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sábado, 25 de abril de 2015

Estantes Emprestadas [16] - Universos Partilhados


O Joel é um tipo fantástico. É mais um amigo/colega da Oficina de Escrita que recruto para esta rubrica, e mais um que de certeza me vai responder de forma espectacular. Dono de um humor peculiar, mas fantástico, e de uma imaginação sem limites, podem segui-lo principalmente pelo seu site e restantes links que por lá encontrarem. Acreditem que vale a pena. Já o entrevistei, já lhe li algumas coisas mais pequenas, e outras assim a dar para o maiorzito, além de todos os contos que submeteu para a Oficina, e sou fã. Vocês preparem-se!


Tenho um fraquinho por Universos partilhados. Nem vale a pena tentar esconder. Há qualquer coisa no conceito de algo maior onde todas as histórias cabem, que me fascina. Aquela sensação de continuidade ao longo de vários livros independentes, ou que atravessa vários episódios de várias séries diferentes... É qualquer coisa.

Já tentei muitas vezes tentar perceber o porquê, e ainda não tenho a certeza. Mas em parte só pode estar relacionado com a forma como esses Universos me deixam mergulhar mais completamente nas histórias. Mais que não seja porque o autor teve que pensar em muito mais do que apenas aquele livro e aquela história, tornando-a assim mais coerente e mais forte.

Por outro lado tem a ver com fascínio puro. É quase como uma mitologia. Uma história muito maior do que aquela que estiver a ler naquela momento, e que de certa maneira tem influência em tudo. Já para não falar dos pormenores que vão surgindo aqui e ali, por vezes de tal forma subtis que passam completamente ao lado até sabermos da história toda.

E nessa altura, tudo faz sentido. Pode ser uma explicação dada pelo autor numa entrevista, ou uma situação demasiado óbvia noutro livro, mas dá-se aquele click e todo um novo mundo universo se abre diante de nós!

Querem um exemplo simples e porreiro? A Middle-Earth de Tolkien. Não exemplos muito melhores de um enorme Universo dentro do qual o autor inseriu (quase) todas as suas histórias. Funciona? E de que maneira! Tolkien é um caso particular, que o mundo que ele criou é particularmente detalhado e ele foi particularmente meticuloso nos seus livros, mas não deixa de ser representativo por causa disso.

Aqui está um bom exemplo de um autor que cria um universo e depois escreve histórias sobre o que se passa nesse mundo. Adopta diferentes (mais ou menos, vá) pontos de vista, aborda diferentes (mais ou menos, vá) histórias e consegue realmente construir toda uma mitologia, digamos, funcional.

Outro caso completamente diferente é o de Stephen King, que não só é um dos meus autores favoritos, como foi um dos primeiros de cujo Universo partilhado me apercebi. Isso acontece porque ainda não li nada de Dark Tower, saga na qual já me prometeram existir todas as ligações/explicações e mais algumas; e também porque King o faz de forma extremamente subtil. Pelo menos nos livros que li.

Para começar, nem todos os livros precisam de estar inseridos nesse Universo. Depois a forma como o faz é com a introdução das mesmas personagens uma e outra vez em vários livros diferentes, muitas vezes sem qualquer relevância para o enredo. Ou então um vilão que nunca é bem explicado num livro mas que faz todo o sentido para quem tiver lido o segundo.

Mas isto não fica por aqui, que continua a existir muita gente a insistir neste fenómeno, que é de facto extraordinário. E difícil de cumprir. Mas há mais um autor que faz isto muito bem (acho eu, que ainda não lhe li assim tanto quanto isso): Brandon Sanderson. Este tipo sim, é subtil. Uns nomes largados aqui, uns nomes largados acolá, países e cidades e raças estranhas, sempre no tom simples, calmo e divertido que usa sempre.

Quando descobri, depois de ler a trilogia Mistborn, que todos os seus livros estavam de alguma forma relacionados uns com os outros. Não imaginam a minha excitação!

Fora da literatura também há coisas interessantes, embora alguns casos tenham que ser abordados com uma mente aberta, pois não são bem Universos partilhados, ainda que o sejam. Como por exemplo, Doctor Who, que eu consigo sempre, de alguma forma, usar para explicar ou falar sobre alguma coisa. É incrível. Mas bem, Doctor Who, a série?

Errado. Doctor Who, a série, o filme, os livros, as bandas-desenhadas, os jogos, etc, ok? A grande diferença é qual a abrangência da partilha. Tolkien partilhava o seu Universo pelas várias histórias que escrevia; Doctor Who, por outro lado, partilha a sua história por uma série de meios, desde a série original até às bandas-desenhadas que ainda não saíram, existe de tudo um pouco!

E não nos podemos esquecer dos grandes Universos dos pesos pesados das BD's americanas: Marvel e DC. É fácil de esquecer que sejam realmente Universos partilhados, mas são, e dos bons! Bem, pelo menos dos mais completos, ainda que também dos mais incongruentes.

O mais incrível ainda consegue ser o que se faz por cá. Milagre, não? Um bocado. Mas a Imaginauta esforça-se, em parte, exactamente para contrariar esse preconceito: histórias são boas, ficção especulativa é boa, universos partilhados são bons. Deixai-os andar!

Tudo isto para vos mostrar que estes Universos andam por aí, muitas vezes escondidos nos detalhes, de tal forma que até passam despercebidos. E também que valem a pena. De certa forma, este tipo de Universos, depois de descobertos, quase que obrigam a um certo investimento da parte dos leitores, que começam a sentir que fazem parte. Pelo menos é o que me acontece a mim.

E além disso, esses Universos partilhados servem como base para muita coisa, e acabam, de vez em quando, por sustentar completamente várias histórias. Ou então dão uma nova profundidade a determinado livro. Como por exemplo, ao Hobbit, que é porreiro por si só, mas que quando lido sabendo tudo o que sabemos sobre a Middle Earth se torna muito melhor.

Mas ainda falta falar de uma coisa: os Universos partilhados que não o são realmente. Ou se preferirem, os Universos partilhados que são feitos à força pelos fãs. Aquelas ligações estranhas que se fazem entre as coisas, seja por coincidência seja por vontade deliberada de alguém. Já vos aconteceu? E a ti Joel?

Por favor digam de vossa justiça, e fiquem à espera da resposta do Joel, que será de certeza bastante interessante!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Estantes Emprestadas [14] - Canibalismo literário (mais ou menos)


Sabem aqueles amigos que vocês têm perfeita de que são loucos? Também tenho disso. Apresento-vos a Alexandra Rolo, também conhecida por Pantapuff, dona do blog Folha em Branco e culpada frequente de se ver envolvida em vários projectos de milhentas áreas.

