quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Meridiano de Sangue

Título: Meridiano de Sangue
Autor: Cormac McCarthy
Tradutor: Paulo Faria

Sinopse: Um jovem que vaga pelo sul dos Estados Unidos acaba por se unir a um grupo de aventureiros que pensam fazer razias em território mexicano. Quando o bando é dizimado por Comanches, o rapaz é obrigado a atravessar um deserto até chegar à cidade de Chihuahua, onde é levado par ao presídio. É então que é recrutado para uma expedição comandada pelo capitão Glanton, dedicada à caça de escalpes. Sob a prodigiosa influência do juiz Holden, o grupo vai-se afundando numa espiral de violência, cometendo actos cada vez mais sanguinários.

Opinião: Este livro custou 1 euro. Agora que já tirei essa informação de dentro de mim, deixem-me dizer-vos que a qualidade da edição não é a melhor, como seria de esperar. Mas, espantem-se, não tenho defeitos a apontar à tradução. Paulo Faria foi cuidadoso e meticuloso, o que se pode verificar na sua nota introdutória, em que diz como fez pesquisa por causa de pequenos detalhes, de forma a que ficassem perfeitos. Um trabalho de tradução muito bom.

E a capa não é propriamente horrível. Tendo em conta o livro que é... até que encaixa. Mas falemos do livro em si. Já tinha lido e adorado o Este país não é para velhos, e este manteve-se na mesma linha. A escrita está diferente, já não há tantas frases cheias de e isto e aquilo e e e e e, embora ainda façam as suas aparições, e achei-a mais densa, mais pesada. O ambiente implacável e cruel continua praticamente na mesma, possivelmente ainda pior, se é que isso era possível, depois de Anton Chigurh e de todas as atrocidades que o outro livro relata.

Pois bem, em Meridiano de Sangue, para além do juiz Holden, que merecia uma série de livros só para si, tal é a dimensão, profundidade e genialidade da sua louca personagem, há toda uma série de personagens cujo papel envolve simplesmente chacinar pessoas. Há escalpes a serem cortados a meio dum cavalgada, crianças agarradas pelos tornozelos e esmagadas numa rocha, enforcamentos, mortes cruéis de companheiros feridos, esventramentos... Digamos que não é um livro aconselhado a mentes mais sensíveis.

Se bem que ainda assim, não o achei tão cruel e violento como estava à espera, das opiniões que já tinha ouvido. É agressivo, bastante, mas a escrita de McCarthy permite passar por cima dessas passagens apenas como mais uma parte da violência que caracteriza o livro em geral. Sim, porque este livro é um livro sobre a violência, sobre o destino, a Humanidade e sobre como todas estas 3 coisas estão irremediavelmente ligadas. A violência é o destino da Humanidade, que é intrinsecamente violenta e cujas parcelas individuais, as pessoas, se regem pelo seu destino, sendo normalmente assoberbadas pela sua violência.

Pelo menos foi a ideia com que eu fiquei. A história parece centrada num rapaz, de tempos a tempos, mas é claramente uma obra muita mais abrangente, como os discursos do juiz confirmam. A mera presença desta personagem é o suficiente para eclipsar a maioria do que o rodeia, mas os seus monólogos são simplesmente hipnóticos. É nessas alturas que se pode ver como além de completamente louco e bizarro, o juiz é uma personagem deveras inteligente e culta.

Pessoalmente gostei bastante. A forma como a violência é retratada é bastante crua e agressiva, mas a violência é isso mesmo, e não é com metáforas bonitas a disfarçar o sangue, as entranhas e a brutalidade que quem lê vai perceber a violência de uma situação. E tenho algum receio de estar a menosprezar as outras personagens, mas o rapaz, Glanton, o ex-padre, Toadvine e tantos outros são personagens interessantes e bem construídas, só têm mesmo um problema, que é terem que conviver na mesma obra com o juiz Holden.

A sério! E juntem a essa personagem, bem como à qualidade das outras, a prosa rica e densa de McCarthy, e garanto-vos que têm aqui um livro que pelo menos não vos vai deixar indiferentes.

2 comentários:

Iceman disse...

O juiz Holden é das personagens, de sempre, que mais me fascinaram.
Já leste mais algum livro de Cormac?
Pessoalmente, acho-o o melhor escritor da actualidade, talvez a par de Yasmina.
A Estrada reli-o há dias atrás, é brutal.

Rui Bastos disse...

Só mesmo este e o "Este país não é para velhos", nem sequer tenho mais nada dele cá em casa, e ando bastante curioso...