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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Estantes Emprestadas [14] - Canibalismo literário (mais ou menos)


Sabem aqueles amigos que vocês têm perfeita de que são loucos? Também tenho disso. Apresento-vos a Alexandra Rolo, também conhecida por Pantapuff, dona do blog Folha em Branco e culpada frequente de se ver envolvida em vários projectos de milhentas áreas.

Um deles foi a Oficina de Escrita a que pertenço, e foi assim que a conheci. Se eu era o sanguinário do grupo, aqui a Alexandra era a minha second in command nesse departamento. Vocês nem fazem ideia. Infelizmente, já há uns tempos que ela deixou de contribuir com contos para as sessões, mas de vez em quando ainda se digna a aparecer, principalmente se houver bolo envolvido.

Tendo em conta esta descrição, eu devia ter logo percebido que me ia arrepender de a convidar para participar nas Estantes Emprestadas. Sem mais demoras, passemos à pergunta dela, e depois à minha resposta. Obrigado Alexandra! (E raios te partam!)

P.S.: Aqui fica a resposta dela, e umas palavrinhas minhas quanto a isso.

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Tu és sádico e dado a coisas com um bocadinho de sangue... se tivesses de fazer uma refeição estilo Hannibal Lecter, que personagens (e que partes) usavas e porquê?


Eu não disse que me ia arrepender?  Mas vamos lá, isto vai ser engraçado. Ia começar por me queixar de que não há praticamente nada que eu possa dizer em resposta a isto, mas... Fui ver a lista das opiniões aqui do blog e tenho aqui vinte e dois links que posso mencionar. Estou honestamente impressionado.

Comecemos pelas batotas, que são a maior parte dos links. Podia usar personagens de Fórmula da Felicidade, que são animais antropomórficos, assim as de Maus, ou então algumas das de A Quinta dos Animais ou do mundo de Alice no País das Maravilhas, que são literalmente animais. Isto poupava-me bastante trabalho, mas era desonesto, e corria o risco de repetir a história de Philip K. Dick, Beyond lies the wub.

Portanto não o vou fazer. Mas posso usar batotas mais sofisticadas. Como por exemplo dizer que me tornava num vampiro ou num zombie, e a minha resposta passava a ser "qualquer uma que estique o pescocinho" ou "BRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAINS". Aliás, esse tipo de coisas até está bastante na moda, diga-se de passagem...

Mas também era batota, e não quero ir por aí. Até por o canibalismo tem as suas vantagens em várias obras de ficção. Pessoalmente, não me importava mesmo nada de ter a habilidade cibopática de Tony Chu, de ver as memórias de alguém, ou algum animal, que coma. E no universo negro de Joe Abercrombie, há toda uma espécie de seita com poderes praticamente sobrenaturais que ganham após comerem carne humana. Vantagens, é o que eu digo!

Nham nham
Enfim, tenho que parar de divagar e de fazer publicidade a opiniões antigas aqui no blog, e responder realmente à pergunta, não é? Seja. Mas vou fazer uma pequena batota na mesma. Sim, sim, vou sim, e não quero saber.

Ora bem, vou precisar que fiquem com quatro (conjuntos de) obras em mente: The Hobbit, Parque Jurássico, a Saga Bubu do Dragonball e Lovecraft. Confusos? Óptimo.

A (não tão) pequena batota (quanto isso), é que a parte do canibalismo a que a Alexandra quer chegar, vai ser ligeiramente distorcida. E as três personagens que vou de facto incluir na refeição, são especiais. Mas imaginem o que era comer um bocadinho de carne de Smaug, de dinossauro, ou de uma das entidades cósmicas de Lovecraft? Ah! Carne de dragão deve ser qualquer coisa, e então carne de dragão inteligente com a voz do Cumberbatch... Um petisco!

O livro não tem nada a ver com o título, infelizmente...
Os dinossauros eu sei que não são bem personagens, mas até que são, e eu seria o primeiro na fila para dar uma trinca em carne de dinossauro, porque eu gosto assim tanto de dinossauros.

(Não achavam que eu ia ser amigo de alguém como a Alexandra sem ser eu próprio um bocadinho louco também, pois não?)

