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terça-feira, 19 de abril de 2011

Divina Comédia: Opinião

Título: Divina Comédia
Autor: Dante Alighieri
Tradutor: Professor Marques Braga


Opinião: Parece que afinal as minhas previsões até acertaram. Depois de no post do Inferno dizer que ainda devia demorar um mês a acabar de ler o livro, demorei exactamente um mês a acabá-lo (acabei ontem...)!

Agora vou despachar já o ponto negativo mais negativo numa obra tão grandiosa como esta. Eu até já falei disto, em 2 dos 3 posts anteriores: as notas. Não me lembro de ler um livro com notas de tradução tão estupidificantemente exaustivas. Houve um excelente trabalho a nível de tradução do texto, mas a nível das notas... Enfim, a certa altura desisti de ler as notas.

De volta à parte boa do épico, a divisão em 3 partes tem lógica e está perfeitamente bem definida, com o ambiente a mudar radicalmente de parte para parte. Os 100 curtos cantos estão praticamente distribuídos de igual forma pelas 3 partes, tirando o facto (curioso) da primeira parte, o Inferno (a minha favorita!), ter 34 cantos, contra os 33 das outras duas. Eu sei que 100 não se divide por 3 como deve ser, e que haveria um canto extra que teria que caber em algum lado, mas acho interessante que tenha caído na parte em que caiu, a que está repleta de pecadores e avisos...

Como já devem ter percebido, não sou nada imparcial no que toca às 3 partes deste épico. Tenho uma clara preferência pelo Inferno, renegando para último lugar o Paraíso, com o Purgatório ali metido no meio, numa posição meio acinzentada. Pode-se dizer que, se calhar, tem a ver com as minhas preferências pessoais, já que toda e qualquer religião me incomoda um bocado. Ou seja, quando Dante sai do Inferno e se começa a aproximar da redenção e da graça divina, a mensagem da obra começa entrar por um olho e a sair pelo outro.

Mas também tem a ver com o próprio teor de cada parte. O Inferno está repleto de sangue e de vísceras, de castigos excruciantemente imaginativos e horripilantes e tem um ambiente carregadíssimo, super denso, praticamente palpável. O próprio Inferno parece contribuir para os castigos aplicados com a sua atmosfera negra e macabra. É também a parte mais focada na imagem mais geral, com descrições do Inferno, das almas que lá habitam, dos demónios que vigiam e castigam as almas, dos castigos aplicados a tipo de pecador...

É que depois, ao chegar ao Purgatório, a obra começa a evoluir para uma espécie de propaganda religiosa, muito mais focada nas almas e nos seus castigos e consequente redenção do que no sítio em si, pouco ou nada descrito, especialmente se se comparar com o Inferno. É um sítio mais "luminoso", repleto de adoração a Deus e de arrependimento pelos males feitos. Agradou-me menos porque a partir daqui as personagens que vão aparecendo parecem cada vez mais interessadas em passar uma mensagem de redenção, o que até faz sentido, tendo em conta que estão no Purgatório, mas que, no fundo, não me agrada.

E tudo piora quando Dante chega ao Paraíso e encontra almas cada vez mais luminosas e bem-aventuradas, cada uma com uma mensagem cada vez mais repleta de esperança e de louvores a Deus, o que, mais uma vez, faz todo o sentido, mas que não me agrada. A história a que me prendi, no início, foi-se esmorecendo, dando lugar a mensagens cada vez mais explícitas sobre quão espectacular é o Cristianismo, e como se deve adorar a Deus, etc.

Ou seja, achei o Inferno muito mais interessante, porque tinha um certo fio condutor, que me agradou e que me permitiu manter-me muito mais interessado no que nas outras duas partes. Mas atenção que gostei de todas! Apenas gostei muito mais da primeira...

O problema que tenho neste momento, é que ainda podia dizer muita coisa, mas não me quero alongar assim tanto. Vou tentar focar só o essencial do que falta, como a luta entra a Razão, representada por Virgílio, e a Fé, representada por Beatriz. Sendo uma luta quase tão antiga como a própria existência dos seus intervenientes, a forma como Dante aqui a simboliza é muito particular. A começar pelas personagens escolhidas: Virgílio, o poeta preferido de Dante, que habita no Limbo, por ser anterior ao Cristianismo e, por isso, não ser baptizado. Segundo os ideais cristãos, os antigos não tinham propriamente fé, e eles próprios, acreditando em vários deuses, davam uma grande importância à razão. Do outro lado há Beatriz, uma alma pura, que supostamente morreu jovem, sendo por isso uma espécie de mártir, como convinha ao símbolo da Fé.

