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terça-feira, 2 de julho de 2013

Amor

Título: Amor
Autor: Anton Tchékhov

Opinião: Sou cada vez mais um fã confesso de autores russos. Praticamente todas as vezes em que leio alguma coisa de um autor russo, fico rendido: ao estilo, à mestria da escrita, às descrições fabulosas e histórias intensas.

Sim, deixam-me rendido, completamente. Raramente me desiludem, pelo menos no que até agora li. Este conto de Tchékhov não é excepção.

Apesar do tema ser um que normalmente não tenho paciência para ver numa história, o autor consegue, à semelhança de outros de que já aqui falei, escrever uma história interessante e tão bem escrita que me mantém preso até ao fim.

A visão do amor que o autor apresenta tem características duais: se por um lado é cego e irracional, poderoso e devastador, por outro é também assustador, profundamente idiota e até insensível.

E o que Tchékhov demonstra, nesta história sobre uma paixão arrebatadora que se revela sem qualquer sentido, é que ambos os lados são indissociáveis e no fim não há vencedores, apenas amor, seja lá o que isso for exactamente!

O autor faz isso de forma muito interessante, e ainda por cima com uma escrita muito boa, que me manteve interessado pelas simples mestria e beleza da forma.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Que as citações nos caiam em cima [13]

Uma citação mais curta, saída de boca de um homem que se prepara para matar outros dois, depois de uma das vítimas lhe perguntar se não era capaz de ter misericórdia pelo seu cocheiro, deixando-o viver, já que era ele, que falava, que tinha o dinheiro. Acho que é um choque interessante entre o desespero, a ignorância, a fé cega, a frieza e a inconsciência a que o ser humano se encontra constantemente sujeito.

"Se o deixarmos vivo será a primeira testemunha contra nós; custa o mesmo matar um ou matar dois. Para sete pecados basta uma penitência. Rezem a Deus, e pronto; basta de palavras!"

Anton Tchékhov, "A Estepe"

A Estepe

Título: A Estepe
Autor: Anton Tchékhov
Tradutor: Cordeiro de Brito

Sinopse: Considerada uma das mais belas narrativas de Tchékhov, A Estepe narra a viagem de um rapaz para uma cidade distante, onde irá estudar, acompanhado por um padre e um mercador. A despedida da sua casa, é também a despedida da sua infância. O romance foi publicado pela primeira vez em Março de 1888 na revista "Severnyi vestnik", representando a maturidade da sua ficção publicada numa revista literária e não num jornal como era habitual. O livro foi posteriormente considerado "o dicionário da poética de Tchékhov".

Opinião: Um pequeno livro, este quinto volume da colecção "Não Nobel". Escrito por Anton Tchékhov, um dos grandes vultos da literatura russa, conhecido especialmente pelos seus contos e textos dramáticos, deixou-nos esta obra que aparenta não ser nada de especial, mas que contém uma série particularidades e de temas passíveis de escapar a olhares mais desatentos.

A história em si, em termos narrativos, não é nada de muito extravagante. Iegoruchka é um jovem rapaz que parte com o tio, Ivan Ivanovytch, com o padre Cristovão e com Deniska, com o intuito de atravessar a gélida estepe russa e assim ter a oportunidade de prosseguir estudos, para se tornar alguém. Pelo caminho, os seus companheiros têm necessidade de fazer um desvio, para fazerem negócio, e deixam Iegoruchka entregue a uma caravana de infelizes carroceiros, junto dos quais enfrenta uma tremenda tempestade, que o deixa doente, e após a qual chega finalmente ao seu destino, ficando entregue a uma amiga da sua mãe.

Aquilo que é de facto relevante no meio disto tudo, para além da visão inocente que Iegoruchka tem daquilo que o rodeia, é que a travessia da estepe acaba por se tornar, como vem referido na sinopse, um autêntico ritual de passagem para o jovem russo, que de forma absolutamente inconsciente e gradual se vai apercebendo de como a vida é e de como é que as coisas realmente se processam. A sua inocência, que se vai perdendo, no fim de contas, permite a Tchékhov retratar na perfeição as condições das classes russas mais pobres, como terem que atravessar uma extensão gélida e mortificante como a estepe russa, completamente descalços, enfrentando tempestades e sabe-se lá mais o quê.

Mas o que eu achei mais fascinante foi a descrição sorrateiramente personificante que o escritor faz da estepe ao longo do livro, dando-lhe vida e deixando-me sempre à espera que ela simplesmente falasse com as outras personagens. Foi um trabalho verdadeiramente bem feito, esta caracterização da estepe enquanto personagem omnipresente, à qual todas as outras personagens parecem ser inconscientes. Chegam até a haver alguns deliciosos momentos de empatia entre a estepe e as personagens, especialmente Iegoruchka, um fenómeno que não consigo descrever, que deixa apenas uma breve impressão, depois de se acabar de ler as passagens em que isso acontece, e que apenas me deixa a opção de vos aconselhar a ler o livro, que apesar de não me ter deixado de forma alguma assombrado com aquilo que oferece, já valeu a pena, graças à personagem principal desta pequena novela: a estepe.