Um deles foi a Oficina de Escrita a que pertenço, e foi assim que a conheci. Se eu era o sanguinário do grupo, aqui a Alexandra era a minha second in command nesse departamento. Vocês nem fazem ideia. Infelizmente, já há uns tempos que ela deixou de contribuir com contos para as sessões, mas de vez em quando ainda se digna a aparecer, principalmente se houver bolo envolvido.

Tendo em conta esta descrição, eu devia ter logo percebido que me ia arrepender de a convidar para participar nas Estantes Emprestadas. Sem mais demoras, passemos à pergunta dela, e depois à minha resposta. Obrigado Alexandra! (E raios te partam!)

P.S.: Aqui fica a resposta dela, e umas palavrinhas minhas quanto a isso.

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Tu és sádico e dado a coisas com um bocadinho de sangue... se tivesses de fazer uma refeição estilo Hannibal Lecter, que personagens (e que partes) usavas e porquê?


Eu não disse que me ia arrepender?  Mas vamos lá, isto vai ser engraçado. Ia começar por me queixar de que não há praticamente nada que eu possa dizer em resposta a isto, mas... Fui ver a lista das opiniões aqui do blog e tenho aqui vinte e dois links que posso mencionar. Estou honestamente impressionado.

Comecemos pelas batotas, que são a maior parte dos links. Podia usar personagens de Fórmula da Felicidade, que são animais antropomórficos, assim as de Maus, ou então algumas das de A Quinta dos Animais ou do mundo de Alice no País das Maravilhas, que são literalmente animais. Isto poupava-me bastante trabalho, mas era desonesto, e corria o risco de repetir a história de Philip K. Dick, Beyond lies the wub.

Portanto não o vou fazer. Mas posso usar batotas mais sofisticadas. Como por exemplo dizer que me tornava num vampiro ou num zombie, e a minha resposta passava a ser "qualquer uma que estique o pescocinho" ou "BRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAINS". Aliás, esse tipo de coisas até está bastante na moda, diga-se de passagem...

Mas também era batota, e não quero ir por aí. Até por o canibalismo tem as suas vantagens em várias obras de ficção. Pessoalmente, não me importava mesmo nada de ter a habilidade cibopática de Tony Chu, de ver as memórias de alguém, ou algum animal, que coma. E no universo negro de Joe Abercrombie, há toda uma espécie de seita com poderes praticamente sobrenaturais que ganham após comerem carne humana. Vantagens, é o que eu digo!

Nham nham
Enfim, tenho que parar de divagar e de fazer publicidade a opiniões antigas aqui no blog, e responder realmente à pergunta, não é? Seja. Mas vou fazer uma pequena batota na mesma. Sim, sim, vou sim, e não quero saber.

Ora bem, vou precisar que fiquem com quatro (conjuntos de) obras em mente: The HobbitParque Jurássico, a Saga Bubu do Dragonball e Lovecraft. Confusos? Óptimo.

A (não tão) pequena batota (quanto isso), é que a parte do canibalismo a que a Alexandra quer chegar, vai ser ligeiramente distorcida. E as três personagens que vou de facto incluir na refeição, são especiais. Mas imaginem o que era comer um bocadinho de carne de Smaug, de dinossauro, ou de uma das entidades cósmicas de Lovecraft? Ah! Carne de dragão deve ser qualquer coisa, e então carne de dragão inteligente com a voz do Cumberbatch... Um petisco!

O livro não tem nada a ver com o título, infelizmente...
Os dinossauros eu sei que não são bem personagens, mas até que são, e eu seria o primeiro na fila para dar uma trinca em carne de dinossauro, porque eu gosto assim tanto de dinossauros.

(Não achavam que eu ia ser amigo de alguém como a Alexandra sem ser eu próprio um bocadinho louco também, pois não?)

As entidades cósmicas do Lovecraft seriam uma categoria à parte. Se calhar nem tinha que as comer literalmente a elas, que seres capazes de criar objectos e cidades inteiras com geometrias não-euclidianas, devem fazer um tesseracto de lasanha do caraças. Ou então comida fractal! Se bem que isso já existe, e chama-se "sandes", porque se cortarmos uma sandes ao meio, as "meias-sandes" são na realidade sandes mais pequenas. Quanto mais cortarmos, mais sandes temos, em ponto mais pequeno. Ah!

Perdoem-me o desvio. Vamos ao canibalismo, então? É aqui que peço ajuda ao Bubu do Dragonball, e à sua capacidade de tornar as pessoas em doces. Tecnicamente é canibalismo, e caía mesmo bem depois duma refeição de dragão, dinossauro, entidades cósmicas e/ou tesseractos e fractais comestíveis. Toma esta, Alexandra!

Gelado de pessoas, alguém quer?
Vá, vou ser simpático e escolher algumas personagens para transformar em doces. Alguém como o Wolverine era o ideal: imaginem um doce com capacidade de regenerar. Uma tablete de chocolate que voltava a ficar inteira depois de cada trinca. Chocolate infinito!

De resto só se forem personagens mesmo muito desagradáveis, das quais me quisesse ver livre. E de momento não me ocorre nenhuma. Raios parta. Mas já escrevi muito, considera-te satisfeita, Alexandra! Agora diz tu de tua justiça. E vocês que estão a ler isto com ar horrorizado, façam favor, também!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

The Hobbit - The Battle of the Five Armies


Tolkien, Tolkien, Tolkien... Peter Jackson, Peter Jackson, Peter Jackson... Um faz-me suspirar por não ter escrito mais, o outro por de vez em quando fazer umas idiotices.

Os livros de Tolkien são qualquer coisa. Qualquer pessoa que fale disso nas minhas proximidades, leva com a minha opinião. Todos têm algum defeito, mas são verdadeiramente espectaculares. E épicos, sem qualquer sombra de dúvida.

E se há algo que é preciso dizer quanto aos filmes de Peter Jackson, é que transmitiram na perfeição essa sensação de épico, de deslumbramento total... O caso mais recente e mais paradigmático é o dragão Smaug, uma delícia visual e uma autêntica obra-prima dos efeitos visuais, ainda para mais com o talento vocal de Benedict Cumberbatch, que se entrega de alma e coração ao papel.


Mas depois aparecem as idiotices. Nem falo de ter dividido o Hobbit em três filmes, que o David Soares já falou nisso, e defendeu muito bem a decisão. Este alargamento tem algumas falhas, é verdade, pois inclui coisas perfeitamente desnecessárias, como personagens dos outros filmes só porque sim, e toda uma narrativa amorosa secundária que também não esteve lá a fazer grande coisa. Pormenores!