É interessante ver como Virgílio, a Razão, só consegue acompanhar Dante até ao cimo do Purgatório, onde, para entrar no Paraíso, tem que ser guiado por Beatriz, a Fé. É demasiado óbvio que o poeta está a dizer que para entrar no Paraíso é preciso ter Fé, e que a razão nos leva ao Inferno, podendo até mesmo fazer-nos chegar ao Purgatório, se nos arrependermos, mas que é incapaz de nos fazer ascender ao Paraíso...

Tenho ainda que dizer uma coisa em que reparei. O oportunismo das almas. Aquelas que estão no Inferno pedem a Dante para falar delas no mundo dos vivos, para que rezem por elas e as suas penas sejam atenuadas. No Purgatório pedem-lhe a mesma coisa. No Paraíso não há uma única referência de qualquer alma ao mundo dos vivos. Serei o único a reparar que as almas no Inferno e no Purgatório pediam atenção dos vivos em proveito próprio, para conseguirem atingir o céu, mas que uma vez que lá chegam, as almas deixam de se importar com os familiares e amigos que têm vivos? Curioso...

Confesso que já tenho saudades de ler prosa convencional, e sei que esta opinião se estendeu mais do que é normal, mas uma obra desta magnitude merece isso mesmo. Ficam aqui as minhas impressões sobre este belo épico, que não aconselho a toda a gente. É uma leitura difícil, especialmente o Paraíso, com as suas metáforas e alegorias completamente descontextualizadas... É, no entanto, e sem sombra da dúvida, uma epopeia (moderna), uma história verdadeiramente épica, com tudo o que essa designação implica.

domingo, 17 de abril de 2011

Divina Comédia: Paraíso

A meio da última parte deste épico, ou seja, a caminho do canto XVI do Paraíso, começo a ter saudades do Inferno. Eu sei que parece loucura, mas a verdade é que tantas páginas cheias de orações e preces e louvores a Deus, com tanta luz e bem-aventurança, não me andam a cair muito bem. Gostei muito mais de ler as partes com tripas e sangue e penas dolorosamente horripilantes.

Não que não esteja a gostar de ler esta parte, porque até estou... Apenas não estou a gostar tanto quanto isso. O Paraíso tem vários pontos a favor: versos cada vez mais grandiosos e eloquentes, personagens históricas fabulosas e monólogos/diálogos discutivelmente fabulosos. Só que por outro lado, tem muitos contras: torna-se repetitivo (a certa altura parece que só leio "E Deus é grandioso" ou "E Deus é poderoso" ou "E Deus é benevolente", enfim, a cada meia dúzia de versos louva-se a Deus), a tal eloquência e grandiosidade começa a tornar-se excessiva, de tanta felicidade e excitação... É como se houvesse emoção a mais, ficando a história meio perdida.

Além de que, por motivos pessoais, não me agrada por aí além a mensagem da obra. Todo este enaltecimento do Cristianismo toca-me na tecla errada. Enfim, eu depois na opinião final falo mais da comparação entre as 3 partes, e o porquê de ter gostado mais do Inferno. Por enquanto, só falta acabar de ler isto. Já não deve faltar muito, acho que o mais tardar amanhã acabo. Pode ser que entretanto mude de opinião. Duvido, mas logo se vê.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Divina Comédia: Purgatório

Da última vez que falei da "Divina Comédia", disse que provavelmente iria demorar mais um mês a ler o livro todo. Pois bem, cá estamos, praticamente 1 mês depois, e ainda não acabei o Purgatório. Estou mesmo quase, faltam-me 5 cantos, ainda quero acabar hoje e começar a minha viagem pelo Paraíso, mas pronto, ainda não está.

Esta demora prende-se com várias coisas, a começar pelo carácter difícil da obra, e a acabar com a monstruosa falta de tempo livre, causada pela escola. Só agora que entrei de férias é que me consegui dedicar como deve ser à leitura calma e extremamente atenta que este épico merece, pois só assim consigo capturar minimamente a essência de todas as alegorias (embora haja muito que me escapa por completo, até depois de alguma pesquisa, são coisas que exigem um trabalho muito mais aprofundado do que aquele que eu consigo fazer) e apreciar verdadeiramente todos os pormenores desta obra.

