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domingo, 6 de setembro de 2015

Que as citações nos caiam em cima [64]



"Ele mudar depressa de caminho, e sangue de Sol em céu cair em cara de ele, e cornos-de-paus em cabeça de ele, e Eu ter medo. Eu ver em alma d'Eu que Hob não ser de Terra, como eu e bando d'Eu. Nós nascer em Terra e viver em Terra e não-viver em baixo de Terra. Hob ser de fogo! Hob ter fogo preto em olhos de ele e sangue de fogo em cornos de ele."

A Voz do Fogo
Alan Moore

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Voz do Fogo


Autor: Alan Moore
Tradutor: David Soares


Opinião: A minha curiosidade para este livro era mais que muita. Um romance escrito por um dos autores de BD que mais admiro? Venha ele! A edição é espectacular, portanto ainda antes de o abrir eu já sabia que ia ter prazer nesta leitura.

Assim foi. Separado em doze capítulos, nem sempre relacionados entre si de forma muito óbvia, este livro tece uma autêntica tapeçaria de símbolos, personagens e situações que guiam o leitor por uma pelos retalhos de uma história. O resultado final é estranhamente coeso e uniforme.

É claro que a tradução deste livro só podia ter ficado a cargo de uma pessoa: David Soares. Aqui, e podem discordar de mim à vontade, mas tenho de dizer que escolheram o homem perfeito. A sua mistura de conhecimento erudito, obsessão com os pormenores e vasta capacidade de contextualizar o que quer que seja, foi a mistura perfeita para navegar por entre o labirinto simbólico que Moore traçou ao longo dos tempos.

Toda a acção se passa em Northampton, ou nas imediações, desde 4000 a.C. a 1995. É, na sua maioria, completamente indescritível. Acontece tanta coisa nestas doze histórias, todas elas tão diferentes entre si (e ainda assim tão parecidas!), que era loucura tentar descrevê-las uma a uma.

O livro começa logo com um primeiro capítulo extenso, com um narrador primitivo que nos obriga a ler dezenas de páginas de "Eu estar caminhar de lá, querer chegar lá atrás de agora de Sol sair". Não é o mais fácil dos começos, mas está tão bem feito que não chateia. Custo um pouco a ler, mas vale a pena, pois é um dos capítulos mais fascinantes do livro.

A certa altura há um capítulo cujo narrador é uma cabeça decepada pendurada algures. Outro em que é do ponto de vista de uma rapariga enforcada. E outro do ponto de vista de metade de um casal de bruxas lésbicas que invocam diabretes para andarem a causar desgraças.

Dizer que é um livro esquizofrénico é ser simpático. Todos os narradores são radicalmente diferentes, não só a personagem em si, mas a forma como narram. Vários (se não todos) são loucos. Clinicamente loucos, sem sombra de dúvida, e isso nota-se principalmente mais perto do fim do livro. Ah, e como já disse, alguns dos narradores estão mortos.

Interessante? Obviamente! As constantes menções a fogo, enormes cães pretos e possivelmente demoníacos, os Shagfoals, assim como a feiticeiros e feitiçarias afins, mais uma série de outros símbolos que se repetem de forma mais ou meno regular em cada capítulo, são aquilo que une tudo o que se passa. E a parte mais estranha do livro todo, é que isso funciona. Eu pelo menos cheguei ao final, sem ter a certeza de muito daquilo que tinha lido, mas com imagens mentais daquilo que o livro me tinha contado.

No fundo este livro é uma história sobre histórias. As notas do tradutor que aparecem no fim, e que ainda são umas vinte páginas, mesmo ao estilo de David Soares, caem muito bem, pois contextualizam e não forçam a nenhuma interpretação que não deva ser forçada. O livro, para mim, só ficou verdadeiramente lido depois de ler estas notas todas. E embora o livro não seja perfeito, é muito bom.

sábado, 15 de agosto de 2015

Presenças tangenciais

Ah, piadas matemáticas, são sempre tão... derivativas.

Há coisas na Literatura que me fascinam. Não falo apenas de uma escrita particularmente bonita, como a de Mia Couto, ou de histórias particularmente cativantes, como as Stephen King, nem sequer de livros tão próximos da perfeição que até metem medo, como muita coisa de Saramago, muita BD de Neil Gaiman e Alan Moore e O Conde de Monte Cristo. Falo de pormenores, muitas vezes técnicos, que me deixam rendido.

Por exemplo, quem ler histórias minhas rapidamente se apercebe de que gosto de narradores peculiares. É algo complicado de manipular, de um ponto de vista puramente técnico, mas que pode ter efeitos espectaculares.

Algo que cai nesta categoria é algo a que chamo presenças tangenciais. O nome é bastante auto-explicativo, mas estou a falar de personagens que são importantes, muitas vezes até fulcrais, para a história, mas que aparecem muito, ou muito de raspão. Tangencialmente.

Também não é fácil, em termos técnicos, e torna-se particularmente difícil de conseguir em termos narrativos. Como raio contar uma história em que uma personagem importante mal aparece?

Leia um dos vários livros em que isso acontece, para perceber. Que tal O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, que tem ao mesmo tempo um narrador interessante e um Poirot que mal aparece que mas que resolve o mistério (a autora deve ter escrito este livro a pensar em mim)? Todo o livro se lê como uma história normal de Poirot mas com o ponto de vista retirado a Poirot e ao seu fiel companheiro, Hastings, e entregue a uma das personagens secundárias.

É espectacular, e embora o ponto forte do livro seja o narrador e a revelação final (pois é, ainda por cima tem um plot twist de fazer corar muitos plots twists, obrigado Agatha Christie), esta presença tangencial de Poirot é importante para que o livro funcione.

