segunda-feira, 17 de março de 2014

Great Expectations

Título: Great Expectations
Autor: Charles Dickens


Opinião: Charles Dickens nasceu há mais de duzentos anos. Este livro já foi publicado há cerca de cento e cinquenta. O autor considerava-o o seu melhor trabalho. A opinião geral considera o autor como um dos melhores escritores de sempre. Já se fizeram pelo menos dois filmes baseados no livro, um em 1998 e um em 2012. Tinha que o ler.

Não sabia o que esperar, apenas que ia ser bom de certeza. Dickens foi um escritor prolífico, bem-humorado e original. Publicou romances em fascículos, escreveu humor e escreveu tragédia. Tudo isto há duzentos anos, e ainda é visto como um dos grandes, o seu trabalho para sempre imortalizado, e estudado e lido vezes e vezes sem conta.

Além do mais, olhem para a cara dele.

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Badass. O que é que há para não gostar? Só podia ter boas expectativas. E confesso que tinha uma vaga ideia de que as suas obras eram maioritariamente de humor. Por essas e por outras, achei que estava na altura de me estrear a ler Dickens, e Great Expectations foi o mais pequeno dele que encontrei aqui em casa. Sim, o homem escrevia que se fartava.

Depois de começar a ler apercebi-me que não podia ter escolhido pior altura para ler um romance de quatrocentas páginas em inglês com cento e cinquenta anos. A leitura arrastou-se, por falta de tempo e paciência para enfrentar a escrita detalhada e ocasionalmente densa do autor inglês.

Mas não desisti. Estava a ser demasiado espectacular! A história é narrada pelo protagonista, Pip, que começa como um rapaz com pouco futuro, um órfão a viver com a irmã, que lhe dá autênticos enxertos de porrada, e o marido desta, Joe Gargery, que também apanha porrada da mulher de vez em quando.

Joe é um ferreiro, e serve de pai para Pip, sendo a única pessoa com quem a criança é sempre honesta, e uma das poucas que tem verdadeira afeição pelo rapaz. Juntos tentam não irritar muito a irmã de Pip, uma figura autoritária e agressiva, que aproveita todas as ocasiões possíveis para se vitimizar por tomar conta do irmão e ainda ter um marido que não é muito esperto.

A infância de Pip ocupa mais ou menos um terço do livro, e é recheada de personagens memoráveis (assim como o resto do livro) e acontecimentos marcantes e importantes para o futuro do rapaz, embora ele só o descubra muito mais tarde.

Agora podia ficar aqui a desfilar personagens fantásticas, pois se Dickens tem uma escrita maravilhosa, com a qual consegue contar uma história interessante e intricada, narrada por uma personagem bem construída, são as personagens secundárias que brilham. A irmã de Pip, Joe, Miss Havisham, o prisioneiro foragido, Estella, Wemmick, Orlick, Mr Jaggers, enfim, tantos!

De uma forma ou de outra, Dickens consegue dar profundidade a dezenas de personagens, às vezes com muito poucas palavras, apenas o suficiente para causar uma impressão no leitor. Praticamente todas as personagens com um mínimo de importância têm um relevo fora do comum, sem serem profundamente caracterizadas nem demonstrarem preto no branco quais são as suas preocupações e questões existenciais.

A maior parte das vezes basta simplesmente o facto de serem peculiares, e terem defeitos. O facto de serem todas completamente diferentes umas das outras, únicas e individuais. E Dickens não faz isso a duas ou três, mas mais de quinze personagens, de certeza. Além disso, ainda consegue dar a algumas um percurso também ele memorável: Pip começa como órfão sem futuro e torna-se um cavalheiro com great expectations; Herbert passa de inimigo momentâneo a amigo e companheiro para a vida; Joe é o marido oprimido que se torna no marido feliz, entre outros.

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Mas é preciso destacar duas personagens, Miss Havisham e Wemmick. A primeira é uma solteirona fria e cruel que convida Pip, enquanto criança, para ir ao seu casarão onde onde todos os relógios estão parados na mesma hora, brincar com Estella, a sua filha adoptada. Miss Havisham sofreu enquanto jovem, e vive a sua vida determinada em criar Estella de forma a que esta possa tornar-se uma mulher capaz de fazer aos homens o que um homem lhe fez a ela.

A sua viagem de redenção é longa, mas brilhantemente executada por Dickens, que nunca lhe dá um protagonismo fora do comum, mas consegue torná-la numa personagem mais do que memorável.

Já o segundo tem uma personalidade dupla auto-imposta. Há o Wemmick do trabalho e o Wemmick em casa. Um é frio e calculista, completamente racional e focado no seu trabalho, enquanto que o outro cuida carinhosamente de um pai idoso. O peculiar é que Wemmick nunca deixa as duas coisas misturarem-se, como se levasse duas vidas, levando a algumas das passagens mais peculiares de todo o livro.