As entidades cósmicas do Lovecraft seriam uma categoria à parte. Se calhar nem tinha que as comer literalmente a elas, que seres capazes de criar objectos e cidades inteiras com geometrias não-euclidianas, devem fazer um tesseracto de lasanha do caraças. Ou então comida fractal! Se bem que isso já existe, e chama-se "sandes", porque se cortarmos uma sandes ao meio, as "meias-sandes" são na realidade sandes mais pequenas. Quanto mais cortarmos, mais sandes temos, em ponto mais pequeno. Ah!

Perdoem-me o desvio. Vamos ao canibalismo, então? É aqui que peço ajuda ao Bubu do Dragonball, e à sua capacidade de tornar as pessoas em doces. Tecnicamente é canibalismo, e caía mesmo bem depois duma refeição de dragão, dinossauro, entidades cósmicas e/ou tesseractos e fractais comestíveis. Toma esta, Alexandra!

Gelado de pessoas, alguém quer?
Vá, vou ser simpático e escolher algumas personagens para transformar em doces. Alguém como o Wolverine era o ideal: imaginem um doce com capacidade de regenerar. Uma tablete de chocolate que voltava a ficar inteira depois de cada trinca. Chocolate infinito!

De resto só se forem personagens mesmo muito desagradáveis, das quais me quisesse ver livre. E de momento não me ocorre nenhuma. Raios parta. Mas já escrevi muito, considera-te satisfeita, Alexandra! Agora diz tu de tua justiça. E vocês que estão a ler isto com ar horrorizado, façam favor, também!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Some Desperado


Autor: Joe Abercrombie


Opinião: Abercrombie já me é bem conhecido, graças à insistência de dois amigos, um deles em particular, que não se calou por um bocadinho até pegar no Best Served Cold. E se as recomendações desse amigo nem sempre são muito famosas, por esta estou-lhe imensamente agradecido.

É que este é um autor como há poucos por aí: a sua escrita directa e bastante gráfica são ideais para contar as histórias violentas em mundos muito pouco ideais que Abercrombie gosta de contar. Já para não falar de que vi pouca gente criar tantas personagens tão interessantes como ele, incluindo algumas que considero estarem na minha lista pessoal de melhores personagens de sempre.

Neste conto temos um vislumbre de tudo isso e de mais uma coisa, uma capacidade imensa de contar muito em muito pouco. Neste caso a narrativa começa praticamente in media res com a personagem principal, Shy, a fugir de uns bandidos como se não houvesse amanhã.

O que o autor faz é dar a conhecer as personagens e as suas histórias de forma mais ou menos subtil, seja através de pensamentos de Shy, de descrições que revelam muito ou até da forma como as personagem agem e falam. É assim que se conta uma boa história, não são precisas cinquenta páginas de prelúdio, a explicar tudo preto no branco, bastam algumas palavras no sítios certos et voilá!

Nesta história em particular, que é curiosamente circular, temos Abercrombie no seu melhor. A violência explícita, as personagens interessantes, a ambiguidade moral, o humor negro e cáustico. Tudo ingredientes que fizeram dos seus livros um sucesso, e que é bom ver transpostos para um conto sem perderem a sua força.

Já sabem, o link está ali em cima, não vos custa nada a ler e não precisam de qualquer tipo de conhecimento prévio sobre o mundo em que se situam as histórias do autor. Portanto, quer queiram revisitar ou ficar a conhecer Joe Abercrombie, este conto é uma óptima forma de o fazerem.

sábado, 27 de setembro de 2014

Personagens favoritas


Tendo em conta o número reduzido de comentadores e comentários que este blog tem, basta alguém comentar mais do que uma vez e eu fico a conhecer essa pessoa. E a considerá-la, pelo menos, uma pessoa conhecida.

Alguns, no entanto, são bastante reincidentes. Por esses, poucos, tenho uma grande estima. Ainda para mais quando todas as suas intervenções são relevantes e interessantes, como é o caso do Francisco Fernandes (aka asesereis).

Esta conversa, para além de agradecer a sua contribuição para as discussões aqui no blog, é só para introduzir uma sugestão que o Francisco fez e que vou seguir (mais ou menos): personagens favoritas.

É complicado falar de favoritos, sejam livros, sejam autores, quando somos completamente viciados em literatura, mas no fim fica fácil. Se tiver sido um livro que nos marcou o suficiente para ser o nosso favorito, não nos vamos esquecer. E o mesmo para autores. Mas personagens favoritas? Personagens há muitas!