A verdade é que esta trilogia, juntamente com a outra trilogia, são marcos na história da cinema. Mais a primeira, mas aplica-se na mesma. Filmes grandiosos e espectaculares que adaptam obras extraordinárias de um género frequentemente desprezado. Cada vez há mais filmes baseados em livros de Fantástico, mas quantos com qualidade, e quantos se fariam sem a trilogia de LOTR? Ah pois!

Onde é que eu ia? Nas idiotices? Querem saber qual é a pior? A porcaria do CGI completamente desnecessário. Se há coisa que me enerva é o ar plástico com que os filmes ficam, quando abusam nos efeitos especiais, e foi o que aconteceu aqui. Depois de na trilogia isso apenas se notar no Gollum - o que foi perfeitamente desculpável tendo em conta a tecnologia da altura e a brilhante actuação de Andy Serkis - aqui está um pouco por todo o lado, dos exércitos, aos elfos, aos anões...


Há poucas coisas mais ridículas do que ver um Thorin Oakenshield em toda a sua magnificiência de rei guerreiro anão... Mas com a cara com consistência de cera. Ridículo, absolutamente ridículo. Assim como o Azog, o orc branco, que por algum motivo não foi feito à là pata, mas sim completamente em CGI, tornando-o ridículo e muito, muito pouco assustador.

Pronto, já passou. Ignorando isso é assim, o filme não é propriamente espectacular, mas é bom. É preciso ter em conta a nostalgia de ser o último filme (como se eu acreditasse nisso), mas pronto. Este último é um bocadinho diferente do resto da trilogia, principalmente em termos de ritmo, que me causou alguma estranheza na brusquidão da mudança do Thorin de líder rígido para rei déspota, mas me deixou bastante satisfeito no seu regresso a pessoa decente.

Martin Freeman como Bilbo foi outro achado que compensou grande parte dos problemas do filme. O tipo está para lá de impecável. O seu papel aqui é mais discreto, mas tão ou mais importante do que nos outros filmes, o que é simplesmente extraordinário.


Também é de louvar a capacidade em conjugar as várias histórias - apesar do problema de ritmo que já mencionei - principalmente quanto todas convergem para uma grande batalha épica. Que foi óptima, já agora. Um anão de martelo de guerra a lutar em cima do seu porco couraçado? AH! Fantástico!

Gostava de ter visto um bocadinho mais de Gandalf e companhia, toda a história do White Council. Pareceu-me muito interessante, especialmente por só envolver personagens de peso: Gandalf, Saruman, Elrond e Galadriel. Todos incríveis. Foi pena, mas compreendo que não podiam ter tido muito mais tempo de antena, para a história principal que se estava a contar.

Foi um bom filme, e querem saber o que é interessante? Acho que o universo já ficou contido nestes seis filmes, e relativamente fechado, digamos assim, mas... Quero mais. E acredito que ainda vai haver mais qualquer coisa!

sábado, 27 de setembro de 2014

Personagens favoritas


Tendo em conta o número reduzido de comentadores e comentários que este blog tem, basta alguém comentar mais do que uma vez e eu fico a conhecer essa pessoa. E a considerá-la, pelo menos, uma pessoa conhecida.

Alguns, no entanto, são bastante reincidentes. Por esses, poucos, tenho uma grande estima. Ainda para mais quando todas as suas intervenções são relevantes e interessantes, como é o caso do Francisco Fernandes (aka asesereis).

Esta conversa, para além de agradecer a sua contribuição para as discussões aqui no blog, é só para introduzir uma sugestão que o Francisco fez e que vou seguir (mais ou menos): personagens favoritas.

É complicado falar de favoritos, sejam livros, sejam autores, quando somos completamente viciados em literatura, mas no fim fica fácil. Se tiver sido um livro que nos marcou o suficiente para ser o nosso favorito, não nos vamos esquecer. E o mesmo para autores. Mas personagens favoritas? Personagens há muitas!

No meu caso, assim de repente, basta lembrar-me de Tolkien e de Stephen King, e já fico, literalmente, com um manancial de centenas de personagens disponíveis. E se ficar a saber os nomes dos cerca de cem livros que leio por ano já é abusar da minha memória, nem sequer pensem em ficar a saber os nomes de todas as personagens.

Mas no entanto há algumas que ficam. Outras cujo nome já não sei, mas que conheço perfeitamente. Quer queiramos quer não, é como os livros e os autores - só que a uma escala maior.

E com as personagens até é possível acontecerem coisas bastante curiosas... Como por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é o Glotka, o torturador desfigurado e manipulador da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, que achei apenas mediana. Mas o meu livro favorito deste autor, Best Served Cold, também tem uma personagem que aprecio, embora bastante níveis abaixo de Glotka: Friendly, o tipo frio e obcecado com a matemática, cujo ponto de vista originou alguns dos capítulos mais interessantes que já li.

O "pior" é quando começo a desbobinar os nomes de que me vou lembrando, e o resultado é uma lista recheada de vilões. Seltor, Joker, Pennywise, a enfermeira psicopata que depois é interpretada por Kathy Bates... Podia ficar aqui o dia todo.

Por outro lado, como raio é que faço uma lista destas sem dar destaque a meia dúzia de personagens de Tolkien? Ou de Alan Moore? Ou de Neil Gaiman? Ou do George R.R. Martin? Ou da Rowling? Ou das outras centenas de autores?

E o Sherlock Holmes? E o Poirot? Impossível! Impossível!

A minha resposta ao teu desafio é esta, Francisco: provavelmente, se me perguntares qual é a minha personagem favorita, digo-te sempre o Seltor, mas se todos os dias me pedires uma lista de cinco personagens favoritas, o mais provável é eu dar-te uma lista diferente de cada vez.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

The Return of the King [2/2] (The Lord of the Rings #3)


Autor: J.R.R.Tolkien


Opinião: E assim chega ao fim a minha jornada épica pela trilogia de Tolkien. Foram três bons livros recheados de personagens fantásticas, momentos épicos, descrições impressionantes e uma mitologia rica.

Também tem um bom começo e um bom final. Só bons ingredientes, mesmo bem encaixados nos meus gostos. O final, confesso, é diferente do que eu esperava (e me lembrava), e só por ler os nomes dos capítulos, no índice, fiquei com medo que se arrastasse demasiado.

Felizmente Tolkien não desaponta. O grande clímax do livro dá-se pouco depois de meio, e os momentos finais "arrastam-se" por umas boas cento e tal páginas, mas nunca se arrastam num mau sentido. É uma conclusão devida e necessária a uma das sagas mais grandiosas de sempre.

