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segunda-feira, 10 de março de 2014

Cidade Líquida


Título: Cidade Líquida
Autor: João Tordo

Opinião: Sem ter propriamente uma história, confesso que este conto de Tordo me aborreceu.

Normalmente até sou bastante fã deste autor, mas achei que neste caso a metáfora que tenta criar se enamora de si própria, tornando o conto numa pequena confusão.

Entre filmes, realidades, percepções estranhas de ambas as coisas, e coincidências não tão aleatórias quanto isso, o personagem principal percorre um caminho algo tortuoso, perdido entre auto-comiseração e melancolia.

Tudo temas bastante típicos de Tordo, mas que me parecem mal aproveitados neste caso. A escrita, pelo menos, tem a qualidade do costume.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

João Tordo: um tipo fixe... Louco, mas fixe


Aqui há uns dias recebi um convite do Centro de Recursos da minha Escola Secundária para ir assistir a uma sessão de conversa com João Tordo, escrito de que gosto bastante. Não hesitei muito e ainda bem! Que hora e meia fantástica!

Depois de ler O Bom Inverno e, mais recentemente, o Hotel Memória, a ideia que eu tinha era a de um escritor melancólico, introvertido, calmo e pacato. Não podia estar mais enganado.

Digo-vos, não se deixem enganar pelo ar sério da foto ali em cima: este tipo é completamente chanfrado. Na melhor acepção possível da palavra. Reparem: cheguei ligeiramente atrasado, mas ainda a tempo de o ouvir comparar a minha antiga escola com uma prisão, por causa das suas mesas de ping pong de betão. Logo a seguir matou-se a rir porque reparou em mim, graças à minha barba. Mais concretamente ao meu bigode. Disse que gostava de ter um assim. E logo a seguir disse que eu era um guarda prisional.

Pois é. Quantos de vocês é que podem dizer que têm uma barba tão gloriosa que é o primeiro tema de conversa entre vocês e um escritor de que gostam? Tomem e embrulhem!

A conversa que se seguiu foi interessante, hilariante, completamente aleatória e fantástica a vários níveis. O autor bem que se desculpou, dizendo que tinha dormido pouco, mas não se safa desta: o homem é hilariante, inteligente e passado da cabeça de uma forma que só os grandes artistas sabem ser.

Mais a sério, quando se conseguiu concentrar, Tordo falou de leitura, de escrita, das suas leituras e da sua escrita, dos seus livros e das suas experiências de vida, sempre de forma engraçada, meio a brincar e meio a sério, demonstrando uma personalidade carismática e um à-vontade que se traduziram num grande interesse por parte da juventude no público, quase tudo pessoal do secundário. E isto mesmo contando com os tipos que não se calavam, e que o autor fazia questão de pôr na linha.

Fiquei honestamente espantado com a personalidade do autor, ou pelo menos com a personalidade que mostrou nesta sessão em particular. É de escritores assim que precisamos por cá, com talento, perfeitamente capazes de separarem a pessoa da escrita, e com uma excelente forma de interagir com o público.

Se antes desta sessão já o tinha em boa conta, partirei para leituras futuras com um interesse renovado! Até me autografou dois livros (mais dois para a colecção, hurray!) e deu um especial para o Jorge, do Metáfora, a meu pedido, já que o desgraçado é que é o super fã de Tordo e não conseguiu ir. GO TORDO!

Lá pelo meio, e nos intervalos da conversa séria, ainda conseguiu falar do seu ódio a gatos, ao Cavaco Silva, ao Passos Coelho e companhia, de várias peripécias literárias e amorosas, e ainda comentou que estava a pensar escrever um livro no espaço, sem ser ficção científica. Porquê? Ora, porque sonhou um dia destes que estava numa cápsula com uma janelinha de onde via a Terra, e tinha um gato com ele, que vomitava e ele tentava apanhar o vómito com alguma coisa, para aquilo não andar a flutuar.

Verdade? Brincadeira? Eu sei lá! Mas João Tordo a escrever uma história no espaço parece-me uma excelente ideia. A conversa do gato é que me fez lembrar um certo conto do Arthur C. Clarke... Inspiração? Coincidência? Possibilidade de vermos Tordo a escrever ficção científica? Mais uma vez não faço a mais pálida ideia.

Não deixem de visitar o seu (acho eu, pelo menos parece-me legítimo) blog, e leiam coisas dele. Altamente aconselhado!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Que as citações nos caiam em cima [31]


"Tudo era memória. O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras, lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela falibilidade e não pela sua certeza."

