domingo, 14 de outubro de 2012

Máquinas de Fazer Livros


Eu já aqui teorizei que ler não fica assim tão caro, mas é apenas se nós, os leitores, formos diligentes e pacientes o suficiente para andar nas feiras de livros ou nas banquinhas aleatórias em busca de algo que nos interesse. De vez em quando também há umas promoções e algumas verdadeiras pechinchas em grandes livrarias, como a Bertrand e a FNAC, que não são nada de desprezar. Se juntarmos a esta diligência e paciência o à-vontade com o inglês, tem-se a vida facilitada.

Mas imaginem por um bocado que gostam de ter os livros assim que saem, novos e em português. Aí complicam-se as coisas. E eu não posso especificamente culpar as editoras ou as distribuidoras ou seja lá o que for, a única coisa que sei de facto é que não são os autores que se fartam de ganhar dinheiro com os seus livros... Mas eu pessoalmente culpo as editoras.

Há casos e casos, editoras e editoras, mas é cada vez mais visível a distinção entre editoras que são basicamente negócios, e editoras que mantêm o espírito que acho que uma editora deve ter, a paixão pelos livros que publicam. E uns indecisos pelo meio, vá.

Para o primeiro caso há um exemplo gritante, a Leya. Não digo que seja uma má editora, publica muitos livros de grande qualidade, mas não consigo gostar desta editora. É inevitável dar por mim a pensar nela e não a imaginar como uma gigantesca máquina de fazer livros. É que a Leya foi uma editora de crescimento bastante rápido, em virtude da sua tendência a comprar editoras menores, que deu início a uma lenta mas firme monopolização do mercado. E isso é perigoso.

Enquanto leitores, corremos o risco de ver o mercado dos livros completamente dominado por uma ou duas editoras. Pior que isso, por editoras, como a Leya, que se me afiguram como negócios especializados em produção e venda massiva de livros, do que quer que seja que esteja à mão. É um caso em que, para mim, a editora ultrapassou o tamanho que uma editora deve ter.

Eu compreendo que todas as editoras sejam, na prática, um negócio. Ninguém abre uma editora com o objectivo de ter prejuízos. Mas há editoras e editoras.

No espectro oposto ao da Leya, não posso deixar de referir a Tinta da China. É uma editora bem mais pequena (em termos de feira do livro, é uma banca contra uma catrefada delas ao dispôr da Leya), e que não é propriamente barata, comparativamente aos preços de outras editoras, mas ainda não encontrei um único livro desta editora que não tivesse uma edição cuidada e simplesmente espectacular. Todos os livros editados por esta chancela são aprimorados ao detalhe, sempre com um aspecto gráfico fenomenal. E publica coisas variadas, desde as crónicas do Ricardo Araújo Pereira, a clássicos intemporais.

Paixão pelos livros e pela literatura. É disso que se trata. A Leya é uma grande máquina despersonalizada, que parece apenas tentar sugar o maior número possível de livros para os poder produzir aos lotes e pôr à venda, quase todos com o mesmo aspecto e acabamento algo... banal. Por outro lado, a Tinta da China parece ter cuidado com o que publica, tratando cada livro como uma obra em si, soltando no mercado livros mais cuidados, com melhor aspecto e com grande qualidade de uma forma geral.

Mas é óbvio que há casos intermédios. 2 casos em específico chamam-me a atenção, nesta categoria: a Saída de Emergência e a Bertrand. A primeira tem a vantagem, chamemos-lhe assim, de publicar maioritariamente para um nicho de leitores, apostando forte na vertente Fantástica, embora venha cada vez mais a diversificar o seu catálogo. Nota-se que é uma editora em que os seus responsáveis gostam de facto deste género de Literatura e se esforçam por transmitir isso aos leitores, mas depois gostam de publicar coisas Twilightianas; costumam dividir livros grandes em 2 volumes, fazendo com que tenhamos que pagar à volta de 30 euros por algo que se pode comprar por 12, em inglês; e não é, de uma forma geral, muito barata.

Tem promoções óptimas, que aparecem do nada, e uma sempre em vigor no seu site, que oferece um livro na compra de quaisquer outros 2, além de ter iniciativa da revista Bang!, mas tem pormenores que não me deixam apreciar o seu trabalho como gostaria, especialmente tendo em conta que é a editora que tem publicado as obras do David Soares... Ainda por cima o ano passado, na Feira do Livro, aconteceu algo deveras desagradável. Uma das pessoas na banca da editora, disse-me que um determinado livro não fazia parte de uma promoção porque vendia muito. Literalmente. Não foi de certeza a única a pensar assim, mas foi a única que encontrei que cometeu o erro (inocente, admito), de ter lá alguém a dar respostas destas.

E a Bertrand também tem assim umas coisas... São várias as sagas que já ouvi dizer terem sido interrompidas a meio, e só há uma razão para isso: não deram dinheiro. Compreendo a opção, mas é um desrespeito pelos leitores que investem, ainda que poucos, e que de repente têm que começar a procurar pelas continuações em inglês, isto se estiverem à vontade com a língua! É normal que estas coisas aconteçam, mas não acho que seja viável que uma editora desta envergadura se dê ao luxo de simplesmente começar uma saga e parar de repente. E isto para além de ser, de uma forma geral, cara, apesar das suas edições jeitosinhas. Por exemplo, um livro do Stephen King publicado pela Bertrand anda entre os 18 e os 25 euros, e em inglês, o mais caro que já comprei foi o It, por 10 euros. Um livro de 1376 páginas.