O mesmo se podia de muitas das histórias da saga Sandman, de Neil Gaiman, em que Morpheus e Death, que me lembre, aparecem em várias histórias como personagens meramente tangenciais, completamente de raspão, mas acabam por ter um impacto enorme, como não podia deixar de ser. O segredo aqui é a arte de contar histórias de Gaiman, mas isso redundou nessas presenças tangenciais de duas das personagens mais importantes desse universo

De uma forma menos óbvia, podemos falar do que se passa em O Conde de Monte Cristo, livro imenso no qual o Conde de Monte Cristo do título é uma personagem tangencial durante muito tempo. A história do livro é a sua vingança, a sua vida é a motivação de tudo o que acontece, e todos os acontecimentos narrados são de alguma forma relevantes para ele ou por sua causa. E no entanto passamos longas páginas sem ter notícias dele, e quando aparece, muitas vezes disfarçado e com um nome e título diferentes, tem um papel secundário para a acção. Aqui foi novamente a mestria de Dumas que possibilitou esta presença tangencial, mas não deixa de ser impressionante a forma como o fez.

Mas querem dois exemplos a sério de personagens que praticamente não aparecem mas que são as mais importantes no meio daquilo tudo? Comecemos pelo Comediante de Watchmen, então, que morre nas primeiras páginas mas que tem um grande impacto em tudo o que se segue. Foi das coisas que mais me intrigou, quando li o livro, esta capacidade de não estar lá mas influenciar tudo, e é preciso abençoar Alan Moore pela capacidade que teve de fazer isto tão bem feita na brilhante desconstrução dos super-heróis que é esse livro.

O outro exemplo é parecido, mas ainda mais extremo: em Lágrima, o mais recente livro do meu primo André, há uma personagem tão tangencial que nunca chega a aparecer no livro. Os protagonistas são o pai e a mãe dessa personagem, um miúdo que morre antes dos acontecimentos narrados no livro. Mesmo assim, esse miúdo, ou mais propriamente, a sua morte, é o tema principal do livro em redor do qual tudo se desenvolve.

Também em leituras mais recentes, há uma personagem que me cativou e que teve o azar de cair numa série de livros que achei menos bem conseguidos, por um motivo ou por outro: Gued, o Gavião do Ciclo de Terramar, de Ursula K. Le Guin. Extraordinária feiticeiro, faz uma série de coisas para lá da compreensão humana e no fim mantém-se humilde e sábio como ninguém. O primeiro livro é do seu ponto de vista, e é claramente um protagonista muito presente, assim como no terceiro livro, mas a sua presença no segundo e no quarto livro é, durante muitas páginas, tangencial. E isso só faz dele mais interessante, pois adiciona mistério a uma personagem que podia ter sido muito banal.

Mas por falar em mistério, sabem onde é que estas presenças tangenciais caem muito bem? No género do terror e em vilões de uma forma geral. Veja-se quase tudo o que Lovecraft escreveu: o medo e as sensações de horror são transmitidas não pela presença, mas pela ausência. Como o próprio Lovecraft afirma, o medo mais antigo é o do desconhecido. É por isso que nos seus escritos são as sombras que dominam, e também aquilo que se consegue ver, mas não apreender.

Aliás, muito do horror é feito exactamente assim, através do desconhecido e muitas vezes através de personagens tangenciais. Como acontecem com Misery, de Stephen King, em que o protagonista ocupa sozinho uns 80% do livro, enquanto a sua enfermeira psicótica, a impulsionadora de tudo o que acontece, aparece de vez em quando, e quase sempre de raspão. Dá-lhe um ar mais instável e não nos deixa confiar naquilo que vemos: como é que podemos ficar a conhecer uma pessoa a vê-la durante cinco minutos de cada vez?

Tenho a certeza de que existem muitos mais exemplos, mas estes são só os que me lembro claramente, de olhar para a lista de livros que já li. Acho interessante, e é algo que ainda tenho que fazer com sucesso numa das minhas histórias, mas agora que já vos apresentei o conceito e alguns exemplos, lembra-se de mais algum caso? Seja para me relembrar, ou para me dar a conhecer, agradeço!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Piada Mortal


Argumento: Alan Moore
Arte: Brian Bolland, John Higgins


Opinião: Alan Moore domina a arte de bem contar uma história. Nem sequer é algo aberto a discussão, e sobrevive perfeitamente aos maus exemplos. É inegável dizer que Watchmen, V for Vendetta, League of Extraordinary Gentlemen e Saga of the Swamp Thing são obras-primas (e são só os que eu li!), e portanto é com facilidade que pego num livro de Moore, sempre com altas expectativas.

Ora, uma história escrita por Alan Moore sobre o Batman e o Joker, duas das minhas personagens favoritos do universo da banda desenhada... Fácil! Toca a ler e a delirar! Vamos lá!

Calma.

Sim, é bom. Não, não é assim tão bom. Assim a seco diria que Alan Moore faz melhor em criar as suas personagens, ou pelo menos reinventá-las, que este livro não funcionou muito bem para mim. É uma boa história do Batman e uma boa história de Moore, mas não é excelente. Está longe de excelente, até.

O primeiro pecado, e que para mim é fatal em qualquer história, é que dá uma história de origem ao Joker. Para além de ser algo que já foi contado várias vezes, e quase sempre de maneira diferente, não acrescenta nada à personagem, antes pelo contrário. É que o Joker é um vilão fantástico exactamente por ser um vilão puro. Não quer dominar o mundo, nem se quer vingar de nada, é apenas maléfico e louco. Caótico.

Esta história de origem dá-lhe um motivo para ser como é. Obriga-nos a simpatizar com o vilão. E isso aborrece-me, porque é uma forma de dizer que não existem verdadeiramente vilões, apenas pessoas com azar, ou pessoas que são empurradas para fora do caminho certo. Eu pergunto: e porque não pessoas que escolhem o caminho errado? Ou melhor ainda, e porque não pessoas que escolhem outro caminho certo que não aquele que toda a gente segue?

O Joker, para mim, é isso. A mais pura encarnação do Mal, um psicopata caótico cujo único objectivo é espalhar esse mesmo caos. É isso que funciona tão bem no Joker de Heath Ledger, no filme de Christopher Nolan: ao contar várias histórias de origem diferente, inviabiliza-as a todas e mantém o mistério. Dá a dica de que não há uma história de origem. Ele é louco. Gosta de matar pessoas. Adora o caos. Ponto final.

Mas tirando isso, nota-se um grande poder narrativo nesta história que evolui de forma mais ou menos óbvia para um confronto final que não é deixado claro, o que também me aborreceu. Mas a caracterização feita do Joker, do Batman, e de Gordon, é quase perfeita. E sendo este um livro de Moore, há a sugestão de uma violação, ou pelo menos de violência cruel e sem sentido contra uma mulher, Barbara, a filha de Gordon.

