sábado, 26 de abril de 2014

Sobre ser-se publicado

Há um problema no mundo literário. Um problema que se tem vindo a agravar a uma velocidade impressionante e com consequências terríveis.

Não, não estou a falar de nada relacionado com a Margarida Rebelo Pinto. Eu sei que parece mas, por muito que me custe a admitir, isto é pior.

Falo de ser-se publicado. Actualmente é tão fácil ter um livro feito de forma "profissional", por "editoras" a sério, que parece que toda a gente que escreve acha que publicar um livro é um direito seu, sejam a sua escrita e as obras que escreve muito boas ou muito más.

Aliás, isso não interessa. É preciso é ter qualquer coisa escrita. E uma das grandes causas deste problema são as vanity presses, entidades abjectas e desagradáveis que cobram ao autor para lhe publicar o livro. Ou para participarem numa antologia.

O escritor David Soares expõe muito bem o assunto num mini-manifesto em que aponta tudo o que estas entidades têm de mau. Maléfico, até!

E a pior parte ainda é a mudança de mentalidade a que isto leva. Seja numa "editora" ou num site manhoso, por mais ou menos euros, qualquer pessoa pode ser "publicada" de forma oficial. É assim que acontecem acidentes, caríssimos. Quando toda a gente achar que é o Gordon Ramsay ou o Jamie Oliver, passo a comer só enlatados. Se toda a gente achar que sabe escrever bem o suficiente para ter um livro publicado... Bem, tenho pena das gerações futuras.

O que acontece depois é o seguinte: desespero e humilhação levam os autores a aceitar condições miseráveis em troca de se verem publicados. Como por exemplo serem publicados exclusivamente num formato de que ninguém quer saber e dá problemas com facilidade, inseridos num projecto condenado ao fracasso.

Coolboks é só o mais recente ceguinho em quem toda a gente está a gostar de bater, como podem ver no blog da Alexandra Rolo, num post a apontar os defeitos desta nova iniciativa. Alguns, porque há mais.

Não quero com este seguimento fazer qualquer juízo de valor relativamente aos livros publicados dentro desta nova chancela, até porque tenho confiança que o da Carla Ribeiro seja bom, tendo em conta o que já li dela. Mas... Enfim.

Casos como estes há muitos, e a minha abordagem usual de ignorar até me esquecer que existem e não me aborrecer muito a pensar nisso já começa a falhar, provavelmente por causa do elevado número de situações. Só queria que as pessoas tivessem noção do que andam a fazer, e a escrever, e não se submetessem a estas coisas. Como diz o David Soares: leitores, não comprem; autores, não se metam nisto.

4 comentários:

Carolina disse...

e o que é que tu achas de self-publishing? em termos monetários vs o que as editoras cobram e em termos das possibilidades de publicação que abre (ou não)? (e quem diz autores diz artistas, e isso posso dizer-te que é relativamente comum)

por acaso no outro dia deparei-me com um site mesmo interessante para isso, mas surgiu no contexto da publicação de uma fotógrafa. vou ver se encontro e se aquilo também era interessante para isto, como me pareceu.

Rui Bastos disse...

Um caso diferente. Estas vanity presses são pouco mais do que burlas e esquemas ranhosos que destroem sonhos ao mesmo tempo que "dão" oportunidade a quem não merece.

Edições de autor são outro bicho. Aí a coisa toma outros contornos... Não sei números, portanto não te sei dizer como funciona em termos de dinheiros, mas em termos de oportunidades considero melhor.

As vanity presses ou nem sequer distribuem o livro, ou têm uma distribuição residual e completamente fora do controlo do autor. Coisas com a nova chancela da Porto Editora fecham as portas a demasiado público e podem tramar um autor.

Já numa edição de autor não é assim. Se for em suporte digital, então, como no Smashwords, é um doce!

Marco Lopes disse...

Um tema interessante para ser abordado, em especial para abrir os olhos a muitos pretendentes a escritores, mas "inocentes" no que ao meandros da edição diz respeito e parece que há muitos por ai.

Não sou contra as Vanity press, mas desde que não se lhes chame editoras. Era preferível que se assumissem como empresas prestadoras de serviços, que é o que realmente são.

Quanto à auto-publicação realmente é um outro assunto. Já existem algumas empresas especializadas para este mercado a operar em Portugal. Não sei valores, mas posso dizer que pelo menos é mais honesto que as Vanity Press, sabe-se que não se vai ter distribuição ou que vai ter de ser o autor a fazê-la. E hoje, como o Rui diz, para quem se quer dar a conhecer sem dar despesa temos algumas boas plataformas como o Smashwords que já me deu e continua a dar muitas alegrias.

Quanto à novo editora, a Coolbooks, parece-me que pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita, desde a publicidade onde se pode ler pérolas como "(...) uma alternativa aos autores rejeitados no papel." ao facto de o formato dizer que é em epub (o mais universal), mas na realidade só poderes ler através do eWook (se isso lá o o que for) acho que não tarda nada estão ou a fechar ou a mudar de estratégia.

Rui Bastos disse...

Concordo.

Quanto à Coolbooks estou para ver, mas realmente perdeu-me logo com essa dos autores rejeitados... Não sei em que mundo é que isso é uma frase de marketing...