sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O aniversário de uma lenda


Há datas que passam despercebidas, por mais que uma pessoa tente andar atenta. Muitos grandes escritores, nacionais e internacionais, nasceram e morreram, por exemplo, e essas datas raramente têm um grande relevo ou atenção da sociedade em geral.

E contra mim falo, infelizmente. Eu bem que gostava de estar atento e de dizer qualquer coisa sobre escritores que gosto, nessas datas especiais, mas não consigo. Para começar não consigo estar assim tão atento a essas coisas, e depois há o problema de eu gostar de muitos escritores. É que não fazia mais nada.

Mas Saramago é diferente. Sempre polémico, a par de Saramago o escritor e José o homem, José Saramago foi uma personagem. Foi o nosso primeiro (e até agora único) Nobel da Literatura, teve um sucesso além fronteiras dificilmente alcançável por outros autores nacionais, e manteve-se sempre fiel a si mesmo: assertivo, directo, crítico e por aí fora. Extremamente inteligente, Saramago dizia o que tinha a dizer, escrevia o que tinha a escrever, e pouco se importava com as críticas que lhe faziam

O trabalho dele era escrever, desassossegar, nas suas próprias palavras, e ele fazia-o de forma magistral. O resto era paisagem. Mais importante ainda, isso tudo continua vivo. Saramago morreu mas não foi esquecido.

Isso nota-se especialmente num dia como o de hoje, em que Saramago faria 90 anos. Actividades, atenção dos meios de telecomunicação, livros com desconto (yay!), livretos comemorativos... E toda a gente a falar disso, em todo o lado, a maior parte uma cambada de hipócritas que provavelmente nunca leu um livro dele, e que enquanto vivo, sempre disseram que estava bem era em Lanzarote, longe de Portugal, tamanha besta era.

Eu cá junto-me aos outros, que querem manter viva a memória e a presença deste homem e deste escritor. Tecnicamente, e para observadores externos, nada nos distingue dos hipócritas, mas não escrevo isto para observadores externos. Escrevo-o para mim e para aqueles que, como eu, foram, são e serão sempre fãs de José Saramago, o escritor, o homem, o Nobel, o crítico, o pensador, o mau da fita... a lenda.

"Voando a máquina, todo o céu será música"
Memorial do Convento

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Fim da Viagem

O último livro das Crónicas de Allaryia chama-se Oblívio, mas talvez se devesse chamar Alívio. Depois de já ter lido os outros 6 livros, o sétimo pareceu-me interminável. Eu sei que a culpa foi minha, ninguém me manda reler toda a saga só para acompanhar o último volume como deve ser, mas enfim...

Não que o livro tenha sido mau. Foi bom, ou quase quase quase bom, como já mencionei na opinião respectiva. Mas aquele fim... Ahhh, aquele fim... Tenho que dizer que o Filipe Faria tem um certo jeito para as personagens, mas não faz a mínima ideia do que fazer com elas, quando é para desaparecerem de cena, ou simplesmente para acabar a história delas. Deve ser o maior defeito que tenho a apontar a este autor, agora que tenho a saga toda lida.

Mas falemos das coisas boas durante breves momentos. Não me farto de dizer que tenho uma afeição especial por esta saga, portanto toda e qualquer opinião que eu emita sobre algum aspecto da mesma, está obviamente condicionada pela minha parcialidade. Acho que não sou capaz de me distanciar como deve ser, para dar uma opinião objectiva sobre estes livros. Portanto vou-me limitar a opinar com o todo o meu facciosismo (não confundir com fascismo) orgulhosamente exibido e assumido.

A saga, no geral, é espectacular. Esquecendo a divisão em 7 livros e pensando apenas nas suas 3000 e qualquer coisa páginas como um contínuo, esta saga é algo de bom e inovador no panorama literário português. Ainda está a léguas metafóricas de um David Soares, ou de um Saramago, como é mais do que óbvio, mas é bom, especialmente tendo em conta o género, a high fantasy. É claro que se pode sempre afirmar que high fantasy a sério foi Tolkien e pouco mais, mas acho que é injusto comparar o que quer que seja com um escritor tão magistral como J.R.R.Tolkien. Não considero que os seus livros sejam high fantasy, são Tolkien.

