segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Supernatural [T10]


Há coisas que não sabem quando acabar. Piadas britânicas, actualizações do Windows e esta série. São aquelas coisas que começam, até podem conseguir atingir um certo nível de brilhantismo, mas depois insistem e continuam a arrastar-se de forma indefinida, como se quisessem propositadamente estragar tudo.

E se no humor britânico isso já é esperado, e faz parte do ADN da coisa, e nas actualizações do Windows não há nada a fazer a não ser fugir desse sistema operativo (viva o Linux!), a esta série só lhe está a fazer mal.

Os planos iniciais eram só até à quinta temporada. Foram cinco fantásticos conjuntos de episódios, a terminarem de forma espectacular, ligeiramente inesperada, e mais ou menos inovadora. Não teve um final feliz, mas sim um final compreensível e com lógica. Tudo estava bem nesse longínquo ano de 2010.

Hey Lucifer, não queres voltar e acabar com a miséria do programa?
Foi então que decidiram continuar. Como é óbvio, a qualidade nunca foi a mesma, e o facto de há dois ou três anos terem dito "temos planos até à décima temporada", e agora estarmos à espera de uma décima primeira, é mais do que indicativo da forma como estão a fazer a série. Temporada atrás de temporada de "então e agora, o que vamos inventar?".

Nessa quinta temporada, cinco temporadas atrás, já tinham praticamente todos os bons elementos da série: o Dean, o Crowley, o Bobby, o Castiel, e enredos fortes. Até conseguiram, no último episódio, verem-se livros do Sam! Perfeito! Tirando o facto do episódio seguinte começar logo com o Sam de volta, sabe-se lá como. Apresentaram mais família dos irmãos Winchester, novas ameaças cada vez mais idiotas e incapazes (o plano dos Leviathans em junção com a loucura passageira do Castiel foi das coisas mais ridículas de sempre), e conseguiram arrastar a relação entre Dean e Sam até ao ponto em que parecem uma paródia deles próprios.

Sempre que há um momento de partilha entre os dois, eu rio-me. Não há outra reacção possível.

Chacina-os e fica com a série para ti Crowley, tu mereces.
Para terem noção, nesta temporada o Dean, depois de morrer no final da temporada anterior, regressa como um demónio, graças a uma marca que tem no braço e que lhe foi dada por Cain, o homicida original, e anda por aí a fazer porcaria, mais o Crowley, satisfeitos da vida. Mas sabem o que é que acontece mais? Há uma personagem que regressa de Oz (não estou a brincar), aparece a mãe do Crowley (continuo a não estar a brincar) que é a bruxa mais poderosa de sempre (a sério), Sam consegue humanizar Dean (como é óbvio), e o mais parecido que há com uma nova ameaça são os Styne, que são na realidade a família Frankenstein (yap, isto acontece).

É isto. Não preciso de mais argumentos, para apontar o ridículo da situação, e é uma pena que esta série se tenha tornado nisto. Até voltei a ter algumas esperanças com o último episódio, em que Dean, incapaz de resistir à marca de Cain, que o está a transformar não tão lentamente quanto isso num selvagem sedento de sangue, faz um acordo com a Morte: ele mata o Sam (yay!) e a Morte envia-o para um planeta longínquo, onde não possa fazer mal a ninguém. Dean não pode morrer, graças à marca, portanto isto era um final duplamente agonizante, chocante e bom! Mas querem saber o que é que acontece?

Depois de tantas situações em que não fazem o que está certo para se salvarem um ao outro, e isso dar muito para o torto, o Dean arrepende-se do seu acordo, e MATA A MORTE! Não, a sério, ele mata-a com a sua própria foice. Mas calma, que felizmente o feitiço que a mãe do Crowley e companhia andavam a preparar para tirar a marca funcionou, e o Dean está livre! Só que no processo, libertaram a Darkness, que é uma nuvem gigante de fumo negro que aparece no horizonte e atropela os irmãos, seguros dentro do Impala.

O vilão da próxima temporada é uma nuvem de fumo. Era só isto.
Triste, é só triste. A única vantagem disto é que nunca ninguém vai fazer uma paródia desta série: ela já existe e chama-se as últimas cinco temporadas.

sábado, 29 de agosto de 2015

No meu tempo não havia tablets


Um dia destes estava num centro comercial, descansado da vida, mais a minha namorada. Depois de jantarmos, e ao saírmos da zona dos restaurantes, demos de caras com uma situação que nos chocou ligeiramente: uma criança, com não mais que 3 anos, estava a jogar num tablet enquanto os pais comiam, conversavam, e a ignoravam.

