sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A menina das estrelas (Stargirl #1)


Autor: Jerry Spinelli
Tradutora: Maria João Berkeley Cotter


Opinião: É um livro para jovens. Entre o infantil e o juvenil, A Menina das Estrelas até é um livro acima da média, tendo em conta o público-alvo, e foi uma leitura que gostei de fazer. Passa uma mensagem bonita e interessante, e não está mal escrito de todo.

Infelizmente o livro é demasiado juvenil para me agradar completamente. As personagens são fracas, e as mais interessantes acabam por se tornar clichés baratos ou personagens tão burras que deixam de ser realistas.

A (mais ou menos) protagonista, a Stargirl, é uma personagem interessante que, à sua própria maneira, causa o caos na escola onde acabou de chegar, com o seu espírito livre e as suas acções estranhas e intrinsecamente bondosas.

Estamos a falar de uma rapariga que canta os parabéns a toda a gente, durante a hora de almoço, e que quando chega a uma aula, põe uma toalhinha na mesa e um jarro com uma flor. Estas e outras coisas são o que causam estranheza, e que por um lado a ostracizam e por outro lhe dão uma aura de mistério e fascínio inigualável naquela escola.

É por isso que a história de amor que vive soa a um facilitismo narrativo para arrancar lagriminhas e compaixão dos jovens leitores. Além de ser semi-aleatório, na altura em que surge, só começa porque a Stargirl, o tal espírito livre que parece ter uma personalidade livre das restrições sociais que nos atingem a todos, acha que um certo rapaz é giro. E é isto. Não há cá conhecê-lo, nem falar com ele, nada.

Esse rapaz, por sua vez, é uma personagem inconstante, que narra o livro e tem o dom de ser tão imprevisível e idiota como um adolescente normal. O que não é bom, porque torna-se extremamente aborrecido vê-los como casal e depois a desmoronarem por motivos idiotas. Isso já não é realista.

No fim, é uma leitura rápida, que dá para entreter, mas não passa disso. Provavelmente saboreia-se melhor com menos idade do que eu, e com menos cepticismo do que aquele que eu tenho.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Better Call Saul [T1]



O que fazer depois do fim de uma das melhores séries de sempre? Como lidar com o fim de Breaking Bad? A resposta foi criar Better Call Saul, um spin-off/prequela/sequela/interquela desse grande programa, e do qual ninguém estava à espera. Saul Goodman, a personagem, era sem dúvida uma das melhores. e das que mais gozo dava de ver no ecrã, mas daí a torná-lo o protagonista de uma série inteira ainda vai muito.

Mas foi isso que aconteceu, e se fosse outra série qualquer tenho a certeza que o coro de fãs seria negativo: para quê voltar a pegar nisto, é só para dar dinheiro, não faz sentido, vão estragar a história, vão estragar as personagens, bla bla bla. No entanto os fãs sempre apoiaram esta decisão!

É mais uma prova da popularidade e qualidade da série original. Eu próprio sempre achei que fazia todo o sentido, Saul era uma boa personagem, e o formato prometido não corria demasiado o risco de se meter na história que já conhecemos. Ia contar a história do Saul, de como se tornou no Saul que vemos em Breaking Bad.

Vista a curta série, tenho a dizer que correu bem. Estrondosamente bem, até. Foi bom revisitar algumas personagens, como Mike, que devia ter a sua própria série, e Tuco, tão louco como sempre. Mas é Saul, perdão, Jimmy McGill, que rouba o espectáculo.

A representação está bastante honesta e credível, e deixa-nos conhecer um lado da personagem que nem sequer imaginávamos que existisse. Tem um irmão, que é alérgico a radiação electromagnética, uma mulher por quem está embeiçado, inimigos, e uma notável presença de escrúpulos.

Os episódios são do mesmo estilo dos de Breaking Bad, calmos, com pouca música de fundo, até pouco ruído de fundo tirando os banais, como carros a passar e pássaros a cantarolar, e uma vivacidade subtil que me espantava a cada episódio, assim como a série original.

O ritmo é excelente, o enredo é excelente, a forma de contar as histórias é excelente, os desvios narrativos para acompanhar outras personagens são excelentes, é tudo excelente. Até a quantidade de episódios, que me pareciam poucos ao início, se revelaram mais do que suficiente para contar uma boa história e ainda despertar a curiosidade quanto ao futuro/passado de Saul. Uma aposta ganha, sem sombra de dúvida.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mort Cinder (Colecção Novela Gráfica #11)


Argumento: Héctor Oesterheld
Arte: Alberto Breccia
Tradução: Catherine Labey, Jorge Magalhães, João Miguel Lameiras


Opinião: Excepcional! Sabe bem encontrar um livro que me deixe tão inesperadamente satisfeito. O formato gigantesco já me tinha despertado a curiosidade, mas a opinião da minha namorada tinha-me deixado de pé atrás.

