Mostrar mensagens com a etiqueta Viajando por Allaryia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viajando por Allaryia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Fim da Viagem

O último livro das Crónicas de Allaryia chama-se Oblívio, mas talvez se devesse chamar Alívio. Depois de já ter lido os outros 6 livros, o sétimo pareceu-me interminável. Eu sei que a culpa foi minha, ninguém me manda reler toda a saga só para acompanhar o último volume como deve ser, mas enfim...

Não que o livro tenha sido mau. Foi bom, ou quase quase quase bom, como já mencionei na opinião respectiva. Mas aquele fim... Ahhh, aquele fim... Tenho que dizer que o Filipe Faria tem um certo jeito para as personagens, mas não faz a mínima ideia do que fazer com elas, quando é para desaparecerem de cena, ou simplesmente para acabar a história delas. Deve ser o maior defeito que tenho a apontar a este autor, agora que tenho a saga toda lida.

Mas falemos das coisas boas durante breves momentos. Não me farto de dizer que tenho uma afeição especial por esta saga, portanto toda e qualquer opinião que eu emita sobre algum aspecto da mesma, está obviamente condicionada pela minha parcialidade. Acho que não sou capaz de me distanciar como deve ser, para dar uma opinião objectiva sobre estes livros. Portanto vou-me limitar a opinar com o todo o meu facciosismo (não confundir com fascismo) orgulhosamente exibido e assumido.

A saga, no geral, é espectacular. Esquecendo a divisão em 7 livros e pensando apenas nas suas 3000 e qualquer coisa páginas como um contínuo, esta saga é algo de bom e inovador no panorama literário português. Ainda está a léguas metafóricas de um David Soares, ou de um Saramago, como é mais do que óbvio, mas é bom, especialmente tendo em conta o género, a high fantasy. É claro que se pode sempre afirmar que high fantasy a sério foi Tolkien e pouco mais, mas acho que é injusto comparar o que quer que seja com um escritor tão magistral como J.R.R.Tolkien. Não considero que os seus livros sejam high fantasy, são Tolkien.

Adiante, que já estou a divagar demasiado. Filipe Faria é um autor que tenho seguido com uma atenção especial, pelas razões que já estou farto de mencionar. As suas Crónicas acompanharam-me durante alguns anos e isso leva a que por um lado não consigo dizer muito mal destes livros, mas, por outro, leva a que me sinta bastante desapontado com o final. Foi fraco. O autor tinha tudo para acabar esta autêntica odisseia de uma forma espectacular, mas aproveita muito mal as personagens que tem, algumas delas geniais. Como Seltor. Seltor. Uma das melhores personagens que tenho visto, com tanto potencial e tão mal aproveitado.

A coisa começa bem, com o desenrolar sub-reptício dos seus planos, lenta e misteriosamente. E depois de mais um momento deveras conveniente no final do sexto livro, Seltor é renegado a vilão de segunda, neste último volume. Enfim, nem tudo podia ser bom.

Porque sim, a escrita tem qualidade. Não necessariamente um grande nível literário, mas qualidade. Ainda por cima essa característica destaca-se bastante, vendo o contraste entre o primeiro e o último livro. A diferença é abissal! O miúdo de 16 anos do primeiro livro cresceu e tornou-se num escritor a ter em conta.

Quero só mencionar que tenho a edição de luxo do último livro. Que de luxo quase só tem o nome. Aquilo vem numa caixa de qualidade deplorável, traz um livrinho bastante interessante, mas de qualidade deplorável, e um CD apenas vagamente interessante. A única coisa que se safa é mesmo o livro, em capa dura, isso sim, com boa qualidade.

Por fim, tenho que chegar a alguma conclusão. A melhor saga de sempre? Nem lá perto. Uma saga muito boa? Prefiro não arriscar. Uma boa saga, portanto? Confirma-se. O mais objectivamente possível, digo que é uma boa saga, cujos pontos fortes são as cenas de porrada e algumas das personagens. Isso e tão cedo não me volto a meter numa destas...

domingo, 11 de novembro de 2012

Oblívio

Título: Oblívio
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Tomados pelo desânimo, os companheiros enfrentam agora o seu maior desafio e o Oblívio ameaça a própria existência, da mesma forma que parece ser a sua única salvação. Na mais negra hora de Allaryia, a Sombra ergue-se triunfante, mas nem tudo o que parece é, e ainda falta a'O Flagelo jogar a sua última cartada

Opinião: O tão aguardado fim desta saga chega por fim. Após alguns anos a acompanhar e a seguir fielmente as desventuras de Aewyre e companhia, a par das movimentações de Seltor e vilões afins, agarrei no último volume, o único que ainda não tinha lido, e fiquei a saber como tudo terminava. Ou começava.

Isto porque, digam o que disserem, este pode ter sido o último livro desta saga, mas muito dificilmente será o último livro passado em Allaryia. As últimas páginas são um mero prenúncio de algo enorme, um breve vislumbre daquilo que ainda vai acontecer, e a sensação com que fiquei foi uma de "isto não pode acabar assim...". Até porque depois de mais ou menos 500 páginas de um óptimo livro, as últimas 100, o final do final que afinal talvez não seja um final, são bastante fracas. Fiquei desiludido. E mesmo no fim, as últimas 20 páginas começam a salvar o livro... E é então que ele acaba.

Essa é a única razão para eu não decretar este livro como o melhor dos 7. A escrita atinge aqui um nível estável e satisfatório, notando-se uma clara, aliás, claríssima evolução relativamente ao primeiro livro; as personagens continuam absolutamente geniais, de uma forma geral. O enredo até começa por enveredar por bons caminhos, mas sensivelmente a meio do livro, o autor começa a estragar tudo. O fim que vai dando a algumas personagens deixa muito a desejar, a forma como salva (ou não) os companheiros das desgraças em que se metem é demasiado fácil, e acaba por recorrer demasiadas vezes a facilidades narrativas.

E é uma pena. A sério. Tinha tudo para ser um óptimo livro... Tudo! Mas no fim da leitura posso apenas classificá-lo como ligeiramente abaixo de bom, pois foi, acima de tudo, desapontante e anti-climático. Talvez isso também se deva às minhas expectativas, ao facto de andar há um ano para ler este livro e ao ter começado a ler esta saga há tanto tempo, mas a verdade é que a maior parte das minhas expectativas foram defraudadas, e em grande estilo.

