sábado, 19 de abril de 2014

Estantes Emprestadas [4] - Guia de sagas e calhamaços [2/2]



Cá está a segunda parte da crónica do Rafa (podem ler a primeira AQUI). Depois de introduzido o tema, começa de facto o guia, que está uma categoria do caraças. Nem referiu Malazan!

Mas levem as sugestões dele a sério, que ele normalmente acerta (excepto com Malazan). Em parte por culpa dele já li Sanderson e Abercrombie, pelo menos, e recomendo vivamente! Também já li Malazan por causa dele, e só vos digo que ele ainda vai a tempo de apanhar um enxerto de porrada...

De qualquer forma, da minha parte, obrigado pela excelente crónica, Rafa!


Um Breve Guia de Sagas

Agora que convenci alguém a dedicar algum tempo a uma saga coloca-se outra questão: por onde começar?

Em termos literários, os géneros que mais associo a grande colecções são os policiais, os westerns, os romances históricos, a fantasia e a ficção científica.

Como já mencionei sou um grande fã de fantasia e ficção científica (suspeito que foi por isso que o Rui me sugeriu este tema, que eu estou sempre a tentar impingir-lhe colecções e sagas, com sucesso variado) e por isso vou deixar o "melhor" para o fim.

Partindo do princípio que o leitor já tem uma ligeira ideia do tipo de livro que aprecia, se quiser optar pelo policial existem inúmeras possibilidades.

Para começar acho que é importante separar policiais baseados em lógica como é caso de Sherlocks Holmes (de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie) e os policiais noir (como por exemplo os de Raymond Chandler). Pessoalmente eu aprecio bastante a lógica nos livros de Sherlock Holmes (apesar da grande maioria serem contos) mas também gosto imenso do ambiente noir dos livros de detectives hardboiled, por isso sugiro que se experimente um de cada e depois logo se vê. Independentemente do gosto de cada um, a minha sugestão é a colecção Vampiro, da editora Livros do Brasil (já cá voltarei) que tém montanhas de livros (todos eles policiais, se não me engano) de vários autores, desde Agatha Christie a Dashiell Hammett (respectivamente autores de policiais que recorrem mais à dedução e à investigação por detectives "durões"). Ainda há a enorme vantagem de ser fácil de encontrar livros nesta colecção a um preço mínimo na feira do livro, de modo que o único problema será mesmo arranjar espaço para os livros.

Sobre os Westerns não tenho muito a dizer, principalmente porque até agora nunca me dediquei a sério a este género, não por falta de interesse, mas mais por não saber bem por onde começar (um guia sobre westerns daria imenso jeito, mas sem ter lido eu próprio não me sentiria confortável debitar informação lida noutro sítio). Os Westerns são também fáceis de encontrar, a preços reduzido em edições antigas, semelhantes à colecção vampiro.

Tanto os policiais como os westerns, em geral são livros pequenos e que se lêem facilmente, mas já a seguir vou passar a um tópico que contem verdadeiros monstros de livros, incluindo aquele que é, para mim o melhor livro de todos os tempos (e um dos maiores), o Conde de Monte Cristo.

Os romances históricos são também propícios a seguir personagens durante a sua vida praticamente toda, por vezes seguindo para as gerações seguintes e são livros que nunca mais acabam. Por outro lado têm um especial interesse para pessoas que, como eu, gostam bastante de história, de modo que nunca me chega a cansar. 

Dos romances históricos posso destacar os grandes clássicos franceses, como Dumas (que eu a modos de que idolatro) que escreveu livros excepcionais sobre a revolução francesa (por exemplo o Cavaleiro de Maison Rouge), ou os clássicos russos, como Tolstói (aviso que é preciso muita coragem para lidar com Tolstói, que tem uma escrita bastante densa). Na verdade, qualquer país com um mínimo de história consegue material para um romance histórico, em particular a Era Tudor em Inglaterra e o governo dos Médici de Florença são bons exemplos.

Claro que este nosso cantinho também deu origem a romances históricos, creio que o nome de Saramago será familiar, mas mesmo nos romances estrangeiros encontramos portugueses, desde os descobrimentos, por vezes vistos como heróis (por exemplo nos livros de Emilio Salgari, sobre o pirata Sandokan, o tigre da malásia, que tinha um primeiro imediato português) e por vezes como vilões (como no Shogun de James Clavell, passado no Japão).Temos de tudo neste género, desde intriga palaciana a confronto com piratas, passando por ninjas e fantasmas vingativos.

Finalmente chegámos às categorias pelas quais tenho um fraquinho especial: Fantasia e Ficção científica.