O arco narrativo que a isso obriga é que é bom. O esforço que o Joker faz para quebrar a mente de um dos melhores amigos do Batman, para provar que toda a gente está à beira de se tornar como ele, é fantástico. A motivação disso, que é a história de origem do Joker, já não, mas pronto.

No final é um bom livro, como eu já disse, e que vale a pena ser lido. Para quem gosta do Batman, e especialmente para quem gosta do Joker, desde que não tenham ilusões quanto à sua história de origem. Leiam e digam de vossa justiça.

sábado, 13 de junho de 2015

Feira do Livro 2015 e os Impérios do Mal


Bem-vindos! Os mais distraídos ficam a saber que não só a Feira do Livro já começou, como está prestes a acabar! Há anos em que até costumo avisar e fazer publicidade e isso tudo, mas isto está cada vez mais complicado... Portanto ficam com este aviso para lá passarem entre hoje e amanhã, que já não é mau.

Vamos agora às queixas. Isto da Feira do Livro é uma coisa muito engraçada, com cada vez mais editoras (e a Chiado, também), e gosto de lá ir comprar livros e tudo, mas aquilo é uma desgraça autêntica. Um tipo olha para o mapa e fica com vontade de chorar: bastam três grupos editoriais para preencher quase metade da Feira. Porto Editora, Presença, e o Império do Mal por excelência, a Leya.

Análise de mercado não é propriamente uma das minhas especialidades, mas parece-me óbvio que isto não é bom. Ainda por cima quando é fácil de perceber a falta de escrúpulos destes grupos. São autênticos Golias empresariais que sugam pobres Davids para dentro da sua estrutura livreira e os reconvertem às suas práticas. Uma espécie de Romanos ao contrário.

"Bah, estás a exagerar!"

Ai estou? Digam-me onde anda a colecção azul de FC da Caminho? E os Saramagos sem capas ridículas? E os Argonautas? Onde? Nos alfarrabistas?

Pois é.

E estes são só os casos de que me lembro. E não serão os últimos. Acreditem em mim, isto só vai piorar. Os afluentes editoriais destes Impérios do Mal parecem continuar relativamente independentes, mas não se deixem enganar. Mais dia menos dia e tornam-se indistinguíveis uns dos outros.

(e vou ignorar completamente o facto da Chiado ter uma das maiores zonas da Feira, nem sequer ter na ideia que alguém considera aqui alguma coisa, eu não a deixava ir para lá, ainda para mais para ter aquela caixa ridícula de "deixe aqui o seu manuscrito")

Enfim. Vamos deixar estas coisas para outra altura e passar a falar de livros. Reparem outra vez na foto lá de cima e observem as minhas fantásticas compras. Quero que comecem por notar nos três volumes de História das Ciências que comprei por dois euros cada, e que validam o meu certificado de nerd até ao próximo ano. Depois reparem no King Kong, que me custou outros dois euros, e que valida o meu certificado de geek até ao próximo ano.

Agora o bicho que mais se destaca: A Voz do Fogo, de Alan Moore, que só me custou cinco euros e para o qual me ando a babar há anos. Nem vou comentar, venha ele!

O que sobra? Algo que me deixa muito orgulhoso: quatro livros de autores portugueses, sendo que dois são BD's! Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa vai-se tornar um clássico, não tenho dúvida alguma, e portanto não podia deixar de o ter nas minhas estantes. O Batalha, do David Soares, era olhado com expectativas altíssimas, e agora com umas expectativas mais baixas, mas ainda é um livro deste autor que sempre me deixou interessado. Fábula cuja protagonista é uma ratazana ateia? É que falamos bem.

Por fim, Cidade Suspensa, de Penim Loureiro, e O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso. O primeiro livro tem um ar fantástico e promete recorrer ao imaginário Fantástico português de uma forma que me deixa muito curioso, e o segundo, enfim, vem das mãos de um dos meus argumentistas portugueses preferidos, e é ilustrado por uma das minhas artistas portuguesas preferidas. É que mal posso esperar!

E com isto tudo, não comprei um único livro que tenha custado mais de dez euros. O total nem chega aos cinquenta! Provavelmente ainda vou comprar mais qualquer coisa (Afonso Cruz, estou a olhar para ti), mas não gasto muito mais.

Da vossa parte, não se deixem intimidar pelas Impérios do Mal e ataquem. Passem na Feira do Livro e percam tempo a procurar e a folhear, que encontram-se coisas muito, muito boas.

sábado, 30 de maio de 2015

Estantes Emprestadas [17] - "Comunicado"


A crónica deste mês é especial. Talvez seja melhor descrevê-la como peculiar, já que desafiei, nem mais nem menos, do que a malta da Imaginauta, chefiada pelo Carlos Silva e o Vítor Frazão. Por entre várias iniciativas, o objectivo deles é estimular a escrita e a leitura de ficção especulativa. Por cá tenho tentado ajudar, com divulgação em primeira mão de sinopses do livro que depois comprei e li, Comandante Serralves: Despojos de Guerra, que tem contos muito bons e cria um universo partilhado muito interessante; e com a participação na iniciativa natalícia Operação Livros no Sapatinho, que teve direito não a uma, não a duas, mas a três respostas! Isto para além da divulgação que vou fazendo das suas várias iniciativas. Eu bem tento, que se há projecto que merece, é este!

Por agora fiquem com a minha parte do desafio, que esforcei-me. A resposta há-de surgir nas proximidades.



*início de gravação*

Está a gravar? Isto está... Raios parta a gerigonça, está ou não? Onde é que eu meti as instruções... Hum... Aqui... Deixa ver. Carregar aqui, ali, já está, se estiver a luz acesa, está a gravar. Ah!

Desculpe lá isto, mas ainda não me entendo com o hologravador Bem, não interessa. Estou-lhe a enviar esta mensagem porque hoje apareceu um sujeito na minha banca a vender-me uns livros que achei muito estranhos. Aliás, o sujeito também era bastante estranho, e nunca sequer o tinha visto por estas bandas.

