quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Saving Mr. Banks (2013)



De vez em quando fazem-se filmes de coisas idiotas. Umas alminhas lembraram-se de fazer um filme baseado no jogo da batalha naval, por exemplo. Mas além deste tipo de idiotices, as sequelas e prequelas também costumam ser uma das apostas favoritas, num espírito de facilitismo que só convence pessoas com cifrões dos olhos. Ou então fazem-se remakes, algo ainda mais fácil: já existe o guião e até já existe um filme inteiro por onde copiar e guiar o novo filme. Por vezes até se justifica, mas a maior parte das vezes nem por isso.

No entanto, e isto cada vez é menos raro, ou pelo menos cada vez tem mais visibilidade, fazem-se filmes interessantes. Verdadeiramente interessantes. Coisas novas, cativantes, originais e que mesmo não sendo vistosas, são bem feitas. É o caso de uma outra moda que aprecio e que ainda não me desapontou: os biopics, filmes semi-biográficos de grandes figuras ou momentos marcantes da nossa História.

É o caso deste Saving Mr. Banks, cuja premissa não me convenceu. Não tinha grande interesse em ver um filme sobre o filme da Mary Poppins, por muito interessante que essas histórias de bastidores normalmente sejam. Mas a sinopse já teve outro efeito. Foi aí que percebi que isto não era uma mera história sobre a história, mas sim a história da autora do livro em que o filme se baseia, P.L.Travers (interpretada por Emma Thompson), uma mulher com uma infância difícil e uma personalidade complicada.


Só que o filme não fica por aí. O foco, aliás, até está na luta que esta trava com Walt Disney (interpretado por Tom Hanks) relativamente ao filme. Ele quer mais um sucesso, com a animação que já é a sua imagem de marca, capaz de agradar ao todos os públicos de uma forma simples e directa. Ela recusa vender a sua história a não ser que sigam as suas indicações muito específicas e exaustivas.

No fundo é uma luta de ideais entre Disney, o homem com uma criança dentro de si, e Travers, a mulher que deixou de ser criança muito cedo. Um obriga toda a gente a tratá-lo pelo primeiro nome, e incentiva um ambiente de trabalho bastante informal, e a outra é extremamente britânica e insiste que o seu nome é Mrs. Travers.

Disney é expansivo, brincalhão, afável, sonhador e idealista; Travers é ríspida, séria, antipática e nostálgica. Era difícil encontrar duas personagens mais contrastantes, ambas bem representadas, embora Tom Hanks não me convença muito e Emma Thompson demonstre, mais uma vez, a sua enorme capacidade.

O filme é entrecortado e contado em dois tempos diferentes. De um lado Mrs. Travers tenta criar um filme que lhe agrade, indo frequentemente contra as directivas do próprio Walt Disney, para desespero da equipa de criativos responsáveis pelo guião e pela música. Do outro a história de infância de Travers na Austrália.


É essa segunda história que dá relevância à primeira, ao mostrar o pai bêbedo mas preocupado, constantemente deitado abaixo pelas agruras da vida e que recorre à bebida para se refugiar, muitas vezes em sacrifício da sua vida familiar. Quem sofre é principalmente a sua mulher, já que as três filhas, além de muita amadas, são demasiado novas para perceber. Só a futura Mrs. Travers é que começa também a partilhar a responsabilidade com a mãe, quando se apercebe da necessidade que o pai tem de beber álcool.

Quando tudo corre mal, chamam a tia, rígida mas carinhosa, a única pessoa capaz de pôr ordem naquela casa. É assim, com os pedaços certos de história a aparecerem nos sítios certos no meio da história principal, que ficamos a perceber que algumas das manias de Mrs. Travers têm causas fortes com raízes na sua infância. Assim como muitos dos seus maneirismos e peculiaridades, bem como a insistência em controlar cada detalhe do filme.

Na realidade, o livro não é apenas uma história infantil, é em parte a sua própria história, reescrita para honrar o seu pai, de quem tanto gostou e que nunca foi propriamente cruel, nem negligente, mas sim irresponsável, por ser demasiado sonhador.

Esse é o dilema que Disney e os seus colaboradores parecem não perceber, o que muito exaspera a autora. Só com o passar do tempo, e com muito esforço de toda a gente, é que lentamente a vão conseguindo convencer de que aquele filme é uma boa ideia. Ao mesmo tempo, a história secundária que nos é mostrada explica a origem de todas as inseguranças reprimidas de Travers, e que tantas barreiras impuseram sobre as suas decisões.