Ainda por cima com um fim que promete tanto! Não me parece que as possibilidades de haver uma continuação num futuro próximo sejam muitas, mas ela vai existir, tenho quase a certeza. Ou pelo menos o autor está a pensar nisso. No entanto, não é assim que se acaba uma saga, uma saga tão inovadora no meio literário português, odiada por uns, amada por outros e completamente indiferente e/ou desconhecida à maior parte, uma saga cujos fãs foram acompanhando de forma fiel, sempre à espera do próximo volume...

Lamento, mas Filipe Faria, desapontaste-me. Este livro podia ter sido melhor. É uma boa leitura, e uma conclusão razoável para saga, mas esperava mais, muito mais, e acho que o autor tinha qualidade suficiente para escrever um fim muito mais digno. Fiquei triste, com o folhear das últimas páginas, tanta história e tanta possibilidade terminada assim, quase em cima do joelho. Um livro inteiro de desenvolvimento, de evolução progressiva e constante de urgência e de tensão, e umas últimas páginas tão fracas.

Para não me alongar muito mais, digo que gostei, mas não foi o fim que eu queria, o fim que eu esperava. Tenho dificuldade em ser muito imparcial com esta saga, pois como já o referi, tenho-lhe uma afeição especial, mas este último livro tinha muito potencial e o autor não o aproveitou. Mas não é por isso que deixa de ser um bom livro, que dá finalmente por satisfeita a minha curiosidade em saber como tudo acaba em Allaryia.

Um fim. Não um fim digno, mas um fim.

sábado, 3 de novembro de 2012

As personagens de Filipe Faria

Podem pôr muitos defeitos a este escritor, eu próprio aponto alguns sem dificuldade, mas de uma coisa não se podem queixar: as personagens.

Sim, tem algumas ligeiramente menos interessantes ou mais incoerentes, mas há ali uns pequenos focos de pura genialidade, se querem que vos diga.

Falo de Worick, por exemplo. Um thuragar (basicamente um anão), mal encarado, refilão e antipático, como é característico da sua raça, e com uma forte inclinação para distribuir cachaporrada, mas que demonstra um forte apego a Lhiannah, a sua protegida, digamos assim. E com o evoluir da história, vai-se notando uma crescente preocupação contrariada para com os seus companheiros.

A parte gira é mesmo o feitio do thuragar, e a forma como fala. Para além de querer sempre resolver todo e qualquer problema com o seu martelo na cabeça de alguém, fala de uma forma simplesmente hilariante! Promete doses de porrada a cada 3 falas, chama torrentes intermináveis e extremamente criativas de nomes a toda gente. Lhiannah é a cachopa, duma forma geral. Taislin, um burrik (na prática um hobbit), vai desde o mafarrico a caganito... E a certa altura acho que chega a ser o filho desgraçado de uma cabra estropiada, ou algo do género. Nem sei. É apenas genial.

Este é apenas um dos exemplos em que o Filipe Faria demonstrou toda a sua habilidade enquanto escritor. Worick é uma personagem irritável e antipática, verdadeiramente desagradável e com uma aversão a quase tudo e todos, mas que no fundo está apenas recheado de boas intenções e que vai dando sinais cada vez mais claros de gostar dos seus companheiros, por muito que isso lhe custe.

E depois há Culpa, o pai de Seltor, o grande vilão da saga. Culpa, além de ser o mortal que foi seduzido por Luris, a negra potestade primordial, tendo com ela um filho que se tornou n'O Flagelo de Allaryia, é para mim uma das personagens mais geniais das Crónicas. Vergado pela culpa de ter trazido tamanho mal ao mundo, está condenado a vaguear, cego, com o peso de ter cometido o Segundo Pecado e ter indirectamente causada tanta dor, destruição e sofrimento, ao mesmo tempo que espalha essa mesma Culpa por onde passa. As pessoas quando se aproximam dele sentem todos os pequenos resquícios de culpa que possam ter dentro de si, seja para si próprias ou para pôr em cima de outros. Tudo isso vem ao de cima, e há sempre gente a falecer.

Nem vos consigo explicar muito bem, só lendo, mas é basicamente isto. Uma personagem que se sente tão culpada que se torna (mais ou menos) imortal e passa os seus dias a trazer ao de cima aquilo que de pior há em cada pessoa pela qual passa? Genial.

E agora, já que falo no pai de Seltor... Tenho que falar no Seltor. Tenho-me aguentado bastante bem, como já devem ter reparado, mas já atingi a saturação. Seltor é das melhores personagens que eu já vi na Literatura em geral. Agora no último livro está a passar por uma fase um bocado estranho, mas acho que ainda vem aí muita espectacularidade. Quase que a cheiro, quase que a sinto. Desde que apareceu, no fim do terceiro livro, que tem vindo a espalhar o caos... Se bem que não da forma que se poderia estar à espera.

Isto porque o Anátema (que nome tão fixe, não é?) volta passado 20 anos com desígnios tão inescrutáveis que nem os seus servos mais próximos fazem a mais pálida ideia do que raio é que ele vai fazer. E quando começa a fazer coisas, são dos capítulos mais espectaculares de todos os 7 livros. As consequências desses actos afectam toda a Allaryia, e toda a história, mostrando-se ao longo dos capítulos maioritariamente como coisas que acontecem no pano de fundo.

O que é importante é que Seltor é uma personagem magnífica. Sempre com uma aura maléfica quase palpável, mas aparentemente com boas intenções... Ou ele pelo menos assim o apregoa. Quando aparece, o escritor descreve a situação de forma avassaladora, quase deixando o próprio leitor de joelhos em profunda reverência aterrorizada. Uma personagem de mestre e um dos grandes trunfos do autor.

Mas é óbvio que isto não é só espectacularidade. Há um aspecto em particular, no que toca às personagens, em que acho o Filipe Faria deveras fraquinho. As relações amorosas. É que não há o mínimo de paciência para aturar os amores e desamores do Quenestil e da Slayra, nem os arrufos pré-entendimento do Aewyre e da Lhiannah. Nomes que não dizem nada à maior parte de vocês, mas enfim, os dois primeiros são um eahan e uma eahannoir, que é como diz um elfo e uma elfa negra, e os dois últimos são humanos. E andam sempre às turras, e tanto estão nos braços uns dos outros como se odeiam de morte e tentam matar, ou algo do género. Não gosto da forma como as relações estão desenvolvidas.

Resumindo, apesar de algumas menos bem conseguidas, acho que Filipe Faria tem jeito para as personagens, pelo menos para as que encontrei ao longo das Crónicas, não faço a mínima de como serão as da nova saga... Mas já abri O Perraultimato ao calhas e vi uma das personagens a estripar alguém.

