sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Que as citações nos caiam em cima [66]


"His eyes did not do anything that shock normally describes. No snapping, slapping, no jolt. Those things happen when you wake from a bad dream, not when you wake into one. No, his eyes dragged themselves open, from darkness to dim. It was his body that reacted, shrugging upwards and throwing out an arm, to grip the air."

The Book Thief
Markus Zusak

The Book Thief


Autor: Markus Zusak


Opinião: Nunca é fácil escrever sobre a Segunda Guerra Mundial. E ao mesmo tempo é demasiado fácil. É um assunto pesado e delicado que apesar de já estar semi-banalizado, não deixa de ser complicado de abordar. Ainda há muita gente sensível ao assunto, até porque não foi assim há tanto tempo quanto isso.

Mas também é uma nota fácil de tocar para chamar a atenção e para puxar a lagriminha. Falo disto porque senti isso com este livro. A história que conta é interessante, está bem explorada e, acima de tudo, muito bem contada, especialmente por causa de um certo factor de que já falo. No entanto, e apesar de estar feito com muito respeito pelos acontecimentos relatados, não é difícil começar a ouvir violinos daqueles que só tocam nos filmes durante as cenas mais dramáticas.

Nem sequer acho que o autor o tenha feito de propósito. Ou melhor, descaradamente de propósito. Parece-me mais que Zusak queria contar uma história triste, mais do que queria contar uma história sobre a Segunda Guerra Mundial. Teve a sorte, e o talento, de conseguir com que ambas as coisas encaixassem na perfeição, mas estão a perceber, não estão?

De qualquer forma, o livro é bom. Lê-se muito rápido, graças aos capítulos curtos e à escrita cativante, e embora siga muito claramente a vida de uma personagem, Liesel Meminger, a book thief do título, o livro apresenta uma visão muito mais alargada e abrangente do que seria de esperar. E isso deve-se ao pormenor de brilhantismo que Zusak deu ao livro, que é identificar o narrador com a Morte, com a sua voz muito característica e a sua forma muito específica de ver e de olhar para as coisas.

Foi uma forma de criar um narrador desapaixonado, distante, mas capaz de se interessar e de se fascinar da mesma forma que um avô se fascina pelos seus netos saltitantes a fazerem coisas que ele não consegue compreender.

Também faz com que o foco esteja em muitos pormenores que normalmente não veriam a luz do dia: as cores, as ligações entre cenários e personagens, e a evolução de cada uma dessas personagens, por mais secundária que fosse.

É claro que um livro destes não podia passar sem as suas críticas ao nazismo e a Hitler e afins, mas ao de leve, sem exagerar nem estragar a história com mensagens político-morais. O autor podia ter sido muito óbvio, mas prefere deixar a cada leitor a ligação que existe entre a história destas personagens, a da Liesel em particular, e a Guerra que acontece em pano de fundo.

Essa parte, pelo menos, não é defeito que se possa pôr. Está tudo muito bem retratado, desde a dor à tristeza, ao patriotismo exacerbado de parte da nação e acima de tudo à indiferença que tomava conta das pessoas, pelo menos durante algumas alturas.

The Book Thief foi sem dúvida uma óptima leitura, que acho que peca por, de certa forma, ter sido tão fácil de imbuir com um nível de tragédia suficiente para apelar a quase toda a gente.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Hannibal [T2]



Ah, Hannibal. Uma personagem que entra naquela categoria de vilões dos quais é impossível não gostar. Desde Anthony Hopkins que o psiquiatra canibal está bem destacado no nosso imaginário colectivo. O receio de fazer uma série com outro actor e novas abordagens a várias das histórias não era completamente infundado. Foi um risco enorme, mas um risco que valeu a pena.

A execução de cada cena e de cada linha narrativa é tão perfeita que mete dó. Toda a série tem um aspecto visual grandioso e espectacularmente bizarro. Cada cena parece uma obra de arte, não só pela qualidade mas com a convicção com que aparece no ecrã.

No entanto é a história e a opressão psicológica que as personagens exercem umas nas outras (e no espectador) que faz com que isto valha mesmo a pena. A narrativa enrola-se sobre si própria e produz algumas das maiores reviravoltas que já vi numa série.

E mais do que isso, os momentos de tensão são verdadeiros momentos de tensão extrema, durante os quais tudo ajuda, desde os planos que duram até ao ponto do desconfortável, a música agressiva, sinfónica e claustrofóbica, e as metáforas visuais extremamente perturbadoras.

Ainda há melhor, no entanto! Todas as personagens, todas, mostram uma evolução real e significativa. A quase descontrolada descida à insanidade de Will Graham, a forma super controlada como Hannibal Lecter navega no meio de toda a gente, enfim, fantástico a todos os níveis!

Cada episódio é tão intenso, que chega a ser mentalmente extenuante acompanhar a série. Entre pessoas que morrem, dramas vários que se desenrolam, e a noção de que há uma personagem, Hannibal Lecter, que sabe mais do que nós, que estamos a ver tudo, é impressionante.