A primeira coisa em que pensei foi: "raça dos putos, já nascem a saber mexer nisto tudo". Sim, sou um puto novo, mas lembro-me perfeitamente de quando um computador era algo que o meu pai usava e que tinha um ar estranho.

Pois é, sou novo, sou novo, mas sou duma geração intermédia que descobriu essas tecnologias quando elas estavam na pré-adolescência. A novidade efusiva já tinha esmorecido, mas ainda era algo muito longe de cumprir plenamente o seu potencial.

Como tal, desenganem-se, eu não nasci a mexer em computadores, e posso dizer que não havia smartphones e tablets no meu tempo. Ah!

As minhas primeiras aventuras com computadores foram desastradas, no mínimo, e o meu momento de maior glória foi conseguir guardar todos os meus textos da altura num conjunto de disquetes!

(o fascínio por disquetes mantém-se, já agora)

Mas voltando ao miúdo com talento para tablets, a segunda coisa em que pensei foi numa reportagem da TVI, se não me engano, que passou há uns dias, relativamente extensa e muito claramente desastrada, em que se falava exactamente destas coisas: putos e tecnologias.

Em defesa da reportagem, gostei da tentativa de ouvir os dois lados, e de pelo menos tentar ser imparcial e objectiva. Infelizmente estamos a falar da TVI, um sítio onde o bom jornalismo abunda tanto como elogios à arbitragem num jogo de futebol.

Os dois casos apresentados de que me lembro, apesar de aparentemente antagónicos, são igualmente idiotas e prova de pais irresponsáveis.

Num, uma mãe castradora (ou pai igualmente castrador, não me lembro) fez questão de deixar bem explícito que as filhas jogavam no tablet e iam à internet uma quantidade de tempo limitada, obedecendo a certas regras, e sempre sob a supervisão de um adulto.

No outro caso, um jovem casal faz o seu melhor para ser fixe e moderno, mas responsável, e explicam que não proíbem, mas mostram alternativas melhores. Que o miúdo estar no tablet funciona como distracção e não lhe faz mal nenhum, desde que tenham cuidado para não ficar vidrado.

Vamos ao primeiro caso. Nem vale a pena discutir muito. Acho que já está mais do que comprovado que demasiadas restrições "porque sim" não dão bom resultado. E num caso destes vai criar mais vontade de brincar no tablet.

O segundo caso é mais subtil, mas é praticamente igual ao caso do miúdo que vi no centro comercial, só que disfarçado. Resume-se num simplista "mantém o puto distraído, portanto deixa-o brincar com isso à vontade".

Ambas as posições são perigosas e, do meu ponto de vista, erradas. Por um lado a ideia que existe sobre o efeito pernicioso dos tablets, dos computadores e da internet, é mais do que errada. Essas tecnologias são bodes expiatórios dos maus pais, nada mais, porque na prática são brinquedos e ferramentas como as outras.

Qual é o problema dum puto passar quatro horas a jogar no tablet? Eu chegava a casa depois de almoço e ficava deitado na cama a ler até ao jantar. E nunca ninguém me proibiu de ler. Porque é que uma coisa é aceitável e a outra não? Acreditem que eu, como defensor acérrimo de tudo o que tenha a ver com leituras (excepto o Pedro Chagas Freitas e a Chiado "editora"), prefiro um livro a um tablet, para mim ou para qualquer pessoa! Mas não é obrigatório.

Às vezes também me divirto mais, em certas alturas, a jogar qualquer no telemóvel do que a ler mais dez páginas. Já vos oiço a dizer que a leitura estimula o intelecto e o cérebro, e é verdade, e é muito melhor do que jogar o que quer que seja, mas isso não quer dizer que jogar seja estupidificante.

Já jogaram Cut the Rope? Ou Two Dots? Ou Minesweeper3D? Experimentem e vejam se não desenvolvem o intelecto! É claro que jogar Fruit Ninja, ou aqueles jogos de vestir e maquilhar, estupidifica um bocado, mas na literatura por cada Mia Couto há um André Amaral, e por cada Fahrenheit 451 há um livro do José Luís Peixoto. Coisas más e coisas boas, nos livros, nos filmes, nos jogos e na tecnologia.

Sabem qual é que é o problema? Nunca ninguém me deu um livro, ou me pôs a ler para ver se eu parava quieto ou ficava calado e não chateava. Nunca li durante as refeições com outras pessoas. E nunca me arrancaram um livro da mão, nem o deixaram na mesa à minha frente e disseram "não, não, agora vês televisão connosco".