Afinal, se tudo acabasse pouco depois do Anel ser destruído - num momento emocionante, mesmo depois de ser a quarta ou quinta vez que o leio/vejo - muito ficaria por explicar. E se há algo que Tolkien é, é meticuloso. Como tal, faz sentido que tenha o cuidado de detalhar o que acontece a praticamente todas as personagens que acompanhámos ao longo da trilogia.

E o panorama é optimista. O Mal é vencido, há novos reis por todo o lado, mais justos e unidos, alguns casamentos, pequenas vitórias finais sobre réstias de maldade, e concretização de promessas (é bom de ver Tolkien a lembrar-se que Legolas tinha que ir visitar as grutas e que depois Gimli tinha que ir a Fangorn).

Isto tudo inclui uma pequena aventura no Shire que dava um livro por si só, num dos momentos mais divergentes da adaptação cinematográfica, e que não é mais do que uma demonstração do quanto os quatro pequenos hobbits protagonistas são agora adultos capazes de, sozinhos, salvarem todo o Shire. E também de que pode haver redenção para alguns maus da fita, ainda que pelas razões erradas.

E é então que, após ter lido mil e não sei quantas páginas, e de ter visto inúmeras personagens a morrer e a sofrer e a vencer, tudo termina com Sam a voltar a casa, para a sua família, num agora pacato Shire, após cumprir o seu último serviço a Frodo. Não imagino outro final para este livro - nem para esta saga.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

The Return of the King [1/2] (The Lord of the Rings #3)


Autor: J.R.R.Tolkien


Opinião: Deixem-me começar pela parte desagradável. Acho que este livro se arrasta um pouco. As batalhas são épicas, os desenvolvimentos importantes para a narrativa e para as personagens, mas estou com a sensação de que também houve uma boa dose de palha. E não posso ignorar o título dos capítulos da segunda metade, que me indicam que mais de metade vai acontecer depois do grande clímax que já todos sabemos qual é.

Pronto. Já disse. Vou continuar a idolatrar o Tolkien, agora.

É que para ser realmente honesto, aquela sensação de que os acontecimentos se deixam arrastar ligeiramente só surge quando olho para o livro depois de lido, e avalio as coisas de forma objectiva. Durante a leitura estive completamente imerso nas palavras do autor. E isso é incrível!

O mundo rico que Tolkien criou parece de facto real, de tão detalhado que é. Todo o tempo que as personagens passam a debater, contar e cantar histórias antigas e pormenores sobre terras distantes parece inútil, mas não é. Cria dimensão: Middle-Earth não parece um sítio ficcional.

No que toca a acontecimentos, esta primeira metade do terceiro livro deve ser a parte mais importante de toda a saga. Lutam-se batalhas importantes, Aragorn finalmente assume o seu papel de rei de Gondor, derrota-se o principal general de Sauron, há reis mortos por todo o lado, a Irmandade praticamente toda junta outra vez, e um exército marcha até às portas de Mordor.

Vai lá vai. E reparem em como estes acontecimentos se preparam para deixar uma nova geração tomar conta dos tronos, ao mesmo tempo que começam a juntar os antigos companheiros, recuperando a esperança dos bons da fita.

Reparem ainda em como os bons não morrem, só os maus. Gandalf parecia que tinha morrido, mas voltou. Théoden, o rei de Rohan, era fraco e deixou-se levar por maus caminhos, ainda que tenha recuperado no fim. Morreu. Denethor enlouqueceu e, enfim, usou uma Palantír e cedeu. Morreu. Boromir sofreu do mesmo mal que Théoden. Faramir e Eowyn? Morreram? Pensava-se que sim. Mas não!

Mas passando calmamente por cima disso, há uma personagem que se destaca neste livro: Aragorn. Vou ter que concordar com o asesereis (comentador assíduo aqui do blog), o desgraçado do herdeiro de Gondor é um líder e pêras, e nesta parte brilhou a bom brilhar. Consegue liderar os mortos para a batalha, vence tudo e todos, toma decisões sensatas, cura pessoas, e ainda tem a lata de ter uma humildade e um cuidado extremos. Impressionante!

De destaque são também os hobbits, Merry e Pippin, a provarem que Gandalf é que tem razão em ser fã do Shire. Os próximos capítulos serão delicados, com Frodo e Sam em perigo já dentro de Mordor, e o resto dos seus companheiros literalmente a bater à porta com um exército atrás. De certa forma está tudo em aberto, mas mesmo que eu não soubesse já o desfecho, não duvidaria de que tudo vai acabar bem. Afinal, depois de 900 páginas desta trilogia, já me habituei às ideias de Tolkien: os bons ganham, os maus são esmagados sem piedade.

Venha daí a próxima metade, de qualquer forma!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

The Two Towers [2/2] (The Lord of the Rings #2)


Autor: J.R.R.Tolkien


Opinião: E aconteceu o que eu tinha previsto. Depois de meio livro a seguir o resto da Irmandade, a segunda metade segue exclusivamente Frodo e Sam. Eugh.

Felizmente não os acompanha SÓ a eles, já que durante a maior parte do tempo têm Gollum/Sméagol com eles, e encontram humanos já perto dos portões de Mordor.

Além disso, aparece a Shelob! Hurray! Quem é não gosta de ver uma aranha gigante, descendente de uma aranha ainda mais gigante, ambas intrinsecamente malévolas e poderosas, a tentar comer dois pequenos hobbits? Diversão para toda a família!

Pronto, já passou, agora vou-me concentrar. Isto não foi tão doloroso de ler como eu estava à espera. A prosa de Tolkien é fantástica, especialmente as suas descrições. Os diálogos são ornamentados até mais não, mas pelo menos fazem algum sentido, tendo em conta o mundo criado pelo autor. A história parece não avançar muito, já que de repente voltamos atrás no tempo até pouco depois do que acontece no início do livro.

Para piorar a situação, o que se segue são páginas e páginas de... Frodo e Sam a caminharem, perdidos, abatidos, com dúvidas e aterrorizados, ocasionalmente com Gollum a ser espectacular por perto (o desgraçado é sempre espectacular, nem sempre está é por perto).

Há momentos interessantes, como quando passam pelos pântanos repletos de mortos - cena igualmente memorável no cinema, é uma das que me lembro melhor - ou quando enfrentam Shelob. O encontro com humanos, nomeadamente com Faramir, o chefe do grupo e irmão de Boromir, é muito inteligente. Dá uma grande densidade emocional a tudo o que sabemos que se passou mas Frodo e Sam não, ao mesmo tempo que permite uma pausa na narrativa para mostrar que mesmo em terras semeadas pelo caos e pela destruição, como as que rodeiam Mordor, se podem encontrar aliados e amigos.