Não me vou queixar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Fado da Sombra

Título: O Fado da Sombra
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Os deuses estão mortos, e a sua queda deixa Allaryia à beira de uma espiral de desordem e destruição. As sementes dos planos d'O Flagelo germinam em segredo, e Aewyre Thoryn e os seus companheiros são os únicos que estão cientes da insidiosa ameaça, bem como os únicos em condições de a combater. Dá-se então início a uma desesperada corrida contra o tempo, enquanto servos renegados de Seltor conspiram para levarem a cabo a queda de Ul-Thoryn. Uma ameaça de tempos imemoriais acerca-se entretanto da Pérola do Sul, ameaçando cortar pela raiz a resistência contra O Flagelo. A norte, ventos gélidos prenunciam a guerra iminente e uivos nas serranias norrenas anunciam o despertar de um poder anciano, que tanto poderá ser a salvação dos reinos humanos, como a sua ruína derradeira. O ponto de viragem da Oitava Era, após o qual nada será como dantes em Allaryia, é o penúltimo capítulo da saga, que neste sexto volume levanta a parada num inesquecível épico de acção e aventura.

Opinião: Maior guerra que a que se ameaça abater sobre Allaryia, foi a que eu tive para ler este livro, e maior ainda será a que vou de certeza ter para ler as 600 páginas do próximo e último volume. A leitura não foi complicada, e não acredito que a próxima o seja, e este sexto livro é, até agora, o meu favorito, confirmando a qualidade ascendente da saga, o problema foi o de sempre: falta de tempo.

Parecendo que não, e com alguma pena minha, a minha vida não é só ler. E embora tenha tido um início de semestre deveras tranquilo, as coisas começam a apertar e ameaçam estrangular ligeiramente nos próximos tempos. Daí ter levado 2 semanas a ler este e levar provavelmente outras 2 (e tal) a ler o próximo.

Mas isso não importa. O que interessa realmente é que as coisas começam a encaixar umas nas outras! Após 5 livros de porrada, demandas, sangue e tripas, inimigos caídos que regressam, companheiros separados e um vilão de desígnios completamente inescrutáveis, começa-se a ver... algo. Ao início não se percebe absolutamente nada, tão intrincados e retorcidos estão os fios narrativos, mas vê-se claramente que a história está a tomar uma certa direcção. Lá mais para o fim começa-se a perceber, e eu nesta segunda leitura topei demasiado bem qual é a essa direcção, algo que me tinha escapado por completo na primeira... A capa do último livro ajuda a perceber, também, se estiverem curiosos!

É que finalmente as coisas começam a encaixar, a fazer sentido, todas a alinharem-se na antecipação daquilo que promete ser um final absolutamente estrondoso! Embora seja ligeiramente previsível. Pelo menos algumas partes. Não interessa! Eu sempre fui fã do Filipe Faria, mas cada vez gosto mais dele... Aquilo que começou por ser uma história quase infantil e aleatória é agora uma história sólida com desenvolvimentos marcantes e reviravoltas de suster a respiração. As personagens continuam a ser a melhor parte (SELTOR! SELTOR! SELTOR!), bem trabalhadas, algumas hilariantes, algumas assustadoras, todas a funcionarem bem umas com as outras, e com uma profundidade psicológica apreciável, em contraste com as mentes lineares que demonstravam no início, em particular no primeiro livro.

Com tanta coisa que já foi acontecendo ao longo destas (eu contei) 3086 páginas, as personagens amadureceram, amarguraram, endureceram e enlouqueceram. O que, do meu ponto de vista, apenas pode significar que se tornaram mais interessantes. Sejamos honestos, personagens felizes da vida, a cantarolar canções de amor de mãos dadas com as suas caras metades, enquanto saltitam alegremente por prados verdejantes raramente são interessantes. As melhores são as personagens loucas e amarguradas, as maléficas e cruéis, as ambíguas e imprevisíveis! E nesse campo, as Crónicas de Allaryia estão bem entregues. Entre Seltor, que é para mim a melhor personagem e o melhor aspecto desta saga, e Culpa, uma personagem absurdamente genial, ainda há espaço para uma quantidade enorme de personagens interessantes.

Já para não falar da escrita, mais madura e bem trabalhada, violentamente melhorada em relação aos primeiros livros, em especial ao primeiro. Filipe Faria já ameaçava ser um bom escritor, ainda que não tremendamente literário e a léguas de um David Soares ou de um Gonçalo M. Tavares, só para citar nomes mais recentes, escreve bem, é capaz de construir uma boa história e a de a desenvolver em condições, mesmo que a tenha começado com alicerces algo periclitantes. Nesse aspecto em particular, os meus sinceros parabéns ao autor.

Para terminar queria só dizer que este livro tem um tremendo defeito. Um defeito absolutamente horrível e doloroso, um defeito capaz de me magoar fisicamente, um defeito tão execrável e pestilento que nem tenho palavras para o descrever. É que após estes 6 livros relidos, e com a história fresquíssima na cabeça, este penúltimo volume deixou-me extremamente curioso para ler a conclusão. Quando digo extremamente não estou a exagerar. Se a curiosidade fosse uma ideologia política, eu era um fascista anarquista, neste momento. Espero que compreendam a dor que é começar a ler este livro em vésperas de ter 4 testes, 2 laboratórios, um projecto e um mini-teste em 10 dias.

Só sei que vai valer a pena.

sábado, 20 de outubro de 2012

O tamanho das Crónicas


Por mais espectacular que esta saga se esteja a tornar com o passar do tempo, nada lhe tira o seu tamanho a tender para o descomunal. Há sagas bem maiores (estou a olhar para ti, Robert Jordan, com os teus 15 volumes de A Roda do Tempo), mas estes 7 livros em que o mais pequeno tem 444 páginas são grandes o suficiente.

É que eu, muito sinceramente, não tinha esta ideia. Já andava a planear fazer esta releitura para ter uma leitura decente do sétimo e último volume, mas pensava que despachava cada livro no máximo em 3 ou 4 dias. Qual quê! Quando me pus a ler o primeiro ainda fui de férias, durante as quais pouco li. O segundo foi de facto mais rápido, mas por altura do terceiro já as aulas estavam a começar. Foi o descalabro. Esse, o quarto e o quinto levaram-me pelo menos 1 semana a ler, e este sexto promete arrastar-se ainda mais.