No fim percebemos tanto um lado como o outro, e é difícil não simpatizar com todas as personagens. Outra personagem notável é o motorista que leva a autora todas as manhãs para os estúdios e todas as noites de volta ao hotel, Ralph (interpretado por Paul Giamatti), que se torna no seu amigo improvável. A sinceridade com que fala com ela é incrível.

Mas não fiquem a pensar que é um filme lamechas, antes pelo contrário! Isto é praticamente uma comédia, pontuada de momentos dramáticos, mas que servem sempre para fazer a história avançar ou para evoluir as personagens, e nunca em vão. A maior parte desta comédia vem do embate da personalidade peculiar e estereotipicamente britânica da autora com as americanices e criancices de Disney e companhia, e é espectacular. Por vezes subtil, por vezes mais óbvio, mas sempre bom.

Ah, e não posso terminar sem uma nota final para Colin Farrel, que interpreta o pai da autora durante a sua infância na Austrália, e que realmente consegue o equilíbrio perfeito entre adulto irresponsável e pai sonhador.

Um filme que vale a pena ver, sem dúvida, e que não só é relevante por si só como dá uma nova relevância à Mary Poppins.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Anjo mais Estúpido


Autor: Christopher Moore
Tradutora: Leonor Bizarro Marques


Opinião: Eu gosto deste autor, a sério que gosto. Dos dois livros dele que li antes deste, adorei um e fiquei altamente desapontado com o outro, mas fiquei com noção que a culpa não era do livro/autor, mas sim do facto daquele ser o segundo volume de uma trilogia sem mais nenhum volume publicado em Portugal.

Com a leitura deste O Anjo mais Estúpido, esperava não só ter uma leitura natalícia a condizer com a época do ano, como recuperar a boa impressão que tinha de Christopher Moore. Infelizmente isso não aconteceu, e desta vez tenho que pôr culpas no livro/autor, mas também na tradutora, de quem falarei no fim.

Para começar o livro é puro humor destilado. Não há aqui nenhuma tentativa muito pronunciada de desenvolver personagens ou uma narrativa coerente. Há uma história, sim, mas tudo acontece com o propósito de proporcionar momentos de comédia. E quanto mais idiotas, melhor.

O “problema” começa aí, e não é bem um problema. É que o tipo de humor, muito americano, não é o meu tipo de humor favorito. Em doses pequenas torna-se agradável, mais que não seja porque me leva a rir, quer eu queira quer não, de tanta idiotice pegada, mas é só. Sou muito mais fã do humor britânico, por exemplo, igualmente palerma e surreal, mas com uma abordagem muito diferente.

Isto para dizer que logo à partida, não é fácil de me convencer com um livro destes. Mas como o primeiro livro que li do autor, Guia Prático para Cuidar de Demónios, me agradou bastante, tinha confiança. Só que este livro, apesar de engraçado, não é assim tão engraçado quanto isso. O autor parece esforçar-se demasiado para que as situações e as personagens tenham graça, e portanto não há nada normal nesta história, e sem algo normal para contrastar, as situações exageradas parecem apenas isso: exageradas e sem sentido.

É claro que é difícil não ser engraçado quando se conta a história de uma pequena cidade americana com um polícia de inclinações hippie, a sua mulher ex-actriz de filmes de série B e actualmente completamente louca dos cornos, um aviador com um morcego de estimação, um biólogo com eléctrodos nos testículos para controlar os seus próprios impulsos sexuais, e uma horda de zombies com uma estranha apetência por móveis do IKEA, entre muitas outras coisas. Portanto nem tudo é mau.

O verdadeiro problema, este sim relevante, é a tradução. Eu sei que avaliar a tradução é uma tarefa um bocado ingrata para quem a faz, sem ter o original ao lado, mas neste caso há problemas inegáveis. A começar pelas notas da tradução, das quais o livro está cheio, e das quais noventa por cento eram dispensáveis. Ninguém precisa que lhe expliquem quem é o “Barba Negra”!

Depois alguns erros gramaticais graves, que tornam as frases altamente confusas. E o pior de tudo é o facto da melhor piada do livro inteiro, e que é intraduzível para português, passa despercebida por não ter uma nota de tradução num sítio onde era realmente preciso haver uma! Vejam a frase: “Afinal de contas, a negação não é apenas o nome de um rio no Egipto.”. Qual é a piada? Qual é, sequer, o sentido disto? Eu que não tenho problemas com o inglês, cheguei lá, mas não foi imediato, e outra pessoa menos fluente nunca na vida apanharia esta piada. O truque está na sonoridade: negação em inglês é denial, que se lê da mesma forma que the Nile, ou o Nilo, o maior rio do Egipto!