Eu sei bem que pode não ser assim tão simples, e que há perigos associados às tecnologias, especialmente à internet, que pura e simplesmente não existem nos livros, mas permitam-me a ligeira generalização. Vocês percebem o que eu quero dizer e percebem as nuances que ficam por clarificar.

Os miúdos daquela reportagem, assim como o que eu vi entretidíssimo com o tablet, sofrem do mal de não verem os tablets como mais um brinquedo, ou mais uma actividade, mas sim como O brinquedo e A actividade. Aquela coisa que podem fazer se se portarem bem. Ou se se portarem demasiado mal.

No meu tempo davam-se doces para o primeiro caso, e chupeta para o segundo. Hoje passa-se um tablet. De quem é a culpa? Da maldita tecnologia? Dos filhos tão perigosamente viciados que até já querem definir o "abuso de internet" como um distúrbio mental? Não.

É dos pais. Os maus filhos estão é a ser educados por maus pais, que preferem o facilitismo da tecnologia a terem trabalho. Deixem-se é de tretas, deixem os miúdos brincar à vontade, dêem-lhes atenção e ensinem-lhes boa educação. Eu não me saí mal e "perdi" muitas das minhas horas de infância activamente a não ir para a rua brincar, nem a andar sempre aos pulos que nem um chimpanzé a andar sobre carvão em brasa. Porque é que os miúdos de hoje hão-de ser diferentes?

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Tehanu - o nome da estrela (Ciclo de Terramar #4)


Autora: Ursula K. Le Guin
Tradutor: Carlos Grifo Babo


Opinião: Uma narrativa cansada. Uma das personagens mais interessantes que já vi reduzida a um velho tímido e virtualmente inútil. Personagens femininas, fortes e interessantes, claramente as protagonistas, reduzidas a uma velha queixosa e uma criança quebrada.

Eu sei que a protagonista, anteriormente protagonista do segundo livro, Os Túmulos de Atuan, é mais do que uma velha queixosa, mas foi isso que me pareceu. Toda a história está forçada, especialmente o povo meio dragão meio humano, que tem um papel preponderante no enredo, mas acerca do qual nunca ouvimos falar até meio deste livro.

Fiquei seriamente espantado com a fraca qualidade deste livro, que não me encheu as medidas, nem de perto nem de longe. Mais valia a saga ter acabado como uma trilogia, não era perfeita, mas era melhor do que esta tetralogia, isso de certeza.

O grande problema, ao contrário do resto da saga, não é a falta de acção, mas sim a falta de acção razoável. Tudo o que acontece é um bocado aleatório. As motivações das personagens são, no mínimo, dúbias. As causas do que acontece são estranhas e raramente explícitas. Acaba por não haver um fio condutor, que guie o leitor pela história.

Há, em vez disso, uma protagonista presa entre o seu papel de fêmea obediente e mulher lutadora, a deambular pelo enredo da forma mais confusa e ziguezagueante possível. A sua constante inacção contrasta com a sua omnipresente noção de que devia estar a fazer alguma coisa.

Já não tinha gostado na personagem no primeiro livro que lhe foi dedicado, mas neste ainda me aborreceu mais. Nesse outro, ela era pouco mais do que uma criança; neste, é mais do que adulta, com idade para ter juízo. E ainda assim... Nem por isso.

Uma pena. Vou voltar a virar-me para a ficção científica de Le Guin, que a fantasia não me cativou por aí além.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sabor Internacional (Tony Chu - Detective Canibal #2)


Argumento: John Layman
Arte: Rob Guillory
Tradução: José Hartvig de Freitas


Opinião: Há tanta coisa incrível a acontecer neste livro que nem sei por onde começar. As habilidades especiais relacionadas com comida continuam a aparecer - e são geniais. Uma personagem regressa com melhoramentos cibernéticos e faz algo inesperado e chocante que nunca ninguém vai adivinhar até ver o que é. E as dicas de arcos narrativos e personagens ainda por descobrir continuam a empilhar-se umas nas outras.

Vejamos. Tony Chu, o detective canibal que tem visões do passado daquilo que come, continua na sua heróica demanda de, simplesmente, viver sossegado. Mas um trabalho árduo, e frequentemente nojento, um parceiro esgrouviado, um chefe impossível de aturar, um irmão irresponsável e montes de peripécias que insistem em cair-lhe no colo, o homem não tem a vida fácil.