E já nem falo do sétimo volume, que pelas minhas contas vai cair mesmo em cima dos 10 dias mais maravilhosos de sempre, em que tenho 4 testes, 2 dos quais ao Sábado e todos eles provavelmente a horas indecentes, 1 trabalho para fazer e sei lá mais o quê. Não me estou propriamente a queixar de ter tanta coisa para fazer, assim é que eu gosto, com pressão e tudo, para sentir que estou de facto a trabalhar. Estou-me a queixar que para isso, tenha que perder tempo de leitura. Muito tempo de leitura.

Já me tinha acontecido algo parecido quando me decidi a fazer a minha Temporada Épica. Achei muita piada à ideia de ler Os Lusíadas, o Beowulf, Fausto e A Divina Comédia todos seguidinhos, "ah e tal, isto num mês despacho isto". Ingénuo. Tolo. Idiota. Demorei quase 3 meses a ler tudo. Claramente não sabia o que me esperava.

Com estas Crónicas está-me a acontecer mais ou menos o mesmo. Tinha planeado ler tudo em, vá, 2 ou 3 semanas. Passado quase 2 meses (comecei as leituras no início de Setembro, as opiniões é que só começaram a aparecer no fim), ainda cá ando. E relativamente longe de acabar.

Tendo dito isto, não me arrependo minimamente do que estou a fazer. É verdade que estou a morrer um bocadinho por dentro todos os dias, ao ver as minhas prateleiras de livros a ler a encherem em vez de esvaziarem, o que é ridículo, tendo em conta que já nem sequer compro livros, mas esta releitura está a valer pena cada segundo cada vez mais mais valioso que gasto.

Não digo que seja como estar a ler livros diferentes, mas tenho definitivamente uma perspectiva bastante diferente dos livros, o que me leva a ter uma segunda leitura e uma segunda opinião que pode divergir bastante da primeira. Basta ver o caso do primeiro livro, que na altura adorei e delirei por completo, e que agora achei abaixo de mediano, safando-se apenas se se tiver em conta a tenra idade do autor na altura e a minha afeição especial pela saga em si. Nisso e no agora notório aumento de qualidade proporcional do número do volume, algo que não tinha achado da primeira vez.

Ou seja, isto tudo só para dizer que parece que nunca mais acabo de ler as Crónicas, o que é verdade, e que estou em pulgas para começar a desbaratar as minhas estantes, o que é ainda mais verdade, mas que não me arrependo desta ideia como em certa altura me arrependi ligeiramente de quando me pus a ler as epopeias. Foi um processo muito mais moroso e foram leituras extremamente mais complicadas.

Filipe Faria está-se a tornar num dos meus autores portugueses favoritos, não ao nível de Saramago ou de David Soares e João Barreiros, nunca na vida, mas um escritor de qualidade, um pioneiro do género em Portugal, e claramente um autor que ainda tem potencial para muita coisa, o que me tira o ligeiro peso na consciência que tinha por estar a gastar tanto tempo com os seus livros.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Vagas de Fogo

Título: Vagas de Fogo
Autor: Filipe Faria

Sinopse: As Crónicas de Allaryia são já um clássico da high fantasy portuguesa, aproximando-se, com este quinto volume, do furioso clímax da odisseia iniciada cinco anos atrás. As hostes d'O Flagelo despertaram do seu torpor e estão de novo à solta no continente. A Cidadela da Lâmina foi arrasada. Sirulia foi posta a ferro e fogo. Aves de mau agouro sobrevoam Nolwyn, enquanto Ul-Thoryn começa os preparativos de guerra contra Vaul-Syrith. Neste novo capítulo das Crónicas de Allaryia, os companheiros que deram início a uma quase ingénua demanda n'A Manopla de Karasthan estão separados, perdidos, desesperançados. Embora poucos o saibam, a esperança reside em Aewyre Thorin, mas cada um dos companheiros terá um papel a desempenhar no vindouro conflito, encontrando-se porém privados do poder da sua união. Perseguidos por algozes do seu passado, deixados à deriva em terras desconhecidas, ou aprisionados entre inimigos que julgavam amigos, vêem-se confrontados com a iminente imersão de Allaryia nas trevas que todos já julgavam desbaratadas. Porém, Seltor, o precursor destas, aprendeu com os erros do passado e os seus propósitos não mais parecem os mesmos; ou pelo menos, não aparentam de todo ser o que dele se espera...

Opinião: Com a saga a melhorar a cada volume que passa, este Vagas de Fogo é, até agora, o que achei melhor escrito e que tem a história melhor explorada. E só não digo desenvolvida, porque há momentos em que a coisa se arrasta um bocado.

Aquilo que eu mais me lembrava de ter achado pior aquando da minha primeira leitura, foi a dispersão das personagens e, consequentemente, das linhas narrativas. Algo que já tinha sucedido no quarto volume e que neste apenas se acentua, com 6 ou 7 linhas narrativas ao mesmo tempo. Isto traz óbvios problemas no que diz respeito ao seguimento das personagens. Há algumas, deveras interessantes, até, que aparecem 4 ou 5 vezes ao longo do livro, em capítulos pequenos e quase ingratos.

Mas nem é assim tão mau. Do que me lembrava, pensei que estivesse pior. Apesar da história dispersa e dos cenários tão díspares que parecia que estava a ler 2 ou 3 livros diferentes ao mesmo tempo, o autor conseguiu lidar bem com a situação. Claramente mais maduro, tanto a esse nível como a nível de escrita, Filipe Faria mostra muita qualidade neste livro, uma característica que tem vindo a aumentar de volume para volume. Mas acho que é também possível ver que ainda há potencial, e que tanto o escritor como as Crónicas ainda podem melhorar...

E afinal qual é que é a melhor parte deste livro em particular? Não me lembro se já aqui mencionei a minha afeição especial pelo grande vilão, Seltor, mas SEEEELTOOOOOR!! É uma personagem absolutamente fenomenal, e os seus planos vão cada vez mais ganhando forma e apontando numa direcção específica. Uma direcção absolutamente indecifrável, mas uma direcção. Não há uma única personagem no livro que faça a mais pálida ideia do que raio anda ele a maquinar, nem mesmo os seus servos mais próximos e leais. Quanto mais quem lê, não é verdade?

Eu pessoalmente tenho uma vaga ideia, mas parece-me demasiado estrambólica para ser verdade. E nem sei precisar qual é a ideia que tenho... Não consigo pensar em nada que faça verdadeiramente sentido. É demasiado estranho. Só posso ficar à espera dos desenvolvimentos e atestar a qualidade deste volume.

