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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Que as Citações nos Caiam em Cima [22]


Uma citação curta, proferida pelo príncipe Edward, futuro rei de Inglaterra e personagem de um livro escrito por um autor que já morreu há mais de 100 anos. E ainda assim consegue ser tão actual e tão globalmente aplicável, que quem não souber de onde veio a frase, pode acreditar que foi escrita por algum comentador político irreverente, não há muito tempo. Além de que, convenhamos, quantos de vocês não ouviram já esta frase, ou alguma variação, nas vossas cabeças?

"Os reis deveriam frequentar a escola das suas próprias leis e aprender alguma caridade"

O Príncipe e o Pobre
Mark Twain

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Príncipe e o Pobre

Título: O Príncipe e o Pobre
Autor: Mark Twain
Tradutor: José Couto Nogueira

Sinopse: As aventuras de um príncipe e de um rapaz pobre que um dia resolveram trocar de vestes e experimentar viver o dia-a-dia um do outro.

Opinião: Mark Twain prova mais uma vez ser um escritor hilariante e de uma qualidade inegável. Entre piadas e momentos engraçados, consegue ainda lançar ferozes críticas à realeza e ao seu modo de vida de duas formas diferentes, ao colocar um pobre a viver na corte, e um príncipe a viver na rua.

A história do livro já é provavelmente conhecida de toda a gente, de uma forma ou de outra, numa versão ou noutra. Um príncipe e um pobre trocam de roupas e vivem como o outro durante uns dias. Mas não se deixem é enganar pela sinopse que vem na contracapa desta livro, cuja edição é muito boa, pois parece que quem a escreveu não leu a história toda. Houve troca de vestes, é verdade sim senhor, e viveram o dia-a-dia um do outro, mas não foi propriamente por vontade própria, essa última parte...

Mas se ignorarem esse pormenor e mergulharem no livro, a única reacção possível é ficarem maravilhados. Quer dizer, eu sou um pouco suspeito, pois o príncipe da história é o filho de Henry VIII, rei de Inglaterra. Cá está algo que eu não sabia, esta história passa-se na época dos Tudors! Toda uma dinastia absolutamente fascinante, que conta com o rei que volta e meia decapitava as mulheres, a rainha que ficou conhecida por Bloody Mary, e a que ficou conhecida por Virgin Queen. Esta dinastia reinou durante uma época turbulenta, após guerras, durante guerras e a cisão com a Igreja Católica, e tem uma história absolutamente fascinante.

Sim, fascínio é a palavra certa. Entendem agora que sou um pouco suspeito, assim que vi que o príncipe da história era um Tudor, só não iria apreciar bastante o livro se este fosse uma terrível abominação da literatura. E estamos a falar de Mark Twain, a opinião mais objectiva e imparcial sobre o seu trabalho não pode negar que foi um escritor que marcou a literatura de forma muito positiva.

Este livro em particular, como eu já referi, solta crítica atrás de crítica ao modo de vida luxuoso da realeza e da nobreza em geral, através de situações como a do pobre Tom Canty, tomado como rei, ter 300 e tal pessoas a trabalharem para lhe servirem o jantar, ou outras tantas para o vestirem e despirem. Impossibilitado de fazer o que quer que fosse sozinho ou por si só, incluindo apanhar chibatadas por erros nos estudos, tarefa para a qual tinha sido designado um rapaz como apanhador oficial de chibatadas em vez de Sua Majestade, o pobre rapaz pobre acaba por se habituar a viver rodeado de tanto luxo, gastos e protocolos estapafúrdios.

Enquanto isso, o verdadeiro príncipe, e mais tarde rei, Edward VI, era arrastado pelas ruas, tomado como mendigo enquanto tentava convencer toda a gente de que era o príncipe de Inglaterra. O choque entre aquilo a que estava habituado e a, digamos assim, vida real de uma pessoa normal é tão grande que leva a situações deveras engraçadas. Além disso, durante o período em que anda vestido de andrajos pelas ruas de Londres, como apenas mais um pedinte, testemunha actos de crueldade e de violência permitidos e até decretados pelas leis de Inglaterra, e fica genuinamente horrorizado por alguns.

Tom Canty de um lado e Edward VI do outro apercebem-se das diferenças abissais entre a vida na corte e a vida nas ruas, e tanto um como o outro sofrem na pele as dificuldades, ou completa ausência delas, de ser o príncipe de Inglaterra ou um simples mendigo. A crítica social não podia ser mais evidente e mordaz, através de situações ligeiramente bizarras e quase sempre engraçadas, tudo isto com uma prosa sem falhas e um narrador completamente à-vontade. Caso não tenham reparado, gostei bastante do livro, e mal posso esperar por ler mais deste brilhante escritor.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Que as citações nos caiam em cima [12]

Uma reflexão brilhante e intemporal, que devia ser tatuada na testa de todos os políticos.