E é incível a quantidade de manigâncias em que é possível ele envolver-se por casa de frango. Seja um fruto que sabe a frango ou um galo de luta desaparecido, tudo é possível. Já mencionei o vampiro e o cozinheiro que fala através da comida que cozinha?

Pois é. Caríssimos, isto é uma leitura leve, engraçada, silly até, mas não é de todo uma má leitura. Antes pelo contrário. O argumento desenvolve-se bem, a arte integra-se bem, e ambas as coisas conseguem ter um delicado equilíbrio entre o humor mais visceral e as cenas mais negras e dramáticas. Um regalo para os olhos e para a imaginação.

A mim fascina-me particularmente que alguém tenha conseguido criar um mundo tão parecido com o nosso, e ainda assim tão diferente, com ideias tão simples e originais. Pode não ser a primeira coisa em que se repara, mas há aqui verdadeira genialidade imaginativa. Só por isso já vale a pena acompanhar, mas a história é genuinamente interessante, e as várias pontas já deixadas soltas apenas cativam mais e mais. Ou seja: mal posso esperar pelo próximo volume!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sepulturas dos Pais


Argumento: David Soares
Arte: André Coelho


Opinião: Abençoados sejam os deuses que vocês preferirem: mais uma obra recente de David Soares que me agradou! A arte de André Coelho, excelente, contribuiu bastante, mas o argumento agradou-me genuinamente.

Começando pela pior parte, vou já deixar bem claro que detestei o final. Para mim foi como ver um sketch de humor que não sabe quando acabar, e continua e continua e continua, bem para lá daquilo que é engraçado - ou, neste caso, daquilo que é bom.

Mas pronto, deixemos isso. Vamos focar-nos no enredo, interessante, retorcido e negro, mas também esperançoso, de certa forma. Nunca nada é demasiado explicado, nem nunca nada fica muito claro, mas as narrativas entrecortadas funcionam bem e contam a história toda. Pelo menos a que o leitor precisa de saber.

David Soares consegue "brincar" muito a sério com a acto de dar vida, e cria metáforas excelentes com as criaturas de areia que o protagonista consegue criar, de forma tão simples. E mesmo com um tema destas, a história consegue ser surpreendentemente negra e agressiva, como é apanágio de algo escritor por este autor.

A arte de André Marques é um excelente complemento (por favor não se inibam de voltar a colaborar), tão ou mais negra que a escrita de David Soares. Os diálogos sofrem, muitas vezes, de excesso de davidsoarismo, mas já nem é defeito, é mesmo feitio, e como o livro se mantém coerente, isso acaba por não destoar demasiado.

Já a noção que dá origem ao título, as sepulturas dos pais, é um bocado forçada, e acho que o livro só tinha em ganhar se o autor tivesse deixado essa ideia de parte, e se tivesse focado noutras coisas. Felizmente nunca exagera, e esta ideia, ainda que importante e central, mas também vaga e secundária, não polui nada.

Resumindo, é bom ver Soares a produzir material de verdadeira qualidade, depois de algumas francas desilusões. Venham mais assim.

sábado, 22 de agosto de 2015

Regras, limites e moderação


Escrever não é fácil. Sei-o por experiência, a pouca que tenho. Um leitor muitas vezes não tem noção das horas, dias, semanas, meses e até anos que estão por detrás de determinado livro. Lemos, descansadinhos da vida, sentados no sofá ou deitados na cama, e criticamos uma vírgula mal posta ou uma personagem mais fraca com a facilidade e o desprezo de quem fazia melhor.

E se calhar até fazíamos. Eu, que tenho problemas em usar as vírgulas da melhor maneira, e que tenho um dom para a ocasional personagem unidimensional, dou por mim a ler algo e a pensar “que caraças, isto devia estar de outra forma”. E até tenho razão algumas vezes, como a maior parte dos leitores tem muitas vezes. Se há erros e coisas mal feitas, é preciso apontá-las, para que possam ser melhoradas. Sem sombra de dúvida!

Mas também é preciso ter noção que a escrita não é pêra-doce. Enfrentar uma página em branco, já a saber que cada palavra ali escrita há-de ser lida e escrutinada por alguém, não é uma tarefa simples. Acabar um texto, seja um conto de duas páginas ou um romance de quinhentas, pode ser ao mesmo tempo um alívio e uma enorme causa de ansiedade.