As personagens continuam como a melhor parte, claro. Seltor, enfim, nem digo mais nada. As outras são intrigantes, especialmente os maus da fita, mas muito sinceramente não tenho o mínimo de paciência para os amores e desamores das personagens. Basta a relação intempestiva entre o Quenestil e a Slayra... Aborreceu-me de morte.

Tirando isso, é um livro muito bom. E que apenas conseguiu acicatar a minha já de si gigantesca e acirrada curiosidade para saber o fim da saga. Só de imaginar que ainda me falta todo um livro até chegar ao último! Mas pelo menos é um livro em que vão acontecer umas coisas interessantes, se bem me lembro...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Tempo em Allaryia


Uma das coisas mais difíceis de gerir quando se escreve uma história, é o tempo. Especialmente se for uma história da envergadura das Crónicas de Allaryia. E infelizmente, acho que o Filipe Faria tem momentos muito pobres, nesse campo.

O problema vai-se diluindo, com o passar dos livros, o que é compreensível. O autor e a sua escrita cresceram e amadureceram, o que se nota muito claramente ao longo da leitura dos vários volumes, mas há sempre alguns momentos que me fizeram confusão. Momentos que se tivessem sido manipulados por outros autores, teriam de certeza tido outro tratamento e deixado a experiência da leitura absolutamente incólume.

Os piores casos aparecem quando mais para trás na saga se andar, atingindo o expoente máximo, como seria de esperar, no primeiro livro. A Manopla de Karasthan, aquele que é para mim o livro mais fraco destas Crónicas, tem saltos completamente incompreensíveis. De um capítulo para o outro passaram 2 semanas, e os próximos 4 decorrem ao longo de 12 horas.

Isto não é grave e raramente é de facto importante, num livro. Simplesmente não se nota. Excepto quando acontece constantemente. Os saltos temporais das Crónicas são, na sua maioria, incoerentes e algo atabalhoados, especialmente nos primeiros livros.

Volta e meia tive aquela sensação de que algo não estava certo. Estas mudanças bruscas quebram bastante a fluidez da narrativa e o próprio ritmo da história. E quem é capaz de passar 5 ou 6 páginas a descrever uma luta de minuto e meio, vários vezes ao longo dos livros, não se pode dar ao luxo de em duas linhas dizer que se passaram 2 ou 3 semanas... várias vezes ao longo dos livros.

Ainda para mais quando os protagonistas estão separados e ora estou a ler um capítulo de 30 páginas sobre 2 dias de umas personagens, ora estou a ler um capítulo de 7 páginas sobre 2 horas de outra personagem, em que o narrador comenta ao de leve aquilo que essa personagem andou a fazer... nos últimos meses. Em meia dúzia de linhas.

É demasiado desconexo. Não é uma falha de maior e é um pormenor que facilmente leva a "erros" deste estilo. Contar uma história é difícil, contar uma história ao longo de 1 ano e tal ou 2 anos, com tanta coisa a acontecer... é extremamente difícil. E fazer isso tudo numa história que se começou a escrever aos 16 anos? Não é de todo uma tarefa fácil.

No entanto, e apesar de quebrar o ritmo de leitura e chamar a atenção para si própria, esta pequena falha não é um obstáculo de maior. Pode ser ligeiramente aborrecido, mas há coisas piores, não é verdade?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Essência da Lâmina

Título: A Essência da Lâmina
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Pearnon, o Escriba, continua zelosamente a contar a história de um mundo que um dia foi seu, ao longo de incontáveis e conturbadas Eras desde a sua criação. No livro anterior, a dolorosa e sangrenta demanda que levou Aewyre Thoryn e os seus companheiros através de Allaryia, saldou-se numa pesada derrota, apesar de terem conseguido escorraçar os exércitos de Asmodeon, pois O Flagelo regressou das sombras. Agora que o pai de Aewyre morreu para salvar o próprio filho, este parte para a Cidadela da Lâmina, um inquietante local de segredos ocultos. O jovem princípio terá de aprender a dominar a Essência da Lâmina, que aprtilha com Kror, ou lutar por ela com o drahreg num combate até à morte. Perigos milenares penetram insidiosamente uma vez mais em Allaryia e as tramas urdidas pel'O Flagelo começam finalmente a revelar-se, e os pesadelos passados ameaçam tornar-se um perigo muito real no presente. A única esperança reside no êxito que Aewyre e os seus companheiros obtiverem nas suas missões. Mas será possível vencer entidades tão superiores às suas forças?

Opinião: Enquanto lia este livro, a minha estranha memória fez questão de se lembrar da impressão que tive aquando da minha primeira leitura. E ou muito me engano ou não apreciei particularmente este volume. Agora vejo que usando esta informação num silogismo quase infantil, se pode provar que sou parvo.

É que se há coisa que este livro não é, é fraco. E não é, de longe, e apesar no que disse na minha primeira opinião, o mais fraquito até agora. Esse lugar está e estará inequivocamente guardado para A Manopla de Karasthan, a não ser que o Oblívio esteja tão mau que me apeteça ir bater no autor, por ter perdido tanto tempo com a saga.

O livro tem defeitos, como é óbvio. A divisão do grupo de protagonistas, a juntar aos maus da fita e companhia, leva a que a narrativa se fragmente em 6 ou 7 frentes diferentes. As consequências são óbvias. Filipe Faria já pode ser considerado um bom autor, pela altura deste livro, mas com pouca experiência, o que faz com que a já de si difícil tarefa de seguir tanta gente, se torne ainda mais complicada.

Senti muitas vezes que já não via determinada personagem há muito tempo. É esse, para mim, o grande defeito deste livro. Há personagens desenvolvidas até à exaustão e cuja história é seguida passo a passo, há outras menos visíveis, e há outras ainda que permanecem desaparecidas durante centenas de páginas para aparecerem e ficarmos a saber do que andaram a fazer em comentários quase levianos do narrador...

Enfim, tirando isso, tenho a dizer que fiquei com pena que a Cidadela da Lâmina não seja um cenário para livros futuros, por razões óbvias para quem tiver lido o livro. As personagens que lá se encontraram são das melhores desta saga, relativamente ao tempo de antena total que tiveram.

E a minha suposição mantém-se. A qualidade da saga aumenta de forma exponencial com o número de livros... Este é capaz de ser o melhor escrito até agora, ainda que acabe por, de certa forma, estagnar alguns aspectos da história em prol de um mais profundo desenvolvimento de algumas coisas que o autor quis frisar. A escrita está cada vez mais madura e bem trabalhada, e a história começa a mostrar um claro propósito, uma evolução bem demarcada, se quiserem. Nota-se que há um lento caminhar para algo, neste livro mais do que nunca... Os planos de Seltor estão em marcha e isso é claramente visível, o que me agrada bastante, já que Seltor é para mim a melhor personagem e muito provavelmente o melhor foco de espectacularidade das crónicas.