No meu caso, assim de repente, basta lembrar-me de Tolkien e de Stephen King, e já fico, literalmente, com um manancial de centenas de personagens disponíveis. E se ficar a saber os nomes dos cerca de cem livros que leio por ano já é abusar da minha memória, nem sequer pensem em ficar a saber os nomes de todas as personagens.

Mas no entanto há algumas que ficam. Outras cujo nome já não sei, mas que conheço perfeitamente. Quer queiramos quer não, é como os livros e os autores - só que a uma escala maior.

E com as personagens até é possível acontecerem coisas bastante curiosas... Como por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é o Glotka, o torturador desfigurado e manipulador da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, que achei apenas mediana. Mas o meu livro favorito deste autor, Best Served Cold, também tem uma personagem que aprecio, embora bastante níveis abaixo de Glotka: Friendly, o tipo frio e obcecado com a matemática, cujo ponto de vista originou alguns dos capítulos mais interessantes que já li.

O "pior" é quando começo a desbobinar os nomes de que me vou lembrando, e o resultado é uma lista recheada de vilões. Seltor, Joker, Pennywise, a enfermeira psicopata que depois é interpretada por Kathy Bates... Podia ficar aqui o dia todo.

Por outro lado, como raio é que faço uma lista destas sem dar destaque a meia dúzia de personagens de Tolkien? Ou de Alan Moore? Ou de Neil Gaiman? Ou do George R.R. Martin? Ou da Rowling? Ou das outras centenas de autores?

E o Sherlock Holmes? E o Poirot? Impossível! Impossível!

A minha resposta ao teu desafio é esta, Francisco: provavelmente, se me perguntares qual é a minha personagem favorita, digo-te sempre o Seltor, mas se todos os dias me pedires uma lista de cinco personagens favoritas, o mais provável é eu dar-te uma lista diferente de cada vez.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Last Argument of Kings (The First Law #3)

Título: Last Argument of Kings
Autor: Joe Abercrombie

Sinopse: Logen Ninefingers might only have one more fight in him, but it's going to be a big one. Battle rages across the North, the King of the Northmen still stands firm, and there's only one man who can stop him. His oldest friend and his oldest enemy. It's past time for the Bloody-Nine to come home.

With too many masters and too little time, Superior Glokta is fighting a different kind of war. A secret struggle in which no-one is safe, and no-one can be trusted. And as his days with a sword are far behind him, it's a good thing blackmail, threats and torture never go out of fashion.

Jezal dan Luthar has decided that winning glory is far too painful a process, and turned his back on soldiering for a simple life with the woman he loves. But love can be painful too - and glory has a nasty habit of creeping up on a man when he least expects it.

While the King of the Union lies on his deathbed, the peasants revolt and the nobles scramble to steal his crown. Yet no-one believes that the shadow of war is about to fall across the very heart of the Union. Only the First of the Magi has a plan to save the world, but there are risks. There is no risk more terrible, after all, than breaking of the First Law...

Opinião: Depois de 2 livros à espera que as coisas começassem realmente a acontecer, chego ao livro em que tudo acontece! E embora tenha gostado, tenho a dizer que fiquei desapontado.

O ritmo é praticamente o mesmo que no resto da trilogia, excepto as últimas 200 páginas (o livro tem quase 700, nota-se bem) que são mais aceleradas e incluem uns 2 ou 3 capítulos mesmo muito bons, quase apocalípticos, com constantes saltos de pontos de vista, muito rápidos, que dão intensidade à história.

As personagens continuam fenomenais, especialmente Glokta, como é óbvio, que vai coxeando por entre desgraças e sucessos, sempre a safar-se de alguma forma, mesmo que para isso tenha que fazer algumas coisas um bocado desagradáveis, como torturar os seus amigos mais chegados.

Mas é de facto neste livro que tudo acontece. A primeira metade, mais coisa menos coisa, é bastante focada em porrada. As batalhas sucedem-se no Norte, e a ameaça do Sul está cada vez mais próxima, portanto muito do tempo de antena é dado a pessoas a estraçalharem-se umas às outras.