A piada é genial, e estas manhosices da tradução escondem-na por completo e tornam a frase em algo inconsequente e idiota. No fim, todos estes problemas fazem com que a minha classificação deste livro tenha que ser puxada para baixo. Parece que foi uma tradução feita em cima do joelho, sem que a tradutora prestasse grande atenção ao que estava a fazer. E isso não é nada bom.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Nos Limites do Infinito


Autores: Ana Luiz, Ângelo Teodoro, João Rogaciano, Ricardo Dias, Rui Bastos, Yves Robert


Opinião: Sou um pouco suspeito para comentar este livro. Tem um conto meu! Mas como é uma antologia com contos de cinco outras pessoas, tive que ler.

Já conhecia todos os autores de outras obras, mas o mais importante antes de abrir o livro é notar que tem lombada, apesar de ser fininho, com as suas pouco mais de sessenta páginas. Parece algo idiota de se fazer notar, mas para mim foi uma vitória.

A segunda coisa em que é preciso reparar é nas ilustrações, que são muito boas e fazem deste livro o mais bem-parecido desta jovem editora, com uma capa branca muito distintiva graças aos esboços negros que representam cada um dos contos.

Tudo bons augúrios, portanto. Só falta pegar, ler e ficar com opinião dos contos!

O primeiro é Sorte ao Jogo, de Ana Luiz, e digo já que é um dos meus favoritos. Convenceu-me logo ao início, com diálogos realistas como é raro de encontrar, ainda que a partir de certa alturam tenham regredido em qualidade. Como a autora disse na apresentação, a história de um pacto infernal e de jogos arriscados para a alma não é propriamente original, mas está bem apropriado e adaptado para o universo português.

A seguir vem A Pele de Penélope, de Ângelo Teodoro, que tem uma boa escrita e uma ideia muito boa, mas uma execução abaixo de óptima. O principal problema é a forma como a escrita se enamora de si própria e se perde num mar de metáforas exageradas. O outro problema é a personagem principal com decisões e acções muito incertas e inconsistentes.

O conto seguinte é Memórias de Teddy, de João Rogaciano, outro dos meus favoritos, que só pelo título e descrição do autor me tinha deixado a pensar em João Barreiros e a sua fixação literária com brinquedos. Tive algum receio, mas depois de ler fiquei agradado. É claramente na mesma onda, mas diferente o suficiente, com um estilo próprio e uma boa escrita, apesar do desfecho ser ligeiramente óbvio, deitando a perder a surpresa que podia ter sido.

Depois vem A Casa da Rua dos Mirtilos, de Ricardo Dias, que me aborreceu um pouco. É um conto juvenil, como tinha sido dito na apresentação, o que não tem nada de mal, à partida, mas neste caso não correu bem. A estrutura da história não é eficaz, o desfecho deixa a desejar, e as personagens são demasiado exageradas, e nem a escrita mais do que razoável salva o conto.

Como quinto conto aparece o fantástico A colina que olha para ti do espectacularmente bem-parecido Rui Bastos, um autor fora de série que merecia já o Nobel. Ok, eu confesso, sou eu: surpresa! Fora de brincadeiras, não vou opinar sobre o meu conto, excepto para dizer que sofre do mesmo mal que todos os contos da antologia… Mas já lá vamos.

Antes é preciso falar de Entre Estações, de Yves Robert, que mais parece um excerto daquilo que podia ser um excelente livro, já que o conceito aqui explorado é muito interessante, apoiado por uma boa escrita.

A opinião geral é positiva, e acho sinceramente que esta é a melhor antologia da Divergência até ao momento, embora eu seja suspeito, como é óbvio. Tenho é de apontar que todos os contos sofrem de um gravíssimo caso de demasiado tell e pouco show em momentos em que isso teria sido muito mais eficaz. Eu incluído como culpado principal!

Mas de facto, se descontarmos isso e um, talvez dois contos menos bons (sem contar com o meu), este é um bom livro!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Star Wars Episode VII: The Force Awakens (2015)



Não foi horrível! Toquem os trompetes e bradem aos céus! Foi um filme de Star Wars como deve ser. Divertido, cativante, com suficientes acenos ao passado e óptimas questões deixadas em aberto, para o futuro. Os novos actores são, de uma maneira geral, muito bons, e não apareceu nenhum Jar-Jar Binks, nem conversas sobre o Senado, nem midichlorians nem nada que se pareça.

