Título: Noite Sobre as Águas
Autor: Ken Follet
Tradutor: Sofia Gomes
Sinopse: Em 1939, com a guerra recém-declarada, um grupo de elite embarca no mais luxuoso avião de sempre, o Clipper da Pan American, com destino a Nova Iorque: um aristocrata britânico, um cientista alemão, um assassino e a sua escola, uma jovem em fuga do marido e um ladrão encantador, mas sem escrúpulos. Durante trinta horas, não há escapatória possível desse palácio voador. Sobre o Atlântico, a tensão vai crescendo até finalmente explodir num clímax dramático e perigoso.
Opinião: Quero deixar já bem claro que gostei do livro, mas que fiquei extremamente decepcionado, graças à citação que este traz na capa, da Publishers Weekly: "Follett tece um drama tenso e mortificante no equivalente aéreo do Expresso do Oriente.".
Isto não se faz. Este livro pouco ou nada tem a ver com o brilhante Expresso do Oriente, e embora a maior parte do que eu me lembro seja de ter visto o filme (várias vezes), a verdade é que fiquei à espera de algo tão misterioso, com um final tão chocante com tantas reviravoltas... E afinal não é nada disso.
Não é que seja mau... Este livro é bom. Bastante bom, até. A escrita de Follett é simples, clara e concisa, e o autor vai directo ao assunto, sem devanear muito em reflexões prolongadas das personagens ou em descrições minuciosas dos cenários, limitando-se a dar uma ideia geral dos sítios onde a acção se passa, e introduzindo os pormenores há medida que deles vai precisando. E é realmente um drama tenso, que evolui de forma (relativamente) rápida, embora a parte do mortificante seja bastante mais discutível...
A parte que me aborrece, como já disse, é a citação dizer que este livro é o "equivalente aéreo do Expresso do Oriente". Porque não é. Não há propriamente um grande mistério e não um ambiente de suspense tão acentuado como no Expresso do Oriente, ou em qualquer outro livro de Agatha Christie. A única semelhança que encontro, é na fórmula utilizada, com ligeiras adaptações: uma longa introdução às personagens, e só depois é que começa realmente a história, precisamente ao estilo da rainha dos policiais. Mas as semelhanças acabam aí.
Se bem que, verdade seja dita, talvez a construção e a caracterização de algumas das personagens de Follett sejam melhores do que na generalidade das personagens de Agatha Christie. É óbvio que nenhuma das personagens deste livro chega sequer aos calcanhares de Poirot, e só com algum esforço encontramos alguma coisa ao nível de Hastings, mas estão bem construídas na generalidade, com especial destaque para Eddie Deakin, o engenheiro de voo, que se vê literalmente entre a espada e a parede; e Margaret Oxenford, que enfrenta os seus próprios dilemas existenciais. Estas duas foram claramente as minhas personagens favoritas, Eddie por conseguir agir de forma tão eficaz numa situação tão complicada, e Margaret por ter uma evolução tão demarcada e por ser, no fundo, um espírito revolucionário, que luta contra o pai (fascista!) e contra os obstáculos com uma força tremenda que nem ela sabe bem onde é que vai buscar.
Bem, resumindo, um bom livro, com boas personagens, e uma boa história. Leiam sem medo, mas não acreditem, nem por um segundo, na citação que vem na capa!