Isto podia ter-se tornado extremamente aborrecido, pois tanta acção normalmente não dá azo a grandes desenvolvimentos de enredo, mas acho que o Abercrombie até se safou mais ou menos com isso. As cenas de luta estão bem feitas e são contrabalançadas por alguma evolução da trama, que consegue manter o interesse.

Depois as coisas começam a suceder-se, numa autêntica catadupa de revelações e desenvolvimentos, que culminam numa batalha final que infelizmente não achei tão bem descrita quanto isso.

Foi durante os tais capítulos semi-apocalípticos, dos melhores de toda a trilogia, em que o autor salta constantemente de personagem para personagem, mostrando várias perspectivas do que se está a passar, a um ritmo muito rápido e intenso, com um final a aproximar-se a passos largos mas a parecer nunca mais chegar.

Durante essa altura, o livro torna-se ainda mais viciante do que é habitual. Mas depois tudo acaba um bocado de repente, e é demasiado fácil. Há inimigos que são uma enorme ameaça praticamente desde o começo do primeiro livro, e que mal participam na batalha, sendo chacinados sem dó nem piedade pouco depois de entrarem em cena.

E depois seguem-se ainda umas boas dezenas de páginas para fechar os arcos narrativos todos e para fazer as grandes revelações que faltam, mas isso também me desapontou, mais que não seja porque antecipei mais de metade das grandes revelações deste livro, que seguiram muitas vezes um caminho fácil e demasiado óbvio para o meu gosto.

Gostava que o enredo tivesse sido mais intrincado, menos óbvio, porque é isso que espero deste autor. Em Best Served Cold fui enganado e aldrabado montes de vezes, e ao longo desta trilogia, e deste livro em particular, fui apenas ocasionalmente surpreendido, porque o resto se via a milhas.

Mas isso não fez deste um mau livro: foi, aliás, uma óptima leitura, e uma conclusão bastante boa da trilogia. Apenas não foi tão estrondoso como eu imaginava que seria e gostava que tivesse sido.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Before They Are Hanged (The First Law #2)

Título: Before They Are Hanged
Autor: Joe Abercrombie

Sinopse: How do you defend a city surrounded by enemies and riddled with traitors, when your allies can by no means be trusted, and your predecessor vanished without trace? It's enough to make a torturer want to run - if he could even walk without a stick - and Inquisitor Glokta needs to find answers before the Gurkish army comes knocking at the gates.

Northmen have spilled over the Angland border and are spreading fire and death across the frozen country. Crown Prince Ladisla is poised to drive them back and win undying glory. There is only one problem: he commands the worst-armed, worst-trained and worst-led army in the world.

And Bayaz, the First of the Magi, is leading a party of bold adventurers on a mission through the ruins of the past. The most hated woman in the South, most feared man in the North, and most selfish boy in the Union make strange companions, but, if only they didn't hate each other so much, potentially deadly ones.

Ancient secrets will be uncovered. Bloody battles will be won and lost. Bitter enemies will be forgiven - but not before they are hanged.

Opinião: Depois de um primeiro livro bastante parado, eis que o segundo volume da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, ainda consegue ser mais parado. E ainda assim estranhamente viciante, mais ainda que o primeiro!

A culpa dessa dualidade é claramente de 3 coisas: a escrita, as personagens, o tipo de coisas que acontecem.

A escrita, por um lado, desliza que é um doce. É daquela escrita que se lê mesmo bem. Não dá para encalhar, nem para demorar muito, lê-se rápido e bem. Depois as personagens continuam fantásticas. A construção que este homem faz é indescritível. A maior parte das personagens, sejam mais ou menos secundárias, transmitem uma sensação de plausibilidade tão grande que é ridículo.

Pelo menos dentro do universo dos livros, já que estamos a falar de uma mulher com sangue de demónio, um feiticeiro careca que gosta de explodir pessoas com o pensamento, um bárbaro do Norte com um sangrento problema de dupla personalidade, um inquisidor aleijado com um ar bastante estranho (GLOKTA! GLOKTA! GLOKTA!) e coisas afins.

E há ainda o tipo de coisas que acontecem. Esta deve ser a parte mais difícil de explicar. Para ser justo, nem posso dizer que tenha acontecido pouca coisa; o que se passa é que ao longo das 1000 e tal páginas que já li desta trilogia, aconteceu muita coisa, só que bastante espalhada, o que leva a (desculpem) uma densidade de acontecimentos bastante baixa, consequentemente dando a impressão de que nada se tem passado.

