quinta-feira, 17 de abril de 2014

Preconceito do Fantástico

Quase todos os géneros literários enfrentam algum tipo de preconceito, alguma vez na vida. Mas se existe um grupo que sofre bastante com isso, é o Fantástico.

Seja Fantasia, Ficção Científica, Horror ou outra variante qualquer, deve ser difícil encontrar um género que seja mais frequentemente atirado para a lama literária do que estes três. Muitos académicos nem sequer os consideram géneros literários "a sério", e também é assim que pensa muita gente.

Não tenho a certeza se já refilei sobre isto, mas tenho sempre tanta coisa a dizer de um assunto destes, que não se perde nada. Porém, desta vez, prefiro reencaminhar-vos para o texto do Marco, n'O Senhor Luvas.

Aquilo que ele diz sobre a FC é aplicável aos outros dois géneros de que falei, com pequenas modificações que vocês são inteligentes o suficiente para fazer. Quero só destacar uma frase:

"Atrevo-me a dizer que a FC não é um género, mas um trans-género pois agrega outros. Mas mais do que ser um género ou trans-género ou outra coisa a FC é fonte de grandes historias."

Têm aqui a essência daquilo que eu próprio acho sobre a FC (e a fantasia e até o horror, ainda que em menor grau), e aquilo que é responsável, em parte, pelo grande interesse que estes géneros despertam em algumas pessoas.

Como podem ver, aquele texto é interessante... Vejam por vocês próprios!

12 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Ironicamente a Ficção-Científica também tem preconceitos contra a Fantasia...

Jorge

Rui Bastos disse...

Meh. Acho que há mais uma rivalidade entre ambas do que outra coisa, e não se nota muito... Não lhe chamaria preconceito, vá.

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Aí tenho de discordar, talvez agora já não se note tanto, porque a linha entre FC e Fantasia também é mais ténue, mas os autores "clássicos" de FC raramente queriam cá msituras com a maltinha do Tolkien.

Jorge

asesereis disse...

A Literatura, assim como as palavras, não podem ter correntes nem ser sistematizadas.

Os livros são a exteriorização do pensamento de um autor. Portanto, como o pensamento não conhece limites(Ou pelo menos não devia conhecer) também as obras escritas não podem ser acorrentadas a géneros.

Uma das maiores lutas dos escritores deve ser a ruptura com tudo o que já foi feito, nunca a desconsiderando mas nunca a repetindo.

Chama-se inovar, coisa que os "Nóbeis" não têm vindo a fazer.

Para quando uma obra como a que Camões escreveu? Para quando um novo Cervantes, um novo Dickens, um novo Wild, um novo Orwell?

Resta ainda dizer que não é por acaso que os filmes de super heróis são estrondosos êxitos hoje em dia.

O mesmo se deverá passar com os livros. As pessoas querem afastar-se da realidade quando todos os dias ouvem notícias horríveis (Massacres, terrorismo, crises financeiras) mas não descuram estes elementos do dia a dia nas mesmas histórias. Veja-se o GRRM e as malhas políticas ambiciosas levadas ao extremo, veja-se o Abercrombie e como o seu humor negro percorre a tragédia do mundo, veja-se o Paul Hoffman e a pobreza das crianças e a facilidade de as manipular.
Veja-se Harry Potter e perceba-se o que é ser adolescente numa escola, veja-se o Ciclo da Herança de Paolini e atente-se na pergunta que derrota qualquer tirano "Porquê?" e o gosto que o homem tem por voar, o desafio da gravidade.

Mais um comentário que quer dizer muito mas que apenas diz muito pouco.

Bom post...

Francisco Fernandes

Marco Lopes disse...

Em primeiro lugar o meu agradecimento ao Rui quer pelo destaca ao meu texto quer pelas suas palavras em relação ao mesmo.

Em segundo caro Jorge não se pode confundir uma rivalidade, como o Rui diz, com o preconceito generalizado de que é alvo não só a Ficção Científica como a Fantasia (e não só). E claro não podes confundir as opiniões de alguns com o todo. Veja-e o caso da autora Margaret Atwood que apesar de indubitavelmente ter muitas obras que se inserem no campo de Ficção Científica foge desse rotulo como o diabo da cruz. Algumas obras de José Saramago se fossem de outro autor eram de FC, mas no seu caso são Alegorias, assim como "A Estrada" de Cormac McCarthy e podia continuar durante muito tempo com estes exemplos. Existe também o caso de obras que sendo FC são "transformadas" em Ficção Universal ou outro rotulo qualquer como são os caso de "1984" de George Orwell ou "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, tudo menos chamar-lhe FC.