Comprei os livros para os manter debaixo de olho, mas ele ainda me disse que depois me arranjava mais. Antes de lhe conseguir perguntar alguma, desapareceu. Esteve o tempo todo com um capacete que não deixava ver-lhe a cara e que devia ter um modulador de voz.

Mas pronto, vamos ao que interessa. Já enviei os livros para o seu gabinete pelo comutador quântico que mandou instalar aqui no meu armazém. De qualquer forma, são os seguintes. "Intermitências da Morte", de um José Saramago, tem um aspecto muito estranho, muito simples, sem grandes desenhos, e pelo que folheei, parece ter texto muito denso.

Há também um muito, muito estranho, um "Terrarium", de João Barreiros e Luís Filipe Silva. Nem sequer percebo como podem duas pessoas escrever o mesmo livro, na altura em que isto foi publicado ainda não existiam osciladores de matéria... Mesmo agora, para fazer alguma coisa assim era preciso ser-se um génio!

O último é o mais chocante. "V de Vingança", de Alan Moore, quase não tem texto. Está é recheado de imagens. Para lhe ser sincero, este assustou-me mais do que os outros. Ainda se as folhas fossem ecrãs orgânicos ultra-finos, mas não, são só imagens estáticas. Nem lhe mexi mais.

Aquilo que acho mais estranho é estarem imaculados, apesar de terem séculos de idade. Por favor diga-me como proceder.

E agora onde é que se desliga isto? Hum... Deve ser aq...


*fim de gravação*

http://imaginauta.net/

sábado, 24 de janeiro de 2015

Estantes Emprestadas [13] - Amálgama de coisas


Sejam bem-vindos ao primeiro Estantes Emprestadas de 2015, já no seu novo formato! Comecei por convidar a Júlia, também conhecida por Jules, porque quem melhor para inaugurar isto do que a minha namorada? Já sabia que ela ia dar um tema difícil, mas interessante, e tinha razão. Até começou por lixar, que primeiro que eu conseguisse começar a escrever... Mas depois tornou-se em algo que me deixou mais satisfeito.

Para quem não se lembra, a ideia desta segunda versão das Estantes Emprestadas é ter bloggers a sugerirem-me um tema, sobre o qual eu escrevo um texto, a que esses bloggers depois têm de responder. É uma experiência de interactividade entre bloggers!

Sem mais demoras, avancemos! Obrigado Jules!

P.S.: Aqui fica a resposta dela e a minha "defesa".

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Conhecendo-te bem, e a mim também, sei bem que gostamos de muita coisa e todas muito diferentes umas das outras. Gostando de tanta coisa acabamos por precisar de vários meios para obter satisfação para todas. Mas e se fosse possível reunir tudo num só sítio? Como é que isso aconteceria? É possível de maneira real e – isto é importante – que faça sentido?

No teu caso, por exemplo, reunir DW, epopeias, dinossauros, livros, mitologia, integrais, crianças pequenas, desgosto por cães, como é que isto tudo poderia ser junto? Resultava? Sendo nós tão ecléticos? E quereríamos que isso acontecesse? Retiraríamos realmente o prazer que retiramos dos pequenos pedacinhos num todo?


Pergunta difícil. A resposta fácil, e mais simples, é que não sei. Não consigo imaginar muito bem algo que conseguisse realmente conter todas essas coisas (e outras tantas) num todo coerente e razoável. Quem me dera a mim! Mas não me parece viável.

Posso, no entanto, falar de alguns exemplos, alguns bem recentes, que considero interessantes e que se encaixam, de certa forma, na tua pergunta.

A começar por Doctor Who. Toda a gente sabe o quanto é que eu gosto desta série, mas poucos compreendem verdadeiramente o motivo: é uma espécie de resposta à tua pergunta. Nunca vi nada que juntasse tanta coisa numa só. Os encontros com a mitologia são frequentes, a ciência é constante, há crianças adoráveis, dinossauros, zombies, naves espaciais, aliens, magia, figuras históricas, enfim, de tudo!


E isto feito de forma coerente, consistente (a maior parte das vezes), com bons elencos e boas histórias. É um bom exemplo de como se pode pegar num conjunto infindável de temas, juntá-los, misturar bem, e ter como resultado algo excelente.

Tu de certo que compreendes, és tão fanática por Doctor Who como eu. Cada episódio é uma pequena obra-prima de diversidade temática, alguns mais bem executados do que outros, mas sempre fascinantes, de uma forma ou de outra. A capacidade que o programa tem de fazer isso e ao mesmo tempo manter-me suficientemente embrenhado para nunca duvidar nem questionar grande coisa, apenas apreciar, é qualquer coisa de especial.

Falemos agora de exemplos mais literários. Há o caso simples, e óbvio, de The League of Extraordinary Gentlemen, que me oferecido por alguém (fazes ideia?) numa edição para lá de lindíssima. A mente irrequieta e arcaica de Alan Moore consegue criar um livro fantástico que mistura várias mitologias e várias ficções (mais ou menos) actuais, numa história coerente e, pior ainda, interessante.


O meu fascínio por este livro já está bem documentado aqui no blog, portanto não me quero alongar demasiado, mas percebem? Tu certamente que percebes, Jules, ainda não o leste e já tens o mesmo fascínio. A sensação que tenho deste livro é parecida com a que tenho da série Sandman, de Neil Gaiman. A mistura entre realidade e ficção é parecida, embora assuma contornos bastante diferentes. E o sense of wonder é exactamente o mesmo nestas duas BD's e em Doctor Who. Algo que nos faz sonhar e acreditar.

Para dar um exemplo mais discreto, deixa-me falar de Flatland. Ainda estou para perceber como é que um livro tão pequeno e aparentemente tão simples consegue exercer um fascínio tão grande sobre mim, mas a verdade é essa.

Nesta curta história sobre um quadrado muito vitoriano que é arrancado do seu mundo bidimensional e levado a conhecer todas as múltiplas dimensões “acima” e “abaixo” da dele, não se misturam muitas coisas: apenas conceitos matemáticos, literatura e crítica/paródia à sociedade vitoriana. Mas o autor consegue fazê-lo de uma forma que me deixou completamente rendido logo na primeira leitura, quanto mais na segunda e na terceira. Não sei se é de ver rigor matemático e explicações geométricas no meio de uma narrativa, mas Flatland é e sempre será um dos meus livros favoritos de sempre.