No entanto, se querem algo mesmo complicado, experimentem escrever a chamada “literatura de género”, que é assim chamada porque já sabemos que só os livros intelectuais que retratem dramas da vida real com palavras delicodoces é que são dignos de serem literatura a sério, e estão sempre tão perto de serem obras-primas que nem se inserem num género.

Enfim. Como estou a escrever para pessoas inteligentes, vamos usar os nomes certos: experimentem escrever dentro do Fantástico. Seja ficção científica, fantasia, terror, ou qualquer subgénero e/ou variação que conheçam, descubram, ou inventem. A primeira dificuldade é que não há muitos leitores casuais inseridos nestes géneros (nem gosto de lhes chamar géneros por si só, mas isto é conversa para outra altura), da mesma forma que os há na literatura mainstream (espero que gostem de ser todos enfiados no mesmo saco de desprezo, como costumam fazer aos outros).

Estamos a falar de literaturas de nicho, apreciadas por um grupo mais restrito de leitores, mas também por isso, mais selecto. Pessoas de gostos apurados, frequentemente especializadas numa ou duas vertentes do Fantástico, que conhecem e já leram muita coisa.

É fácil de perceber: imaginem que escreveram um livro. Acham que é a vossa obra-prima, o livro que vai perdurar na História da Humanidade muito depois de vocês e os vossos descendentes desaparecem da face do planeta (isso é que são expectativas altas!). Estão plenamente convencidos de que o livro está perfeito e que vai vender que nem paus de selfie no Bairro Alto. Quem é que preferem que o leia? Um leitor casual, que lê dois ou três livros por ano, todos durante o Verão, na praia, com um olho no livro, outro nos corpos desnudados, os pés na água e uma bola de berlim na mão; ou o leitor obsessivo, que já despachou uns vinte calhamaços e ainda nem entrou de férias, capaz de recitar todos os punks por ordem alfabética, de applepunk a zebrapunk?

Escolham como quiserem, mas ficam a saber que se escolherem a segunda opção vão ter uma avaliação muito mais completa e, sem sombra de dúvida, muito mais picuinhas. Vão-se arrepender da tarde de escrita em que pensaram se “o carro era azul-marinho com tons etéros, ou azul-celeste com laivos aquáticos”, e concluíram que “bem, não interessa, pormenores”. Porque o segundo leitor vai reparar e vai acusar-vos de inconsistência narrativa.

Sim, eu sei que estou a exagerar um bocadinho, mas é só um bocadinho. Os grandes aficcionados de literatura de Fantástica são máquinas de detectar imprecisões, influências e semelhanças. Fazem-no muito bem e isso raramente se torna desagradável, embora as discussões, das bem feias, existam. Nunca me senti mal no meio desta comunidade, nem como ávido leitor nem como aspirante a escritor amador (aspirador a escritor, como diz a minha namorada).

E como tal, a malta que escreve Fantástico é que tem a vida tramada. E porquê? Porque os leitores que enfrentam em maior número são aqueles que acabei de descrever, atentos, rigorosos e que exigem do que lêem uma qualidade equivalente à sua devoção ao género. E porque o fazem com livros com uma forte componente inventada, não no sentido de inventar uma personagem que se apaixona por outra, ou de inventar um acidente que nunca aconteceu, mas sim o de inventar mundos novos, características novas, intricados sistemas de magia, complexa maquinaria e tantas outras coisas que não cabem em simples lugares-comuns.

Todas estas coisas são difíceis de fazer, ao contrário do que se possa pensar. Não é só escrever “e então o meu protagonista genérico usou a espada mágica que não só cortava os malfeitores como tudo o que lhe aparecesse à frente, e que só menciono agora porque não foi precisa até este ponto”. É preciso que a mentira que se escreve, maior do que na literatura mainstream (saco de desprezo, continuam a gostar?), seja consistente. Mais do que credível, consistente com a sua própria lógica. Convenhamos, homenzinhos verdes nunca vão ser credíveis, e muito menos velhotes de barbas compridas a disparar raios de luz das mãos.

Mas se estiverem de acordo com as regras do universo do livro em questão? Basta ser-se meio escritor e cumprir isso, e têm-se os leitores agarrados e a pousarem o livro para discutirem como é que se conseguem fazer viagens inter-espaciais com o vosso sistema de magia.

O que é que isto significa? Que os livros que se consigam descrever como “festivais de magia” ou “feiras de parafernália tecnológica” estão condenados a falhar. Muito simplesmente porque num livro em que a magia seja algo desregrado e aparentemente sem grandes limites, é difícil fazer com que um obstáculo no enredo não seja inverosímil, da mesma forma que num livro em que haja gadget multi-funções para tudo e mais alguma coisa.