No fundo foi um filme de aventuras, leve e divertido, bem feito, fiel ao espírito original mas compreensivelmente adaptado às audiências de hoje em dia.

Os cenários são realistas, da mesma forma que o eram na trilogia original, e praticamente não há personagens que pareçam falsas montanhas de CGI. No entanto tudo isso perde importância face às personagens.

O filme começa por seguir Poe Dameron, o melhor piloto da Resistência e interpretado por Oscar Isaac, que embora apareça pouco, é impecável. Sou fã deste actor desde que vi Ex Machina e não me desiludiu. Espero que tenha um pouco mais de proeminência, nos próximos filmes.

O foco rapidamente muda para duas personagens peculiares: Finn, o Stormtrooper renegado interpretado por John Boyega, e Rey, a underdog de serviço, interpretada por Daisy Ridley. Ambos se encontram através de circunstâncias improváveis e acabam por ter papéis igualmente improváveis no desenrolares dos acontecimentos - com a devolução da Millenium Falcon ao seu dono original a ser provavelmente o mais icónico deles todos.

Boyega é engraçado, e tem uma história pouco usual para quem apanha o Universo Star Wars: um Stormtrooper que recusa e combate o seu condicionamento, se vira contra os seus chefes mauzões e se alia aos bonzinhos. Mas é Rey que domina, empurrando até Finn para um papel secundário. Não há que enganar: a protagonista é Rey, a personagem encontrada num planeta deserto e que é, acidentalmente, especialista em mecânica de naves espaciais.

Com aspecto de ser da família da Keira Knightley e uma vivacidade digna da saga, é esta personagem que verdadeiramente faz tudo avançar. E bem.

Como é óbvio, os vilões são brutalmente interessantes. O misterioso Snoke, interpretado por Andy Serkis, ainda tem que ser mais explicado e contextualizado, mas já deu para perceber a ideia: Sith Lord super poderoso com planos megalómanos. Mas é Kylo Ren que me interessa. O vilão-mistério dos trailers, com o seu já icónico lightsaber mais parecido com uma espada medieval do que outra coisa.

E aqui chego a um dilema. De um lado, a personagem, fascinante e que me interessou verdadeiramente; do outro, Adam Driver, o actor, que por qualquer motivo não me convenceu minimamente. A revelação das suas origens é chocante, aquilo que faz perto do final é ainda mais chocante, o seu domínio da Força é extraordinário, e a sua falta de domínio do próprio temperamento é ainda mais espectacular. Aqui está um vilão que além de ser complexo e fugir ao estereótipo de vilão super poderoso e confiante de si, ainda enfrenta um dilema novo neste Universo e que muito me interessa ver explorado: alguém que abraça o dark side mas sente a tentação do light side.

Uma ideia tão simples e com repercussões tão brutais! Os meus mais sinceros parabéns a quem teve esta ideia!

No fim percebe-se que há muito fan service, mas não achei que tenha sido mal servido. Não exageraram, o que é bom. E tudo isto faz de The Force Awakens um bom filme e um extraordinário Star Wars, que reacende a chama, ainda que não seja extraoardinário!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sharaz-De


Autor: Sergio Toppi
Tradutor: João Miguel Lameiras


Opinião: Mas que livro excepcional. E nem é preciso ir muito longe: olhem-me para aquela capa. As ilustrações são todas assim, completas, cheias, em páginas enormes sempre preenchidas. Não é difícil uma pessoa esquecer-se da história que está a ser contada, para se perder nos desenhos.

O que é contado também vale bem a pena, atenção... A estrutura repetitiva pode cansar muita gente, mas a mim não me desagradou, porque é uma estrutura que até aprecio. Especialmente quando o tom dado a cada história é o mesmo que se dá aos mitos: aquela sensação de serem histórias "maiores do que a vida", suficientemente específicas para soarem verdadeiras mas suficientemente gerais para soarem como lendas.

Só que as ilustrações são verdadeiramente impressionantes, seja a preto e branco, seja a cores, e deslumbram completamente qualquer pessoa que pegue no livro. A forma como tudo encaixa nos diálogos e na história é extraordinária. A fluidez da narrativa escrita e da narrativa desenhada tem uma qualidade como acho que nunca vi em mais lado nenhum.