No fundo é um raio de esperança para os dois hobbits cada vez mais desencontrados com eles próprios. Uma justificação adicional para continuarem a carregar o fardo de que estão encarregues, e não desistirem.

É claro que ainda assim, a melhor parte desta segunda metade é sem sombra dúvida o Gollum, que é uma das melhores personagens que já vi na literatura. A sua história conturbada moldou-o de uma forma bastante vincada, e é possível ver a criatura impiedosa e o ser ingénuo em instantes contínuos. Com uma linguagem corporal muito expressiva e uma maneira de falar bastante única, Gollum deve ser, ainda por cima, a única (ou uma das muito poucas) personagem moralmente ambígua do princípio ao fim.

Pode-se argumentar que não há nenhuma ambiguidade, pois ele não segue os maus nem os bons, segue o Anel, mas a verdade é que as suas acções demonstram um desejo de redenção e um de vingança. Aliás, Tolkien era tão fã de ver as coisas a preto e branco que fez de Gollum uma criatura única e completamente diferente de tudo o resto. Além disso anuncia a sua ambiguidade de forma bastante explícita nas conversas entre Gollum, a parte má, e Sméagol, a parte menos má boa.

Por agora a história ficou numa encruzilhada, mas vai-me saber bem uma pequena pausa deste universo antes de prosseguir. As várias conclusões necessárias vão de certeza precisar de ser digeridas com calma e paciência. Mas não devo demorar muito a pegar no terceiro livro, que isto é demasiado bom!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Two Towers [1/2] (The Lord of the Rings #2)


Autor: J.R.R.Tolkien


Opinião: Com a Irmandade desfeita e membros importantes em falta, esta primeira metade de The Two Towers assume uma importância insuspeita na trilogia. Já não há apresentações a fazer, nem um mundo para explorar a partir do zero. A prova disso mesmo é o começo no seguimento imediato do final do primeiro livro (12), mergulhando-nos directamente na acção.

Mas qual a importância, afinal, desta parte? É preciso esclarecer que teve uma grande vantagem, do meu ponto de vista: nem sinal de Frodo e Sam. Pois é. eu já me lembrava disto da primeira vez que li a trilogia, e como as únicas memórias que tinha da história correspondiam aos filmes, também não ia lá.

Durante esta metade acompanhamos apenas Merry e Pippin, levados por orcs e uruk-hais, e Aragorn, Legolas e Gimli, em busca dos três primeiros. Frodo e Sam "fugiram" sozinhos em direcção a Mordor, e ao resto da Irmandade já toda a gente sabe o que aconteceu.

Isto para mim foi bom, porque eu nunca tive, e provavelmente nunca vou ter, qualquer pingo de paciência para a relação e as interações entre Frodo e Sam. Os dois hobbits têm uma dinâmica curiosa de líder e seguidor, mas que borda várias no doentio. E também me chateia a tendência para ignorar Sam.

É que se Frodo está destinado a ser o herói trágico, chegando mesmo a ser visto como tal por todas as personagens com conhecimento real sobre o que se passa, Sam é apenas o criado leal até à exaustão, com um sentido de honra que o faz partilhar o fardo do seu amo, pelo menos em termos psicológicos (até agora).

Mas essa conversa fica para outra altura, que é preciso falar do que se passou ao longo destas páginas. Entre pedaços interessantes mais centrados nas criaturas maléficas de Sauron e Saruman, e a longa busca de Aragorn, Legolas e Gimli, não sei bem o que terá sido mais interessante. Os orcs e companhia são raças curiosas e tão intrisecamente malévolas, que por pouco protagonismo directo que Tolkien lhes dê, se destacam. Já os três estarolas multi-espécies são, acima de tudo, extremamente engraçados.

Aragorn, o humano, faz o papel de pai porreiro, capaz de interromper a gravidade do seu semblante para rir de forma honesta, enquanto Legolas e Gimli são os irmãos improváveis, pertencentes a raças que, basicamente, não se dão, mas que se estão a tornar muito rapidamente no melhor tipo de amigos possíveis.

Mas aproximadamente a meio (a vinte e cinco por cento do livro, portanto) Tolkien volta a introduzir coisas novas, levando-nos a visitar Rohan e a conhecer os seus famosos cavaleiros, por exemplo. Mas a melhor parte, e que até agora é o meu capítulo favorito de Tolkien, é quando Merry e Pippin fogem para Fangorn, a floresta amaldiçoada, ou coisa que o valha, e conhecem Treebeard, o Ent.

Os Ents são árvores ambulantes, seres antigos e com responsabilidades no que diz respeito às florestas de Middle-Earth. Qualquer pessoa que tenha visto os filmes se lembra das gloriosas imagens de árvores enormes e vagarosas a marcharem para a batalha e a estraçalharem tudo o que lhes apareceu à frente.

Aquilo que é fantástico, no entanto, é o capítulo dos dois hobbits em Fangorn, acompanhados por Treebeard, desde a altura em que o descobrem até à altura em que o fazem incitar os Ents a partirem para a porrada. Todo esse capítulo é delicioso: as descrições da floresta e dos Ents; a personalidade de Treebeard; a forma como os Ents falam e lidam com as coisas, enfim, tudo é digno de nota!

A parte final, como não podia deixar de ser, é fantástica. A batalha é menos grandiosa do que no filme, mas vá, é normal. O confronto de Gandalf (*gasp* SURPRISE!) com Saruman é intenso, e as suas consequências permitem um final (que não é mais do que um meio) forte e cativante.

O meu medo agora é que a segunda parte seja exclusivamente dedicada a Frodo e a Sam, e a coisa me aborreça, mesmo com o inevitável aparecimento de Gollum e uma certa aranha. Não sei até que ponto a narrativa não teria beneficiado de ir intercalando mais as coisas... Mas por outro lado, se o fizesse, este final intenso de que falei só estaria mesmo no final, e isso não ia ter piada nenhuma!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Que as citações nos caiam em cima [55]


"They looked back. Dark yawned the archway of the Gates under the mountain-shadow. Faint and far beneath the earth rolled the slow drum-beats: doom. A thin black smoke trailed out. Nothing else was to be seen, the dale all around was empty. Doom. Grief at last wholly overcame them, and they wept long, some standing and silent, some cast upon the ground. Doom, doom. The drum-beats faded."

The Fellowship of the Ring (Lord of the Rings #1)
J.R.R.Tolkien

The Fellowship of the Ring [2/2] (The Lord of the Rings #1)




Autor: J.R.R.Tolkien

Sinopse

The Fellowship of the Ring [1/2]

Opinião: Não há uma forma fácil de ler Tolkien. Esqueçam as noites passadas em claro, as duzentas páginas de uma assentada, as releituras imediatas, esqueçam isso tudo. Com todas as suas virtudes e todos os seus defeitos, Tolkien é para ler com calma.