É por isso que a consistência é tão importante. E também os limites, como já se percebeu. Podem haver excepções, é claro, mas é difícil. O deus da Bíblia é ao mesmo tempo bondoso, omnipotente, omnipresente e omnisciente, e ainda assim já viram a quantidade de desgraças que há por ali? Não faz sentido! O John Cena, ainda no tempo em que eu acompanhava o wrestling da WWE, não tinha problemas em atirar a montanha que é o Big Show pelo ar, mas caiu várias vezes a tentar fazer o mesmo ao Umaga, bem mais pequeno (mas ainda massivo, sim). Não faz sentido! E nem quero pensar muito em Doctor Who, que deve ter uma das narrativas mais inconsistentes da história da inconsistência.

Em termos simples, é melhor ser-se discreto. Magia, sim, mas com regras, limites e moderação; gadgets, sem dúvida, mas com regras, limites e moderação. E o mesmo se pode aplicar a tudo o resto que possam imaginar. Não é preciso ser-se tão discreto como George R.R. Martin, que tem uma magia tão discreta em A Song of Ice and Fire que os livros até passam por história medieval alternativa, mas que já está a conseguir frustrar os fãs. Mas sim, regras, limites e moderação.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Praia mais Longínqua (Ciclo de Terramar #3)


Autora: Ursula K. Le Guin
Tradutor: Carlos Grifo Babo


Opinião: Sem dúvida um dos mais interessantes do Ciclo de Terramar, este A Praia mais Longínqua fracassa. É que inverte completamente as minhas expectativas. Começo a ler, e sim senhor, vamos lá, fico um bocado chateado de ter perdido tanto tempo de vida da personagem mais interessante, mas pronto, siga. Depois tudo evolui muito bem, tranquilo, uma boa história como se quer. Até chegar ao fim. As últimas páginas são sofríveis, e não só quase anulam o interesse do resto do livro, como me tiraram a maior parte da vontade de acabar de ler a saga.

Voltamos a encontrar Gued, mais velho e já Arquimago, numa altura em que a magia está lentamente a desaparecer de Terramar. Um jovem princípio, Enlad, encontra-o e diz-lhe que é preciso resolver a situação. Partem os dois em busca da solução, ou pelo menos do problema.

O primeiro ponto de forte do livro, e o mais bem explorado, é sem dúvida o mistério do desaparecimento da magia. O que raio pode estar a acontecer de tão tumultuoso que até o poder dos magos se vai esvaindo? Mas aquilo que o livro tem de mais cativante é a interacção entre Gued e Enlad, o Arquimago idoso que faz muito pouco uso da magia, e o jovem princípe que ainda tem muito que aprender.

Pelo caminho encontram personagens interessantes, que merecem o destaque que lhes é dado, quase todos ex-magos ou ex-bruxas, enlouquecidos e enlouquecidas pela ausência das suas artes, mas principalmente devastados. E isso é algo que Le Guin retrata exemplarmente, a desolação de alguém que perde as faculdades, como a de alguém com Alzheimer que tem consciência de estar a perder a sua mente.

Mas a veia antropológica da autora também tem direito a algum destaque, em particular com o fabuloso povo das jangadas que Gued e Enlad encontram para lá das terras mais longínquas do arquipélago. Mereciam um livro só para eles! A autora consegue, nas poucas páginas em que aparecem, dar a entender o funcionamento de uma sociedade radicalmente diferente da nossa, habituada a viver em alto mar, em jangadas gigantescas. É fascinante.

E também há dragões. Não falha.

O que falha é o final. A explicação do “mistério” não é grande coisa, e o “confronto” final, tão antecipado, arrasta-se mais do que devia, e de forma ridícula. Não é realmente um confronto, mas sim, novamente, uma espécie de conversa anti-climática. De tal forma que aquilo que me apetecia era regressar às outras linhas narrativas presentes no livro para saber mais sobre os Mestres de Roke, o povo das jangadas, os dragões, a tintureira desolada e tantas outras personagens com muito mais interesse do que qualquer coisa que tenha acontecido nas últimas páginas do livro.

No final fiquei com a opinião de que não é um mau livro, apenas um livro agradável com um final péssimo. A vontade de continuar para o seguinte é pouca, que a sensação é a de que me ando a arrastar por estas páginas, mas só falta esse, portanto lá há-de ser!