As histórias em si são diferentes daquilo a que estou habituado, já que são histórias baseadas em histórias baseadas em histórias (...ad eternum) passados no Médio Oriente, e que nasceram, exactamente, nas tradições, mitos e fábulas do Médio Oriente. A roupagem talvez seja algo diferente, por estarem a ser recontadas por um italiano, mas a diferença é marcante o suficiente para ser genuína.

Este é, como já deu para perceber, um livro excelente, que me encheu as medidas, especialmente por causa das ilustrações. Não o aconselho facilmente a qualquer pessoa, que a estrutura repetitiva da escrava que é salva mais um dia, para contar mais uma história, rapidamente pode aborrecer algumas pessoas, mas a quem não tiver problemas com isso, digo para não hesitar! E quem tiver problemas, que experimente, ou que pelo menos veja os desenhos. Valem bem a pena.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Último Europeu


Autor: Miguel Real


Opinião: Começo-me a sentir como aqueles professores que dizem "eu gostava era de vos dar boa nota a todos, ou melhor, nem sequer vos avaliava". É o que eu sinto com livros de autores portugueses. Como fã e defensor da nossa literatura, assim como aspirante a fazer parte dela, como podem comprovar amanhã, ou comprando o livro em pré-venda (é assim que se faz publicidade subtil, não é?), gostava mesmo que todos os livros de autores nacionais fossem espectaculares.

Infelizmente deparo-me frequentemente com desilusões, seja mais um livro incoerente do Gonçalo M. Tavares, ou um incompreensível tomo do David Soares, parece que nada se safa. Não é fácil encontrar algo agradável.

Foi com algum alento que ouvi falar de uma distopia portuguesa! Ligeira excitação que só durou até ver a capa e ler a sinopse. Calma que não é uma distopia, é uma utopia. E não é ficção científica, é um ensaio filosófico sob a forma de prosa de ficção.

A sensação imediata foi a de FC com vergonha de ser FC. Algumas páginas depois de começar a ler, a suspeita acentuou-se: isto é ficção científica com vergonha de o ser, por algum motivo. Não sei se puro marketing, se por vergonha intelectual de escrever num "género menor".

O Último Europeu conta a história de um futuro não tão distante quanto isso, em que supostamente tudo é fantástico. E quando digo tudo, quero dizer que a Europa está dividida entre tribos de bárbaros que aderem aos velhos costumes, e enormes conglomerados populacionais, chamados... Conglomerados, onde as pessoas são livres. Dentro de certos limites.

Nesta Nova Europa não há conflitos, nem insatisfação. Todos os habitantes dos Conglomerados têm um chip implantado no cérebro que lhes permite comunicar através do Grande Cérebro Electrónico, um computador central que domina toda a população. Toma as decisões pelas pessoas, ajuda a inibir as emoções e que simula a satisfação de um certo desejo/vontade, caso não possa ser realmente satisfeito.

Já não há comida, há pó alimentício, já não há pais, mães e filhos, mas sim crianças que nascem de forma artificial, a partir de material genético extraído dos cidadãos e combinado da melhor forma.

Também não há nomes, abolidos em nome (eheh) de um sentimento de comunidade. Tudo funciona às mil maravilhas e tudo é basicamente electrónico. Até ao dia em que os malvados chineses (a sério) os isolam das centrais geotérmicas que lhes dão toda a energia de que precisam. Uma civilização tão avançada que se esqueceu de ter mais do que uma tomada por perto, caso uma avarie.

É então que são lentamente invadidos pelos malditos chineses (a sério), que vaporizam pessoas com os seus raios lasers, lhes sugam as partículas e depois os enviam para o espaço, uma ideia que é muito repetida. A única solução para os Novos Europeus é fazerem um acordo com uma tribo de bárbaros europeus para que alguns consigam fugir e recomeçar.

Parece interessante? Isto é menos de metade do livro. O resto do tempo é dedicado às agruras de começar uma civilização do nada, recorrendo apenas a um grupo de pessoas maioritariamente inútil, de tão pouco que se fazia na Nova Europa.

Se a história já não me estava a convencer, ainda pior fiquei quando ouvi o autor falar, na sessão para a qual fui convidado pela biblioteca da minha escola. Começou logo bem, quando nos apresentaram um ao outro, no meu caso com a indicação "está a ler o seu livro tal e tal", que obteve como resposta, "estás a perceber aquilo? é a utopia-distopia, tens que perceber".

Certo. Ok.