Felizmente, de vez em quando discordo com ela. E este livro é um caso flagrante. Gostei bastante das ilustrações, com os seus jogos de luz e sombras que depois são levados ao extremo por Frank Miller, em Sin City, e a história prendeu-me completamente.

Mort Cinder é uma personagem fascinante, com origens e propósitos desconhecidos, mas não é propriamente o protagonista. Só o é realmente quando conta as suas histórias, porque de resto é preciso abrir alas para Winston, o antiquário que encontra Mort Cinder, o ajuda e mais tarde o acolhe.

É através dos seus olhos que vemos as situações a desenrolarem-se, desde as peripécias iniciais, misteriosas e sobrenaturalmente estranhas, até às aventuras com Mort Cinder, que contam com vilões de motivos bastante óbvios.

O que mais me fascinou, no entanto, foi o mistério que envolve Mort Cinder, um homem que viveu durante eras passadas e que não morre realmente. Quem é ele exactamente? De onde veio? O que é que está ali a fazer, a tentar viver o mais sossegado possível na casa de um antiquário, depois de ter vivido centenas de vidas diferentes ao longo dos tempos?

Não sei. Aparentemente, só ele o sabe, e nunca em todo o livro ele tenta explicar a situação a Winston, que também não diz nada. E no entanto há pessoas atrás dele para conseguirem atingir a imortalidade.

Há um defeito que ponho ao livro, que parece ter sido herdado por vários filmes, séries de televisão e livros: parece que todos os objectos que vão parar às mãos de Winston, já passaram pelas mãos de Mort Cinder e estiveram muito directamente envolvidos com ele, e dão azo a uma história qualquer numa era passada em que Mort acaba por morrer. Coincidências são perigosas, nestas coisas.

Tirando isso, impecável. A arte é excelente, a narrativa também, e nem sequer se torna repetitiva, ao contrário do que diz a Jules. Também gosto que o livro se vá subtilmente encaixado na categoria de ficção científica, mas só lendo para perceber. Nem sequer são coisas muito originais, mas estão bem executadas, a todos os níveis.

Portanto não hesitem em pegar neste livro, que é excelente e vale bem a pena!

domingo, 6 de setembro de 2015

Que as citações nos caiam em cima [64]



"Ele mudar depressa de caminho, e sangue de Sol em céu cair em cara de ele, e cornos-de-paus em cabeça de ele, e Eu ter medo. Eu ver em alma d'Eu que Hob não ser de Terra, como eu e bando d'Eu. Nós nascer em Terra e viver em Terra e não-viver em baixo de Terra. Hob ser de fogo! Hob ter fogo preto em olhos de ele e sangue de fogo em cornos de ele."

A Voz do Fogo
Alan Moore

sábado, 5 de setembro de 2015

Coluna mensal na revista Nonata


Eu disse que ainda apareciam novidades. Chama-se Camõesidades (nome potencialmente provisório, mas habituem-se de qualquer forma), é sobre literatura portuguesa em todas as vertentes possíveis e imaginárias que eu me consiga lembrar, e é escrita por mim.

Podem ler aqui o primeiro texto, mas não deixem de acompanhar. Será uma viagem interessante pela história da literatura portuguesa (de forma altamente não linear) vista pelos meus olhos. A única coisa que prometo é ser diversificado e falar dos meus ódios e gostos pessoais com alguma profundidade.

Esta foi daquelas oportunidades que surgiu por uma nesga e que eu não hesitei muito em apanhar. É algo com uma dinâmica diferente daquela que tenho aqui no blog, que uso para conversar com quem me lê, e que me vai permitir explorar a literatura portuguesa de várias formas, algo que me interessa muito.

Por enquanto tenho só um plano vago daquilo que vou escrever, o que significa que estou aberto a sugestões. Há algumas temas que já sei que vão surgir, e há pelo menos uma outra crónica que já tenho a certeza que vai ser escrita: só falta mesmo sentar-me e escrevê-la.

Agora não se esqueçam é de acompanhar e de comentar! Têm aqui o site, aqui a página dedicada aos meus textos, por aqui o Facebook da revista,  e também o Instagram, que não faço a mínima ideia de como funcionam, mas sigam, ou sei lá.

É mais uma coisa a juntar à lista de coisas a fazer, é o que é!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Voz do Fogo


Autor: Alan Moore
Tradutor: David Soares


Opinião: A minha curiosidade para este livro era mais que muita. Um romance escrito por um dos autores de BD que mais admiro? Venha ele! A edição é espectacular, portanto ainda antes de o abrir eu já sabia que ia ter prazer nesta leitura.

Assim foi. Separado em doze capítulos, nem sempre relacionados entre si de forma muito óbvia, este livro tece uma autêntica tapeçaria de símbolos, personagens e situações que guiam o leitor por uma pelos retalhos de uma história. O resultado final é estranhamente coeso e uniforme.

