências muito interessantes. De notar, também, a atenção aos detalhes e a forma como eles ficam ligados, algo muito bem feito, especialmente porque é subtil.

O humor, esse é fantástico do princípio ao fim, algo negro, por vezes, como não podia deixar de ser! Só é pena que uma das personagens seja caracterizada como obesa, da primeira vez que aparece, e mais à frente se fale dos seus braços gordos, mas entretanto já se disse que é um tipo com um metro e setenta e dois e a pesar setenta quilos. Senti-me ofendido, que peso isso e tenho menos dez centímetros! E não, não sou obeso. Uma pessoa com essa altura e esse peso não é, definitivamente, obeso, nem nada que se pareça.

Avançando, também tive pena que a introdução de uma personagem interessante como Luís, o mentor e figura paternal de Ricardo, seja feita de forma tão desfasada com o resto do livro. Há uma clara quebra de ritmo, o que é desagradável, mas a evolução do enredo compensa.

A nova personagem, Laura, é que começa por não me agradar, soa demasiado a personagem e pouco a pessoa real, mas depois percebe-se que isso talvez seja propositado e... Bem, não interessante, digamos que foi por esta altura que tudo começou a ficar mesmo, mesmo, muito meta, e consequentemente muito, muito, mais interessante.

É que embora a história demore a arrancar (o que é perigoso num livro pequeno como este), estes meandros meta são muito bons! Há algumas passagens mais confusas, quando as realidades se misturam mais intensamente, mas tirando isso está muito bom!

E depois conseguiu ter um bom final. YAY! Um bocado abrupto, é certo, mas bom. Assim, no geral, é um livro que fica a meio caminho entre o razoável e o bom, e a penalização principal vai para a inconsistência no ritmo e no tom. As diferenças podiam existir, mas com transições diferentes. Agora é esperar pela leitura do próximo!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Na Sombra das Palavras


Autores: Ângelo Teodoro, João Ventura, Mário Seabra, Fábio Ventura, David Camarinha

Opinião: Fiquei muito desagradado com esta primeira obra a sair do forno da Editorial Divergência. A edição está porreira, com um grafismo agradável e esses pormenores técnicos todos. As ilustrações antes de cada conto estão um mimo, e as biografias dos autores estão curtas e directas, como devem ser. Já a qualidade dos contos...

Tenho um problema de formato, logo à partida. Estes contos foram os escolhidos de entre as participações num concurso de contos de Thriller Fantástico. E se um eu apenas consigo considerar como levemente Fantástico, nenhum deles se enquadra no género de Thriller, na minha opinião.

Antes de continuar, e a favor da imparcialidade, quero referir que eu participei neste concurso com um conto, e obviamente não fui escolhido. Mas não escrevo esta opinião de forma rancorosa ou como vingança, porque eu não acho propriamente que o meu conto seja melhor que qualquer um destes. Acho que se pode classificar mais como Thriller do que qualquer um destes, mas isso não é relevante para o caso. Asseguro apenas que a minha opinião seria a mesma caso tivesse sido aceite ou caso não tivesse concorrido.

O primeiro conto, O Livreiro, de Fábio Ventura, talvez ainda seja aquele de que gostei mais. Mas a história, apesar de ligeiramente bueda meta não me deixou satisfeito. Confuso e demasiado curto, o conto peca por ser demasiado simplista. Isto porque a ideia é boa, uma misteriosa mulher feita de papel, o encontro dessa mulher com um livreiro e as consequências desse encontro, mas ficou a faltar qualquer coisa.

Depois vem A Lista de Deus, de João Ventura, um autor de que gosto mas que aqui não me agradou. É este conto que considera apenas como vagamente Fantástico. Apocalíptico, mas com uma escrita demasiado formal e aos solavancos, são os pormenores que estragam tudo. Como por exemplo haver um especialista em línguas que traduz uma placa de uma língua morte super antiga, gravada numa placa super antiga, on the fly. Eu não sou especialista nenhum, mas isso não é bem assim que funciona, parece-me.

O Panóptico, de David Camarinha, volta a pegar no estilo ligeiramente bueda meta, mas com uma abordagem mais pausada e metafórica. E que não encaixa minimamente no Thriller. O conto até nem corre mal, mas o final é mau e deixou-me com vontade de pegar no autor, voltar a sentá-lo à secretária e obrigá-lo a escrever um final decente para aquilo.

Em O Labirinto de Papel, de Ângelo Teodoro, o que encontrei foi uma premissa interessante, com uma escrita que não é nada má (embora um tanto ou quanto enamorada de si própria), mas um desenvolvimento mediano. A escrita ficou demasiado pesada para a história tão ligeira!

Por fim, Tabula Rasa, de Mário Seabra/Coelho (a antologia nunca se decide) é uma história confusa e que não me conseguiu cativar minimamente. A escrita deve ter sido a melhor dos cinco contos, mas o enredo é confuso e a melhor parte fica por contar.