No fim é uma série que vale bem a pena e que é sem dúvida uma das melhores séries de sempre. O que levanta a questão de porque raio é que foi cancelada, mas enfim. Vejam!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Batman: Gótico (Batman #5)


Argumento: Grant Morrison
Arte: Klaus Janson, Steve Buccellato
Tradução: José de Freitas, Filipe Faria


Opinião: A minha impressão deste livro é que não ia ser grande coisa. A capa parecia-me banal, o título pouco chamativo, e a sinopse pouco avançava que me cativasse por aí além. Mas assim que comecei a ler, mudei de opinião. Isto é interessante!

Grant Morrison é um bom contador de histórias, e claramente muito bom a representar o Batman. A personalidade do Cavaleiro das Trevas, embora não seja o ponto alto, é sem dúvida uma das coisas mais bem feitas nesta BD.

O ponto alto é fácil de apontar, e dá-me uma nova opinião da capa: o ambiente. O gótico, que assenta tão bem neste super-herói, é o foco não só da arquitectura mas de praticamente todos os panéis, muito escuros, mas muito detalhados, ominosos e grandiosos.

A falha vem na história em si, que é deveras interessante, mas não para o Batman. Nem sequer para a DC, que sempre foi mais virada para a ficção científica mais dura. É que esta é uma história que envolve um oculto muito estranho e que fica muito por explicar. Não me agradou, essa parte. Especialmente o facto do Batman aceitar tão bem essa versão dos factos.

De resto só tenho a apontar a enorme coincidência que é o vilão ser quem é, e isso estar ligado de forma tão íntima à infância de Bruce Wayne e à origem do Batman. Eu não teria feito essas ligações, mas eu também não teria contado uma história do Batman que envolve ele aceitar que o vilão é um tipo que fez um pacto com o Diabo para ser imortal durante três séculos.

No fim não é uma má leitura, e a arte realmente ganha muitos pontos a seu favor, portanto não liguem demasiado aos defeitos que apontei, e pelo menos experimentem!

sábado, 3 de outubro de 2015

Esforcei-me para falar de livros, a sério que me esforcei

Mas está-me a parecer impossível fugir ao tema do momento: as eleições de amanhã. Aquele momento que muitos esperam com ansiedade, e que outros tantos apelidam de "o momento em que vai ficar tudo na mesma". Amanhã é o dia em que é suposto levantar o rabo do conforto precário para pôr uma cruzinha num quadradinho.

Para quê?, perguntam os muitos que não vão votar, Não há ninguém que valha a pena!, exclamam aqueles que votam em branco, Nem sei bem, são todos tão iguais..., balbuciam os indecisos, VOTA NO MESMO QUE EU!!!, berra quem já escolheu partido e o vai defender com unhas e dentes.

E no fim o mais provável é que realmente fique tudo na mesma. A dicotomia PS-PSD (agora com uma indecente, desavergonhada e descarada contribuição do CDS) é a telenovela favorita dos portugueses, e uma que promete longevidade. E é um facto inegável que esta luta de poder é uma coisa entre centro e direita, com o PS já muito esquecido das suas raízes de esquerda e mais entregue às directivas europeias, que continuam a virar à direita, sem qualquer pudor.

A esquerda lá fica esquecida, renegada por um povo que deve a sua liberdade à coisa mais esquerdista de sempre: uma revolução militar pacífica para derrubar um governo quase abertamente fascista. Claro que a esquerda de antigamente não é a esquerda de hoje, embora andem aí a surgir algumas caras que se esforçam, mas dá que pensar.

Antes de avançar gostava de fazer a ressalva que aquilo que eu percebo de política advém de três fontes: as notícias que vejo ao jantar, livros de ficção (normalmente medievais), e humoristas como o Jon Stewart do The Daily Show e os Gato Fedorento, que parecem gostar mesmo dessa coisa de gozar com políticos.

Dito isso, acho triste que no meio deste aparato todo, as pessoas se vão esquecendo daquilo que deviam discutir: as ideias. Toda a gente fala da pizza do Sócrates, ou da mulher doente do Pedro Passos Coelho, ou de como a Catarina Martins é a única mulher candidata ao cargo e outras mil coisas, mas ninguém fala das ideias que estão por detrás desta gente todo.

Também toda a gente ignora a figura abjecta, labrega, descarada e completamente despropositada que é o Paulo Portas. A sério, estamos a falar de um tipo cuja contribuição para a história política do país é um conto de corrupção que termina em águas de bacalhau por obra e graça do espírito santo, e que num dos momentos mais críticos da nossa História promete instabilidade política se não o promoverem de Ministro duma porcaria qualquer a Vice-Primeiro-Ministro. O que é que ele queria, um gabinete maior? Um carro mais bonito?

A sério, digam-me qual é o trabalho dele? Acenar com a cabeça quando o primeiro-ministro fala? Servir como embaixador do poder em todas as feiras portuguesas possíveis e imaginárias? Se há tipo que me enerva no panorama político actual, é este. Nunca vi ninguém tão sedento de poder e tão explícito quanto a isso.