Agora vejamos o que me aguarda no quinto livro... Confesso que destes 4 primeiros tinha memórias mais intensas do que dos próximos 2, dos quais apenas tenho vagas ideias de alguns momentos. Acho que isto só vai fazer com que consiga retirar ainda mais prazer destas releituras, para além de aumentar a ansiedade em chegar ao último, o único que ainda não li e que guarda dentro das suas páginas uma saga que me é especial e que acompanho há vários anos...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Marés Negras

Título: Marés Negras
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Nova incursão na fervilhante Allaryia, neste terceiro volume das suas crónicas, contadas pelo fiel escriba, Pearnon. Reencontramos Aewyre e os seus companheiros na cidade de Val-Oryth em Tanarch, a um passo do seu destino último: Asmodeon. Aí, Aewyre espera poder por fim descortinar o destino de seu pai Aezrel, o desaparecido campeão de Allaryia. O jovem príncipe e os seus companheiros aprofundaram entretanto os laços de amizade que os unem, mas não sem duros sacrifícios, dos quais resultaram feridas profundas que dificilmente sararão. Velhos inimigos regressam para atormentar o grupo, e nas sombras da própria Val-Oryth residem perigosos adversários que os companheiros desconhecem e que os submeterão a rudes provações. Não muito longe de Tanarch, as Marés Negras sobem uma vez mais, trazendo consigo memórias de um passado sombrio e pressagiando tempos conturbados para Allaryia e todos os seus habitantes.

Opinião: As minhas teorias confirmam-se! Esta saga vai de facto melhorando à medida que avança. Marés Negras é sem sombra dúvida o melhor até agora, especialmente se ignorarmos os desaires amorosos das personagens, para os quais não tenho a mínima paciência, tão à là telenovela que são, e nos focarmos na parte final do livro: o embate das hostes de criaturas malignas nas muralhas de Aemer-Anoth, a primeira linha defensiva de Allaryia, controlada pelos sirulianos.

A trama adensa-se a cada página, a história vai tomando contornos cada vez mais complexos, e há situações cada vez mais bizarras. Eu pessoalmente sempre achei que uma das cenas finais, que envolve Baodegoth, o moorul (esqueleto ambulante e sedento de sangue) possuído por udagais (espíritos maus das estepes), Hazabel, a harahan (mulheres das sombras, fígadívoras), e Ancalach, a Espada dos Reis, era hilariante, de tão bizarra...

Mas bem, antes que eu comece a regurgitar demasiados pormenores, deixem-me revelar só um, um grande, mas só um, e perdoem-me pelo spoiler, mas aparece o Seltor! O grande vilão, a melhor personagem das Crónicas! Seltor é o Anátema, o Flagelo, o Segundo Pecado... Filho de Luris, a Entidade primordial mais inclinada para o Mal, e de um humano, Seltor demorou praticamente 3 livros a aparecer e sei que vai continuar bastante desaparecido durante grande parte dos outros livros, mas não hesito em afirmar que é a melhor parte desta saga.

Diga-se o que se disser do Filipe Faria, da sua escrita e dos seus livros, ele conseguiu criar aqui um grande vilão. Eu sei do que falo, que sou fã de vilões e vilãs. As minhas personagens favoritas são habitualmente os maus da fita, pelas mais variadas razões, e isso volta a acontecer com Seltor.

Se calhar é melhor não falar tanto de Seltor e falar um pouquinho mais sobre o livro. Eu bem quero, mas é complicado. Ele mal aparece neste livro e o seu poder não só ensombra o futuro de Allaryia, como as suas Crónicas, fazendo o resto do livro parecer pálido e sensaborão quando em comparação. Se bem que o livro não é, de todo, mau. Não se deixem enganar pelas minhas palavras de admiração exagerada por Seltor, o livro é bom, é o primeiro desta saga que apelido de bom, sem que a voz me trema de insegurança.

E como bónus ainda tem a capa mais horrível de todos os 7. Tirando as últimas duas, nenhuma delas está nenhum portento da natureza, mas esta em particular... eugh. Enfim, ignorem isso e aventurem-se na leitura desta autêntica epopeia pioneira de high fantasy portuguesa de qualidade crescente!

sábado, 29 de setembro de 2012

Os Filhos do Flagelo

Título: Os Filhos do Flagelo
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Allaryia, o mundo distante e fantástico, povoado de seres extraordinários, que ficámos a conhecer em A Manopla de Karasthan, abre-se de novo diante dos nossos olhos com a publicação do segundo volume das suas crónicas - Os Filhos do Flagelo. A demanda de Aewyre e dos seus companheiros prossegue, na tentativa de chegar a Asmodeon e levantar o véu de mistério de envolve o desaparecimento de Aezrel Thoryn, mas muitas são as adversidades que têm de enfrentar a caminho do seu destino. Separados, os companheiros mais que nunca dependem uns dos outros para sobreviverem às provações que se lhes depararão: Quenestil e Babaki, que partiram em busca de Slayra e dos seus captores, e o resto do grupo, que segue para as inóspitas estepes de Karatai em perseguição de Kror, o enigmático drahreg que partilha com o jovem Thoryn a Essência da Lâmina, um segredo milenar dos guerreiros de Allaryia. A saída de Ancalach, a Espada dos Reis, do reino de Ul-Thoryn, fez despertar de um longo torpor os Filhos da Sombra, começando a libertar a sua pérfida influência maligna. Insidiosamente, a coberto das sombras, nos obscuros espaços das trevas, o Mal vai estendendo os seus múltiplos e mortíferos tentáculos, antecipando o abraço letal, e tornando, a cada momento, mais visíveis os contornos tenebrosos das suas reais intenções. Há um perigo oculto do qual as gentes de Allaryia ainda não se aperceberam e Pearnon, o escriba, pressente-o sem o poder transmitir. A determinação e a força de armas de Aewyre e seus companheiros serão certamente postas à prova nos tempos vindouros...

Opinião: Apesar de ser o segundo livro da saga, foi exactamente com este livro que tudo começou. Ofereceram-mo, pareceu-me interessante, e esteve arrumado na estante durante meses e meses, até eu encontrar o primeiro volume.