Nem digo que seja para assimilar a complexidade do enredo - que é praticamente zero - mas sim a complexidade da universo criado. Nada é deixado ao acaso: raças, lugares, mitologia, história, nomes, línguas, política, tudo está detalhado na mente do autor. Isto leva a que mesmo não mencionando a maior parte das coisas de forma directa, o leitor as consiga apreender.

É claro que com um livro inteiro já despachado se consegue perceber a principal falha-que-não-é-bem-uma-falha. Quase tudo é simbólico de uma forma demasiado óbvia, e há bons e maus e acabou.

O simbolismo é gritante, as raças têm todas aspectos de acordo com as suas personalidades e particularidades colectivas, e se algum se destaca é diferente de alguma forma. Depois os feios são maus e os bonitos são bons. O exemplo normalmente apontado são os orcs e os elfos, mas eu acho que basta falar de Galadriel e Gandalf, a beleza única de uma e o ar de avôzinho simpático de outro completamente contrabalançados pelo ar temível que ambos tomam nos seus momentos mais negros. A ideia é fácil e metida a martelo: feio = mau, bonito = bom.

Falando de outras coisas, é nesta segunda metade que conhecemos Rivendell e se forma a Irmandade do Anel, interessante por um motivo de que nunca me tinha lembrado: é um curioso exemplo de uma sociedade utópica.

Eu sei, eu sei, quando se começam a fazer este tipo de comparações é porque já se está a ler mais do que aquilo que o autor escreveu, mas isto saltou-me à vista. Gandalf, sem dúvida o elemento mais poderoso, é único, assim como Legolas e Gimli, pertencentes a raças que os elevam de alguma forma em relação aos Humanos, Aragorn e Boromir, e aos Hobbits, Frodo, Sam, Merry e Pippin. Quanto mais "fracos", mais bem representados estão!

Mas agora é que as coisas começam a ficar interessantes. Gandalf é demasiado poderoso! Então fica para trás. A distribuição de poder/números fica mais equilibrada. Mas Frodo não é um Hobbit normal... Então separa-se do grupo, juntamente com Sam.

E é exactamente neste momento, quando a Irmandade se fragmenta desta forma, que a união das raças se verifica em pleno. Ou melhor, ligeiramente mais à frente, já dentro do segundo livro, mas pronto. Quando se formou, em Rivendell, rodeados de beleza e um sentimento de segurança, o que os movia era um sentido de dever e as suas próprias missões pessoais. Mas agora? Querem mais união do que isto? As grandes raças de Middle-Earth, mais do que unidas, ligadas. São uma família! Ligeiramente disfuncional, é certo, mas não são todas?

Todo o percurso é fascinante, as descrições dos cenários são assombrosas, e a atenção ao detalhe é enorme. O que me esta a agradar mais na escrita é que embora o enredo tenha um ritmo relativamente lento, a narrativa nunca se arrasta. As descrições tem o seu quê de exaustivo, os diálogos são longos e repletos de salamaleques, mas o ritmo da escrita é rápido.

O truque é que nunca aborrece. Cada frase revela alguma coisa, um pormenor do enredo, um pormenor de uma personagem ou um pormenor do sítio onde se encontram, mas tudo é importante.

Engraçado é ver que, tecnicamente, a Irmandade só existe em metade do livro, e que o último capítulo se chama exactamente The Breaking of the Fellowship! Para além de abrir várias possibilidades para o futuro da trilogia, dá um excelente final a este primeiro tomo, que me deixou a salivar por mais!

Só que lá está. É preciso ter calma. Tive que ler qualquer coisa no intervalo, porque preciso de assimilar bem o que acabei de ler. Mas agora já estou entretido com The Two Towers, e o fascínio não diminuiu, portanto continuem a acompanhar e, se possível, leiam também!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

The Fellowship of the Ring [1/2] (The Lord of the Rings #1)



Autor: J.R.R.Tolkien

Sinopse

Opinião: A primeira vez que li Tolkien, fiquei fascinado. Era novo e facilmente impressionável, com pouca bagagem literária relativamente à que tenho agora, o que levou a dois efeitos curiosos: o primeiro foi uma adoração quase irracional pela obra deste autor; o segundo foi não ter noção da verdadeira qualidade da obra deste autor.

Recentemente já li o The Hobbit e o The Silmarillion, ambos em inglês, duas obras tremendamente diferentes: a primeira, juvenil, mais simples e linear, ficou aquém das minhas expectativas; a segunda, mais violenta e complexa, revelou-se uma montanha demasiado alto para mim.

Pois bem, depois de ter lido aproximadamente um sexto de The Lord of the Rings, a trilogia de fantasia épica mais conhecida de todos os tempos, não tenho problemas em afirmar que é aqui que Tolkien atinge a perfeição narrativa.

O Silmarillion é, sem dúvida, uma obra muito mais complexa e, de certa forma, completa, mas essa mesma complexidade não joga a seu favor: o glossário de nomes tem cerca de cinquenta páginas, na minha edição de aproximadamente quatrocentas e cinquenta. É muita coisa.

Neste livro não há esse problema. Também há alguns nomes disparados ocasionalmente, mas ou são de pouca relevância, ou são explicados e contextualizados rapidamente, ou são pura e simplesmente tão usados que não há problema.

Mas falar de Tolkien e restringir-me à sua capacidade de inventar nomes é a mesma coisa que falar de Saramago e comentar apenas a sua tendência para enumerar coisas de forma aparentemente interminável: é um pormenor interessante mas que não tem grande relevância.

Portanto, o que dizer de Tolkien até agora? Mais concretamente, o que dizer da primeira parte de The Fellowship of the Ring? Para começar é muito complicado estar a ler isto e conseguir desligar-me dos filmes. Mas a prosa é tão rica e o mundo tão complexo, que o efeito não é negativo, antes pelo contrário.

A capacidade deste escritor em criar mundos detalhados é tão imensa que o meu único comentário tem que ser o meu olhar perdido e a minha boca aberta. Profunda admiração. Não é possível sentir outra coisa por Tolkien depois de se ler isto. As suas descrições do Shire, de Bree, dos edifícios, das personagens, dos costumes, dos bons e dos maus, das lendas e dos factos, é tudo fantástico!

Conheço poucos escritores capazes de darem realmente vida às suas palavras, e Tolkien parece que o faz sem esforço. Este estilo de história, a este ritmo, seria perfeito para um autor menor se perder em palha, mas Tolkien diz tudo o que tem a dizer e nunca aborrece.