Tal como nos romances históricos, a FC também tem os seus clássicos, nomeadamente aqueles que são considerados os Pais da FC moderna, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein e Isaac Asimov. Apesar de ser Clarke o autor do meu livro de FC preferido (Childhood's end, que não posso recomendar o suficiente), tenho de destacar Asimov, por ter criado um universo gigantesco, que reúne duas das suas principais sagas num periodo de dezenas de milhares de anos, um feito de uma complexidade brutal, visto que Asimov era um autor prolífico. Outro autor que criou um universo bastante interessante é Orson Scott Card, com o seu Enderverse (o seu primeiro livro deu origem ao filme O Jogo Final), mas que pode ser demasiado militarista para algumas pessoas. Dezenas de outras sagas podem ser encontradas na colecção Argonauta, da editora Livros do Brasil (eu disse que já cá voltávamos), que são um euro cada na feira do livro.

Agora a Fantasia, é um género que está em expansão devido ao reconhecimento que George R.R. Martin tem recebido para a sua saga de fantasia As Crónicas de Fogo e Gelo, que dispensa apresentações. Apesar de ter aproximado a fantasia do público mais mainstream, também subiu a fasquia para a fantasia mais recente, especialmente a fantasia mais realista e visceral. Para quem for fã de Martin a minha sugestão é qualquer coisa escrita por Joe Abercrombie, que é para mim o melhor autor desse tipo de fantasia (a chamada dark fantasy). Cria personagens brilhantes e dá-lhes vida e o que é mais importante, individualidade com uma escrita igualmente genial. Não são todos os autores que conseguem que uma pessoa perceba de que ponto de vista é um dado excerto simplesmente pela forma de falar ou pensar de uma personagem. Infelizmente Abercrombie é um autor relativamente recente, tendo apenas 6 livros (uma trilogia e três sequelas até agora, todos eles fantásticos), de modo que facilmente se esgota.

Felizmente, temos Brandon Sanderson, um autor que eu não me cansei de impingir ao Rui, até que finalmente ele acedeu a ler os Mistborn, e que escreve que se desunha(suspeito que no caso dele deve ser mesmo literal, que é absurdo a velocidade a que escreve). Outro autor, Patrick Rothfuss comentou que a capacidade de Sanderson de lançar livros de qualidade o envergonhava (e com razão, que a sua trilogia na forma de uma autobiografia de uma lenda está para terminar há algum tempo). Sanderson consegue escrever um livro de 1200 páginas em pouco mais de um ano, com pausas para escrever alguns com 300 páginas ou umas novelas mais pequenas (Martin é outro que podia aprender com este autor, que tem demorado mais de cinco anos por livro).

Na parte da fantasia mais divertida tenho de destacar Terry Pratchett, que antes de J.k.Rowling era o autor mais lido de Inglaterra, com a sua saga de mais de 40 volumes de sátira e paródia a, bem praticamente tudo. Discworld é um universo gigantesco, que além da saga principal tem vários spin-offs como a Science of Discworld, quando o nosso universo é aparentemente criado por acidente. Pratchett colaborou com outro autor inglês, Neil Gaiman, o autor de Sandman, para escrever um dos livros mais engraçados que já li, Good Omens (tendo em conta o humor inglês, sugiro que se leia em inglês). Neil Gaiman também escreveu Anansi Boys, uma sequela ao American Gods, o melhor livro de fantasia urbana que já li, mas mais semelhante ao Good Omens, pelo número de vezes em que me desmanchei completamente a rir.

Todos estes autores têm uma escrita que melhor ou pior é de leitura fácil, particularmente quando é humorística, mas antes de terminar quero mencionar um autor que provavelmente não é o melhor do ponto de vista de principiantes de sagas, China Miéville, outro britânico. Miéville tem a melhor escrita que já encontrei na fantasia, que usa para descrições curiosamente perfeitas das sociedades distópicas que povoam os seus livros. O facto de ser doutorado em política também se nota na sua obra, que é recheada de crítica inteligente às políticas actuais e em geral à sociedade. Ainda por cima tem uma imaginação estranhíssima (tenho de usar muitos superlativos com este autor) o que provalmente não irá agradar a toda a gente (eu cá sou um bocado estranho e os meus amigos são também bastante estranhos por isso não tenho grandes problemas com Miéville, mas que consegue ser perturbador, consegue).

Finalmente, e porque não posso falar de fantasia sem falar dele, Tolkien, o chamado Pai da fantasia. Tolkien pode ser criticado pela superficialidade das suas personagens, quando comparado como Martin por exemplo (algo de que eu me poderia queixar, mas acho que já me desviei de tópico vezes suficientes), mas criou um universo épico, em todos os sentidos do termo, com uma cultura e história rica, várias línguas e ao mesmo tempo que dava origem a um género, a fantasia épica. Hoje em dia, muitos leitores menosprezam o contributo deste homem, mas sem ele não haveria o panorama da fantasia actual. Tirando o Hobbit(que é mais juvenil), a restante obra de Tolkien, especialmente o Senhor dos Anéis e o Silmarillion (que é particularmente complicado e denso) são um excelente ponto de partida para a fantasia adulta.