É claro que a tradução deste livro só podia ter ficado a cargo de uma pessoa: David Soares. Aqui, e podem discordar de mim à vontade, mas tenho de dizer que escolheram o homem perfeito. A sua mistura de conhecimento erudito, obsessão com os pormenores e vasta capacidade de contextualizar o que quer que seja, foi a mistura perfeita para navegar por entre o labirinto simbólico que Moore traçou ao longo dos tempos.

Toda a acção se passa em Northampton, ou nas imediações, desde 4000 a.C. a 1995. É, na sua maioria, completamente indescritível. Acontece tanta coisa nestas doze histórias, todas elas tão diferentes entre si (e ainda assim tão parecidas!), que era loucura tentar descrevê-las uma a uma.

O livro começa logo com um primeiro capítulo extenso, com um narrador primitivo que nos obriga a ler dezenas de páginas de "Eu estar caminhar de lá, querer chegar lá atrás de agora de Sol sair". Não é o mais fácil dos começos, mas está tão bem feito que não chateia. Custo um pouco a ler, mas vale a pena, pois é um dos capítulos mais fascinantes do livro.

A certa altura há um capítulo cujo narrador é uma cabeça decepada pendurada algures. Outro em que é do ponto de vista de uma rapariga enforcada. E outro do ponto de vista de metade de um casal de bruxas lésbicas que invocam diabretes para andarem a causar desgraças.

Dizer que é um livro esquizofrénico é ser simpático. Todos os narradores são radicalmente diferentes, não só a personagem em si, mas a forma como narram. Vários (se não todos) são loucos. Clinicamente loucos, sem sombra de dúvida, e isso nota-se principalmente mais perto do fim do livro. Ah, e como já disse, alguns dos narradores estão mortos.

Interessante? Obviamente! As constantes menções a fogo, enormes cães pretos e possivelmente demoníacos, os Shagfoals, assim como a feiticeiros e feitiçarias afins, mais uma série de outros símbolos que se repetem de forma mais ou meno regular em cada capítulo, são aquilo que une tudo o que se passa. E a parte mais estranha do livro todo, é que isso funciona. Eu pelo menos cheguei ao final, sem ter a certeza de muito daquilo que tinha lido, mas com imagens mentais daquilo que o livro me tinha contado.

No fundo este livro é uma história sobre histórias. As notas do tradutor que aparecem no fim, e que ainda são umas vinte páginas, mesmo ao estilo de David Soares, caem muito bem, pois contextualizam e não forçam a nenhuma interpretação que não deva ser forçada. O livro, para mim, só ficou verdadeiramente lido depois de ler estas notas todas. E embora o livro não seja perfeito, é muito bom.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Asilo Arkham (Batman #4)


Argumento: Grant Morrison
Arte: Dave McKean
Tradução: João Miguel Lameiras


Opinião: Um livro incrível a todos os níveis. Um argumento espectacular e uma arte de cortar a respiração. Asilo Arkham é sem dúvida um dos livros mais arrepiantes que já li na minha vida. Ter o Batman no Asilo, rodeado de vilões a obrigado a interagir com eles, nos seus vários níveis de insanidade, é fascinante.

Apercebi-me foi que no mundo do Batman, ser maléfico é igual a ser louco. Interessante. Mas comentários filosóficos à parte, regressemos ao livro. Acho fascinante que um dos aspectos que funciona melhor, as aparições escassas e semi-escondidas do Batman, só exista porque McKean odiava desenhar o Batman e passou o livro inteiro a evitá-lo.

De resto, aquilo que tenho a dizer é que todos os aspectos deste livro são excelentes. O contacto com vários dos super-vilões é fantástico, incluindo um dos melhores (e mais assustadores) Jokers que já vi. A narrativa que Morrison conta nos interstícios da viagem de Batman pela loucura, a viagem do fundador do Asilo pela loucura, também é interessante, cativante, e nunca parece deslocada ou desnecessária.

Ambos os autores conseguem fazer com que essa história também seja precisa e que também faça todo o sentido estar a contá-la.

O sentido de narrativa que tanto Morrison como McKean revelam é mais do que suficiente para que texto e desenho contem a sua própria história, e ainda uma terceira, quando conjugados. Mas mais do que isso, aquilo que senti foi que estava a fazer uma visita aos bastidores. Como se estivesse habituado a ver um Joker saltitão pela rua fora, ou uma Poison Ivy insinuante, e de repente se desligassem as câmaras e os holofotes e eu os visse realmente pela primeira vez. Não os super-vilões que matam milhares, mas as pessoas por detrás.

E, lá está, isso é fascinante. É um encontro imediato com a realidade - não a nossa, mas a do Batman. Consegue ser uma realidade assustadora (este é, sem dúvida, um livro de terror), mas também credível. Não é difícil de acreditar que aquele sítio existe mesmo, com aquelas pessoas lá dentro. A forma como falam, a forma como agem, a aparência que têm, tudo lhes dá um relevo impressionante. É um excelente trabalho de Morrison e McKean, que vale muito, mas muito a pena ler.