Os hobbits são boas personagens, especialmente Frodo e Sam, que Merry e Pippin são um bocado indistintos e Bilbo pouco aparece. Gandalf também aparece pouco, mas não ficar cativado pelo feiticeiro cinzento é pura parvoíce. Nas poucas palavras escritas sobre ele, o que transparece é um velhote pacífico dono de um imenso poder e com alguma tendência para se chatear e no segundo seguinte desatar a rir.

Gollum, ainda que apenas mencionado, em grande parte em referências aos acontecimentos do The Hobbit, é muito interessante. Aragorn aparece mesmo no fim, mas a sua figura misteriosa é o suficiente para captar a imaginação. Os vários elfos e personagens menores que vão aparecendo, por pouca relevância que tenham para o enredo, são sempre boas personagens secundárias, tão “reais” como as principais. Mas há uma personagem secundária que se destaca, e de que maneira: Tom Bombadill.

Pelo que já vi em vários sítios, esta personagem é um autêntico mistério, que Tolkien nunca explica muito bem. Tudo nele é estranho, desde a sua constante felicidade aos estranhos poderes que parece ter sobre tudo o que rodeia, e incluindo a sua imunidade aos poderes do Anel.

Há uma personagem que, quando Frodo lhe pergunta quem é Tom Bombadill, lhe respode apenas: “Ele é.” O próprio Tom descreve-se a si próprio de forma enigmática e extremamente interessante. Eu juro que não sei qual era o objectivo de Tolkien com esta personagem, mas a minha teoria é que é apenas algo para gozar com os leitores. “Querem algo para pensar? Tomem lá.”

Independentemente disso, o interesse não se perde em Bombadill. Os Black Riders que perseguem Frodo e companhia são arrepiantes e assustadores, e embora a maior parte da narrativa seja usada para descrever os quatro hobbits em viagem, nunca se torna desinteressante. Se precisam de alguma prova da mestria de Tolkien, é isso mesmo.

Mal posso esperar agora por ler a segunda metade, que deve começar com os hobbits e Aragorn em Rivendell, onde estão perto de chegar no fim desta parte. Já sei que é lá que é de facto formado a Irmandade do Anel, um dos momentos decisivos da trilogia, e quero absorver todos os detalhes, todos!

Por agora, fiquem com esta ideia: Tolkien é excelente, e esta trilogia é muito provavelmente a sua obra-prima.

sábado, 16 de março de 2013

The Silmarillion

Título: The Silmarillion
Autor: J.R.R.Tolkien

Sinopse: The Sirlmarilli were three perfect jewels, fashioned by Fëanor, most gifted of the Elves. When the first Dark Lord, Morgoth, stole the jewels for his own ends, Fëanor and his kindred took up arms and waged a long and terrible war to recover them. This is the story of their rebellion against the gods and the history of the heroic First Age of Middle-earth.

Opinião: Tolkien é grande. Não era, é. Gostem ou não de fantasia, sejam ou não grandes fãs de Tolkien e da sua obra, este é, objectivamente falando, um dos melhores livros que já li e que prova que já não se fazem génios como este brilhante escritor.

Se em The Hobbit, que li recentemente, a história tem um tom leve e quase juvenil, em The Silmarillion o tom é simplesmente épico. Foi como agarrar num livro de mitologia e ler todo o folclore de um mundo. Quem me conhece minimamente já deve imaginar que bastaram, vá, 10 páginas para me render completamente.

Dividido em cinco partes, o livro começa com o Ainulindalë, que é nada mais do que o mito da criação do mundo e de tudo o que existe, pelas canções de Eru, ou Ilúvatar, e dos Valar, os deuses. São poucas páginas, mas de uma beleza e magnificência tão bem construída que custa a acreditar que não é de facto um mito modelado por séculos de história.

Em Valaquenta, a segunda parte, também não muito grande, descrevem-se os Valar e os seus poderes, e de como um deles, Melkor, se tornou no Inimigo. Tolkien consegue novamente escrever um verdadeiro mito, uma história que podia ter sido contada durante gerações até chegar a este livro.

A terceira parte é o Quenta Silmarillion, a maior parte do livro. Aqui conta-se a história dos Elfos, dos Silmarilli, da revolta dos Elfos, da traição dos Homens, das batalhas com Melkor, ou Morgoth, e com Sauron, da demanda pelos Silmarilli e tanto mais que me é impossível dar uma descrição fiel daquilo que aqui se conta. É uma história do mundo após a sua criação, de como prosperou e do seu declínio, a culminar no Akallabêth, a história de como a perfeição do mundo culminou na sua desgraça e destruição.

Por fim vem Of the Rings of Power, que conta, adivinhem, a história dos anéis que é depois narrada em pormenor na trilogia The Lord of the Rings. Na sua totalidade, The Silmarillion conta a história da Middle-earth que tão bem conhecemos da trilogia, quer em livro quer em filme, pois para contar a história de como os Silmarilli foram criados, admirados, invejados, perdidos, recuperados e perdidos outra vez, no meio de batalhas, traições, conspirações e grandes histórias de amor, paixão e perdição, é preciso contar a história à sua volta, que envolveu tantos acontecimentos que chega a ficar complicado acompanhar tudo.

É este o grande defeito deste livro, e provavelmente o único que lhe consigo apontar. Há demasiada coisa a acontecer, com demasiados nomes. O índice de nomes tem 50 páginas! A minha memória não está minimamente preparada para tamanha torrente de informação, portanto reti muito pouco no que toca a nomes, relativamente ao número enorme de pessoas, lugares e acontecimentos que são nomeados. Não foi uma leitura fácil, pois o livro acaba por se tornar algo pesado e denso, e é preciso andar sempre a procurar nomes no índice, ou a voltar atrás para relembrar o que aconteceu. E mesmo assim sinto que não apreendi como deve ser nem metade daquilo que o livro oferece.

Por essas e por outras, posso afirmar que o livro é genial, o melhor Tolkien e um dos melhores livros que já li, que tem apenas o defeito de precisar de uma atenção muito redobrada para ser possível acompanhar tudo o que acontece e todos os que aparecem. Mas ainda assim um livro que vale a pena ser lido, re-lido e re-re-lido e...

domingo, 3 de março de 2013

O problema do Silmarillion

Eu estou a adorar o Silmarillion. A sério que estou. Mas também estou a ter algumas dificuldades a lê-lo.

Tudo por causa da minha (nada) fantástica memória. Tolkien dispara nomes de deuses, de elfos, de lugares, de anões, de humanos, e de sei lá mais o quê, a uma velocidade absolutamente estonteante.