Quando alguém consegue ler estes livros já não deve ter problemas com sagas e calhamaços (excepto talvez com ensaios sobre filosofia) e pode atirar-se sem preocupações a obras como a Roda do Tempo com os seus 14 volumes gigantescos ou o Dune, que tem 7 volumes "principais" e mais uns quantos spin-offs.

Boas leituras!

7 comentários:

asesereis disse...

Boas sugestões Rafa.

GRRM, óptimo.
Tolkien, o verdadeiro senhor dos anéis.
Joe Abercrombie é deliciosamente macabro (O final na Coroa é mesmo algo...a que não estamos habituados.)
Neil Gaiman é um escritor diferente, ainda que ache que Deuses Americanos é um romance fraco (O Oceano no fim do Caminho é mil vezes melhor.).
Alexandre Dumas e Edmond Dantes deviam ser leituras obrigatórias, que é para o pessoal ver como os filmes são horríveis ao pé desta tremenda história de vingança e perdão.
Emilio Salgari tinha muita imaginação mas pouco tempo para criar obras primas (Mas o Corsário Negro é um livro juvenil óptimo assim como Sandokan...), mas em termos de piratas, a Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson continua a ser o melhor!

Quanto a policiais (que não são muito o meu gosto), o último que li foi "O último Cabalista de Lisboa", um policial histórico que não se comprometeu apenas a desenlaçar a história com a revelação do assassino. Vai-nos mostrando os tempos da inquisição e a discriminação feita a uma parte importante da nossa génese portuguesa, o povo judaico.

Mais, Ken Follet? Simon Scarow? Peter V. Brett? Paul Hoffman?

E mais importante do que estes calhamaços:

1984
Animal Farm
Toda a obra de Primo Levi
Dostoievsy (Livros pequenos como "O Jogador" fazem a diferença...)
Júlio Verne?!?!? Pai da Ficção Científica????
Entre outros...

Porém, se formos a ver, existem livros como "D. Quixote de la Mancha" e uma data de obras de Charles Dickens a destacar... livros que deviam ser obrigatórios.

Rui Bastos disse...

Quase tudo o que disseste está porreiro!

O final da trilogia do Abercrombie... Sensaborão, at best!

"Deuses Americanos", um romance fraco?! É certo que ainda não li mais nada do autor para além de um livro para crianças e BD's (Sandman == perfeição), mas eu considero-o muito bom.

("O Conde de Monte Cristo" é fenomenal!)

Ken Follet é mediano, muito mediano...

E apoio as escolhas extra-calhamaços, tirando Primo Levi (que nunca li). "O Jogador" de Dostoievsky é bom, e Orwell nunca desilude.

Já o dizeres que Júlio Verne é o pai da FC, por muito que eu apoie que toda a gente o leia (é um dos autores favoritos), não é bem assim...

asesereis disse...

Quem é que é o pai clássico da Ficção Científica para ti Rui? É que Júlio Verne é para mim o Tolkien da FC. É o pai!

Os outros vieram depois.

Follet é daqueles que se gosta ou não se gosta.

Deuses Americanos começam com uma forte critica à sociedade de idólatras que veneram tudo quanto a publicidade vende. Mas daí em diante, é chato... monótono como uma viagem demasiado longa e com uma velocidade ainda mais lenta. Só tem dois personagens bons e acaba duma forma pior que sensaborrona.

Abercrombie é diferente, não te dá um fim feliz porque nenhuma das personagens caminhou em direcção a um fim feliz (Glokta coxeou um pouco e ficou melhor que os outros, é verdade.), portanto acabou como começou, numa tragédia.

Mas são gostos...

Rui Bastos disse...

Don't get me wrong, tenho Verne num pedestal no meu panteão pessoal... Mas não o vejo como o pai da FC, muito menos como o Tolkien da FC, simplesmente porque os elementos que se podem considerar de FC nos seus livros normalmente nem são essenciais nem assumem grande importância (excepção para o submarino das 20 mil léguas, obviamente...). São quase sempre coisas mais do que secundárias. É difícil de explicar, e assumo que ainda não li as obras dele mais conotadas como FC (embora já tenha lido uns 30 livros de Verne).