Na altura adorei. O meu fascínio pelo autor, Filipe Faria, foi avassalador. Ao reler as opiniões das primeiras leituras, lembro-me perfeitamente de como adorei as semelhanças da história com o guião de um jogo de tabuleiro, especialmente no primeiro livro. Era só aventuras atrás de aventuras, doses de cachaporrada atrás de doses de cachaporrada... O que é que eu podia pedir mais?

A verdade é que agora não me fascina por aí além. Este segundo volume já me parece mais maduro, com uma escrita mais consistente, uns diálogos mais realistas... Enfim, é sem sombra de dúvida um livro melhor, muito melhor. Mesmo esquecendo a minha parcialidade relativamente a esta saga, posso afirmar sem problemas de consciência que este livro está acima de mediano, é quase quase um bom livro.

É que lá está, a saga não me está a parecer assim tão espectacular, nesta segunda leitura. É interessante e as personagens continuam óptimas, ainda que algumas tenham algumas decisões e acções um tanto ou quanto... estranhas, mas não é nenhum portento da literatura. De todo.

Ainda por cima, e por mais que goste da saga, este livro em particular nunca me caiu bem. Não posso de forma nenhuma revelar quaisquer pormenores, mas deixem-me dizer que acontece algo a uma certa personagem que é absolutamente imperdoável. Esse momento neste livro é um fardo que a saga carrega nos próximos 5 e que eu nunca consegui perdoar ao autor.

Quer dizer, é algo que até é recorrente em grandes sagas de fantasia, de tal forma que quem for familiar com esse mundo de certeza que já percebeu do que estou a falar. Mas neste caso em particular não me caiu nada bem. E o que há 2 ou 3 anos me pareceu absolutamente abominável, parece-me agora como um pequeno laivo de génio. Este tal acontecimento que eu faço soar a heresia, ou algo do estilo, acabou por se tornar no ponto alto do livro e criou em mim revolta genuína. Na altura pareceu-me idiota, mas agora percebo que foi apenas algo bem feito e que consegue fazer os leitores sentir algo com o que se passa no livro.

Resumindo, a coisa melhorou, mas ainda não atingiu o expoente máximo que eu sei que a saga é capaz de atingir. O final deste volume já é o começo de algo grande e espectacular que aí vem, e pelo qual eu mal posso esperar... Diga eu o que disser, a verdadeira espectacularidade começa no próximo livro, sem que este deixe de ser quase quase um bom livro!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Que as citações nos caiam em cima [19]


Esta citação não tem nada de literário nem tenta transmitir nenhuma mensagem profunda. É apenas e só, hilariante.

"Se vocês não o calam, juro que lhe arranco os olhos e lhos enfio pela boca para que ele possa ver a porcaria que de lá sai!"

A Manopla de Karasthan, Filipe Faria

É o Worick, o general thuragar, que diz tal coisa, referindo-se a Taislin, o pequeno burrik. Worick é das minhas personagens favoritas, e os insultos dele são todos dignos de virem aqui parar. Este foi apenas o primeiro a sério que encontrei.

Esta personagem é tão labrega, brejeira e agressiva, que só me consigo rir sempre que ele diz ou faz alguma coisa. É que não consigo controlar. As suas desavenças com as várias personagens são momentos altos na leitura, especialmente neste primeiro volume, em que são das melhores coisas que por lá aparecem... Nem sei que dizer mais, olhei ali para a citação e desmanchei-me a rir outra vez!

Agora já sabem, citações que queiram enviar, façam-no para o queaestantenoscaiaemcima@gmail.com!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Manopla de Karasthan

Título: A Manopla de Karasthan
Autor: Filipe Faria

Sinopse: Na imensidão cósmica existe um mundo, Allaryia, de grandes heróis e vilões infames, de seres de uma beleza indescritível e criaturas maléficas de uma fealdade atroz, nações poderosas e impérios tirânicos. Depois de muitas eras que alternaram entre a paz e a discórdia, encontramos neste primeiro volume das Crónicas de Allaryia, um tempo de aparente tranquilidade, de uma calma inquietante, semelhante ao silêncio que antecede a tempestade. Algures, numa câmara escura, subterrânea, algo se move, tentando libertar-se de anos de cativeiro, algo monstruoso, inumano, sedento de sangue e dor. O povo de Allaryia perdeu o seu campeão – Aezrel Thoryn, provavelmente morto numa batalha contra o Flagelo, a força das trevas, em Asmodeon – e mais do que nunca precisa de protecção. Aewyre Thoryn, o filho mais novo do saudoso rei, pega em Ancalach, a espada do seu pai, decide descobrir o que realmente lhe aconteceu e parte a caminho de Asmodeon. O que o jovem guerreiro não podia prever era que a sua demanda pessoal se iria transformar, à medida que os encontros se vão sucedendo, na demanda de um grupo particularmente singular, que reunirá a mais estranha e inesperada mistura de seres - Allumno, um mago, Lhiannah, a bela princesa arinnir, Worick, um thuragar, Quenestil, um eahan, Babaki, um antroleo, Taislin, um burrik, Slayra, uma eahanna negra e o próprio Aewyre. O ritmo a que se sucedem as aventuras é absolutamente alucinante, a cada passo surgem perigos mais tenebrosos, seres aterradores que esperam, ocultos nas sombras, o melhor momento para atacar e roubar a tão desejada Ancalach… Mas os laços de amizade que unem o grupo estão cada vez mais fortes e, juntos, sentem-se capazes de enfrentar qualquer inimigo.

Opinião: A minha primeira leitura desta obra encontra-se comentada algures aqui no blog, mas desaconselho vivamente a sua leitura. Não é a pior das opiniões que escrevi sobre um livro desta saga, mas não diz nada de especial. E esta segunda leitura foi bastante diferente.

A começar por não ter conseguido despertar em mim o fascínio da primeira. Mais velho e mais lido, detectei falhas e semelhanças demasiado óbvias com outras obras a uma velocidade e frequência estonteante. Da inspiração no folclore alemão e em lendas mais antigas que a Sé de Braga, às raças de Allaryia, versões deturpadas, ligeiramente modificadas e re-nomeadas das raças de Tolkien e da grande fantasia em geral. Anões viram thuragar, hobbits viram burriks, elfos viram eahan, drows viram eahannoir...

Enfim, a coisa acaba por estar bem construída, e o autor possivelmente queria-se afastar ligeiramente das versões mais consensuais, isto ainda é o menos grave. O que de certa forma acaba por falar em grande são precisamente aqueles que para mim são os 3 grandes pilares de um bom livro: a história, os diálogos e a escrita.