E é completamente impossível não sentir que o livro tem uma crítica à sociedade vitoriana, cheia de protocolos e formalidades ridículas que apenas serviam para esconder um vazio intelectual e emocional de muitas pessoas. Esses pormenores são levados ao extremo durante narrativa, expondo o ridículo das fundações daquela sociedade.

Como nota final, notei que o autor era fã da técnica mais usada nas telenovelas actualmente, a coincidência e uma espécie de destino mais ou menos subtil. Estão a ver aquelas histórias de "este afinal era o filho perdido daquela, que andava em segredo a ajudar a outra que era a sua tia desconhecida"? Pois, esse tipo de coisas acontecem. Aliás, são um grande motor da narrativa, e uma forte ponte de ligação entre os acontecimentos aparentemente aleatórios da infância de Pip com os da sua vida adulta.

Feito por outro autor, acho que isto me ia desagradar, mas Dicken fá-lo bem, integrando bem essas coincidências numa história intensa que apenas me deixou a desejar ler mais, por mais pesada que seja a leitura. Um autor que irei visitar, sem dúvida.

4 comentários:

asesereis disse...


Não li o livro em discussão, mas li uma vez o Oliver Twist, na sua versão de bolso.

Sinceramente, existem personagens que ficam mesmo na nossa cabeça: Fagin, mãos leves como nenhum outro, o casal lunático formado pelo psicopata Sikes e pela apaixonada Nancy, o misterioso Monks...

Mas o que me fica mesmo de Dickens é a critica que ele faz aos orfanatos e às diversas famílias de acolhimento, que tratam as crianças como coisas, fardos e criados. A história do miúdo Oliver Twist é realmente triste e tão cinzenta como o clima inglês.

Para quem conhece na vida real filhos que são enteados e outros enteados que são filhos esta história não deixa de se mostrar completamente actual...

E para quem acha que aqueles orfanatos desapareceram que se lembrem do caso Casa Pia...


Dickens é sem dúvida um clássico...

Rui Bastos disse...

Depois de ler o teu comentário e reler a minha opinião, apercebi-me que acabei por fazer uma análise mais técnica ao livro. Prestei mais atenção à construção das personagens, aos truques narrativos e afins, do que outra coisa.

Defeitos de quem anda numa Oficina de Escrita! Bem que me avisaram que isto ia acontecer.

Mas pensando no que senti ao ler o livro, continua com a ideia de que as personagens eram fabulosas e que me marcaram mais do que qualquer outra coisa.

A crítica está lá, no entanto, e bastante intensa, seja por exposição ao ridículo ou de forma mais directa: desde as diferenças entre as classes sociais à hipocrisia que grassava por toda a sociedade vitoriana.

Quando ao facto de Dickens ser um clássico é que não discordo nem um bocadinho :)

asesereis disse...

Sinceramente, acho que só aprendemos realmente a ler livros quando temos umas luzes de escrita narrativa e nos põem umas lentes mais apuradas que nos permita apreciar quase na íntegra a obra que lemos. Lá está, aprendemos a apreciar para além do argumento da história o tempo da história, o espaço exterior e interior da história, a pontuação, as caracterizações directas e indirectas, os pequenos truques narrativos...
Por perceber que tens umas luzes sobre esta matéria é que venho até este blog, Rui.

Claro que o lado técnico é interessante, mas vê lá se não te transformas num daqueles críticos da revista LER (Sinónimos de "haters" com mania que escrevem melhor que os outros) que aquilo que fazem é receber para dizer mal de tudo e de todos.

Vi aqui há dias uma crítica dum iluminado que usa um laçarote de tanso ao pescoço em que ele dizia mal da obra de GRRM assumindo claramente que tinha lido quase o primeiro livro todo... Que sabe ele sob o GRRM se nem sequer acabou o livro? Claro que um tipo destes só podia ter um livro chamado "O Amor é Fodido" ...

Rui Bastos disse...

Não concordo. Saber alguma coisa de escrita narrativa permite-nos perceber melhor a estrutura da história, as técnicas de escrita, e os truques do autor para nos manter interessados, e para escrever uma boa história. Mas não são essenciais para se ler como deve se.

É claro que permite outro tipo de leitura: eu que o diga. Já há algum tempo que escrevo qualquer coisa, ou tento, e noto bem que com a evolução da escrita e do meu entendimento da parte técnica da coisa, faço avaliações diferentes às minhas leituras. Complemento o "esta parte foi mesmo porreira!" com "por causa daquela personagem, que o autor pôs a dizer aquelas palavras, daquela maneira". Percebo algumas dessas coisas!

De resto, não tenho medo disso. A generalidade dos críticos sérios são uma cambada de pseudo-intelectuais que só sabem ler coisas que lhes atirem a condição humana à cara, ou algo assim.

Quando a esse iluminado, bem, não é complicado não gostar dele, diria eu.