Adiante, que já estou a divagar demasiado. Filipe Faria é um autor que tenho seguido com uma atenção especial, pelas razões que já estou farto de mencionar. As suas Crónicas acompanharam-me durante alguns anos e isso leva a que por um lado não consigo dizer muito mal destes livros, mas, por outro, leva a que me sinta bastante desapontado com o final. Foi fraco. O autor tinha tudo para acabar esta autêntica odisseia de uma forma espectacular, mas aproveita muito mal as personagens que tem, algumas delas geniais. Como Seltor. Seltor. Uma das melhores personagens que tenho visto, com tanto potencial e tão mal aproveitado.

A coisa começa bem, com o desenrolar sub-reptício dos seus planos, lenta e misteriosamente. E depois de mais um momento deveras conveniente no final do sexto livro, Seltor é renegado a vilão de segunda, neste último volume. Enfim, nem tudo podia ser bom.

Porque sim, a escrita tem qualidade. Não necessariamente um grande nível literário, mas qualidade. Ainda por cima essa característica destaca-se bastante, vendo o contraste entre o primeiro e o último livro. A diferença é abissal! O miúdo de 16 anos do primeiro livro cresceu e tornou-se num escritor a ter em conta.

Quero só mencionar que tenho a edição de luxo do último livro. Que de luxo quase só tem o nome. Aquilo vem numa caixa de qualidade deplorável, traz um livrinho bastante interessante, mas de qualidade deplorável, e um CD apenas vagamente interessante. A única coisa que se safa é mesmo o livro, em capa dura, isso sim, com boa qualidade.

Por fim, tenho que chegar a alguma conclusão. A melhor saga de sempre? Nem lá perto. Uma saga muito boa? Prefiro não arriscar. Uma boa saga, portanto? Confirma-se. O mais objectivamente possível, digo que é uma boa saga, cujos pontos fortes são as cenas de porrada e algumas das personagens. Isso e tão cedo não me volto a meter numa destas...

domingo, 11 de novembro de 2012

Oblívio

Título: Oblívio
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Tomados pelo desânimo, os companheiros enfrentam agora o seu maior desafio e o Oblívio ameaça a própria existência, da mesma forma que parece ser a sua única salvação. Na mais negra hora de Allaryia, a Sombra ergue-se triunfante, mas nem tudo o que parece é, e ainda falta a'O Flagelo jogar a sua última cartada

Opinião: O tão aguardado fim desta saga chega por fim. Após alguns anos a acompanhar e a seguir fielmente as desventuras de Aewyre e companhia, a par das movimentações de Seltor e vilões afins, agarrei no último volume, o único que ainda não tinha lido, e fiquei a saber como tudo terminava. Ou começava.

Isto porque, digam o que disserem, este pode ter sido o último livro desta saga, mas muito dificilmente será o último livro passado em Allaryia. As últimas páginas são um mero prenúncio de algo enorme, um breve vislumbre daquilo que ainda vai acontecer, e a sensação com que fiquei foi uma de "isto não pode acabar assim...". Até porque depois de mais ou menos 500 páginas de um óptimo livro, as últimas 100, o final do final que afinal talvez não seja um final, são bastante fracas. Fiquei desiludido. E mesmo no fim, as últimas 20 páginas começam a salvar o livro... E é então que ele acaba.

Essa é a única razão para eu não decretar este livro como o melhor dos 7. A escrita atinge aqui um nível estável e satisfatório, notando-se uma clara, aliás, claríssima evolução relativamente ao primeiro livro; as personagens continuam absolutamente geniais, de uma forma geral. O enredo até começa por enveredar por bons caminhos, mas sensivelmente a meio do livro, o autor começa a estragar tudo. O fim que vai dando a algumas personagens deixa muito a desejar, a forma como salva (ou não) os companheiros das desgraças em que se metem é demasiado fácil, e acaba por recorrer demasiadas vezes a facilidades narrativas.

E é uma pena. A sério. Tinha tudo para ser um óptimo livro... Tudo! Mas no fim da leitura posso apenas classificá-lo como ligeiramente abaixo de bom, pois foi, acima de tudo, desapontante e anti-climático. Talvez isso também se deva às minhas expectativas, ao facto de andar há um ano para ler este livro e ao ter começado a ler esta saga há tanto tempo, mas a verdade é que a maior parte das minhas expectativas foram defraudadas, e em grande estilo.

Ainda por cima com um fim que promete tanto! Não me parece que as possibilidades de haver uma continuação num futuro próximo sejam muitas, mas ela vai existir, tenho quase a certeza. Ou pelo menos o autor está a pensar nisso. No entanto, não é assim que se acaba uma saga, uma saga tão inovadora no meio literário português, odiada por uns, amada por outros e completamente indiferente e/ou desconhecida à maior parte, uma saga cujos fãs foram acompanhando de forma fiel, sempre à espera do próximo volume...