Mas, e aqui está o pormenor interessante, quase tudo o que acontece tem, ou parece ter, uma qualquer pista para um acontecimento futuro. Ou então vários acontecimentos parecem convergir de alguma forma. Ou então há linhas narrativas extremamente díspares mas que se está mesmo a ver que eventualmente vão dar bodega da grande, só pode.

Isso é algo que o Abercrombie faz com mestria: vicia. A forma como escreve e a forma como desenvolve a história têm-me deixado sempre com água na boca. Tenho a sensação de que ainda não se passou nada, mas estou sempre a achar que tudo está à beira de colapsar.

E conhecendo o autor como o conheço do Best Served Cold, já sei que o fim vai ser terrível, sangrento, violento e tudo o resto. Sinto que estou a dar passinhos de bebé em direcção a um precipício. Tenho a sensação de praticamente não estar a avançar, mas vejo a queda cada vez mais perto. É fascinante.

Portanto este segundo livro, ainda que provavelmente mais parado que o anterior, agradou-me mais. Já conhecia as personagens desde o início, e algumas questões começaram a ser respondidas. De forma bastante lenta, como é óbvio, mas respondidas.

Apenas posso esperar que o desenvolvimento e a conclusão nas 700 páginas de Last Argument of Kings seja tão estrondoso como eu o imagino, e como me têm dito. Sinceramente tenho receio do que possa vir a acontecer. Mas mal posso esperar para o saber.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

The Blade Itself (The First Law #1)

Título: The Blade Itself
Autor: Joe Abercrombie

Sinopse: Logen Ninefingers, infamous barbarian, has finally run out of luck. Caught up in one feud too many he's about to become a dead barbarian, leaving nothing behind but bad songs and dead friends.

Jezal dan Luthar, paragon of selfishness, has nothing more dangerous in mind than winning glory in the fencing circle. But war is brewing, and on the battlefields of the frozen North they fight by altogether bloodier rules.

Inquisitor Glokta, cripple turned torturer, would like little better than to see Jezal come home in a box. But then he hates everyone. Cutting treason out of the heart of the Union one confession at a time leaves little room for friendships - and his latest trail of corpses could lead straight to the rotten heart of government... if he can just stay alive long enough to follow it...

Opinião: Depois de Best Served Cold, decidi aventurar-me na trilogia The First Law do autor. Os dois gajos que me aconselharam o primeiro também aconselharem estes 3, e embora as primeiras opiniões não sejam muito boas, ambos deliraram ligeiramente com o último livro.

Como gostei bastante de ler Abercrombie, não foi uma decisão difícil pegar em mais livros dele. Graças a isso, as expectativas eram altas. Mas este primeiro livro, para mim, só tem 3 coisas verdadeiramente excepcionais: a edição, o título, e Sand dan Glokta, o Inquisidor aleijado com o sorriso mais repulsivo de sempre.

As edições que já vi dos livros deste autor são todas tão boas que até metem nojo. Dá vontade de as ter nas estantes e pegar nelas de vez em quando para sentir a textura. Os títulos também são todos espectaculares: Best Served Cold, The Blade Itself, Before They Are Hanged, Last Argument of Kings, e por aí adiante. Este tipo tem um dom para os títulos, um dom que aprecio muito, não tivesse eu sempre dificuldades em arranjar títulos para o que escrevo.

E depois há Glokta. No meio de uma história que é principalmente política, mas que também tem sangue e tripas, como é óbvio, há montes de personagens, a maior parte das quais bastante bem construídas, e uma grande porção dessas mesmo muito interessantes.

Bayaz, the First of the Magi; Logen Ninefingers, ocasionalmente conhecido como the Bloody-Nine; Major West, soldado honesto e uma das poucas pessoas minimamente razoáveis ao longo do livro todo; Jezal dan Luthar, ainda que chato e convencido como a porra, e tantas outras personagens...