Ainda sobre Verne e FC, pensa no Frankenstein, da Shelley. Esse livro, sim, transpira FC, usa conceitos de FC como setting e desenvolve uma história com morais muito fortes. Só me lembro de 3 livros de Verne assim (20 mil léguas, aquele em que disparam pessoas para a lua e a sua sequela) e mesmo assim a sensação não é a mesma.

Tenho é que ler mais do Gaiman, e em especial reler o Deuses Americanos. Gostei muito do retrato dos vários deuses, mas já nem lembro de grande parte da história.

Abercrombie é fenomenal em Best Served Cold, mas na trilogia da First Law, por muito que o Glokta abrilhante a coisa (personagem para lá de genial), assim como algumas outras personagens, a história desenvolve-se a um ritmo demasiado lento e o fim é super anti climático.

asesereis disse...

O teu argumento da Shelley é no plano espaço-temporal correcto, mas tem uma falha evidente...

A Shelley era mulher.
As mulheres não podem ser o pai de qualquer coisa. Podem ser mães...

Assim fica a Mary Shelley a mãe da FC.

Verne continua o pai da Ficção Científica.
Ganhei esta rodada... :)

Gaiman é americano... escritor vindo da Marvel, muita publicidade, demasiada até na minha opinião...

Se gostaste de Gaiman vais adorar a obra do "Alquimista" de Michael Scott - pena que a 1001 Mundos não acabe de publicar a obra...

Rafa disse...

Ora viva Asesereis, desculpa pela demora, mas não tinha notado que tinha tido resposta.
Vou tentar dar resposta a tudo o que já foi comentado, vamos ver se consigo:

Para começar GRRM é para mim um tema um pouco complicado. Para começar só tenho a agradecer-lhe pelas influências que teve na fantasia (sem ele se calhar o Abercrombie não criava as personagens que criou), mas por outro lado acho que sofre com a hype da série e vai perdendo qualidade ao longo da saga. Além disso não consigo gostar das personagens dele. Sei bem que é o aquilo que mais se elogia, mas para mim parece forçado a forma como se tenta que algumas personagens sejam moralmente ambíguas (e depois do Abercrombie não há personagens que se comparem). Para mim a melhor qualidade do Martin é a capacidade de criar a intriga palaciana que abunda nos primeiros livros.

Quanto a Tolkién e a Abercrombie não tenho nada a assinalar, concordo com tudo.
Neil Gaiman é diferente, sem dúvida, mas pessoalmente ainda continuo a gostar mais do Deuses Americanos do que de qualquer outra obra dele, também gostei bastante do Oceano no fim do caminho (eventualmente irei fazer uma crítica no blog metáfora de refúgio, assim que tiver um pouco mais de tempo) mas por ser um pouco mais juvenil acabou por ficar a perder. Normalmente, o público tece elogios é ao Neverwhere, por razões que me ultrapassam.

Quanto ao Conde de Monte Cristo, é o meu livro preferido e Dumas ainda conseguiu escrever mais uns que estão no meu top.
Li Salgari quando era muito jovem (tal como a Ilha do Tesouro, mas foi o Sandokan que me ficou na memória, por alguma razão) e concordo que é bastante juvenil e talvez por isso foi dos livros que mais me entretiveram na minha juventude.

Em termos de policiais, sou parcial aos mais lógicos.

Ken Follet e Simon Scarrow nunca me fascinaram por aí além, talvez um dia lhes dê uma oportunidade, quanto não estiver inundado de livros que estou mortinho para ler.

O meu colega do metáfora do refúgio (e fundador) gosta bastante de Peter V. Brett. Eu cá estou à espera que ele acabe a saga para me atirar.

De Hoffman li a trilogia, mas fiquei francamente desapontado. Gostei bastante do início (apesar das semelhanças com o Ender's Game), mas achei que a resolução foi muito mal amanhada. Todo o build-up dos temas mais religiosos e depois foi o que foi.

Também podia falar de Orwell( ainda só li esses dois, mas foram ambos catapultados para a lista de melhores livros de sempre) e outros clássicos russos, mas achei que já me estava a desviar do assunto, que acho que o Rui queria que eu falasse mais da fantasia e FC.

Quanto ao Verne, vou ter de concordar com o Rui, apesar de adorar os livros dele, não creio que sejam verdadeiramente FC. Apesar de ser mais preciso do que outros autores (como Clarke) e de o ter feito num periódo anterior.
Para a posição de Pai da FC, diria que está bem empatado entre Heilein, Clarke e Asimov, que orientaram a FC em sentidos diferentes, mas igualmente importantes.

Qualquer coisa, espero que o Rui me vá avisando.

Rui Bastos disse...

(Eu estava a escrever o comentário sobre a Shelley e a pensar "mas ela é mulher"! Enfim. Continuo a argumentar o resto!)