Lamento, mas Filipe Faria, desapontaste-me. Este livro podia ter sido melhor. É uma boa leitura, e uma conclusão razoável para saga, mas esperava mais, muito mais, e acho que o autor tinha qualidade suficiente para escrever um fim muito mais digno. Fiquei triste, com o folhear das últimas páginas, tanta história e tanta possibilidade terminada assim, quase em cima do joelho. Um livro inteiro de desenvolvimento, de evolução progressiva e constante de urgência e de tensão, e umas últimas páginas tão fracas.

Para não me alongar muito mais, digo que gostei, mas não foi o fim que eu queria, o fim que eu esperava. Tenho dificuldade em ser muito imparcial com esta saga, pois como já o referi, tenho-lhe uma afeição especial, mas este último livro tinha muito potencial e o autor não o aproveitou. Mas não é por isso que deixa de ser um bom livro, que dá finalmente por satisfeita a minha curiosidade em saber como tudo acaba em Allaryia.

Um fim. Não um fim digno, mas um fim.

sábado, 3 de novembro de 2012

As personagens de Filipe Faria

Podem pôr muitos defeitos a este escritor, eu próprio aponto alguns sem dificuldade, mas de uma coisa não se podem queixar: as personagens.

Sim, tem algumas ligeiramente menos interessantes ou mais incoerentes, mas há ali uns pequenos focos de pura genialidade, se querem que vos diga.

Falo de Worick, por exemplo. Um thuragar (basicamente um anão), mal encarado, refilão e antipático, como é característico da sua raça, e com uma forte inclinação para distribuir cachaporrada, mas que demonstra um forte apego a Lhiannah, a sua protegida, digamos assim. E com o evoluir da história, vai-se notando uma crescente preocupação contrariada para com os seus companheiros.

A parte gira é mesmo o feitio do thuragar, e a forma como fala. Para além de querer sempre resolver todo e qualquer problema com o seu martelo na cabeça de alguém, fala de uma forma simplesmente hilariante! Promete doses de porrada a cada 3 falas, chama torrentes intermináveis e extremamente criativas de nomes a toda gente. Lhiannah é a cachopa, duma forma geral. Taislin, um burrik (na prática um hobbit), vai desde o mafarrico a caganito... E a certa altura acho que chega a ser o filho desgraçado de uma cabra estropiada, ou algo do género. Nem sei. É apenas genial.

Este é apenas um dos exemplos em que o Filipe Faria demonstrou toda a sua habilidade enquanto escritor. Worick é uma personagem irritável e antipática, verdadeiramente desagradável e com uma aversão a quase tudo e todos, mas que no fundo está apenas recheado de boas intenções e que vai dando sinais cada vez mais claros de gostar dos seus companheiros, por muito que isso lhe custe.

E depois há Culpa, o pai de Seltor, o grande vilão da saga. Culpa, além de ser o mortal que foi seduzido por Luris, a negra potestade primordial, tendo com ela um filho que se tornou n'O Flagelo de Allaryia, é para mim uma das personagens mais geniais das Crónicas. Vergado pela culpa de ter trazido tamanho mal ao mundo, está condenado a vaguear, cego, com o peso de ter cometido o Segundo Pecado e ter indirectamente causada tanta dor, destruição e sofrimento, ao mesmo tempo que espalha essa mesma Culpa por onde passa. As pessoas quando se aproximam dele sentem todos os pequenos resquícios de culpa que possam ter dentro de si, seja para si próprias ou para pôr em cima de outros. Tudo isso vem ao de cima, e há sempre gente a falecer.

Nem vos consigo explicar muito bem, só lendo, mas é basicamente isto. Uma personagem que se sente tão culpada que se torna (mais ou menos) imortal e passa os seus dias a trazer ao de cima aquilo que de pior há em cada pessoa pela qual passa? Genial.

E agora, já que falo no pai de Seltor... Tenho que falar no Seltor. Tenho-me aguentado bastante bem, como já devem ter reparado, mas já atingi a saturação. Seltor é das melhores personagens que eu já vi na Literatura em geral. Agora no último livro está a passar por uma fase um bocado estranho, mas acho que ainda vem aí muita espectacularidade. Quase que a cheiro, quase que a sinto. Desde que apareceu, no fim do terceiro livro, que tem vindo a espalhar o caos... Se bem que não da forma que se poderia estar à espera.