Mas nenhuma, repito, nenhuma, chega aos calcanhares de Glokta. É uma personagem genial e uma das melhores personagens que já na minha vida. Soldado capturado pelos Gurkish, é torturado durante 2 anos. No fim é um aleijado com menos de 30 anos, praticamente incapaz de se levantar sozinho da cama, deformado e com partes do corpo em falta, nomeadamente os dentes. Arrancaram-lhe metade, mas de forma a que tivesse dentes e vazio alternados em cada maxilar, e dentes em cima de vazio e vice-versa, dum maxilar para o outro.

Ou seja, tem metade dos dentes, mas não pode comer nada sólido, porque é incapaz de mastigar. Tem os dentes, mas são inúteis. Isso, juntamente com tudo o resto que lhe sucedeu, faz dele uma personagem implacável, um Inquisidor bem lixado, e uma personagem genial.

Os seus capítulos são sem dúvida os melhores, e as observações mentais que faz para si próprio são quase sempre hilariantes. Com um sentido de humor excepcional e uma personalidade justificadamente cruel, com requintes de malvadez permeados de um bom um coração, Glokta é a melhor coisa que este livro tem para oferecer.

Provavelmente a culpa deste livro ser apenas mediano é o facto de ser o primeiro de uma trilogia. Em Best Served Cold aconteceu tanta coisa que eu esperava o mesmo ritmo para esta leitura. Mas são livros bem diferentes, e este acaba por ser mais parado, com mais tramas políticas e esquemas manhosos a serem desenvolvidos à vista de todos, mas sem que nunca se perceba muito bem o que se está a passar.

Espero que no próximo livro as coisas avancem mais um bocado, porque já há tanta coisa para descobrir que nem sei...

sábado, 22 de setembro de 2012

Que as citações nos caiam em cima [18]


Best Served Cold é um livro recheado de violência, muitas vezes bastante imaginativa, mas que também consegue, por entre machadadas, espadas por traseiros acima e sangue a espichar de todas as formas possíveis e imaginárias, ter diálogos deveras interessantes.

Especialmente no que toca a uma das personagens mais interessantes e agradáveis de encontrar, Nicomo Cosca. O homem tem um carisma inigualável e um bom humor inabalável. E para além disso, parece que fala em citações. De cada vez que abre a boca, deita cá para fora frases brilhantes e preparadas para citar.

'Unhappy times are the best for levity. You don't light candles in the middle of the day, do you?'

Joe Abercrombie, Best Served Cold

A simplicidade da frase é fascinante. E reparei nela porque reconheci um espírito bastante português. Quanto piores são e estão as coisas que nos rodeiam, mais são as piadas que são contadas, os programas de humor que proliferam e os cartoons humorísticos que são publicados. Os portugueses têm um dom para aquilo que Cosca expõe de forma tão simples.

E a prova de que Cosca é uma personagem bem construída? O facto de eu falar dele como se fosse uma pessoa.

De resto, já sabem, citações interessantes que encontrem, o e-mail é o mesmo, queaestantenoscaiaemcima@gmail.com!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Best Served Cold

Título: Best Served Cold
Autor: Joe Abercrombie

Sinopse: Mercenaries are a wonderful thing: they fight as you tell them, whom you tell them, and when you tell them, for nothing more precious or complicated than money. And Monzcarro Mercatto, and her brother (and lover) Benna Mercatto, are the two most successful, most popular, and most wealthy mercenaries in Styria...but wealthy, popular mercenaries are not such a good thing. In fact they're a downright dangerous thing. Which is why Grand Duke Orso of Styria arranges to have them dealt with. Permanently. With hindsight, he may come to consider this a tactical error. Through sheer good luck - which her brother doesn't share - Monzcarro survives the long and fatal drop Orso arranged for her, and staggers away from her encounter with a ruined right hand, an opium addiction ...and a plan to come back with a fortune, plenty of bladed weapons, and a single-minded determination to kill the seven men in the room when her brother was murdered. Preferably in as gruesome a manner as she can ...


Opinião: Mais um livro que me foi emprestado, e mais uma aposta ganha. Tenho mesmo que passar a fazer isto mais vezes. A mesma pessoa também me emprestou o Jogo Final e o Childhood's End, duas apostas mais do que ganhas, especialmente a segunda, uma das obras primas do grande Arthur C. Clarke. Este Best Served Cold é bastante diferente desses dois, a começar por não ser de ficção científica e a acabar em ter litros e litros e litros e litros de sangue.