Não tenho ilusões, e sei que a maior parte dos políticos são exactamente assim, mas ao menos disfarçam um bocadinho. E sou perfeitamente capaz de conceder que para umas coisas precisamos de ideologias de direita e para outras precisamos de ideologias de esquerda. Nada contra. Eu também não vou dar consultas ao hospital, nem um médico vai tentar construir um electrocardiograma com o que quer que eu tenha ali na gaveta. Mas o Paulo Portas é a personagem manhosa da história, aquela pessoa que anda lá sempre, de sorriso em punho, sem qualquer vergonha quanto à sua inutilidade.

Ainda por cima isto é algo que funciona muito bem em democracia: diferentes opiniões e diferentes perspectivas a trabalharem em conjunto para um bem comum. É por isso que as decisões são tomadas no Parlamento, com representantes de todos os partidos. Ou pelo menos era isso que acontecia se estivessemos de facto a viver numa democracia. O que acontece é que o Parlamento não é mais do que um recreio gigante com 230 cadeiras para onde os partidos vão jogar Risk.

É por isso que é notícia quando há pessoas como a Mariana Mortágua, a Catarina Martins, a Heloísa Apolónia e outros tantos, que se levantam e fazem o que é suposto: argumenta, contra-argumentam, chamam imbecis e nomes vários a algumas pessoas, dizem o que têm a dizer, e depois sentam-se tranquilamente. Só que até isso é transformado num circo, e se querem provas basta relembrar o historial de insultos infantis e de infelizes demonstrações de imaturidade que se revelam no Parlamento.

Só que quer dizer, isto é pouco, não é? O desconhecimento das pessoas em geral deste tipo de coisas é assustador. A quantidade massiva de pessoas de todas as idades que não faz ideia do que raio se está a passar a nível político no país é mais do que preocupante. Não, não é só jovens, é mesmo gente de todas as idades. As massas são abanadas pelas demagogias dos partidos, que são cada vez mais descaradas, e optam pelas saídas fáceis: ficar em casa ou votar nos mesmos. Já que tanto faz, ao menos que seja um a quem eu já conheça as manhas, não é?

Não, não é. Mas eu nada sei disto, e pouco posso fazer para além de votar bem. O que é essa coisa de votar bem, que alguns partidos até usam como slogan para dizer que votem neles? Votar bem não é votar em A, B ou C, especificamente. Votar bem é não só votar, mas votar em consciência, para que os resultados sejam de facto representativos daquilo que Portugal quer, e não daquilo que 30% de Portugal quer.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Que as citações nos caiam em cima [65]


"Animals are what most call living creatures not outwardly capable of speech or mathematics."

The Jedi Path
Daniel Wallace

The Jedi Path


Autor: Daniel Wallace

Sinopse


Opinião: Este livro foi uma prenda de anos (em 2014)! E só pela edição vale a pena, garanto-vos: capa dura, com baixo-relevo pintado a prateado e com imitação de páginas antigas. Uma delícia de se ter na estante.


Mas é depois de o abrir que começa ficar verdadeiramente interessante. A primeira coisa que salta à vista é uma lista de donos do livro: Yoda, Thame Cerulian, Dooku, Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi, Anakin Skywalker, Ahsoka Tano, Darth Sidious e Luke Skywalker.

Sim, eu sei que já passei a fase dura da adolescência, e que claramente não sou uma rapariga numa fila para o concerto - inserir moda musical idiota do momento -, mas acreditem quando vos digo que a minha mente fez a sua melhor imitação de uma a guinchar.

É o risco de se ser fã e, pior, um geek/nerd. Somos uma raça à parte que se alimenta destas coisas. E este livro, só por existir, pela edição, e por essa lista de donos, é um banquete. Depois começa a leitura e descobre-se que o que temos nas mãos é nada mais nada menos do que um guia para se ser um Jedi, anotado por todas aquelas personagens que foram donas do livro.


Enfim, o sonho de qualquer geek/nerd que se preze, diria eu. Mas tudo isto podia ser uma grande barracada: bastava o livro ser pouco mais que lixo numa capa bonita, ou não conseguir cumprir as altas expectativas que induz assim que se olha para ele. Mas o autor consegue dar a volta e escrever quase uma mini-enciclopédia dos Jedis, com toda a informação possível sobre as hierarquias existentes, os tipos de lightsabers, as várias técnicas e estilos de combate, enfim, quase tudo o que consigam imaginar.

A melhor parte, como é óbvio, são os comentários dos ficcionais donos do livro, muitas vezes em resposta uns aos outros. É possível em quase todos perceber a personalidade de cada personagem, o que é um pormenor fantástico, já para não falar de que muitos dos comentários adicionam informação de que tivemos conhecimento através dos filmes, fornecendo aquelas dicas das coisas na prática que emprestam realismo a este livro teórico.

No final é um bom livro, que dá para entreter, mas que só tem valor real para um grupo específico (ainda que cada vez maior) de pessoas.