Isto porque o Anátema (que nome tão fixe, não é?) volta passado 20 anos com desígnios tão inescrutáveis que nem os seus servos mais próximos fazem a mais pálida ideia do que raio é que ele vai fazer. E quando começa a fazer coisas, são dos capítulos mais espectaculares de todos os 7 livros. As consequências desses actos afectam toda a Allaryia, e toda a história, mostrando-se ao longo dos capítulos maioritariamente como coisas que acontecem no pano de fundo.

O que é importante é que Seltor é uma personagem magnífica. Sempre com uma aura maléfica quase palpável, mas aparentemente com boas intenções... Ou ele pelo menos assim o apregoa. Quando aparece, o escritor descreve a situação de forma avassaladora, quase deixando o próprio leitor de joelhos em profunda reverência aterrorizada. Uma personagem de mestre e um dos grandes trunfos do autor.

Mas é óbvio que isto não é só espectacularidade. Há um aspecto em particular, no que toca às personagens, em que acho o Filipe Faria deveras fraquinho. As relações amorosas. É que não há o mínimo de paciência para aturar os amores e desamores do Quenestil e da Slayra, nem os arrufos pré-entendimento do Aewyre e da Lhiannah. Nomes que não dizem nada à maior parte de vocês, mas enfim, os dois primeiros são um eahan e uma eahannoir, que é como diz um elfo e uma elfa negra, e os dois últimos são humanos. E andam sempre às turras, e tanto estão nos braços uns dos outros como se odeiam de morte e tentam matar, ou algo do género. Não gosto da forma como as relações estão desenvolvidas.

Resumindo, apesar de algumas menos bem conseguidas, acho que Filipe Faria tem jeito para as personagens, pelo menos para as que encontrei ao longo das Crónicas, não faço a mínima de como serão as da nova saga... Mas já abri O Perraultimato ao calhas e vi uma das personagens a estripar alguém.

Não me vou queixar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Fado da Sombra

Título: O Fado da Sombra
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Os deuses estão mortos, e a sua queda deixa Allaryia à beira de uma espiral de desordem e destruição. As sementes dos planos d'O Flagelo germinam em segredo, e Aewyre Thoryn e os seus companheiros são os únicos que estão cientes da insidiosa ameaça, bem como os únicos em condições de a combater. Dá-se então início a uma desesperada corrida contra o tempo, enquanto servos renegados de Seltor conspiram para levarem a cabo a queda de Ul-Thoryn. Uma ameaça de tempos imemoriais acerca-se entretanto da Pérola do Sul, ameaçando cortar pela raiz a resistência contra O Flagelo. A norte, ventos gélidos prenunciam a guerra iminente e uivos nas serranias norrenas anunciam o despertar de um poder anciano, que tanto poderá ser a salvação dos reinos humanos, como a sua ruína derradeira. O ponto de viragem da Oitava Era, após o qual nada será como dantes em Allaryia, é o penúltimo capítulo da saga, que neste sexto volume levanta a parada num inesquecível épico de acção e aventura.

Opinião: Maior guerra que a que se ameaça abater sobre Allaryia, foi a que eu tive para ler este livro, e maior ainda será a que vou de certeza ter para ler as 600 páginas do próximo e último volume. A leitura não foi complicada, e não acredito que a próxima o seja, e este sexto livro é, até agora, o meu favorito, confirmando a qualidade ascendente da saga, o problema foi o de sempre: falta de tempo.

Parecendo que não, e com alguma pena minha, a minha vida não é só ler. E embora tenha tido um início de semestre deveras tranquilo, as coisas começam a apertar e ameaçam estrangular ligeiramente nos próximos tempos. Daí ter levado 2 semanas a ler este e levar provavelmente outras 2 (e tal) a ler o próximo.

Mas isso não importa. O que interessa realmente é que as coisas começam a encaixar umas nas outras! Após 5 livros de porrada, demandas, sangue e tripas, inimigos caídos que regressam, companheiros separados e um vilão de desígnios completamente inescrutáveis, começa-se a ver... algo. Ao início não se percebe absolutamente nada, tão intrincados e retorcidos estão os fios narrativos, mas vê-se claramente que a história está a tomar uma certa direcção. Lá mais para o fim começa-se a perceber, e eu nesta segunda leitura topei demasiado bem qual é a essa direcção, algo que me tinha escapado por completo na primeira... A capa do último livro ajuda a perceber, também, se estiverem curiosos!

