sábado, 29 de março de 2014

Opiniões influenciadas

Está para chegar o dia em que alguém consiga acabar um livro sem ter feito um qualquer juízo de valor. Comentar livros até pode ser o seu trabalho, e passado cinco minutos ir escrever a crítica mais objectiva de sempre, mas a opinião, pessoal e subjectiva, está lá.

No entanto, quão pessoal é essa opinião? Depende do que entenderem como pessoal, e isso tudo, mas pensem lá um bocado no assunto. A opinião do vosso amigo talvez vos influencie um pouco. O facto de ser um autor que detestam talvez vos influencie um pouco. Ou talvez estivessem a ler um livro sobre terrorismo, a 11 de Setembro de 2001.

É inegável que existem factores que nos influenciam, não só a leitura como a opinião. Por vezes mesmo depois de já termos lido o livro há uns tempos.

O exemplo mais simples é um livro que tenhamos achado mesmo muito bom. Apregoamos para quem queira ouvir que é um dos melhores livros que já lemos na vida. Fazemos publicidade aos nossos amigos todos, insistimos para que leiam, emprestamos a quem quiser, fazemos tudo!

E passadas duas semanas, lemos um livro dez vezes melhor. Repetimos o procedimento acima. E provavelmente reclassificamos o outro livro. É apenas um bom livro, agora. Se nos perguntarem, se calhar desviamos a conversa para o mais recente, mais tarde ou mais cedo. Se tivermos as opiniões escritas e a formos rever, até nos dói o coração: no que é que eu estava a pensar?

Acontece a toda a hora.

Outro caso, que eu acho mais grave mas do qual não estou isento, são as reclassificações que fazemos por causa de outras opiniões. Ter uma opinião mázinha dum certo livro, mas ouvir falar tão bem dele, em todo o lado, da boca de pessoas nas quais confiamos (nestes assuntos, pelo menos), que damos uma abébia.

"Não era assim tão mau, vá...", "Também embirrei um pouco com aquilo, pronto.", "Quer dizer, a história em si é boa, e a coisa tem potencial, só que pronto, a execução não foi a melhor."

Um número interminável de desculpas que querem todas dizer a mesma coisa: se estas pessoas têm todas esta opinião, talvez eu esteja errado. Não é uma perspectiva que me agrade, pois não gosto de ser influenciado nem de estar errado, mas já me aconteceu com alguns livros que, em retrospectiva, foram ligeiramente perdoados.

Há ainda o caso de ser o próprio livro/autor a influenciar-nos. Ou não gostamos daquele género e já começamos a ler de nariz torcido, ou odiamos/veneramos o autor e a opinião nunca é boa/má, ou o livro fala sobre alguma assunto que abominamos ver discutido, ou uma outra coisa qualquer.

Também não é tão raro quanto isso. As minhas opiniões de David Soares, João Barreiros, Stephen King e mais alguns têm sempre o benefício da dúvida, enquanto que as minhas opiniões de Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto são sempre implacáveis logo à partida.

Para escrever aqui para o blog tento sempre, pelo menos, desligar-me dessas coisas e dar uma opinião que não seja baseada em "ESTE AUTOR É MESMO FIXE" ou "esse gajo uma vez olhou-me de lado", mas torna-se complicado. Onde está o limite? O que é opinião válida e o que é embirranço?

Enfim, é preciso ter cuidado. O outro da relatividade é que tinha razão.

Tem piada, porque ele se casou com uma prima materna E paterna.

5 comentários:

Jules Pijey disse...

Bem, eu aqui me confesso com estes pecados literários mas acho que acaba por ser normal que isto aconteça (principalmente pessoal que leia com alguma regularidade, e variedade, como é o nosso caso). Faz-se isto com tudo, não é só com livros.

Mas também é assim que faz sentido, pelo menos quanto a mim. Se crias um qualquer tipo de empatia por um livro / autor / estilo literário é porque ele fez bem o seu trabalho, identificas-te ou perdes-te num outro mundo. Não é bom porque crias preconceitos, bons e maus, mas acabas por criar uma "biblioteca mental" muito mais rica. Eu, por exemplo, abominei o que li da saga Twilight e no entanto gostei do Nómada; abomino a senhora na mesma e com dificuldade lerei mais alguma coisa dela mas o certo é que até teve ali um livro que gostei imenso de ler.