Agora que falo nele, no entanto, lembro-me de um autor que tenho de mencionar: Jorge Luís Borges. Aquela mistura de ficção com matemática, a sua utilização de conceitos matemáticos para construir uma história, e de usar uma história para explicar conceitos matemáticos, é completamente fora de série. É o tipo de coisa que eu gostava de fazer um dia.

Tenho que falar dos vários contos que envolvem labirintos? Ou uma biblioteca infinita? Um disco que só tem um lado? Um livro de infinitas páginas? O próprio Aleph? Genial não chega para o descrever!

Como vês, existem já vários exemplos de coisas que podem fazer mais ou menos essa enorme mistura de temas. Mas sinto que falta responder à tua pergunta de uma outra perspectiva. O que é que poderia existir que realmente fizesse essa mistura, e com sucesso? Queremos que aconteça?


A resposta à segunda pergunta é: digo-te depois de ler/ver/ouvir. Quanto à primeira... Bem, conheço casos de coisas que tentam fazer misturas e falham redondamente, como Falling Skies, que tenta misturar distopia, invasão alienígena e História, mas apenas consegue ter um professor de História estranhamente competente em termos militares, que aproveita qualquer oportunidade para relembrar toda a gente à sua volta de que era professor de História. É irritante e inútil.

Se queres que te diga, para mim, a única forma de isso acontecer seria em BD. Não há limites de orçamento, o que é um bónus, e não era difícil misturar isso tudo, nem que fosse em pormenores tão palerma como ter uma personagem que, como quase acontece comigo, só tem camisolas nerd/geek. Só isso já dava para introduzir algumas coisas, de forma discreta. O resto era deixar a imaginação correr.

Eu sei que este exemplo parece um bocado palerma, mas tu percebes-me, eu sei que sim. O que é realmente relevante nisto é a imaginação, tão simples quanto isso. É possível? Não tenho a certeza. Seria porreiro? Também não tenho a certeza. Gostava que acontecesse? Claro que sim, mais que não fosse para responder às duas perguntas anteriores, que só gosto de falar de incerteza quando a seguir digo “de Heisenberg” e antes disse “princípio da”.

Como tal, atiro-te novamente a pergunta, o que é que tu achas? E vocês, que estão a perguntar-se o que raio aconteceu à minha memória a longo prazo, para todos os exemplos serem de coisas com as quais lidei no último mês, o que têm a dizer?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Mais fácil do que uma crónica [3]


Ora bem, vamos lá falar um bocadinho. Estou sem tempo para escrever grande coisa (época de exames do IST é a melhor de sempre /fimdeironia), portanto ficam com um texto destes, simples e que dá pouco trabalho e que ainda assim consegue ser minimamente interessante. Próximo Sábado prometo uma crónica a sério!

Por agora vejam bem essa imagem. Não vos está a fazer impressão? Não querem esses livros todos, nessas edições? É que nem interessa que livros são! Estas edições da Folio Society são das edições mais bonitas que já vi, e a minha vontade é fazer colecção, mas são edições caras como o caraças!

Duas coisas que já estão atrasadas: vão até ao blog do Joel G. Gomes, meu colega da Oficina de Escrita e autor de livros fixes que eu até já entrevistei, e passem a acompanhar a nova rubrica dele, em que faz entrevistas peculiares a vários autores; depois podem ir ver o vencedor do Prémio Bang!, que é (como seria de esperar em termos estatísticos) brasileiro. Os meus parabéns, e agora fico à espera que apareça o livro!

Sem saírem do site da Bang!, podem espreitar esta retrospectiva de 2014 sobre o Fantástico, pela mão do João Campos, outro colega da Oficina de Escrita que é sempre interessante de acompanhar.

Em termos de notícias há duas que merecem destaque. Ou pelo menos apanhei duas que merecem claramente destaque. A primeira é a de que a Porto Editora engoliu a Livros do Brasil, qual LeYa dos pequeninos, e vai relançar alguns dos seus livros. Infelizmente, nada de Fantástico, o que significa que podem tirar o cavalinho da chuva se estavam à espera de Argonautas. Mas eles que se lembrem de continuar a colecção... A LeYa até chora.

A segunda notícia é uma muito interessante, vinda do outro lado no Atlântico: a McDonalds dos EUA vai passar a dar livros como brinde dos Happy Meal. Fixe? Mais ou menos. Interessante? Definitivamente!

Mudando de assunto, aproveitem para espreitar o site do Imaginauta, para ficarem a saber tudo sobre o novo concurso, desta vez para criar um RPG, mais uma iniciativa fantástica deste grupo, que soma e segue!

(talvez tente participar, mas não prometo nada)

Por fim, lembram-se deste livro?


Foi ontem que falei dele, portanto espero bem que sim. É só para dizer que me foi oferecido pela minha namorada, e acho que nunca recebi um livro tão bom na minha vida. Isto dá vontade de folhear. E de reler. É uma autêntica orgia de referências literárias, de Wells a Borges, passando por Calvino, Verne, Stevenson, Stoker, Shelley e sei lá mais o quê! Fascinante, simplesmente fascinante...

E pronto, por hoje é tudo. Eventualmente há mais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

The League of Extraordinary Gentlemen - The Omnibus Edition


Argumento: Alan Moore
Arte: Kevin O'Neill, Benedict Dimagliw, William Oakley


Opinião: Nem sequer vou tentar esconder que sou um autêntico fanboy de Alan Moore. Se o homem escreveu, eu quero ler, com a certeza de que vou gostar. A sério, é inacreditável, não há muitos autores que consigam ganhar esta minha confiança cega!

Mas este livro em particular é especial. Watchmen tem todos os elementos de sátira e de desconstrução que gosto de ver, misturados num mundo relativamente distópico recheado de personagens geniais; Saga of the Swamp Thing é um triunfo narrativo, uma história simples e já semi-esquecida completamente rejuvenescida, e novamente com personagens geniais, particularmente o monstroV for Vendetta é uma amálgama, e uma demonstração, da minha ideologia pessoal, e utiliza um protagonista misterioso, e fantástico, chamado simplesmente V, para espelhar a mente do autor, que muito agrada.

