sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os Maias


Tenho a sensação que esta vai ser a crítica mais difícil dos próximos tempos. Por um lado, tive a obrigação de ler este livro, que me foi imposta pelas aulas, e que é algo que me desagrada. Até hoje, ainda não encontrei nenhum livro que tenha lido obrigado, e que me tenha agradado.

Mas, lá está, até hoje. Este "Os Maias", é, quer queiramos quer não, um livro sub-valorizado, tanto a nível nacional, como a nível mundial. Tivesse calhado a Eça ser inglês, americano ou francês, etc., este livro estaria, de certeza no top dos clássicos mais vendidos. Mas é que sem dúvida.

Se bem que eu não olho para este livro como um livro, agora que o acabei de ler. É uma autêntica novela épica, Uma "Odisseia", ou uma "Ilíada", com uma acção mais... metafórica, pois também temos os nossos heróis, que têm, na minha opinião, como extremo, João da Ega, a personagem mais excepcional em todo o romance; temos um inimigo quase invencível, que não é um Deus grego, ou outra divindade, mas sim o próprio tempo, o destino.

Porque é esse um dos temas deste livro. O destino, que avança, inexorável, imparável, e que, embora lentamente, faz as suas vítimas. Claro que o grande tema (e objectivo) desta obra, não é outro que não a crítica. Uma forte e dura crítica à sociedade, e que, apesar de ter publicada em 1888, encontra-se estranhamente actual, mesmo passados estes 122 anos.

Não quero, porém, avançar com muito da história, falando só de algo, que foi o que mais me impressionou em toda a história. Não, não foi o caso de incesto, não não a forma fantástica como Eça descreve paisagens (nomeadamente as de Sintra), e não, não foi a poderosa crítica social. Foram as duas últimas páginas do livro, quando Carlos, regressado a Portugal após 10 anos de um exílio auto-imposto, conversa com Ega, e diz ter descoberto o sentido da vida, que "não vale a pena correr por nada, por absolutamente nada", e Ega acaba por concordar. Mas esta cena passa-se com ambos a correr para apanharem um transporte público para não chegarem atrasados a um jantar.

Situação irónica? Sim. Poderosa? Sim. No fundo, o fim perfeito para uma obra deste calibre. Uma situação ambígua (como aliás grande parte da história), algo contraditória, mas que é, para mim, o essencial deste livro. Como tal, não deixo de aconselhar este livro. Ainda que obrigatória, é realmente bom, confirmando a velha máxima de que "a excepção confirma a regra"!

9 comentários:

Ana C. Nunes disse...

Não concordo que este livro seja sub-valorizado em Portugal, pois a crítica é bastante unânime em dizer que é um grande clássico e não é por acaso que é de leitura obrigatória nas escolas.
Infelizmente o meu primeiro encontro com este livro não foi bom, mas ainda este mês vou dar-lhe uma segunda oportunidade.

Rui Bastos disse...

Talvez a questão da sub-valorização seja mais a nível da gente mais nova, que se deixa levar pelo facto de ser obrigatório, e de ser grande. Maus hábitos de leitura...

DiAleX disse...

De facto, os alunos só de ouvirem o nome até tremem... e diria que mais de 90% dos alunos não chega a lê-lo sequer.
É sem dúvida uma obra fantástica e única. Boa review ;)

t i a g o disse...

Como sabes, gostei muito do livro, apesar de uma primeira parte em que estive de pé atrás. Acho que acabamos por nos habituar, também. Vamos conhecendo aos poucos as personagens.

Gosto das últimas duas páginas, gosto da situação, mas acaba por não ser isso que me marca no livro: quando penso nos Maias, cinco meses depois de o ter lido, lembro-me apenas da sensação de querer viver naquele tempo, poder juntar-me aos serões no Ramalhete, a jogar bilhar ou cartas, escrever num café... como costumo dizer: tenho saudades daquele tempo, embora nunca tenha vivido nele.

Boa crítica ;)

Goldalsky disse...

Uau... tenho a mesma opinião que tu. Ainda não li nenhum livro que me fosse impingido, mas "Os Maias" foram dos melhores livros que li na minha vida!

Rui Bastos disse...

DiAlex, antes demais, obrigado^^. Quanto ao que disseste, isso é verdade, quase nenhum aluno o lê. Na minha turma, somos 25 só 5 é que já leram. Dos outros 20 mais de metade só leu 50 páginas, e os outros nem pegaram nele!

Tiago, primeiro que tudo, obrigado^^ E realmente o ponto positivo do livro ser tão grande, é que nos dá tempo para conhecermos melhor grande parte das personagens, e algumas revelam-se verdadeiras surpresas! Quanto ao facto das duas últimas páginas, a mim foi isso que me marcou, talvez por eu pessoalmente não ser "fã" das épocas mais recentes.

Goldalsky, eu acho que o eu ter gostado tanto, pode ter tido alguma coisa a ver com o levar expectativas tão baixas, que foram facilmente superadas. E quer eu queira quer não, este livro acabou por entrar no meu top !

Plácido Zacarias disse...

Eu concluí que Eça não era um homem de letras. É verdade que tinha uma escrita irrepreensível, mas quem pense nisto desta maneira, dificilmente não compreenderá que Eça não nos dá uma narrativa tradicional ou banal - mas sim um guião extremamente detalhado para um filme intemporal.
Aquela cena final em que os dois amigos correm para apanhar o americano: filme. Cinema. Imagem. Metáfora. Beleza, estrutura e equilíbrio ideológico e estético.

Rugido Leão disse...

Em Portugal é muito valorizado.

No estrangeiro não tem a expansão que merece porque é difícil passar o sal do livro, que é o humor e crítica muitas vezes subtil, para uma outra língua que não seja o português.

Rui Bastos disse...

Isso faz sentido... Bem visto.