Eu tenho um bom bocado disto tudo mas gosto que assim seja, são pequenas "seguranças" quando pegas num livro, um M. Tavares fica na estante, um King é um reencontro que sabe bem :)


Mas importante, mesmo importante, é essa imagem! Funny!
E categoria.. Que grande físico xD

Rui Bastos disse...

Lá está, lá está. M. Tavares e King são dois exemplos perfeitos!

E sinto o mesmo em relação ao Nómada (embora nunca tenha lido nada do Twilight).

asesereis disse...

A ambiguidade dos gostos na literatura é na sua gênese a mesma ambiguidade de gostos que todas as outras artes têm (Vg. Pinturas concretas vs pinturas abstractas; filmes de acção vs filmes de comédia romântica, música rock vs música clássica...), ainda que, sublinhe-se, seja uma ambiguidade de gostos gourmet, refinada, socialmente referida como uma arte intelectual de mais minorias do que de massas... Porém, se existe uma coisa que aprendi ao ler entrevistas do GRRM é que devemos ler um pouco de tudo, porque quem só sabe de uma coisa não sabe nada dessa mesma coisa (Vg. Fantasia).

Eu, por exemplo, não sou lá muito fã de livros policiais porque são muitos poucos aqueles que nos conseguem enganar ou aqueles que de tanto quererem esconder o criminoso acabam por nos dar um livro sem pistas e nos revelar o autor do crime por um acontecimento fulcral extraordinário ao alcance de nenhuma mente - portanto, para mim, sempre a mesma coisa. (Imaginem o meu gosto pela invasão de CSI's, NCI's, Havai 5-0, Castles e companhia... :((( ) - no entanto, o que são os livro de Uma Aventura ou os livros d' Os Cinco? E foi esses que comecei por ler quando era puto. Agora, que não me ofereçam livros de policias. Não gosto... estou no meu direito.
Mas porque não referir também que as reviravoltas que tantos leitores gostam e adoram advém exactamente na sua maioria desses mesmos romances policiais que abusam e abusam de reviravoltas?
Por isso é que digo que ninguém nos deve impor gostos nem nós devemos impor gostos a alguém, mas também não devemos radicalizar a nossa opinião e, uma vez por outra, devemos ler algo de uma área de que não gostamos, de um autor que não gostámos, de uma obra que toda a gente diga mal...


Provocando um pouquinho, para quem gosta de M.Tavares, BOA LEITURA, Rui: A Républica de Platão. Desafio-te!


É nesta divergência de áreas, temas e sub-ramos literários que se insurgem novas ideias; novas ideias essas que podem no futuro vir a convergir num novo livro que se pode vir a tornar num clássico por fazer convergir nas suas páginas, por exemplo, um romance com um zombie (Tem que se dizer que é uma ideia bem original que adveio desta onda de romances sobrenaturais vampirescos com outra onda de contos assustadores de zombies mais uma onda de distopias e mais umas tantas áreas...)

Bem Rui, Platão... tu que não gostas muito de filosofia... Nem imaginas a actualidade de pensamento desse homem...



asesereis disse...

Ah!

E espero ter sido eu a fazer-te pensar neste post com a minha referência a Einstein e à sua teoria da relatividade...

Boas leituras!

Rui Bastos disse...

Eu não digo que tenhamos que ignorar as opiniões dos outros, antes pelo contrário. E impôr gostos é das piores coisas que se podem fazer (normalmente, vá). Mas que essas influências existem não dá para negar!

E eu gosto de filosofia :p Só não gosto da filosofia travestida e profunda do M. Tavares que, assumo, pode ser embirranço ou falta de compreensão minha, mas que me parece ser o tipo de coisa "moderna" que se torna arte por ser um fim em si própria.

Quanto à relatividade, também, mas não só. Boas leituras!