Mas este? Oh, este... The League of Extraoardinary Gentlemen parece que foi escrito de propósito para mim. Passado maioritariamente numa Inglaterra Vitoriana em que aparentemente TODAS as personagens e lugares da ficção clássica existem, este livro conta uma história mais do que conhecida e utilizada, mas de uma forma tão original e bem feita, que isso nunca incomoda.

Ah, e foi-me oferecido depois do que foram, provavelmente, anos a babar-me para ele. Acho que nunca uma prenda me soube tão bem!

Vejam bem, os protagonistas são Wilhemina Murray, Allan Quatermain (o único que desconhecia), Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Capitão Nemo, e Hawley Griffin, o Homem Invisível. Quem é que está por trás deste grupo? Campion Bond e o seu misterioso chefe, M. Familiar? Pois.

Querem mais? Um tal de Doctor Moreau? Sherlock e Mycroft Holmes? Moriarty? Arsene Lupin? Auguste Dupin? Orlando? Gulliver? John Carter? Sinbad? Alguns são só mencionados, num apêndice depois da banda desenhada propriamente dita, mas mein Gauss!

E depois ainda há tudo o que acontece e aparece, como a invasão marciana com as naves trípodes de H.G.Wells, ou o Nautilus e as naves bala de Verne, os híbridos de Moreau... Nem sei bem o que dizer sobre tudo isto.

Aquilo que sei, no entanto, é que o traço de O'Neill é simplesmente perfeito para este tipo de história, e não consigo imaginar outra forma de fazer isto. É um traço seco, de certa forma, mas muito expressivo. Não exagera de forma demasiado óbvia, mas até o faz de forma quase cartoonesca, por vezes, sem nunca cair no erro de quebrar o registo. É uma arte que consegue capturar os pormenores da barba do Capitão Nemo e a grandiosidade do Nautilus em página dupla.

Mas há melhor. É que esta é a edição Omnibus, com o volume 1 e 2 e recheado de capas alternativas, capas dos vários comics, um conto com o Quatermain como protagonista, depois do primeiro volume, um Almanaque no fim, um tabuleiro para um jogo e montes de pormenores extra-livro mas não extra-história. Inacreditável!

Esse conto sofre um bocado com a escrita demasiado floreado e exagerada em que Moore cai, por vezes, mas durante a maior parte do tempo até é uma leitura bastante agradável. O mais incrível é a forma como em poucas páginas o autor conta um pouco do passado da personagem, e ao mesmo tempo encaixa tudo na banda desenhada que acabámos de ler.

O Almanaque no fim é um conjunto dos relatos das várias Leagues, ao longo dos séculos, sobre os mais diversos lugares, espalhados por todo o Mundo. De Shangri-La a Toyland, com referências a Flatland, Borges, Calvino, todos os autores de FC e Fantasia clássica que consigam imaginar, e pormenores deliciosos de como tudo está intrinsecamente ligado.

Resumindo: não há palavras. A história é fabulosa, as personagens estão bem construídas, a crítica à sociedade é óbvia (as mulheres são tão mal tratadas), o estilo sardónico e irreverente típico de Alan Moore está presente na melhor forma possível, e a arte é fantástica.

No meio disto há duas personagens que se destacam claramente: Capitão Nemo e Hyde. O primeiro por ser tão misterioso, pragmático e transmitir uma sensação de fúria calma completamente avassaladora; o segundo por ser exactamente o contrário, fúria incontida, mas com um enorme intelecto por detrás da faceta animalesca que tanto gosta de demonstrar. Tanto um como o outro são protagonistas de várias situações intensas, mas Hyde rouba completamente o foco da atenção.

A sua paixão por Wilhemina Murray é das mais bonitas interessantes histórias de amor e admiração que já vi, e faz com que cometa actos terríveis para proteger a sua honra. A vingança contra uma personagem que espanca Murray... Bem, é desagradável. Mas não deixa de ser interessante ver esta autêntica besta a ser acalmada por uma mulher, de forma tão simples. E o seu humor e prontidão em matar e comer o que quer que seja são dois dos pontos altos de toda a história!

Só vos posso dizer para lerem, e para lerem desesperadamente. É um livro um pouco estranho, e relativamente denso, especialmente o Almanaque e especialmente para quem tiver menos referências literárias do género, mas até eu, que já reconheci muita coisa, tive que ir pesquisar muita coisa. Claro que não me importei, que é o que vale. The League of Extraordinary Gentlemen - The Omnibus Edition é, afinal, um livro extraordinário e uma das melhores prendas que já recebei (e irei receber) em toda a minha vida!

sábado, 27 de setembro de 2014

Personagens favoritas


Tendo em conta o número reduzido de comentadores e comentários que este blog tem, basta alguém comentar mais do que uma vez e eu fico a conhecer essa pessoa. E a considerá-la, pelo menos, uma pessoa conhecida.

Alguns, no entanto, são bastante reincidentes. Por esses, poucos, tenho uma grande estima. Ainda para mais quando todas as suas intervenções são relevantes e interessantes, como é o caso do Francisco Fernandes (aka asesereis).

Esta conversa, para além de agradecer a sua contribuição para as discussões aqui no blog, é só para introduzir uma sugestão que o Francisco fez e que vou seguir (mais ou menos): personagens favoritas.

É complicado falar de favoritos, sejam livros, sejam autores, quando somos completamente viciados em literatura, mas no fim fica fácil. Se tiver sido um livro que nos marcou o suficiente para ser o nosso favorito, não nos vamos esquecer. E o mesmo para autores. Mas personagens favoritas? Personagens há muitas!

No meu caso, assim de repente, basta lembrar-me de Tolkien e de Stephen King, e já fico, literalmente, com um manancial de centenas de personagens disponíveis. E se ficar a saber os nomes dos cerca de cem livros que leio por ano já é abusar da minha memória, nem sequer pensem em ficar a saber os nomes de todas as personagens.

Mas no entanto há algumas que ficam. Outras cujo nome já não sei, mas que conheço perfeitamente. Quer queiramos quer não, é como os livros e os autores - só que a uma escala maior.