Para terem noção, eu acho que se fosse possível espremer os livros para extrair o sangue que corre ao longo das suas páginas, Portugal deixava de precisar de dadores de sangue para os próximos 5 anos. Não estou a exagerar. Este é principalmente um livro de acção, com tantas traições, espadeiradas, machadadas, envenenamentos, marteladas, porrada em geral, alguma tortura e, acima de tudo, sangue sangue sangue, que é quase impossível não sentir a adrenalina a espalhar-se pelo corpo, enquanto se lê. Isso e ganhar uma certa imunidade a descrições sangrentas.

Mas ainda antes de abrir de facto o livro, demorei-me um pouco a admirar o exterior. Raros são os livros com uma edição tão cuidada e tão bem conseguida, especialmente em formato paperback. O nome do autor está em relevo, realçado a prateado, prateado esse com que depois se escreve o título. A capa tem uma textura peculiar, para um livro: é rugosa, a fazer lembrar papel antigo e grosso. E como se pode ver na imagem ali em cima, o sangue começa logo aqui.

Abrindo o livro e começando a leitura, só consigo comparar o mergulho quase instantâneo para a acção com o Cell, do Stephen King. Antes sequer de me conseguir ambientar na história e de perceber exactamente o que se estava a passar, já havia gente a morrer, sangue por todo o lado, e promessas de morte e de vingança a voarem por aqui e por ali. Tudo isso com uma escrita exemplar. Se isto não for o suficiente para prender alguém à leitura, aconselho a que leia mais um pouco. Antes de ter lido 100 páginas, menos de um sexto do livro, já aconteceu tanta coisa que dá vontade de parar de ler, gritar alto e bom som "PAROU, PAROU, PAROU", e rebobinar tudo.

É claro que há outra coisa que apetece fazer e que esmaga por completo essa primeira vontade: continuar a ler. As personagens estão muito bem construídas, e cada vez mais me convenço que a vingança é o tema perfeito para uma história. A protagonista, Monzcarro Murcatto, rapidamente reúne um grupo díspar mas mortal, no mínimo. Caul Shivers, um homem enorme, do Norte; Friendly, um ex-prisioneiro, serial killer meio para o psicopata, com uma obsessão por números; Shylo Vitari, a mulher faz-tudo; Castor Morveer e Day, mestre dos venenos e respectiva aprendiz; e Nicomo Cosca, bêbedo de profissão e mercenário nos tempos livros. Este grupo, como seria de esperar e por mais cuidadosos que todos tentem ser, acaba por espalhar o caos, pura e simplesmente, enquanto Murcatto prossegue com a sua vingança.

O autor escreve alternadamente do ponto de vista das várias personagens, não só estas 7 como ainda algumas outras, o que permite ao leitor se não identificar-se com alguma personagem, pelo menos de perceber os seus motivos e a sua mentalidade em geral, em mais pormenor. É por causa disso que fiquei fascinando com Friendly. Os capítulos do seu ponto de vista mostram como a sua vida é comandada por números, de livre vontade. Nem consigo explicar, é absolutamente fascinante. Tal como Cosca, que tem uma evolução interessante, uma história curiosa, e que tem uma personalidade extremamente carismática.

Mas para além das personagens, a história em si, um conto de vingança à antiga, com muita morte pelo meio, é interessante e tem reviravoltas suficientes para captar e prender a atenção durante longos períodos de tempo. É óbvio, no entanto, que em 662 páginas de desbunda total de tudo o que mexe, há coisas que facilmente aborrecem. Outras opiniões que li apontam isso mesmo, e enfim, é inevitável, é impossível ser muito original e criativo ao quinquagésimo esfaqueamento traiçoeiro em 200 páginas. Mas acaba por ser algo por cima do qual facilmente se passa por cima, em favor do resto.

E já mencionei o Shenkt e a Ishri? Duas personagens deveras interessantes e que, infelizmente, não tiveram o tempo de antena que merecia. Mais um pequeno defeito, havia como que demasiadas boas personagens e, nesse aspecto, as quase 700 páginas pareceram poucas.

Se bem que no final da leitura a única coisa que posso dizer é que este é um excelente livro que me deixa bastante curioso quanto às outras obras do autor. Espero, com o tempo, adquirir algumas, e se tiverem pelo menos metade da qualidade desta obra, considero o dinheiro bem gasto!