Como podem ver, tenho uma apreciação negativa da antologia. Algumas das premissas eram boas, e a escrita no geral não é nada desagradável, mas a concretização em si... Podia ter ficado muito melhor! Acho que o mais marcante, para mim, é o tiro ao lado no género dos contos, mas pronto.

Pelo menos fiquei satisfeito com a edição e seriedade com que a equipa levou o projecto. Acho que é uma editora com muito potencial para crescer, e que irei acompanhar com atenção, inclusivamente participando regularmente nos concursos, a ver se me alguma vez me calha a mim. Por agora, no entanto, vou ter que torcer o nariz à qualidade do conteúdo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Disney Big #4


Argumento: Rodolfo Cimino, Abramo Barosso, Giampaolo Barosso, Guido Martina, Osvaldo Pavese, Jerry Siegel, Vincenzo Mollica, Carlo Panaro, Paola Mulazzi, Massimiliano Valentini, Rudy Salvagnini, Ennio Missaglia
Arte: Romano Scarpa, Giorgio Bordini, Luciano Capitanio, Luciano Gatto, Giuseppe Perego, Sergio Asteriti, Massimo De Vita, Giorgio Cavazzano, Carlo Limido, Alessandro Gottardo, Andrea Freccero, Silvio Camboni, Lino Gorlero, Alessandro Perina, Pier Lorenzo De Vita
Tradução: Ana Ferreira, Joana Berardo Frazão, Joana Fabião, Rafaela Mota Lemos

Opinião: Não faz mal a lombada deste livro ser vermelha, não faz mal a lombada deste livro ser vermelha, não faz mal a lombada deste livro ser vermelha, não faz mal não faz mal não faz mal, não não não nãaaaoooooooOOOooOOOOooo...

Malditos. Malditos sejam os responsáveis gráficos por esta colecção. Malvados. São as criaturas mais maléficas à face da Terra. A lombada do primeiro era vermelha. A do segundo era azul. A do terceiro era vermelha, o que foi estranho, quer dizer, não têm mais cores? Ficava mais porreiro, mas pronto, vermelho azul vermelho verde vermelho azul, ou vermelho azul vermelho azul vermelho e por aí fora, pronto, não parece ser o ideal, mas desde que faça sentido...

Mas não. Quando comprei esta a lombada era vermelha. O horror. A miséria. A calamidade. Duas lombadas seguidas com a mesma cor. Claro que ainda pode haver um padrão, mas vai ser um padrão idiota! Qual é o problema deles? QUAL?

Pronto, já passou. A sério. Vamos lá falar do conteúdo. Há algumas histórias boas, algumas menos boas, mas já não teve nenhuma que tenha considerado má, o que é uma vitória, se querem que vos diga. Há pelo menos um momento de brilhantismo e quatro histórias com um formato peculiar que me agradaram bastante.

O momento de brilhantismo surge no meio de uma série de histórias que, infelizmente, nem por serem centradas no Tio Patinhas e nas suas lutas contra quem lhe quer roubar o dinheiro e coisas parecidas se tornam agradáveis. São medianas. Talvez sejam demasiado antigas e os temas acabem por me escapar um bocado ao interesse, mas pronto.

No entanto nada como um momento de brilhantismo para salvar o dia. A certa altura, numa determinada história, o Tio Patinhas diz ao Donald algo como "retiro-te as palavras!" e saca dum pano com o qual limpa o balão de fala do Donald. Muito bom. Bueda meta. Como é óbvio, este momento destacou-se, para mim, mas não conseguiu salvar a história nem a primeira secção do livro.

Há uma secção com histórias relacionadas com filmes que não me disseram nada, e uma focada na secretária do Patinhas, que ainda que sejam interessantes por se focarem numa personagem pouco habitual e permitirem um vislumbre deste Universo pelos olhos de outra pessoa para além dos patos e dos ratos, não são nada de especial. A secção final, com o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho como protagonistas, foi a que achei mais fraca, pois reduziu os miúdos, de uma forma geral, a um bando de miúdos normal, e os desgraçados são muito mais do que isso.

A secção que falta foi a minha favorita e consiste em histórias com o Pateta a ligar ao Mickey a horas indecentes a lembrá-lo que é Quarta-Feira e, portanto, dia de ele contar uma história. Bem, os risos são garantidos, aqui sim. A forma como os pormenores são inverosímeis e tão patetas logo ao início é engraçada, mas as mudanças on the fly que ele vai fazendo graças às sugestões do Mickey são qualquer coisa de especial. Vale verdadeiramente a pena.

Tirando isso tenho que considerar este livro pouco acima de mediano. Não é mau. Não é bom. É um bocadinho melhor que mediano.