E com as personagens até é possível acontecerem coisas bastante curiosas... Como por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é o Glotka, o torturador desfigurado e manipulador da trilogia The First Law, de Joe Abercrombie, que achei apenas mediana. Mas o meu livro favorito deste autor, Best Served Cold, também tem uma personagem que aprecio, embora bastante níveis abaixo de Glotka: Friendly, o tipo frio e obcecado com a matemática, cujo ponto de vista originou alguns dos capítulos mais interessantes que já li.

O "pior" é quando começo a desbobinar os nomes de que me vou lembrando, e o resultado é uma lista recheada de vilões. Seltor, Joker, Pennywise, a enfermeira psicopata que depois é interpretada por Kathy Bates... Podia ficar aqui o dia todo.

Por outro lado, como raio é que faço uma lista destas sem dar destaque a meia dúzia de personagens de Tolkien? Ou de Alan Moore? Ou de Neil Gaiman? Ou do George R.R. Martin? Ou da Rowling? Ou das outras centenas de autores?

E o Sherlock Holmes? E o Poirot? Impossível! Impossível!

A minha resposta ao teu desafio é esta, Francisco: provavelmente, se me perguntares qual é a minha personagem favorita, digo-te sempre o Seltor, mas se todos os dias me pedires uma lista de cinco personagens favoritas, o mais provável é eu dar-te uma lista diferente de cada vez.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Que as citações nos caiam em cima [30]


"Did you think to kill me? There's no flesh or blood within this cloak to kill. There's only an idea. Ideas are bulletproof."

V em V for Vendetta
Alan Moore

domingo, 26 de maio de 2013

V for Vendetta

Título: V for Vendetta
Argumento: Alan Moore
Arte: David Lloyd

Sinopse: A frightening and powerful story of the loss of freedom and identity in a totalitarian world, V FOR VENDETTA is the chronicle of a world of despair and oppressive tyranny.

A work of startling clarity and intelligence, V FOR VENDETTA is everything comics weren't supposed to be.

England prevails.

Opinião: Há alguns livros que já sabemos à partida que vamos gostar. Ou que pelo menos temos uns 99% de certeza de que isso vai acontecer. É assim quando pego num Saramago, e já é assim quando pego num Alan Moore.

O meu primeiro contacto com o autor foi quando li o brilhante Watchmen, ao qual me rendi de forma incondicional. Quando depois de pesquisar descobri que também tinha escrito este livro, sobre vingança (obviamente) e anarquia, a única coisa que fiz foi andar sempre à procura de uma oportunidade para agarrar nele.

Graças às abençoadas BLX, essa oportunidade chegou. Depois de também ter lido Saga of the Swamp Thing da mesma forma, requisitei e devorei V for Vendetta. E agora o que é que querem que diga? Conheço poucos livros tão perfeitamente concebidos para me agradarem: num futuro distópico, a sociedade oprimida é forçada a ver a luz da verdadeira liberdade graças a um misterioso homem com uma máscara de Guy Fawkes, um anárquico que espalha o caos por Londres, muitas vezes sob a forma de explosões, sem nunca perder um pingo que seja da sua teatralidade.

Culto, misterioso, ameaçador e carismático, V, o terrorista com um fascínio pela letra V e uma paixão assolapada pela liberdade, rouba completamente todo o protagonismo do livro para si próprio. Quando aparece, é difícil ver outra coisa que não ele, quando não aparece é fácil sentir-lhe a falta. Mas não fiquem a pensar que V é a única coisa interessante no livro. Nada disso. Todo o ambiente está muito bem construído, a Evey, o Leader e o próprio computador que tudo comanda, o Fate, são personagens interessantíssimas, mesmo que o último seja apenas um computador muito poderoso.

As relações entre as personagens são outro dos pontos fortes. A ligação entre V e Evey é intensa e uma das mais bem exploradas ao longo das quase 300 páginas do livro. Há até um momento, que me foi parcialmente estragado por já ter visto o filme, que é simplesmente chocante, e que só adensa e aumenta o estreitamento entre as personagens.

Mas, e como todos os grandes livros, V for Vendetta consegue a proeza de fazer passar uma mensagem forte através da sua história contada através de um enredo sólido e interessante. A mensagem neste caso é uma muito querida ao autor, simpatizante dos ideais anárquicos: a sociedade oprimida tem que se libertar das grilhetas da autoridade e viver livre. A forma escolhida para a fazer passar é este futuro distópico, decadente, governado em parte por uma máquina, com um regime que V, o terrorista de serviço, tenta deitar abaixo, de forma magistral e impressionante.

A escrita de Alan Moore é muito boa, e nota-se que neste caso há mais da personalidade do autor nas palavras das personagens do que nos outros dois livros que já li. Talvez Alan Moore gostasse de ser V, talvez gostasse de conhecer um V, mas este livro é claramente muito pessoal, em termos ideológicos, o que só lhe acrescenta qualidade. Por outras palavras, aconselho vivamente a leitura deste livro, mas quer dizer, quem é que não quer ler um livro cujo protagonista se apresenta assim:

"Me? I'm the King of the twentieth century. I'm the boogeyman. The villain... The black sheep of the family."

terça-feira, 23 de abril de 2013

Que as citações nos caiam em cima [24]


"There is a house above the world, where the over-people gather. There is a man with wings like a bird... THere is a man who can see across the planet and wring diamonds from its anthracite. There is a man who moves so fast that his life is an endless gallery of statues... In the house above the world, the over-people gather... And sit... And listen... To a dry, mad voice that whispers of Earthdeath."

Saga of the Swamp Thing
Alan Moore

Este livro está repleto de citações que eu podia passar horas e horas a transcrever. Se havia alguma dúvida na minha mente relativamente à mestria de Alan Moore, dissipou-se por completo. Já era fã, e mais fã fiquei. Escolhi este trecho em particular por estar a descrever a Justice League. E em especial o Flash: "a man who moves so fast that his life ins an endless gallery of statues", deve ser a melhor descrição deste super-herói que eu já vi na minha vida.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Saga of The Swamp Thing

Título: Saga of The Swamp Thing
Autor: Alan Moore
Desenhador: Stephen Bissette
Colorista: John Totleben


Opinião: Desde que li o Watchmen (que anda a pedir uma releitura para breve...) que me tornei fã incondicional de Alan Moore. E este livro apenas veio reforçar essa admiração.