Durante a maior parte do livro, senti que estava a ler um guião de um jogo de tabuleiro, daqueles com figurinhas pintadas à mão e sistemas de combate mais complexos que o sistema burocrático português. Os diálogos são na sua maioria profundamente idiotas e irrealistas, e a escrita oscila fortemente entre um tom casual e amigalhaço do leitor, com interpelações directas e comentários pessoais, e um tom mais elaborado e trabalhado, com palavras rebuscadas que simplesmente não encaixam.

Mas vamos pensar bem nisto. É o primeiro livro de Filipe Faria, escrito quando ele tinha 16 anos. Por esse prisma, é um óptimo livro. Apesar da pesada herança inspiracional, a imaginação é enorme e as personagens são excelentes, ainda que tenham os seus momentos de parvoíce. Algumas melhores que outras, como é óbvio, mas tenho que destacar Worick, o general thuragar ao serviço de Vaul-Syrith e protector pessoal de Lhiannah, a princesa syrithiana. A sua personalidade intempestiva está genial. Sempre a resmungar e a insultar tudo o que mexa, normalmente intercalando insultos deveras imaginativos com promessas de porrada, o thuragar ainda assim revela que tem bom fundo.

E Babaki! Algo desaproveitado, esta criatura que para mim é um wookie bem falante que se consegue transformar em super-sayin, é uma personagem mais do que interessante, com o seu conflito interior entre a sua personalidade calma e bondosa e o animal violento e sedento de sangue que lhe corrói o espírito.

Só que pronto, a história não está construída da melhor forma. As coisas acontecem um bocado por acaso, são quase todas relativamente precipitadas, e tudo se resolve num piscar de olhos, com uma decisão inflamada. E depois de batalhas exaustivamente descritas e locais exemplarmente inventariados, há certos momentos em que passam algumas semanas em duas linhas. Não é, de todo, a melhor forma de escrever uma história.

Mas o meu apreço pela saga supera estes defeitos todos e deixa-me imensamente ansioso para continuar a leitura... Não digo curioso porque sei a história, em traços gerais, mas dá para perceber a ideia. Venham Os Filhos do Flagelo!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Viajando por Allaryia


Tudo começou há uns anos, já não faço a mais pálida ideia de quantos, exactamente pela altura que passou há pouco: o meu aniversário. Digamos que tenho uma prima que é espectacular por várias razões, uma das quais é o facto de ser das poucas pessoas que me foi dando livros, como prenda.

Este assunto dos livros como prenda dá muito que falar, pois por estranho que pareça, as pessoas que mais lêem são exactamente as que menos livros recebem, a maior parte das vezes. Mas pronto, isso fica para outra vez.

O que interessa é que essa minha prima me ofereceu um livro, certa vez: Os Filhos do Flagelo, de Filipe Faria. Livro que eu não conhecia, de um autor português que eu não conhecia. Nem nunca tinha visto a capa em lado nenhum. Como é óbvio, a curiosidade explodiu por ali fora.

Mas quando comecei a investigar o livro, deparei-me as palavras no topo, por cima do título, que agora sei serem o nome desta saga pioneira de high fantasy portuguesa: Crónicas de Allaryia. A minha memória não é lá grande coisa, mas em termos de literatura é uma máquina e, como tal, foi logo buscar uma vaga memória de uma consulta no centro de saúde, uma coisa de rotina, em que o homenzinho me queria falar sobre sexualidade e afins, para que eu estivesse informado e prevenido e isso tudo.

Como é óbvio, ele não foi logo directo ao assunto, com medo de assustar o eu-adolescente, ou algo do género, mas começou por fazer a abordagem pessoal: "Então o que é que gostas de fazer?", pergunta à qual a resposta mais imediata é "Ler.", já há vários anos. Perguntou-me então se eu já tinha ouvido falar das Crónicas de Allaryia. Não tinha, nem percebi muito bem, pois respondi que tinha lido As Crónicas de Nárnia e tinha gostado. Ele lá me explicou que eram outras diferentes, mas eu não fiquei muito convencido, e a memória acaba-se aqui.

Isto queria dizer que eu já tinha ouvido falar de algo relacionado com aquele livro. A curiosidade anteriormente explodida, conseguiu explodir com a sua própria explosão, num mega rebentamento da mais pura e genuína curiosidade. Mas rapidamente descobri que Os Filhos do Flagelo era o segundo volume destas Crónicas. O desespero da procura pelo primeiro volume durou algum tempo, até que o encontrei e devorei, assim como o segundo, o terceiro e o quarto. Depois esperei pelo quinto, que devorei. Depois pelo sexto, que devorei. E depois esperei o que me pareceu bastante tempo pelo sétimo e último, numa edição de luxo que não me farto de gabar, que ainda não devorei. E porquê?

Porque sou louco. Como já não me lembrava a 100% da história, meti na cabeça que ia ler os sete volumes todos seguidos. Assim por alto, são entre 3500 e 4000 páginas basicamente sobre a mesma coisa. Para muita gente que conheço, ler 3 linhas sobre o mesmo assunto é algo extenuante, nem sequer quero tentar imaginar a reacção delas a esta minha decisão. Um colapso nervoso? Um enfarte agudo do miocárdio? Coma literário? Nem sei.

Mas é exactamente isso que eu vou fazer. Se aguentei 1376 páginas de Stephen King e 4 custosas epopeias de seguida, consigo lidar com 4000 páginas de high fantasy. Especialmente porque compensa. Lembro-me perfeitamente que fiquei deslumbrado com esta saga. A certa altura fui até completamente fanático. Com o tempo comecei-me a aperceber das falhas na escrita e na história, e da clara evolução do autor ao longo dos livros, mas nunca perdi esse fascínio por esta saga. Não só por ser um tipo de literatura que aprecio bastante, mas também por ser português, por o autor ter escrito o primeiro livro com 16 anos e a coisa não ter saído uma grandessíssima porcaria, e por ser inovador. Os autores portugueses não escrevem high fantasy. Ricardo Pinto não conta, que escreve em inglês, e a saga da Sandra Carvalho é posterior à do Filipe Faria, portanto que eu saiba, o Filipe foi o primeiro!

É preciso coragem, é preciso vontade e é preciso talento, diga-se o que se disser da sua escrita e dos seus livros. A verdade é que admiro muito este autor e esta saga, e mal posso esperar por terminar a sua leitura, nesta minha autêntica Viagem por Allaryia, um mundo que tem um cantinho especial nas minhas estantes.