Enfim, já tanto falei e não cheguei a mencionar as editoras verdadeiramente pequenas, demasiadas para as enumerar, que procuram o seu nicho no mercado e que por causa disso se esmeram nos livros que publicam... Ainda que seja apenas uma questão de tempo até que a maior parte venda a alma à Leya.

Ainda tenho esperança que este panorama mude... Os livros em Portugal são caros, não há volta a dar. A desculpa dada pode ser a pequenez do mercado, comparado com os mercados internacionais, mas não me serve. A quantidade de livros que eu, e de certeza outros como eu, já compraram em inglês (e outras línguas) e em feiras é enorme. Ou seja, os leitores continuam a comprar livros, mas cada vez ignoram mais as editoras, especialmente as grandes, porque simplesmente não vale a pena. E enquanto as editoras não percebem isso, só se vão safando com os sucessos comerciais completamente incompreensíveis...

3 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Mais uma vez, parabéns pela grande crónica! Se queres falar de monopólio do mercado, acho que o caso mais gritante é mesmo o da SdE, relativamente aos géneros que publica, o que, na minha opinião, também leva a algumas medidas mais "gananciosas" que eles tomam...A colecção do Martin, por exemplo, quando terminar, vai render à volta de 250 euros por pessoa!

Em relação à Leya, gosto muito de algumas das sub-editoras, como a Caminho ou a D.Quixote, mas acho que tens razão quando dizes que está a assumir uma proporção muito maior do que devia ter e com isso apenas se vai conseguir uma edição mais descaracterizada dos livros, já notável nalguns casos e, claro, levaá a uma descida na qualidade.

Por fim, queria só adicionar algumas editoras que, embora de menor dimensão, fazem um trabalho fantástico, já que não conheço bem a Tinta da China. Embora por edfinição, as pessoas pensem que a editora mais "portuguesa" é a Porto Editora (da Leya), eu discordo e acho que é a Presença que aposta sobretudo em novos talentos nacionais e lhes dá projecção e isso é de valorizar.

Para além dela, existe a Gradiva, por exemplo, onde cada livro que sai é uma pérola interessantíssima (e só tem 2 ou 3 autores mais conhecidos) e "clássicas" como a Europa-América ou a Livros do Brasil (esta com os seus Argonautas e grandes clássicos só peca pelas edições muitas vezes descuidadas) que merecem ter o devido espaço no mercado.

Desculpa a extensão deste comentário, Rui e mais uma vez, grande crónica!

Iceman disse...

Olá Rui.
Olha, eu compreendo o papel das editoras. Nota, elas são, quer a gente queira, quer nao, simplesmente empresas e, como empresas, a intenção é puramente o lucro e o resto é conversa.
Posso ser, como sou, um crítico do panorama editorial português. Há muito aproveitamento e muita cegueira. Aproveitamento de editoras com alguns autores. Exemplo, de facto, a Saida de Emergência com o seu Martin. É verdadeiramente abjecto o aproveitamento da editora e os leitores nem mugem. Eu li os dois primeiros, nem achei nada de especial, mas recusei-me a continuar porque considero um abuso.
Depois há uma enorme cegueira e continuo conservadorismo. Numa tertulia na Bertrand, há uns meses, referi a impprtância dos blogues no meio editorial. A maioria das editoras continua a mandar sacos de livros para jornalistas e pseudo criticos que ninguém lê, esquecendo-se, ou menoprezando, da maior força de publicidade que hoje em dia existe: os blogues. Sei que isso é outro assunto, mas entronca no que escreveste.
Pessoalmente também considero que os preços sao muito altos e que, continuo a dizer, não justifica e nem acredito na justificação do baixo mercado. Penso que se podia reduzir custos se se apostasse mais nas edições de bolso como se vê nos restantes países. Mas enfim, é puramente um negócio e não é pelo interesse literário que eles lá andam, até porque podes constar de livros mediocres que são fenómenos de venda e são logo aposta das editoras, muia publicidade, etc.

Rui Bastos disse...

Obrigado Jorge! Concordo com o que dizes e não posso deixar de ficar preocupado com essa mesma descida na qualidade que referes. Só não fico mais preocupado porque como leio em inglês, tenho sempre acesso relativamente fácil aos livros quase directamente "da fonte"... E a Europa-América, ainda assim, é cara!

Olá Iceman! Eu também percebo que as editoras no fundo são empresas, com o simples intuito de fazer lucro, mas tens que conceder que há editoras que são meras máquinas comerciais, e outras que são cuidadosas e demonstram gosto pela literatura e pelo livro enquanto objecto... E sim, esse caso do Martin é absurdo, dá para comprar a colecção toda em inglês praí a 1/4 do preço, ou coisa que o valha.

Essa situação da importância dos blogues no meio editorial, há algumas editoras que já se começam a aperceber disso, lembro-me assim de repente da Presença, que nos seus livros tem a indicação de alguns blogs com críticas aos mesmos! Mas sim, os preços são um abuso de uma maneira geral, e a aposta nas edições de bolso era uma aposta ganha, sem sombra de dúvida!