"Observareis que a minha lealdade dizia respeito à Pátria, não às suas instituições nem aos que exerciam o mandato. A Pátria é o verdadeiro, o substancial, o eterno; o que se considera e defende e ao que uma pessoa deve render preito; as instituições são extrínsecas, simples vestuário, e o vestuário gasta-se, rompe-se, deixa de ser cómodo, deixa de proteger o corpo das inclemências do Inverno, das doenças e da morte. Ser leal aos trapos, dar vivas aos trapos, gritar pelos trapos, idolatrar trapos: morrer por trapos, é lealdade absurda, pura animalidade; pertence à monarquia, é inventado pela monarquia; que a monarquia fique com isso."

Mark Twain, "Um Americano na Corte do Rei Artur"

terça-feira, 26 de julho de 2011

Um Americano na Corte do Rei Artur

Título: Um Americano na Corte do Rei Artur
Autor: Mark Twain
Tradutor: Nascimento Rodrigues

Sinopse: Revólveres, canhões ou motores, não há nada que escape a Hank Morgan, o chefe de uma fábrica de armas em Hartford Connecticut. Mas uma luta com um dos trabalhadores põe Morgan inconsciente e fá-lo recuar até... ao século VI. Em Inglaterra, no meio do mítico reino de Camelot, com rei Artur, Lancelot e Guinevere. Com inúmeras adaptações no cinema, Um Americano na Corte do Rei Artur encanta tanto as crianças como os adultos.

Opinião: O azul da capa deste livro é espantabuloso! É que nem vos passa pela cabeça, é absolutamente hipnotizante, estupidamente apelativo e perfeitamente azul. Fiquei tão fascinando que tratei logo de tornar este livro no "próximo a ler" o mais rapidamente possível. E cá está.

Ainda por cima até custava a acreditar que eu ainda não tivesse lido nada deste tão famoso escritor, especialmente se se tiver em conta que tenho ali uns 2 ou 3 livros da sua autoria. Pois bem, esta verdadeira comédia pareceu-me ser o livro ideal para me iniciar na leitura da sua obra, aproveitando o facto de ter saído na colecção "Não Nobel", pois de outra forma acho que nunca iria saber que este livro existia (só conheço um filme, e não tem NADA a ver) e muito menos que foi escrito por Mark Twain!

E apesar de ter as expectativas presas naquele limbo entre "altas" e "o que raio é que vai sair daqui?", por tanto ouvir falar do autor, apesar não lhe ter lido nenhuma obra, fiquei satisfeito. Tremendamente satisfeito.

"Camelot... Camelot - pensei. - Não me lembro de já ter ouvido esse nome. Será o do manicómio, possivelmente."

É assim que verdadeiramente se inicia a história, depois de um começo curioso em que o autor se descreve a si mesmo a dar de caras com um homem desconhecido de modos um pouco estranhos, que acaba por lhe falar da história narrada ao longo do livro, mostrando-lhe o diário novelizado que escreveu enquanto esteve "prisioneiro" de uma época passada, ao serviço do Rei Artur (esse mesmo, o das lendas). A partir daí, e começando com aquele excerto que transcrevi acima, lemos esse mesmo diário, acompanhando as aventuras da Hank Morgan na Inglaterra do século VI.

O tom do relato é essencialmente cómico, apesar de o fazer sempre com uma cara séria, se é que me faço entender. Descrevem-se as maiores barbaridades e parvoíces, sempre com uma linguagem impecável e imperturbável, o que dá toda uma nova dimensão cómica a tudo o que se passa, desde os cavaleiros convertidos em vendedores de sabonetes, às equipas de basebol constituídas apenas por soberanos dos vários reinos existentes naquela época...

Tudo aquilo que o livro tem de cómico deriva da transposição da tecnologia e do conhecimento do século XIX, do ridículo dos comportamentos das personagens da época e da sua ingenuidade. Estes três elementos permitem que Hank, através de uma série de truques, tornar-se a segunda pessoa mais importante do reino, suplantando o próprio Merlin, que neste livro não passa do pior tipo de charlatão: aquele que não acredita que o é.

De notar especialmente o humor e a classe com que esse humor chega até ao leitor. É preciso, no entanto, ter em atenção que os mais variados tipos de humor, todos bem misturados, no início, comecem a dar lugar a um tom muito mais ácido e corrosivo, de autêntica crítica já pouco disfarçada, dando lugar a apenas alguns escassos gracejos aqui e ali.

É um livro fascinante, tal como a capa desta edição. Acho muito bem que o leiam e fiquem maravilhados por vocês mesmos, com uma obra capaz de fazer soltar gargalhadas na mesma medida em que faz pensar. O que, aliás, se lerem, vão ver que só confirma aquilo em que cada vez mais acredito: é o humor que permite uma melhor visão do mundo como ele realmente é.