É que finalmente as coisas começam a encaixar, a fazer sentido, todas a alinharem-se na antecipação daquilo que promete ser um final absolutamente estrondoso! Embora seja ligeiramente previsível. Pelo menos algumas partes. Não interessa! Eu sempre fui fã do Filipe Faria, mas cada vez gosto mais dele... Aquilo que começou por ser uma história quase infantil e aleatória é agora uma história sólida com desenvolvimentos marcantes e reviravoltas de suster a respiração. As personagens continuam a ser a melhor parte (SELTOR! SELTOR! SELTOR!), bem trabalhadas, algumas hilariantes, algumas assustadoras, todas a funcionarem bem umas com as outras, e com uma profundidade psicológica apreciável, em contraste com as mentes lineares que demonstravam no início, em particular no primeiro livro.

Com tanta coisa que já foi acontecendo ao longo destas (eu contei) 3086 páginas, as personagens amadureceram, amarguraram, endureceram e enlouqueceram. O que, do meu ponto de vista, apenas pode significar que se tornaram mais interessantes. Sejamos honestos, personagens felizes da vida, a cantarolar canções de amor de mãos dadas com as suas caras metades, enquanto saltitam alegremente por prados verdejantes raramente são interessantes. As melhores são as personagens loucas e amarguradas, as maléficas e cruéis, as ambíguas e imprevisíveis! E nesse campo, as Crónicas de Allaryia estão bem entregues. Entre Seltor, que é para mim a melhor personagem e o melhor aspecto desta saga, e Culpa, uma personagem absurdamente genial, ainda há espaço para uma quantidade enorme de personagens interessantes.

Já para não falar da escrita, mais madura e bem trabalhada, violentamente melhorada em relação aos primeiros livros, em especial ao primeiro. Filipe Faria já ameaçava ser um bom escritor, ainda que não tremendamente literário e a léguas de um David Soares ou de um Gonçalo M. Tavares, só para citar nomes mais recentes, escreve bem, é capaz de construir uma boa história e a de a desenvolver em condições, mesmo que a tenha começado com alicerces algo periclitantes. Nesse aspecto em particular, os meus sinceros parabéns ao autor.

Para terminar queria só dizer que este livro tem um tremendo defeito. Um defeito absolutamente horrível e doloroso, um defeito capaz de me magoar fisicamente, um defeito tão execrável e pestilento que nem tenho palavras para o descrever. É que após estes 6 livros relidos, e com a história fresquíssima na cabeça, este penúltimo volume deixou-me extremamente curioso para ler a conclusão. Quando digo extremamente não estou a exagerar. Se a curiosidade fosse uma ideologia política, eu era um fascista anarquista, neste momento. Espero que compreendam a dor que é começar a ler este livro em vésperas de ter 4 testes, 2 laboratórios, um projecto e um mini-teste em 10 dias.

Só sei que vai valer a pena.

sábado, 27 de outubro de 2012

Troca de Livros na Orlando Ribeiro


Eu já há algum tempo que sou fã desta biblioteca, nem que seja por ser aqui que se tem realizado o Fórum Fantástico. Mas foi depois de descobrir a iniciativa da Troca de Livros que me rendi incondicionalmente.

É simples, na última semana de cada mês há umas mesas com livros em cima, nesta biblioteca. As pessoas vão lá, deixam livros seus e levam livros diferentes para casa. Podem simplesmente levar ou simplesmente deixar, mas ir lá e trazer um livro sem deixar nenhum em troca não me parece boa coisa.

Eu pessoalmente já beneficiei de 4 livros. "Os Anagramas de Varsóvia", de Richard Zimler, "O Príncipe e o Pobre", de Mark Twain, "O Dragão de Sua Majestade", de Naomi Novik, e "Viagens ao fundo dos mares", de Jean Albert Föex.

Aproveitem! É uma excelente oportunidade para se desfazerem de livros que não gostaram, por exemplo, e dos quais alguém pode vir a gostar, ao mesmo tempo que ganham livros novos para ler. Se isto não é uma oportunidade vantajosa, não sei o que vos diga!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ciência e Literatura


A minha antiga escola deu início a um projecto chamado E o céu aqui tão perto, sobre o diálogo entre a Ciência e a Literatura, e fui convidado a dizer umas palavras para o arranque da iniciativa, no passado dia 18. Como devem imaginar, ter a oportunidade de ir falar sobre Ciência E Literatura foi mais do que suficiente para me deixar, digamos, feliz da vida.