A história do próprio livro, e da personagem, é por si só bastante interessante. Praticamente perdida e condenada a ser descontinuada antes de Alan Moore pegar nela, o escritor deu-lhe uma reviravolta e um novo fôlego como só ele teria sido capaz de fazer.

Aquilo que podem encontrar em Saga of The Swamp Thing é uma história de terror daquelas que é difícil de encontrar, hoje em dia. Moore consegue pegar no passado da personagem e usá-lo para a mudança que introduz, dando um novo rumo à personagem, completamente diferente do que tinha seguido até aí, sem nunca negar ou alterar o seu passado. E faz isto enquanto desenvolve uma história com momentos verdadeiramente tenebrosos.

Logo nas primeiras páginas, narradas por uma das personagens, pode-se encontrar uma autêntica lição sobre como escrever uma história de terror com princípio, meio e fim. Jason Woodrue, o Floronic Man, começa a história perto do fim, introduzindo o leitor de imediato num mundo e numa situação que lhe é estranha. Só depois é que começa a explicar o início, o que foi acontecendo, com intensidade crescente, até retomar onde começou, para acabar em glória. E ainda só se passaram 23 páginas.

O livro acaba por ser mais sobre a condição do Swamp Thing enquanto monstro/herói/pessoa: a qual das categorias é que ele pertence? Ou terá que aceitar várias? A verdade é que tem que perceber que só aceitando que não é, de todo, humano, é que pode ficar em paz consigo mesmo. Ao longo das várias páginas o leitor vai percebendo, juntamente com a personagem, que a condição de monstro-herói definitivamente não humano é a mais correcta, e que ou o Swamp Thing aceita esse facto, ou mais vale desistir e deixar-se morrer.

E ainda que termine com uma segunda parte mais fraca, o renascimento em pleno de Swamp Thing é um momento brutal, bem como a crescente loucura do Floronic Man, duas situações que decorrem de certa forma em paralelo, com a loucura de um a curar a loucura de outro. Moore descreve estas loucuras de forma genial, o que faz com que alguns dos melhores momentos de todo o livro se fundamentem nelas.

Interessante até ao fim, Saga of The Swamp Thing é um livro brilhante enquanto BD, história de terror e literatura em geral. Na realidade, é das poucas obras de BD a juntar-se a Watchmen na minha lista de "melhores livros que já li". É assim tão bom e fascinante.

domingo, 23 de maio de 2010

Watchmen


Gostava de deixar já bem claro que Watchmen NÃO é um livro de banda-desenhada estilo Tio Patinhas, ou até mesmo Super-Homem. É mais que isso, é uma novela gráfica.

A distinção pode parecer ridícula para alguns, uma mera desculpa para gente grande ler banda desenhada, mas garanto-vos que não se trata disso. Para começar, não tenho qualquer problema em afirmar que gosto de ler banda-desenhada, as histórias do Tio Patinhas e companhia, e dos mais variados super-heróis. E depois, Watchmen tem vários pormenores que o diferenciam desses livros.

Por exemplo não há cá onomatopeias para ninguém. Nada de THUD's quando alguém recebe um murro, nada de SQUASH's quando se pisa uma barata. Apenas imagens e diálogo. Também não é uma história de encantar com o típico final feliz, em que está tudo vivo e de boa saúde, e em que tudo acaba bem. Reviravoltas a cada 2 páginas é o prato do dia.

Falando do livro em si, só posso dizer que não esperava tanto. Quer dizer, vi o filme aqui há tempos (gosto de filmes de super-heróis), após 20 segundos de filme percebi que estes não eram super-heróis como os outros, adorei o filme, e fiquei com curiosidade de ler o livro (em inglês, claro, não queria arriscar traduções ranhosas). Estava à espera de um bom livro, e tive muito mais do que isso. Tive direito a uma autêntica obra-prima, com poucos tempos mortos, talvez apenas meia-dúzia de páginas desinspiradas, com uma média de qualidade altíssima, e verdadeiros rasgos de brilhantismo.

As personagens, só por si, são qualquer coisa de especial. Cada uma delas com uma profundidade psicológica impressionante, desde Roscharch, o herói dois-terços-psicótico, um-terço-solitário, todo ele paranóico; ao Comediante, personagem que morre logo no início, mas que se torna mais ou menos no centro da narrativa, e que nos parece apenas um indivíduo amoral, que faz o que muito bem lhe apetece, com a desculpa de estar a salvar o dia, mas que no fim descobrimos ter sido das personagens mais inteligentes; passando pelo Dr. Manhattan, um antigo físico nuclear que sofreu um acidente, e se tornou num ser superior (ah, e é o único em todo o livro que tem mesmo super-poderes), capaz de teletransporte, de controlar a matéria a seu belo prazer, e que vê o tempo como um todo, passado, presente e futuro como um novelo complexo; com destaque ainda para Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo, que anda meio desaparecido durante metade do livro, mas que tem um papel fulcral; Silk Spectre, obrigada, pela sua mãe, a seguir a carreira de super-heroína; e Nite Owl, que cresceu a idolatrar o primeiro Nite Owl, e que quando chegou a idade de gente continuou o seu trabalho.

A história, essa, nem se fala. Um enredo complexo, que salta para trás e para a frente no tempo (muitas vezes graças ao Dr. Manhattan), com reviravoltas atrás de reviravoltas, que levaram a momentos que me surpreenderam completamente. E não posso deixar de destacar o quarto capítulo, centrado do Dr. Manhattan, que é, para mim, o momento mais brilhantemente espectacular de toda a obra, narrado pelo próprio Dr. Manhattan, e onde podemos ter um breve vislumbre da sua visão do tempo: ele fala do presente e do passado como se estivesse a falar do presente.

Resumindo, que já me alonguei demasiado, se alguma vez tiveram alguma dúvida quanto a ler este livro, esqueçam-na e peguem nele! É sem dúvida um dos melhores livros que já li na minha vida!