Hotel Memória
João Tordo

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Hotel Memória

Título: Hotel Memória
Autor: João Tordo

Sinopse: Onde termina a culpa e começa a expiação? Em Nova Iorque um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses. Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro na Baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os Estados Unidos quarenta anos antes.

Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel da Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo, um romance de mistério e uma aventura nos meandros da condição humana - uma história simultaneamente intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção.

Opinião: Comprei este livro ao desbarato poucos dias antes de saber que o próprio autor pedia para que ninguém o comprasse. Parece que a editora, a Quidnovi, deixou de lhe pagar direitos de autor, bem como a outros escritores. Tenho Tordo em boa consideração, e um amigo que se pudesse passava a vida a sussurrar-me "lê Toooordoooooo", portanto reforço aqui o seu apelo. Não sei a história toda, mas palhaçada por palhaçada, mais vale prevenir.

Mas já que o comprei, falemos dele. É o segundo livro que leio de João Tordo, e pouco me lembro da história em concreto de O Bom Inverno, mas lembro-me que gostei, em particular da escrita e do ambiente que o escritor conseguiu criar no livro. Felizmente ambas as coisas se repetiram desta vez. Acho que o autor escreve verdadeiramente bem, e a forma como cria e modela um ambiente negro, melancólico e depressivo, com um ligeiro sotaque visual de policial noir nesta história em concreto, é bastante boa.

E felizmente é um autor português da nova vaga de autores lusitanos, que eu meto sempre na mesma geração que Afonso Cruz, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e outros autores recentes, que sabe contar uma história! Ao contrário de Gonçalo M. Tavares, que se está borrifando para a história, Tordo faz dela o ponto fulcral dos seus livros, pelo menos dos que li até agora, e embora tenha uma mensagem a passar, e tiradas mais filosóficas, conta uma história interessante, com um enredo minimamente credível, personagens sólidas e com meia dúzia de dimensões que são mais do que meros peões num jogo de simbolismos.

Dividido em 3 partes bem distintas, Hotel Memória conta a história de um estudante com pouco dinheiro que se apaixona e depois vê o seu mundo desmoronar à sua frente, acaba literalmente nas ruas da amargura e envolvido em coisas demasiado perigosas. A forma como o autor apresenta o desenrolar dos acontecimentos está muito bem pensada: a primeira parte serve quase de prelúdio gigante para situar o leitor na história e no ambiente, deixando-nos envolver e tirando-nos de repente o tapete debaixo dos pés; na segunda parte, com um ritmo mais lento mas infinitamente mais misterioso, aparece a história propriamente dita, aquela em que as coisas vão começar a ligar e a fazer sentido, e em que os fantasmas do passado se ligam às ameaças do futuro para confundir e intrigar o protagonista.

E é então que mais uma vez, perto do fim, o autor leva a história por um caminho inesperado e violento, aguçando o apetite para a terceira parte, um clímax espalhado ao longo de várias páginas que se vai lentamente formando a partir das memórias de outras personagens, explicando tudo o que se foi passando. E se dúvidas havia quanto à nacionalidade do autor, a importância que o fado tem na história é prova mais do que suficiente da sua condição lusitana.

Fiquem avisados que é um bom livro, de um autor que cada vez mais corresponde às expectativas que tenho sobre os seus livros ("lê Toooordoooooooo"), com uma escrita muito boa e que ainda por cima tem um ritmo bastante estável de escrita, com sensivelmente um livro publicado por ano e ainda por cima, dizem-me as minhas fontes, todos de qualidade. Muito bom!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que as citações nos caiam em cima [17]


Ora cá está uma coisa bastante interessante e que andava completamente desaparecida: citações on-demand. Com tanto livro lido entre mim e vocês, difícil é não encontrar citações interessantes. Portanto, aqui há uns tempos largos, iniciou-se esta, vá, rubrica, em que qualquer pessoa pode enviar por mail uma citação que tenha achado interessante, para ser publicada aqui no blog.

A desta vez, e que espero que faça renascer esta rubrica, foi enviada pelo Jorge Martins, meu colega de faculdade, indivíduo bastante porreiro, e um dos autores do Metáfora de refúgio.

"O sucesso é para os políticos. Os escritores vivem sempre na medida exacta do seu fracasso, que, romance após romance, se torna mais notório: cada vez é mais difícil, cada vez é mais pessoal. O sucesso completo significaria que era inútil escrever mais livros."