E como se isso não chegasse, há vários nomes para a mesma personagem ou lugar, ou nomes de personagens e lugares distintos que são parecidos.

Enquanto se estava a falar de elfos, a coisa já era complicada, mas com a aparição dos humanos... Bem, digamos que um elfo tem um filho, que é amigo de um certo humano, que é filho de tal, filho de outro, filho deste, filho daquele, filho filho filho, filho de um humano que era companheiro do elfo pai.

Compreendem a minha dor? Onde antes se passavam séculos para se chegar à próxima geração, agora no mesmo espaço de tempo vivem e morrem várias gerações de humanos. Os nomes nunca mais acabam.

Caso não estejam a compreender bem o problema, o que acham de o livro ter um apêndice de nomes de 54 páginas? Pois.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Comprar livros é fixe


Tinha decidido que na Quinta-Feira, depois de sair de um exame, ia comprar o Silmarillion, do Tolkien, para ler entre semestres, ou algo parecido. Cumpri, como podem ver, mas trouxe também os outros livros dessa pilha e ainda Um Crime Branco, de uma dupla de autores portugueses que assina como James Marcus, e que me esqueci de pôr na pilha para tirar foto. Até ia tirar outra, mas dá demasiado trabalho

O que eu quero aqui realçar, é que estes 6 livros me custaram 17 euros, mais ou menos cêntimos. O Silmarillion foi o mais caro, ficou por 10 euros e picos, e vale bem a pena pela edição que é. Aquele Procession of the dead, de D.B.Shan, ficou por menos de 4 euros. Não conheço o autor e nunca tinha ouvido falar do livro, mas a sinopse era interessante, a edição era porreira, e bem, custava menos de 4 euros.

Estão a ver onde quero chegar? Os 4 livros que faltam contabilizar custaram-me 3 euros. 2.90, para ser mais preciso. Estão a ver aquele grandalhão, de capa dura, com ar ligeiramente antigo, de Thomas Mann, nobelizado, A Montanha Mágica? Tem bom ar, não tem? Se o quiserem ir comprar à FNAC, ficam-vos com 22.5 euros. Eu dei 95 cêntimos. Ouviram bem. 95 cêntimos.

Enfim, digamos que Quinta-Feira foi um bom dia.

domingo, 23 de dezembro de 2012

The Hobbit


Título: The Hobbit
Autor: J.R.R.Tolkien

Sinopse: Bilbo Baggins is a hobbit who enojys a comfortable, unambitious life, rarely travelling any further than his pantry or his cellar. But his contentment is disturbed when the wizard, Gandalf, and a company of dwarves arrive on his doorstep one day to whisk him away on an adventure. They have a plot to raid the treasure hoard guarded by Smaug the Magnificent, a large and very dangerous dragon. Bilbo is most reluctant to take part in this quest, but he surprises even himself by his resourcefulness and his skill as a burglar!

Opinião: E anos e anos depois de ter lido e ficado maravilhado com a trilogia Lord of the Rings pela primeira vez, de ter visto os filmes e de muito ter ouvido falar, lido e pesquisado sobre a Middle Earth de Tolkien e todo o mundo fantástico que criou, leio finalmente o livro que tudo começou!

Foi preciso ameaçarem-me com o filme, que prometia ser de uma espectacularidade acima da média (o que cumpriu), tendo em conta os três filmes da trilogia e os avanços na tecnologia de imagem e afins, para que eu me mexesse e lesse The Hobbit, até devia ter vergonha. Agora que o li, mal posso esperar para arranjar a trilogia em inglês, o Silmarillion e todas as outras obras de Tolkien a que seja humanamente possível deitar a mão...

Falando do livro em si, The Hobbit não tem a grandiosidade nem o tom épico da trilogia. É muito mais infantil, ou juvenil, melhor dizendo, o que era de esperar, já que começou por ser uma história que o escritor contou aos filhos, ainda pequenos. Como tal, é um livro muito mais ligeiro, menos denso, mais cómico e que se leva menos a sério, por assim dizer. É aqui que aparecem algumas das personagens que já toda a gente conhece, como Gandalf, Bilbo Baggins, Elrond e Gollum, embora se note que ainda não estão propriamente desenvolvidos.

O Gandalf de The Hobbit é um velhote folião, apenas com pequenos laivos do Gandalf mais dark e pesaroso da trilogia. A personagem fica assim ligeiramente menos interessante, mas esta diferença pareceu-me normal, na altura dos acontecimentos deste livro ainda o Mal que viria a cair sobre a Middle Earth não passa de uma ameaça que se julga subjugada e que muitos já esqueceram.

Elrond acaba por ser uma personagem menor, bastante importante, mas menor. Gollum acaba por estar praticamente igual, completamente louco, com a sua estranha forma de falar, a sua brutal bipolaridade e toda a aura de mistério e estranheza que o rodeia, sempre que aparece. A revelação deste livro é mesmo Bilbo, uma personagem menor na trilogia, e que aqui assume o papel de protagonista, revelando que é uma peça essencial para o destino da Middle Earth.

E não me posso esquecer dos anões, cada um com as suas particularidades e que são os companheiros de Bilbo, juntamente com Gandalf, de vez em quando, na sua viagem deveras inesperada. Thorin Oakenshield, o líder da companhia é mais grave e sério, mas os outros são bastante divertidos e uma das fontes de animação deste livro.

Por fim tenho que mencionar os wargs, os goblins, as águias, o grande Beorn, as aranhas de Mirkwood e Smaug, o dragão, cuja morte era o grande objectivo da demanda de Bilbo, Gandalf, Thorin e do resto do anões. São demasiadas coisas para mencionar em grande detalhe, quero apenas terminar por dizer que fiquei um bocado decepcionado. O livro é bom, mas não é assim tão espectacular quanto isso. A escrita é fenomenal, entenda-se, e já é possível entrever o mundo que Tolkien criou, com a sua fantástica mitologia muito própria, mas o facto de ser um livro mais juvenil tira-lhe algum interesse.

Aquilo que acontece a certa altura é que há momentos de grande tensão e que quase podiam dar um livro por si só, com problemas e dilemas e situações complicadas que são resolvidas em meia dúzia de páginas, de forma simples e sem espinhas. É um mal que, como já disse, pode ser atribuído e compreendido por The Hobbit ser um livro mais juvenil, uma história que começou por ser contada aos filhos de Tolkien, mas que faz com que eu não consiga delirar por completo com o livro.

Não posso no entanto negar que embora a grandiosidade esteja maioritariamente ausente, é possível entrevê-la, a espaços. The Hobbit pode não ser o melhor livro de Tolkien, mas não deixa de ser um bom livro e, acima de tudo, uma excelente introdução à Middle Earth.