Devo dizer que acho o projecto extremamente interessante, e tenho muito pena de não ter tido algo do género quando lá andei. Houve outras coisas, como é óbvio, que também apreciei bastante, mas este era o tipo de projecto capaz de me enlouquecer ligeiramente, de tão espectacular.

Espero apenas que os alunos das turmas envolvidas, bem como toda a escola, aproveitem bem esta rara ocasião de cooperação entre áreas e de entendimento entre a Ciência e a Literatura, que não é complicado, de todo... Apenas faltam as "pontes", pessoas como eu, por exemplo, passe a arrogância. Alguém de Ciências apaixonado por aquilo que faz, e igualmente apaixonado por Literatura. Ou o caso inverso. Alguém ou alguma coisa que facilite a troca de ideias entre alunos de ambas as áreas, para que percebam que não são duas zonas do conhecimento que se excluam uma à outra. Antes pelo contrário!

Acho que o melhor é mesmo deixar-vos com o texto que preparei para este dia:

As diferenças entre a Ciência e a Literatura dificilmente podiam ser maiores. Se por um lado as Ciências exigem rigor, objectividade e o seguimento de regras exactas, as Letras são muito mais liberais, subjectivas e com uma certa tendência para o desprezo pelas regras. E no entanto são duas áreas que não só se misturam frequentemente, como o fazem facilmente, devido a uma série de pontos comuns que as ligam apesar das diferenças.

Por exemplo, de um lado temos a Matemática e do outro a Poesia. Duas coisas tão absurdamente diferentes que a maior parte das pessoas falha por completo em ver as semelhanças. Afinal, o que é que Euler e Gauss podem ter a ver com Pessoa e Poe? Aparentemente, nada. Mas qualquer professor de Matemática que se preze vos pode falar da beleza quase poética que a Matemática pode ter, assim como qualquer professor de Português vos pode atormentar com o rigor quase matemático que a Poesia pode ter.

Ou seja, não é complicado. Literatura e Ciência, Ciência e Literatura… Uma coisa não exclui a outra, antes pelo contrário. E há uma área em particular que é tão misteriosa e tão sublime que só um esforço conjunto destas duas áreas a pode entender minimamente. Falo da Astronomia. É impossível compreender o Universo sem fazer uso de uma Física extremamente complicada que escapa ao entendimento da maioria das pessoas, mas é também impossível descrever as maravilhas nele contidas sem ter que recorrer à subjectividade e criatividade específicas das Letras.

É complicado de perceber e de conceber que nós e tudo o que nos rodeia é constituído por elementos químicos que foram formados em vários tipos de reacções no coração de uma estrela, mas se a acompanhar isto se disser que “somos todos feitos de poeira estelar”, pouco mais é preciso dizer. Por outro lado, tentar explicar por palavras o que é um buraco negro ou o que é o infinito não é fácil, mas há equações que descrevem o primeiro e trabalha-se frequentemente com o segundo nos diversos ramos da Ciência.

Pessoalmente acho que é algo complicado de explicar, mas a Astronomia, para mim, é um exemplo perfeito da união e da complementaridade de ambas as áreas. Ainda para mais quando essa sintonia resulta num género literário como a Ficção Científica, do qual sou um aficionado e que já me providenciou das melhores leituras da minha vida. Livros como 2001 – Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, são para lá de geniais… Este em particular é uma verdadeira obra-prima da literatura, com algumas das melhores descrições do espaço que eu já li. A forma como o autor nos faz viajar por entre as estrelas, como se estivéssemos de facto a espreitar pela janela de uma nave espacial é divinal. E o livro tem um rigor científico fora do comum para uma obra de ficção.

Já para não falar de Júlio Verne e dos seus livros Da Terra à Lua e À Roda da Lua, com uma Ciência minimamente plausível e descrições espaciais, nomeadamente lunares, simplesmente fascinantes e perfeitas. E a quantidade de livros sobre os quais ainda podia falar torna ridícula a ideia de que a beleza não existe na Ciência, ou de que a Literatura é incapaz de captar a sua essência. Porque ambas as áreas não passam de duas faces da mesma moeda, ou de duas abordagens diferentes para fazer exactamente a mesma coisa: perceber o Mundo que nos rodeia.

Isto leva a que da mesma forma que posso dizer que há poucas coisas tão diferentes como a Literatura e a Ciência, posso também afirmar sem qualquer peso na consciência, que ainda é mais complicado encontrar duas coisas que sejam, ainda assim, tão semelhantes.