Em terceiro lugar caro Francisco Fernandes num mundo perfeito não existira a necessidade de "acorrentar" as obras ou os seus autores a um género, mas não vivemos num mundo perfeito portanto elas são necessárias, embora não como correntes, mas mais como indicadores. O problema está nas pessoas que ligam demasiado a esses "indicadores" e ai sim "acorrentam-se" a eles. Veja-se o caso do autor George R. R. Martin hoje é famoso porque escreveu as "Crónicas de Gelo e Fogo" uma obra de Fantasia, mas o que muitas pessoas não sabem é que ele ergueu toda a sua carreira de escritor com textos de FC. Mas (quase) ninguém quer saber disso sejam os leitores sejam os próprios editores e cada vez que sai um novo livro dele assumem automaticamente que é de Fantasia e os próprios editores não se preocupam em desmentir, com as consequências que se sabem.
Com esse teu comentário de para quando um novo Camões ou Orwell fizeste-me lembrar uma noticia que li à uns anos e que dizia que um grupo de pessoas (jornalistas?) pegou nos clássicos ingleses alterou-lhes o nome das personagens e enviou-os para as editoras, nos casos em receberam respostas quase todos diziam que a obra era fraquinha e que não servia para publicação e outros defeitos. Apenas uns dois ou três reconheceram que estavam perante os clássicos de Jane Austen ou Oscar Wilde. Hoje em dia não é que não existem por ai novos autores tão talentosos como Camões, Cervantes ou Dickens, o problema é que não tens editores, mas sim meros publicadores que vogam ao sabor das modas.

Um abraço

Rui Bastos disse...

Jorge, estás-te a esquecer do pessoal hardcore de FC que escrevia Fantasia. Um bom exemplo, apontado pelo Marco, é exactamente o Martin, embora possa ser discutível o quão hardcore de FC ele é (não vou por aí, só lhe li 2 livros de fantasia e 1 conto de FC, portanto...)

Francisco, obrigado! Mas estou como o Marco: isso que dizes realmente soa bem, mas não é assim que funciona. Concordo plenamente, no entanto, quando dizes que já não se inova. Ou que pelo menos os autores estabelecidos como os supra-sumo já não o fazem. Ter dinheiro é bom, para quê inventar se podem continuar a produzir mais do mesmo, com boa recepção da crítica especializada e vendas estrondosas por todo o lado? Pois é, pois é... Para contrariar isto é preciso apostar nos novos talentos que por aí andam!

Marco, obrigado! Retribuo os parabéns pelo teu post ;) De resto, concordo contigo. Aliás, essa história que contas, sobre os clássicos alterados, faz-me lembrar algo que sempre esteve num canto da minha mente, nomeadamente com poemas: se eu mostrasse determinado poema a alguém, dizendo que tinha sido eu a escrevê-lo, qual seria o resultado? Provavelmente esse, a maior parte das vezes, diziam-me que era fraquinho e nada de especial.

Mas confesso que isto me levava mais frequentemente para pensamentos como "alguns destes poemas idiotas só valem alguma coisa por causa de quem os assina" e não para "já não se sabe reconhecer qualidade" :)

asesereis disse...

E um grande problema é também o marketing lixeiro!!!

Quem conhecia as "50 sombras de grey" em Portugal antes de o Correio da Manhã - esse expoente mínimo de cultura de jet set - vir com toda a pompa dizer que todo o mundo andava a ler essa obra? E a saga do Crepúsculo idem...

O que é realidade é que hoje somos poucos aqueles que vagueiam por todos os cantos à procura de um livro que seja um bom livro, não um livro de que as massas gostam.

No outro dia estava a reler Orwell - 1984 - e estava a pensar na manipulação das massas que ronda todos os sítios hoje, até os malditos mercados literários e até o maldito universo da internet.

A publicidade tornou-se mais uma ferramenta de opressão e manipulação de ideias e isso assusta-me de forma evidente.

Marco Lopes disse...

Caro(a) asesereis

Realmente tem razão o marketing tem um grande peso nas nossas compras hoje me dia, mas se fosse usado para promover o que é bom tudo bem, mas muitas vezes promovem o que é fraco e ainda por cima vem "chover no molhado" como nos casos que menciona já bem conhecidos internacionalmente. Infelizmente o que diz sobre o livro 1984 e sobre a publicidade é bem verdade.

Rui Bastos disse...

O pior é que as pessoas já têm a publicidade como garantida. Acreditam nela pia e cegamente. E criam-se modas de forma violenta (as in, com uma evolução agressiva, de um dia para outro ter centenas de milhares de seguidores), como é o caso dos romances eróticos... O que obriga as editoras a fazerem como a SdE, que afoga os seus lançamentos de fantasia em lançamentos de romances eróticos saídos em catadupa para atrair donas de casa eu-nunca-vi-porno-mas-este-livro-não-é-porno-tem-uma-história-de-amor-tão-bonita!

Marco Lopes disse...

É bem verdade Rui, a publicidade tem sido um pau de dois bicos promovendo o bom e o mau, mas cada vez mais só utilizado para vender o fraco e mau como o exemplo que dás.
O pior é que editoras como a SdE andam ao sabor das modas, como que um barco à deriva navegando ao sabor das marés correm o risco de encalhar na praia da Falência. Ao invés de tentarem criar as suas próprias modas contentam-se em seguir rebanho, mesmo para a boca do lobo.

Rui Bastos disse...

Pois... E deixa-me preocupado, porque enfim, eu compreendo que uma editora tem que fazer dinheiro, mas a SdE editava (e ainda editava, ainda que de forma mais escassa e discreta) livros de Fantástico, inclusivé de autores portugueses, interessantes e apelativos. E agora...

Rui Bastos disse...

EDIT: E agora aquilo mais parece uma editora de porno do que outra coisa. Basta abrir o site...