João Tordo

Uma citação deveras curiosa de um dos novos autores portugueses mais interessantes que já li.

Agora já sabem, o mail queaestantenoscaiaemcima@gmail.com, enviam à vontade!


terça-feira, 17 de maio de 2011

O Bom Inverno

Título: O Bom Inverno
Autor: João Tordo

Sinopse: Quando o narrador - um escritor frustrado e hipocondríaco - se desloca a Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer um escritor italiano mais jovem, mais enérgico e muito pouco sensato, que o convence a ir com ele até Sabaudia, em Itália, onde o famoso produtor de cinema Don Metzger reúne um leque de convidados excêntricos numa casa escondida no meio de um bosque. O cinema não é, porém, a única obsessão de Don: da sua propriedade em Sabaudia levantam voo balões de ar quente estranhamente vazios, construídos como obras de arte por Andrés Bosco, um catalão cuja relação com o produtor permanece um enigma. Nada, aliás, na casa de Metzger é o que parece; e, depois de uma primeira noite particularmente agitada, o narrador acorda com a pior notícia possível: Don foi encontrado morto no seu próprio lago. Bosco toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e de o castigar, isolando o grupo de convidados na casa e montando-lhes um verdadeiro cerco. Confrontados com os seus piores medos, assustados, frágeis e egoístas, estes começarão a atraiçoar-se e a acusar-se mutuamente, num pesadelo que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história.

Opinião: Comprei este livro num momento de impulsividade inesperada. Estava num daqueles dias em que me apetecia comprar um livro, só porque sim. E enquanto passeava pelas prateleiras, vi este e mal tive tempo de pensar duas vezes: peguei e paguei. A única informação que tinha acerca deste livro, e deste autor, era tirada directamente da meia dúzia de críticas que tinha lido, e do pouco burburinho que já me tinha chegado, sobre o autor. Ou seja, não sabia nada de substancial.

Foi por essas razões que parti para a leitura deste livro completamente à descoberta. Não sabia o que esperar, as minhas expectativas eram ambíguas, enfim, acho que nunca comecei a ler um livro estando tão coberto de ignorância sobre o mesmo. E foi uma experiência bastante positiva, devo dizer. Demorei algum tempo a entrar no ritmo do livro, mas a partir do momento em que o consegui fazer, "foi sempre a abrir"!

No entanto devo dizer que os meus sentimentos relativamente a esta obra são maioritariamente ambíguos. Não tenho uma opinião muito bem definida sobre o que acabei de ler, em parte por ter reconhecido um escritor português, à medida que as linhas passavam, mas ao mesmo tempo ter dificuldade em acreditar que foi de facto um escritor português que imaginou este livro. Como é que eu hei-de explicar isto... A história tem momentos e pormenores tipicamente portugueses, mas ao mesmo tempo toda a obra é uma espécie de ruptura com a tradicional literatura portuguesa.

Para começar, tem óptimas personagens, factor típico dos grandes escritores portugueses, que sempre achei serem muito focados nas personagens, às vezes mais do que na história em si. Depois é uma mixórdia completamente inusitada de géneros: policial na essência, com laivos de comédia e longas tiradas reflexivas; um estilo que oscila entre o directo e o poético; a narrativa ora a focar-se no mistério existente desde o início, ora a esquecer isso e a deixar-se embargar no terror e no horror, criando uma atmosfera absolutamente macabra.

Além de tudo isto, é ainda uma história com reviravoltas atrás de reviravoltas, com um enredo tudo menos linear, que inclui até perguntas que ficam por responder e uma personagem que achei fascinante pelo simples facto de ter tanta relevância na história embora nunca apareça com vida (a não ser em flashbacks), pormenor a fazer lembrar o Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, com o seu General Gomes Freire de Andrade.

Esta conversa toda é para dizer que gostei bastante do livro, mas que se me perguntarem em como o classificar terei uma enorme dificuldade em responder. Não me perguntem que parte gostei mais, nem qual a minha personagem favorita, porque ainda estou a assimilar muita coisa. Tenho ainda que realçar dois aspectos que achei mais negativos: um, foram os diálogos, não os achei tão excepcionais como são pintados, achei-os banalíssimos, na sua maioria, sem nada de extraordinário, nem por aí além. E outro foi toda a nebulosidade da obra. É sempre muito vaga, as descrições têm poucos detalhes, deixando no ar uma sensação de estranheza que não me convenceu por completo... Mas, como é óbvio e já disse mais acima, gostei muito do livro, e espero vir a ler mais coisas deste autor bastante promissor.