Tudo piora quando lhe pergunto, durante os autógrafos, se rejeita o rótulo de FC. Nem me deixa acabar a pergunta "já tive esta discussão muitas vezes, durante muito tempo", óptimo, diga de sua justiça, "isto não é FC!". Mas... "não tem batalhas galácticas nem intrigas laboratoriais". Ah, agora tudo faz sentido, "não é tanto Clarke, ou Asimov, como Ballard", agora já não, "o que é que chamas ao 1984, do Orwell?", "bem, FC", "pois, não... não tem intrigas laboratoriais", "pronto, está bem, tenha um bom dia", "não fiques chateado, eu sei que quando somos novos não lidamos bem com estas coisas, mas um dia percebes."


Enfim, estão a ver a peça. Pretensiosismo mascarado de intelectualidade. FC é naves e vírus mortais, Orwell não é FC, provavelmente porque é literatura a sério, ou outra coisa do género, e eu sou demasiado novo para perceber estas coisas.

Escusado será dizer que, por muito boa vontade que eu tivesse, o resto da leitura teve direito a uma visão mais dura e mais crítica. E como resultado, não fiquei nada satisfeito. Numa história que usa (mal) conceitos e invenções tecnológicas e científicas para explorar vários aspectos da mente/vida/sociedade humana, de forma bastante óbvia e gritante, tenho que acreditar que isto não é FC, é uma dicotomia utopia-distopia que retrata um ponto de vista filosófico sobre a natureza do ser humano.

Poupem-me. Um dia ainda gostava de conversar com este senhor, para ele perceber bem o que é a FC. E para lhe dizer que este livro é aborrecido, desconexo, repetitivo e incoerente!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A breve história de como o impensável aconteceu


Eu podia ser o rapaz naquela foto. Só que este ano até nem estou tão a morrer como é costume, por esta altura. Já sou mais velho, tenho mais paciência e preocupo-me menos com o que não merece preocupação. Mas o indício fulcral de que eu não sou de facto aquele rapaz, é que é claramente de dia, e ele está a dormir. Ora aí está um desporto que eu já não pratico há anos.

Idealmente, esse coisa de ser noite é um conceito abstracto para mim, uma daquelas coisas improváveis que só acontece aos outros. Quando acordo, já está sol, quando volto a casa, ainda está sol, e a única diferença é mesmo o silêncio que alastra o suficiente para se conseguir ouvir as prendas intestinais dos vizinhos a afogarem-se.

Mas tirando isso, noite? Quê?

Infelizmente, com essas coisas aborrecidas das mudanças de estação e tal, eu agora acordo de noite e chego a casa com noite cerrada por cima de mim. Ou seja, os meus dias, em vez de parecerem infinitamente grandes, parecem infinitesimalmente curtos. Ainda para mais quando tenho de, literalmente, perder tanto tempo com coisas que não me interessam.

Sim, já estou no quinto ano, segundo do mestrado. O último. Já comecei a trabalhar na tese (ainda que lentamente) e estou envolvido numa série de coisas relevantes que me interessam realmente para o meu futuro. Mas sabem o que é que eu passo a maior parte do tempo a fazer?

Coisas aborrecidíssimas de cadeiras que, ou não deviam existir, ou estão ao nível do primeiro ano. É que ainda dão trabalho! Juntem isso às coisas que eu faço porque realmente as quero fazer e, enfim, não tenho tempo para nada. Nem para ler.

...

Pronto, eu confesso, era isto. No meio dos meus afazeres e obrigações, alguma coisa teve que ceder ligeiramente, e foi a leitura. Não me sinto orgulhoso disso, mas já que o ser humano (ainda) não vive tempo suficiente para ler tudo o que quer, também não faz diferença se em vez de ler só 0.5% do que quero, ler só 0.49%. Mais vale despachar as outras coisas, para ficar finalmente livre, do que andar depois a arrastar-me ainda mais.

Foi assim que o impensável aconteceu. Os textos aqui no blog já estão a sair mais depressa do que aquilo que eu consigo ler. Também ajuda que dos últimos livros em que peguei, um tenha sido uma grandessíssima bosta (estou a olhar para ti, Gonçalo M. Tavares) e outro esteja a ser aborrecido, especialmente depois de presenciar o pretensiosismo e ignorância do autor ao vivo. Uma história que fica para depois.

Mas já repararam que na Segunda não saiu opinião de nenhum livro/filme/série? E que hoje se repete essa brincadeira? Pois, não é que eu tenha muita coisa para dizer, tenho é pouca coisa para opinar, já. Bem, para dizer a verdade tenho muita coisa para opinar, mas poucos livros/filmes/séries. Um problema que também será resolvido de várias maneiras no próximo ano, se tudo correr bem...