terça-feira, 4 de setembro de 2012

Adamastor

Título: Adamastor
Autor: E.S.Tagino

Sinopse: Deixo logo, a vossas senhoras, clara advertência de que tenho muito para contar. E isto que seria já de grande nota para alguém que durante setenta anos muito pouco falou, é-o ainda mais no meu caso, porque o que tenho para dizer é, na maior parte, absoluta novidade. É legítimo que me apresse na identificação para que não sobrem dúvidas sobre a validade do meu testemunho.
Eu sou o verdadeiro Adamastor.
A minha intenção de repor a verdade é que me leva, contra a minha vontade, a notificar os acontecimentos. Nada me movendo, de ordinário, senão a defesa do meu bom-nome que tão subitamente se viu ofendido por esse poema que o cavaleiro-soldado D.Luís Vaz, dito de Camões, com acentuada e desproporcionada malícia, fez publicar em Lisboa no ano de 1572.
Antes de avançar nos meus critérios, que atesto justos e cuidados, apraz-me, no entanto, que me desculpeis este português com que vos falo, mas, nestas paragens do Índico Oceano, faltam-nos livros e verdadeiros letrados com que nós tenhamos azo de falar e aprender.
Tudo começou há muitos, muitos anos...

Opinião: Fiquei bastante desiludido com este livro. Pela capa, pelo título e pela sinopse, que apenas publiquei junto com esta opinião que possam confirmar por vocês mesmos, esperava uma narrativa épica contada com a voz do gigante Adamastor. Em vez disso, aquilo que li foi uma crónica da vida de Momad Satar, comerciante árabe de Moçambique (ou Muhipiti), amigo e protector de Camões.

Satar afirma que o poeta se inspirou nele, de má-fé, para criar a terrível personagem do Adamastor, e é nesse sentido que esta história é a do Adamastor.

Mas enfim, ignorando a particularmente enganadora sinopse, este Adamastor acaba por ser um livro bastante agradável, escrito mais ou menos no português do século XVI, com palavras mais exóticas à mistura, provenientes dos dialectos moçambicanos.

Camões pareceu-me bem retratado, folião, constantemente apaixonado e ingénuo, ou talvez imaturo e juvenil, face às voluptuosidades de uma mulher, apesar de já ter uma idade a rondar os quarenta anos.

No que toca ao resto das personagens, tirando talvez o próprio Satar, em parte por ser o narrador, eram todas relativamente sensaboronas e "planas", apesar de algumas das escravas e concubinas terem os seus momentos de glória, como aconteceu com Bárbora, Íris e Veneza.

Outro ponto bem descrito é a capacidade que Camões tinha de viver à grande, apesar de nunca ter dinheiro, sempre à custa de amigos que o sustentavam por ser um homem honrado, divertido, inteligente, culto e talentoso, o que fazia dele uma boa companhia e um bom conselheiro. Excepto, como é óbvio, em matérias amorosas.

Tirando a decepção que muito me estragou a leitura, podia ter havido uma linha narrativa deveras interessante mas que, infelizmente, falhou em salvar o livro da decepção generalizada. Satar começa o livro a queixar-se de como Camões se inspirou injustamente na sua pessoa para criar o Adamastor, e revela a sua raiva contra o poeta.

Mas aquilo que depois se apercebe relativamente a esse assunto é... nada. Não existem quaisquer motivos, e a única coisa que transparece durante toda a história é a mais profunda amizade e admiração pelo poeta. E depois, no final, perdoa-se tudo. Um bocado anti-climático, se me perguntarem a mim.

De qualquer forma é um livro bem escrito, que revela uma certa pesquisa e que consolida a minha opinião de que E.S.Tagino é um autor a seguir e que merece continuar a ser descoberto, apesar deste livro menos conseguido.

2 comentários:

Liliana Lavado disse...

Sim, as expectativas por vezes dão-nos cabo da leitura :P

Rui Bastos disse...

Para este livro em particular, foi terrível... Mas se uma pessoa ultrapassar isso, é uma boa obra :)