Uma coisa que eu já tinha reparado ao ler o Inferno, e que se volta a repetir no Purgatório, é que todas as almas, salvo raras excepções, têm apenas um desejo em comum: que a sua memória se perpetue no mundo dos vivos. São várias as almas que se dirigem a Dante e que, ao despedirem-se, lhe pedem que fale delas, quando voltar a caminhar entre os vivos. Ou então dizem que só partilham a sua história com Dante se ele falar delas, no mundo dos vivos. Só mesmo os pecadores mais gravosos não o querem, por terem vergonha dos seus pecados.

Chegados ao Purgatório, vira o disco e toca o mesmo, mas desta vez com uma pequena nuance: as almas penitentes pedem a Dante para rezar por elas e para pedir às respectivas famílias que rezem por elas, além de lhe pedirem para avisar as famílias que se encontram no Purgatório, a redimirem-se dos seus pecados, e não no Inferno, onde provavelmente mereciam estar, não fosse o seu arrependimento.

Algo de que ainda não falei, embora talvez seja demasiado óbvio, é da religiosidade da obra. O Inferno é apresentado como um lugar absolutamente tenebroso, e fica bem claro o nível de macabro das penas a que cada tipo de pecador é condenado. O Purgatório, por sua vez, já é mais amigável, e mais focado nas almas que por lá andam, não dando tantas indicações do ambiente que as rodeia como acontecia no Inferno, onde o próprio sítio era descrito como insuportável e aterrador. E, como é óbvio, desde o princípio do livro que todo este caminho se faz com um objectivo em mente: Beatriz. A mensagem entra pelos olhos dentro, só se alcança a paz e a graça de Deus, depois de se sofrer no Inferno e de se penar no Purgatório. Traduzindo, não há paz eterna de graça, só com muito sofrimento e sacrifício se atinge o bem supremo. Enfim, coisas daquela tempo, imagino que uma obra deste género tenha dado jeito a muitos padres e bispos e afins.

Como única nota negativa, tenho que me chatear com as notas do tradutor. Já começam a ser absolutamente execráveis, estou a este (neste momento estou com o polegar e o indicador direito bastante próximos, quase a tocarem-se) bocadinho de simplesmente desistir das notas, até a leitura era mais rápida. Já são mais as vezes em que as notas me dizem quem está a dizer determinada fala, ou a quem se refere determinado pronome, do que as vezes em que me dão um contexto histórico, ou algo que seja apenas útil. É irritante e ligeiramente estupidificante ler algo deste género: "E Virgílio disse: Eu..." e depois uma fala qualquer, com uma  notazinha no eu, a indicar que é Virgílio que está a falar. Por amor ao Pateta, quem fez estas notas deve pensar que quem lê isto não sabe interpretar coisas básicas ao nível de uma criança de 3 anos...

Mas pronto, no geral estou a adorar, uma excelente obra e uma excelente experiência!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Divina Comédia: Inferno


Foram 34 cantos da mais dolorosa agonia. A dos condenados, claro, que eu não sofri nadinha, antes pelo contrário!

A viagem pelos 9 círculos do Inferno, com Virgílio (o autor da Eneida) como guia, é um verdadeiro desfilar de atrocidades e das mais imaginativas condenações, sempre estranhamente apropriadas ao tipo de pecador.

Uma vez que esta parte corresponde a aproximadamente um terço do livro, já me acho no direito de fazer algumas considerações. Para começar, o trabalho do tradutor, o Professor Marques Braga, é excelente. O facto de a língua original ser o italiano também facilita a coisa, uma vez que o português é suficientemente parecido, mas conseguir fazê-lo sem perder o tom épico é algo de extraordinário.

O maior defeito que encontrei foram mesmo as notas. Nunca vi umas notas ao texto tão exaustivas. Tornam-se chatas e ligeiramente ridículas. Por exemplo, a certa altura, quando se se d'"O Poeta", lá vem uma nota a explicar que "O Poeta" é Virgílio. Ou seja, não só explicam pormenores históricos, e de contexto, como explicam (demasiadas) coisas a nível de interpretação, o que para algumas pessoas menos habituadas a ler é capaz de ser porreiro, mas acho que pessoas assim não se põem a ler a "Divina Comédia", não é?

Mas bem, tirando esse pequeno pormenor (mas que me fez arrastar a leitura mais do que era suposto), até agora posso dizer que estou a gostar bastante desta leitura, que me vai servir para finalizar esta Temporada Épica. Prevejo que a leitura ainda dure mais um mês, se calhar... Isto tem que ser ler com muita calma, e eu cá não tenho pressa, embora já ande com saudades de ler uma prosazita convencional...